Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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1.12.05

 




Uma solidão diferente


Este com certeza vai ser um “post” difícil de escrever, e a decisão de escrevê-lo veio logo depois de eu ter percebido – e não é a primeira vez que isso acontece – o silencioso, invisível e, sobretudo, incômodo peso de uma certa solidão.

Esta palavra pode ter soado para vários leitores com um timbre melodramático, um exagero, talvez, deste escriba; exagero tanto maior quando se conhece a minha família e o grande, muito grande, número de parentes, amigos e colegas que o Ruy possui, graças a DEUS, um imenso conjunto de pessoas que me estimam e respeitam.Aí o leitor curioso me pergunta: de que maneira, então, ocorre a sua solitude?

Ela é involuntária, meu amigo.Não sinto em mim nenhuma vocação para eremita.Já li a dramática história de Alexander Selkirk, o verdadeiro Robinson Crusoe; é de cortar o coração.Só um milagre explica como aquele infeliz sobreviveu em seu involuntário exílio.

Em um belo poema de John Donne está o famoso verso que afirma no man is an island (do mesmo verso consta a frase for whom the bell tols , “por quem os sinos dobram”, que foi aproveitada por Heminghway como nome para o seu clássico romance, e foi levado à tela com idêntico título).

“Nenhum homem é uma ilha”. Pois é, John Donne falava sobre a essencial solidariedade dos filhos de Adão, e ele estava certíssimo.Entretanto, meus amigos, convinha lembrar que, no século XIX, uma jovem francesa de nome Tereza Martin, falecida aos vinte e quatro anos, soube ser profundamente solidária com milhares e milhares de homens e mulheres que a desconheciam, sem que ela nunca tivesse saído de seu convento.Posteriormente seria considerada pela Igreja como padroeira das missões, essa atividade social-religiosa que promove o encontro sensível entre os que pregam e os que são catequizados na doutrina cristã.

Ora, agora vou dizer justamente o contrário do que disse John Donne: todo homem é uma ilha. Todo homem, disse-o Ortega y Gasset – e disse-o bem - é ele mesmo e sua circunstância. Cada um de nós tem uma história própria, única, irrepetível. Cada um de nós nasce em uma determinada família, em uma determinada época.Trazemos da infância e da adolescência um imenso conjunto de recordações pessoais, de aprendizados e de experiências, radiantes umas, dolorosas outras.

Nos meus primeiros dezoito anos de vida, era comum que a família e a escola ensinassem às crianças, aos adolescentes e aos moços a valorizarem o uso da inteligência, a descobrirem com alegria o que estava silenciosamente guardado nas páginas dos livros.Ensinavam-nos a gostar de resolver problemas de matemática e de ler e escutar poesia; a gostar de ouvir canções românticas e música erudita.Aprendíamos que mentir é feio.
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Mas, se toda essa herança cultural, que foi – e é – uma Graça de DEUS e que até hoje nos alegra, a nós que estamos na chamada “terceira idade”, ao mesmo tempo muitas vezes torna difícil nossa comunicação com outras pessoas dentro desta cultura agitada, apressada, áudio-visual em que estamos hoje todos vivendo; uma cultura em que a sensibilidade humana recebe todos os dias, de todos os lados, um bajulador incentivo, um malicioso estímulo, uma exagerada valorização.

A inteligência, coitadinha, fica subempregada, sendo hoje muito mais um instrumento de análise moralista (no bom sentido desta palavra) dos fatos e muito pouco, pouquíssimo aplicada em sua tarefa nuclear, que é a de contemplar a verdade.
Digo, com muita tristeza, que esse fato vem ocorrendo entre certos grupos de homens que, em outras épocas, eram mais atentos ao supereminente papel da inteligência na vida humana, tais como, por exemplo, os bispos deste país.


posted by ruy at 12:56 da tarde

28.11.05

 




Dando a vez a quem sabe mais – e melhor – das coisas


Várias vezes sinto certa frustração, achando que estes “posts” mal apresentados têm deixado de levar ao paciente leitor a real idéia que estava em minha cabeça.O “post” do dia 25 foi uma tentativa para expressar melhor o pensamento deste escriba.Talvez não tenha conseguido o êxito desejado.Por isso, acho que seja bem oportuno passar a palavra a um verdadeiro escritor, alguém amadurecido na inteligência e na Graça.Refiro-me a John O’Donohue, o padre irlandês que tem dois livros traduzidos em nosso país.Vou citar a seguir alguns trechos de ECOS ETERNOS. Tomara que eles sejam bem compreendidos por meus poucos leitores, tanto quanto foram entendidos por mim.

Quando praticamos mesmo um ascetismo reduzido, a nossa experiência adquire um novo senso de foco.A cultura consumista não é simplesmente uma moldura externa que cerca a nossa vida.Ela é mais profunda e mais penetrante do que isso. Na verdade, é um modo de pensar que se infiltra na nossa mente e se torna uma poderosa bússola interior. O consumismo e sua ganância são uma perversão terrível do nosso anseio, eles prejudicam a nossa capacidade de experimentar coisas.Atravancam a nossa vida com coisas de que não necessitamos e subvertem o nosso senso de prioridade.Reduzem tudo ao seu denominador comum funcionalista.

Em contraste, o modo ascético aclara a nossa percepção.Ele nos ajuda a ver claramente e a separar a substância do refugo. Os frutos do ascetismo mesmo limitado são a clareza e o discernimento.
[comentário: eis aí em cima uma oportuna reflexão para este início do Advento].

O funcionalismo quer adquirir e controlar; a sua avidez é infindável. A mente reverente pode deixar as coisas em paz e celebrar a presença de uma pessoa ou a beleza de uma coisa sem querer algo de ambas. Existe um ritmo ascético na experiência.Contenta-se em suportar o próprio vazio e não precisa precipitar-se para preencher o vazio com a mais recente distração.É interessante que o ascetismo foi uma prática fundamental nas grandes tradições religiosas.
[comentário: em outro trecho do mesmo capítulo, O’Donohue afirma “O funcionalismo aniquila a presença”.Poderíamos dizer que o “funcionalismo” impede que desenvolvamos um sentido poético da existência e, assim, a nossa vida – sem que percebamos – aos poucos torna-se “boring”...]

A mente funcionalista é perita na arte de usar pessoas e a Natureza para os próprios projetos e empreendimentos. Em contraste, a mente reverente é respeitosa com a presença e a diferença de cada pessoa e coisa.Isso não subentende que a mente reverente se estagne em atenção passiva para com a vida.Ela é perfeitamente capaz de se envolver e lutar com o mundo, mas continua a se relacionar com a vida com um senso de mistério e respeito.
[comentário: é fácil perceber que uma “religião burocrática” não leva a essa reverência. E nem tão pouco podemos, por exemplo, fazer crescer em nós esse sentido de reverência em meio à agitação e ao barulho com que as nossas missas vêm sendo celebradas]

Falei em Advento. Ontem, quando entrei na igreja para assistir à missa vespertina do primeiro domingo do ano litúrgico, vários jovens testavam seus instrumentos e suas músicas, com ritmos e intensidades que não se coadunam com uma época que pede mais silêncio, pede um recolhimento preparatório para a comemoração do super maravilhoso mistério da Encarnação do Verbo.Aqueles moços não agiam por mal, tenho absoluta certeza disso, mas o seu comportamento é mesmo um exemplo da generalizada desatenção com que estamos vivendo em nossos dias.
John O’Donohue está certo.


posted by ruy at 4:38 da tarde

 

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