Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

18.12.05

 


A partida de Julian Marías


Por meio de uma mensagem do amigo S..., aquele que trabalha no reino de Euterpe, fiquei sabendo ontem à noite que Julian Marías deixou nosso mundo visível, daqui partindo no dia 15 deste mês.Não gosto de dizer que “fulano morreu”; a propósito do assunto, lembro sempre aquela frase de Adélia Prado: uma vela não se acaba; vai para onde se formam os maios e os meninos, onde estão os que chamamos mortos .

Se a memória não me trai, acho que a primeira referência que li sobre Marías foi no livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES, especificamente a transcrição de um texto em que o “grande de Espanha” fala sobre a onipresença do "consabido", o fenômeno moderno da pletora das informações, multivariadas e desconexas, dando às pessoas a ilusão de que, sendo bem informadas, conhecem bem a realidade das coisas.

Mais recentemente, eu vinha recebendo textos de Julian Marías enviados por uma jovem leitora deste “blog”, minha amiga R..., dedicada estudante do idioma de Cervantes.Não sei se ela já teria sabido da notícia sobre a “morte” do nosso filósofo.

Na mesma mensagem em que S... me transmitiu essa notícia, ele anexou um longo e generoso texto com o título O LEGADO DE JULIAN MARÍAS , de autoria de Marco Aurélio Torres Antunes, excelente sinopse da vida e da obra do autor do maravilhoso ensaio sobre A FELICIDADE HUMANA, cuja tradução, editada pela Livraria Duas Cidades (1989) merece ser lida por todos nós brasileiros, inclusive pela amizade que o falecido tinha por nossa pátria. Pelo menos dois outros livros dele foram traduzidos e editados aqui, uma Introdução à Filosofia (obra escrita com um estilo bem diferente das outras congêneres e em que se percebe o generoso cuidado do escritor para não assustar os iniciantes no assunto) e A PERSPECTIVA CRISTÃ, editado pela Martins Fontes (livro pequeno no tamanho físico, porém bem grande no conteúdo).Farei rápidos comentários sobre dois tópicos de A FELICIDADE HUMANA.

O primeiro dos comentários refere-se ao capítulo (o livro tem trinta capítulos) que Julian Marías dedicou à felicidade da mulher.Previno o leitor que ainda não leu esse ensaio que o autor, que foi casado e feliz no casamento com sua única mulher, não é um maneiroso bajulador do sexo chamado “frágil”. É, sim, um analista equilibrado e preciso em suas análises, ensinante da moral mas sem ser metido a moralista.O referido capítulo termina com estas palavras:

Se nós homens fôssemos mais inteligentes, teríamos procurado sempre que as mulheres fossem mais felizes do que são, porque é a condição primária da felicidade no mundo. À medida que as mulheres não são felizes, não há felicidade; e evidentemente não a pode ter o homem.

O segundo comentário meu é quanto a uma vital – e aqui a palavra vital precisa ser lida em sua máxima intensidade - percepção de Marías quanto à necessidade de ouvirmos de nossos pregadores – bispos e padres, digo eu – um permanente, um pastoral alerta sobre a desejável curiosidade nossa no que se refere à vida perdurável , para a qual fomos todos criados. O penúltimo capítulo do livro termina com estas sábias palavras:

A condição de que haja a verdadeira felicidade é a existência da vida perdurável. Mas há que imaginá-la de modo tal que nos pareça nossa e, sobretudo, que nos pareça feliz.Há pessoas que crêem mecanicamente na outra vida, porém sem imaginação, sem desejo, não digamos sem impaciência.

Termino este “post” com algumas das palavras com que agradeci ao amigo S... o envio do “TRIBUTO” a Julian Marías:
Marías com certeza está vendo agora a Verdade integral, face a face, na alegria que perdura, aquela que ultrapassa em grau infinito as amostras de alegria que colhemos em nossa rápida passagem por este mundo visível.


posted by ruy at 6:13 da manhã

16.12.05

 


Reminiscências


Faz mais de cinqüenta anos.Aquele adolescente, que ainda iria completar dezesseis anos, um belo dia estava parado em frente a uma igreja de paredes brancas, naquela distante capital nordestina, quando viu passando bem perto de si um padre, um sacerdote jesuíta.Havia mais de três anos que o moço deixara de ir à missa, deixara de receber os sacramentos da penitência e da eucaristia. Vivia afastado da Igreja.De repente, o anjo da guarda tocou discretamente na sensibilidade do rapaz e ele, corajosamente, diz ao filho de Santo Inácio:
- Padre, eu quero voltar à Igreja!
E o padre, falando com aquela tranqüilidade que é fruto da sabedoria, apenas respondeu:
- Está bem, isso é comum acontecer.

