Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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23.12.05

 




Algumas reflexões sobre o ato de crer


A motivação do “post” de hoje foi a leitura de um texto enviado ontem por meu amigo S..., especificamente um artigo falando sobre o Natal.Como amanhã é a véspera dessa grande Festa da Cristandade, creio que este “post” possa ser visto como pequena contribuição minha para as reflexões de um leitor que enxergue nessa festa seu significado essencialmente religioso.

Ensinam-nos as modestas e boas Introduções à Filosofia que o conhecimento da fé, isto é, o conhecimento obtido pelo ato de crer, tem sua origem, sua justificativa, na autoridade da pessoa que nos passou esse conhecimento.Por exemplo, um velho amigo acaba de chegar do Japão onde passou alguns meses a serviço da firma onde trabalha. Se esse amigo me conta que no país do Sol Nascente os homens têm esse ou aquele costume bem diferente dos nossos, eu incorporo essa informação ao meu arquivo da memória e, daqui para frente, isso se torna meu conhecimento.Por quê? Pelo motivo da minha total confiança no amigo que me deu aquela notícia.

De modo análogo, e definindo formalmente (no sentido filosófico desta palavra) , diz-se que, para um cristão, a fé religiosa é a adesão livre e racional a uma verdade revelada.Nesta definição formal estão presentes os três elementos que compõem o ato de crer: a minha vontade, a minha inteligência e – o principal - a Graça de DEUS, que na Sua misericórdia concedeu-nos a alegria de conhecer certa divina verdade.
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Troquemos em miúdos o parágrafo anterior.Suponhamos que eu esteja tentando convencer um parente ou um amigo a aceitar certa verdade religiosa em que o meu interlocutor não acredita. Suponhamos que eu tenha uma ótima bagagem filosófica e uma razoável bagagem teológica.Suponhamos ainda que eu seja um habilidoso e, sobretudo, bem educado argumentador, incapaz de dizer sequer uma única palavra rude às pessoas com quem converso.Pois bem, com todas essas hipóteses favoráveis, restará sempre, no último segundo, a liberdade do outro dizer “não”. Quem converte é DEUS. Quando muito, nós homens damos apenas os chamados motivos de credibilidade .

A Razão, meus amigos, é mesmo Senhora em sua própria casa; mas é apenas filha na Casa do Pai. O bom pregador (no sentido estrito ou lato desta palavra) deveria sempre lembrar-se disso. O cuidado com tais sutilezas pode marcar uma enorme diferença entre o ser eficiente , ganhando fáceis admirações e calorosos aplausos, e o ser eficaz , conseguindo resultados discretos, modestos aos olhos humanos, porém preciosos aos olhos do Senhor, d’Aquele cujo Natal (natalício) vamos, daqui a poucas horas celebrar!


Um NATAL autêntico para todos os leitores deste “blog”!


posted by ruy at 9:39 da manhã

21.12.05

 


Dois grandes mistérios que deveriam ser lembrados no Natal


Um fato recém acontecido e uma troca de mensagens via Internet com meu amigo A ..., (o serrano) comentando certas melancólicas realidades que entristecem a ambos, A ... e eu, levam-me a redigir este “post” que, para um leitor desprevenido, parecerá de início não ter nada a ver com o Natal.

Quando lemos com bastante atenção – e quando digo bastante atenção é mesmo prá valer – os quatro evangelhos, que, todos sabemos, são os livros básicos sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, o Cristo, notamos alguns fatos que costumam passar despercebidos até mesmo por pessoas cuja fé supomos sincera.Vejamos alguns desses fatos.

O nascimento do Menino Jesus assustou o poderoso e mau rei Herodes que, vendo-se enganado pelos chamados magos, furioso ordenou o massacre daqueles que, mais tarde, a Igreja vai venerar como os Santos Inocentes Mártires.Note o leitor que o referido fato não causou no mundo da época, incluindo o próprio Israel, nenhum escândalo. Todos aceitavam tacitamente que um governante real pudesse cometer um tão covarde e sanguinário crime, vingando-se dos que o enganaram.Isso fazia parte da cultura da época.Tal como hoje muitos admitem tranqüilamente leis (...) a favor do aborto (leia-se: infanticídio).

A família constituída por José, Maria e pelo pequeno Jesus vivia ao lado das demais famílias judias sem que essas notassem naquelas três pessoas algum sinal extraordinário, algum tipo de procedimento fora do comum, capaz de provocar, por exemplo, romarias de curiosos. Jesus cresce aceito como se filho fosse do carpinteiro. A santidade de Maria inclui uma solidão discreta, despercebida pelas mulheres com quem ela conversa sobre os assuntos comuns do dia a dia.

Quando Jesus atinge a idade adulta e, aos trinta anos, inicia sua pregação, esta é acompanhada de muitos milagres.Os sacerdotes, os doutores da Lei, os fariseus dizem que essas curas miraculosas são obra de Belzebu, obras do demônio. Por outro lado, muitos dos que são curados se esquecem de agradecer pela cura recebida e/ou se desinteressam pela Boa Nova.