Mais tarde o jovem filho pródigo iria saber que aquele padre era médico, possuidor da vasta cultura, e com ele acabaria recebendo muitos importantes ensinamentos sobre o catolicismo, transmitidos de forma serena e precisa.

Pois é, foi assim que o Ruy se converteu.Naqueles primeiros seis anos que se passaram depois do meu retorno à fé do meu batismo, fui muito dedicado à leitura de textos apologéticos. Lembro-me, por exemplo, de uma ótima obra, escrita por um padre de Campinas (se a memória não me engana, Monsenhor Salim), dividida em dois volumes, no primeiro uma apologia do Cristianismo e no segundo uma apologia da Igreja.Além desse assunto, os temas que me atraíam eram os conexos aos problemas morais, analisados, é claro, sob o ponto de vista da doutrina católica.

Naquele tempo minha crença era fundamentada nessa dupla motivação: ser capaz de dar as razões da minha fé e não cometer atos contrários aos preceitos da tradicional moral cristã.

No final de 1953, fui apresentado a um livro que iria para sempre influenciar meus passos de cristão católico, A DESCOBERTA DO OUTRO, de Gustavo Corção.Nesse pungente testemunho do notável escritor brasileiro, naquelas páginas escritas por um dos homens mais civilizados que já viveram neste país, senti, como diria Manuel Bandeira, um alumbramento.

Pela primeira vez eu percebia diante, dos meus olhos inexperientes, a existência do mistério , o mistério das coisas mais prosaicas; descobria, junto com o autor do livro, que “um gato é um gato”. Descobria o mistério ontológico.

Um leitor desatento pode achar essa minha antiga admiração meio exagerada, talvez meio boboca.Entretanto, se você, leitor amigo, for católico, reflita, por favor, sobre este fato: não existe nenhuma ofensa à nossa inteligência quando a ela são apresentados os grandes mistérios da Santíssima Trindade, da transubstanciação, da fecunda virgindade de Maria, e tantos outros, porém, só poderá perceber isso quem já parou, em respeitosa contemplação, diante de uma cena banal, tal como a de um simples pingo d’água caindo da torneira defeituosa, ou a de uma discreta brisa, invisível e silenciosa, que entra por nossa janela semiaberta, ou a de uma formiguinha solitária que desliza rápida no plástico (“serviço americano”) colocado sobre a mesa.

Ali, naquelas páginas em que a beleza e a verdade iam fraternalmente lado a lado, como no lindo verso de Bilac, fui apresentado a Gilbert Keith Chesterton e ao seu britânico e sadio senso de humor, com o qual o genial ensaísta inglês sabia fazer uma apologética inteligente, sem se tornar um “boring” para o leitor (desculpem minha franqueza).

Quase vinte anos depois, eu receberia outra imensa Graça, a de encontrar o maravilhoso ensaio histórico, talvez o mais belo já escrito neste país, que é o livro de Corção DOIS AMORES, DUAS CIDADES. Ali, naqueles dois volumes que, nas palavras do próprio autor, sintetizavam o trabalho literário de dezenas de anos feito pelo escritor, eu iria tomar conhecimento do profundo mistério histórico do Cristianismo e da Igreja. Ali, por exemplo, eu aprenderia para sempre qual é o erro essencial dos Betinhos, Bettos e Boffs, e que consiste justamente no trágico esquecimento da Esperança, com E maiúsculo.


posted by ruy at 8:37 da manhã

14.12.05

 


Uma historieta muitíssimo instrutiva


Sérgio Porto, que ficou também muito conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, foi um cronista irreverente.Li muito pouco de seus escritos, porém, desse pouco conservo com muita alegria na memória uma crônica em que ele nos conta uma bem humorada historieta.Vou tentar resumi-la neste “post”.

O caso fictício narrado por Sérgio Porto passa-se num barzinho próximo à Praça Mauá, aqui no Rio de Janeiro, um bar freqüentado por marinheiros e prostitutas, o que se costuma chamar um ambiente “barra pesada”.É noite e o local está repleto.De repente, abre-se a porta vai-e-vem (tipo “far-west”) e entra um musculoso marinheiro alemão, com os fortes bíceps aparecendo sob a camiseta sem mangas.Ele entra e diz em voz bem alta, para todos ouvirem:
- “Não vejo aqui nenhum homem capaz de me bater!”

Um marinheiro sueco, forte como um touro, grita: “pode ser eu?” .O alemão responde: “pode vir!”.Dali a um minuto, pimba! O sueco está caído no chão, apagado. Levanta-se um marinheiro americano, exímio boxeador.Parte para a luta e pimba! O alemão bota o “yankee” a nocaute. Vem um japonês, com os meneios típicos do karatê e, em segundos, pimba! O filho do Sol Nascente está roncando no soalho do bar.E, assim, vão caindo, um por um, todos os que aceitam o desafio germânico.

De repente, do fundo do salão mal iluminado, surge um magro e pequeno marinheiro brasileiro. Caminha para o alemão em passos lentos, gingando no estilo típico da malandragem carioca. Vai chegando, chegando, chegando e, quando está bem perto do gringo, este dá-lhe tremendo soco no alto da cabeça; o nosso compatriota, desconjuntado, vai beijar o solo pátrio. Acabou-se o desafio.

Neste instante da crônica, Sérgio Porto imagina uma leitora que lhe pergunta: “acabou? E a moral da história?” Responde Stanislaw Ponte Preta:

- “A moral, minha senhora, é que o brasileiro deve perder essa mania de achar que com jeitinho resolve tudo”.

Na minha opinião, esta historieta deveria ser obrigatoriamente lida em todas as nossas escolas do Primeiro e do Segundo Grau.E não apenas lida; os professores deveriam explicar para seus alunos o profundo significado dessa instrutiva crônica.

P S: do jeito que as coisas andam, acho que até mesmo os nossos professores e estudantes universitários deveriam meditar seriamente sobre o fictício, porém simbólico, desafio do marinheiro alemão no esfumaçado barzinho da Praça Mauá.
E palmas para Sérgio Porto!


P P S: [em tom mais grave] Bismarck dizia: só os tolos aprendem com a experiência própria; os expertos aprendem com a experiência dos outros.


posted by ruy at 10:59 da manhã

13.12.05

 


Falando sobre Evangelização


Acabo de receber pela Internet o e-mail de um velho amigo trazendo-me a transcrição de certo texto no qual o autor, um padre, faz piedoso apelo aos seus leitores no sentido de procurarem viver nestes dias de dezembro o autêntico espírito Natalino.

Ao ler as palavras desse sacerdote percebemos claramente um louvável zelo evangelizador. Entretanto – e me perdoe o meu leitor se por acaso minhas palavras neste “post” o escandalizarem – penso que estamos diante do que se poderia ser visto como um bom exemplo para mostrar, aos interessados, a diferença entre eficiência e eficácia

O que aconteceu naquele fatídico 11 de setembro de 2001 na cidade de Nova York deveria alertar a nós ocidentais sobre um capital problema da nossa civilização, problema esse que vai muito além do choque político entre os Estados Unidos e o Oriente Médio. Bastaria que nos lembrássemos do fato de aquele tenebroso ato, simultaneamente suicida e homicida, ter sido planejado e executado por homens profundamente inspirados por uma fé que não é a mesma de milhões de homens e mulheres ditos ou supostos cristãos. Reduzir aquele pavoroso atentado a um mero episódio político é agir como a avestruz que, ao ver-se em perigo, enterra a cabeça na areia.

O sacerdote que redigiu aquela zelosa mensagem deve saber, tanto quanto eu, que nós, os ocidentais (incluindo, é óbvio, ele mesmo), estamos vivendo em uma atmosfera cultural muitíssimo diferente daquela em que foram construídas as maravilhosas catedrais de pedra e em que Santo Tomás redigiu, entre orações e preces, a sua monumental Suma Teológica; uma cultura em que um moço italiano chamado Francisco abandonou a riqueza e o conforto da casa paterna para se tornar o pobrezinho de DEUS, e em que um rei de França governava seu povo mantendo a si próprio profundamente obediente ao Rei dos Reis.

Deve saber, tanto quanto eu, que vivemos mergulhados no atordoante barulho das máquinas que nós mesmos construímos ao longo de vários séculos do chamado progresso, e no não menos atordoante barulho das informações que diariamente são jogadas pelos jornais, pelas revistas noticiosas, pelo rádio e pela TV no interior de nossas casas.Com todos esses ruídos somados, já não somos capazes de ouvir o silêncio das coisas, o discretíssimo silêncio da vida. Estão aí as nossas missas que já não são mais celebradas com aquele tradicional recolhimento, coerente com o mistério Eucarístico (notem como se conversa e se ri folgadamente, como se batem palmas, hoje em dia, no interior de nossas igrejas...)

Deve saber, tanto quanto eu, da correria com que estamos vivendo.No domingo passado, o rapaz e a mocinha que fizeram as duas primeiras leituras na missa vespertina a que fui assistir pareciam estar na iminência de correr para embarcar de avião. Não sei se teriam prestado bastante atenção nas inspiradas palavras do profeta Isaías e do apóstolo São Paulo em sua segunda carta aos Tessalonicenses.

E agora pergunto:
- dentro desse melancólico cenário, como fazer com que os destinatários daquelas oportunas e piedosas admoestações do nosso zeloso sacerdote cheguem, de modo eficaz , à desejável contemplação do tremendo mistério do Natal?


posted by ruy at 3:48 da tarde

 

Powered By Blogger TM