Depois da ressurreição, Jesus não aparece glorioso e vingador diante dos que o prenderam, condenaram e executaram como se criminoso fosse.Suas aparições ocorrem de modo discreto, ficando misteriosamente restritas aos seus discípulos. O caso da aparição a São Paulo na estrada de Damasco é um fato inteiramente novo. Para avaliarmos o significado dessa escolha, que o próprio Paulo comparou a um aborto, devemos ler sem pressa, com a máxima atenção, os Atos dos Apóstolos e todas as epístolas daquele que se tornou o mais incansável dos pregadores do Evangelho.

Não vou me estender. Os exemplos lembrados já são suficientes para que percebamos dois fatos. O primeiro deles é o de que, desde os tempos remotos até os nossos dias existe o mal . No tempo de Jesus tínhamos um rei cruel que mandava matar crianças como quem manda matar coelhos ou gatos; em nossos dias, uma notória deputada, que é médica (!), há muito tempo mostra-se claramente a favor do aborto.Nos primeiros dias do cristianismo os seguidores de Jesus corriam o perigo de serem denunciados por falsos irmãos. Em nossos dias, muitas vezes pessoas soi-disant católicas repetem de modo leviano frases ditas pelo Divino Mestre, buscando conseguir, com tal leviandade, os risos ou os sorrisos de ouvintes desatentos à lamentável irreverência de quem assim age.

O segundo fato é o supermaravilhoso respeito que DEUS tem pela liberdade humana.Isso se observa tanto no que se refere aos que não crêem na pregação evangélica quanto aos que se afirmam como cristãos.Por isso mesmo, muito mais terrível que a frieza e o fanatismo dos que mantém os opressores regimes totalitários atuais é o empenho de tantos religiosos e leigos brasileiros, tidos como católicos (...), em apoiar movimentos políticos cujo objetivo essencial é o de implantar em nosso país, ainda livre (?...), um regime do tipo “colégio interno”, isto é, fazer com seus irmãos de fé aquilo que DEUS nunca fez, nunca faz e jamais fará, porquanto Ele respeita a liberdade que nos doou.


posted by ruy at 10:06 da manhã

20.12.05

 



O Mistério da Anunciação


Dentro de cinco dias a Igreja estará comemorando a Festa do Natal.Comecemos este “post” fazendo rápido comentário sobre sua a frase inicial.

De fato, a comemoração da Festa deveria ser feita por todos os filhos da Igreja.Escrevendo o substantivo com F maiúsculo estamos frisando que não se trata essencialmente de uma simples alegre reunião familiar, para consumir algumas iguarias e distribuir presentes, ainda que tais alegrias sejam legítimas.

Um dos mistérios Natalinos é o do Anúncio feito a Maria, fato histórico que inspirou, por exemplo, dois grandes pintores da antiguidade, Fra Angélico e Leonardo da Vinci. Cada um deles, com seu estilo próprio, fixou em cores sobre uma tela aquele momento crucial na história do ser humano.No adjetivo crucial por mim usado não vai nenhum exagero.Dom Lourenço de Almeida Prado OSB, em várias de suas serenas e inspiradas homilias referentes àquele fato, citou o dramático, o belíssimo sermão de São Bernardo, em que o grande santo medieval nos lembra como a sorte do homem dependeu daquele “sim”, dado com a mais perfeita liberdade, por uma filha de Eva.

Nos dois quadros acima citados aparece a figura do anjo Gabriel, o mesmo que já anunciara o nascimento de São João Batista. Não é um simples detalhe pictórico. O ser humano, à semelhança dos animais irracionais, é dotado de sensibilidade.O nosso conhecimento, mesmo aquele adquirido no mais elevado grau de abstração, tem seu início humilde naquilo que vemos, ouvimos e tocamos. O ato de olhar e ver, no quadro, aquele anjo em atitude reverente diante da Virgem, lembra ao cristão, seja este uma criança ou um PhD amadurecido pela experiência científica, que existe no mundo um ser muito especial, com outra natureza, muito diferente da nossa.

É melancólico verificar que muitos de nós, com o passar dos anos, desaprendemos qual é o fundamental papel desempenhado pela imaginação em nossa existência . Chegamos a dizer que ela é “a louca da casa”.Ora, as gravuras que representam os anjos servem para despertar o nosso imaginário e levar-nos a refletir sobre os seres que, na hierarquia da Criação estão logo acima de nós.Neste momento, vamos passar a palavra a John O’Donohue, citando um pouco do que ele escreve sobre os anjos no livro ECOS ETERNOS, obra que mais de uma vez foi citada neste “blog”.

Não estamos sós.Quando a solidão ou o desamparo nos dominam, está na hora de recorrer ao nosso anjo em busca de auxílio e coragem.Essa é a região sensível do coração para a qual o nosso anjo é particularmente hábil e útil.
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Os anjos despertam na alma as melodias sagradas da inspiração, claridade e beleza. Uma amizade com o próprio anjo é uma opção para cada um de nós.Se não damos início a isso, o anjo continua a atuar para nós mesmo assim. Expressar isso é entrar em uma nova profundidade e sentimento de presença.Ela nos libera dos muros cinzentos das prisões interiores onde a vida se perde e se deteriora. De certo modo, o nosso anjo é a voz e a presença do antigo anseio divino dentro de nós. Isso nos exorta a sair de toda integração falsa, até entrarmos no ritmo divino em que o anseio e a integração são uma coisa só.


Desejo um Natal pleno de bênçãos a todos os leitores deste "blog".


posted by ruy at 8:18 da manhã

 

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