Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

20.11.05

 


O fundamental problema na existência humana


[O título deste “post” talvez seja mesmo um pouquinho bombástico, mas creio que seja o mais adequado ao tema]
No dia 11 de setembro de 2001, dois grandes aviões comerciais foram lançados, propositadamente, contra as duas torres do World Trade Center em Nova York.Em um deles havia mais de sessenta pessoas a bordo e no outro mais de noventa, a quase totalidade formada por passageiros.Vários desses passageiros deviam estar voltando para suas casas ou indo visitar parentes distantes; outros talvez estivessem a caminho de congressos ou eventos semelhantes.E é bem possível que a maior parte estivesse em atividades ligadas ao comércio.Este último detalhe, amigo leitor é bem relevante, conforme pretendo mostrar.

Começando pelo final do parágrafo anterior, seria bom lembrar a magna importância do comércio.As pessoas com visão pequena ou esfumaçada pelos preconceitos socialistas costumam olhar com pouco caso ou desconfiança os que se dedicam ao comércio; o comerciante, para muitos apressados, em princípio é um ladrão.Ora, na Idade Média, que muitos desinformados chamam de “Idade das Trevas”, o comércio era considerado uma atividade in-honesta .Esta palavra, leitor amigo, não significa o mesmo que desonesta .Os medievais eram mais sutis que nós modernos.Honesta na Idade Média era uma atividade boa por si própria, per se primo, como, por exemplo, o ofício de ferreiro ou de carpinteiro, ainda que o respectivo profissional fosse pessoalmente um mau caráter, fosse um homem desonesto.

O fato é que há milênios o comércio tem uma função eminentemente social, a de promover as relações humanas. Não por acaso, entre os antigos gregos e romanos o deus protetor do comércio era Mercúrio (Hermes), o deus que tinha asas nos pés, o mensageiro dos deuses.Creio que seria ridículo explicar ao leitor a importância da sociabilidade humana.Mas, de qualquer forma, vale a pena lembrar que nesse relacionamento não estão em jogo apenas pragmáticos interesses de ambos os lados envolvidos no processo, mas, sobretudo, a alegria que pode existir quando um ser humano encontra outro ser humano.

Ao citar a alegria do encontro chegamos ao núcleo deste “post”, a saber, o magno problema de encontrar a alegria. Dom Lourenço de Almeida Prado, o sábio educador beneditino, mestre de tantas gerações, costuma lembrar o fato de que Freud em seus escritos fala sempre sobre o prazer, jamais se refere à alegria.É óbvio que existem muitos prazeres legítimos nesta existência, porém existe também uma desejável hierarquia, na qual a alegria tem lugar preeminente.É isso o que o que nos ensina a doutrina cristã.E é um ensinamento que exige a ação diretora da nossa inteligência, colocada corretamente acima da nossa sensibilidade.

Bem elucidativo e esse respeito é o trecho do Evangelho em que Jesus, respondendo à maliciosa pergunta-armadilha feita pelos saduceus, que não acreditavam na ressurreição dos mortos, explica de modo claríssimo que no Céu (e DEUS queira que lá cheguemos) todos seremos como os anjos. Nem homens terão mulheres, nem mulheres terão maridos.

Pois bem, uma religião que propõe tal doutrina é muitíssimo mais exigente que uma outra cuja fé pode inspirar alguns sombrios adeptos, sonhadores com a eterna permanência dos prazeres da carne, levando-os a cometer um nefando suicídio em grupo, matando também, com esse ato insano, dezenas de pessoas inocentes e indefesas.


posted by ruy at 8:45 da manhã

16.11.05

 




Sobre a urgente necessidade de abrirmos os olhos


Talvez um dos grandes paradoxos de nossos dias esteja no fato de que uma imensa disponibilidade de excitações visuais – abrangendo o cinema convencional, os programas de TV, os computadores pessoais ligados à Internet, a pletora de revistas noticiosas com imagens coloridas, brilhantes e perfeitas, os grandes “outdoors” que balizam nossas avenidas, os “data shows” usados em muitas escolas, e fiquemos por aqui já que a lista é longa – tudo isso, paradoxalmente, convive com um generalizado fechamento dos olhos, não o fechamento no sentido literal do termo, mas, pior, no modo de enxergar a realidade das coisas que nos cercam.

Um parêntese. A referência ao paradoxo faz-nos lembrar de Chesterton, célebre pelos paradoxos que deixou registrado em seus lúcidos ensaios.Mas, o genial ensaísta inglês, além dos curiosos paradoxos, também soube fazer perspicazes comparações, como aquela que fez entre uma imagem de santo budista e uma imagem de santo cristão.O santo budista é gordo, pesadão, e tem as pálpebras abaixadas, os olhos fechados; o santo cristão geralmente é magro, às vezes esquelético, mas tem os olhos tremendamente abertos, arregalados para o mundo, como se quisesse com eles devorar as coisas (basta lembrar, por exemplo, as estátuas esculpidas pelo nosso Aleijadinho).

Ali em cima usei o adjetivo pior, sozinho.Acho que deveria tê-lo escrito precedido por um advérbio bem forte. “Por quê ?”, perguntará o leitor desprevenido.Tenho que me justificar.

Dizem que os livros, no rol dos produtos atualmente mais vendidos, aparecem em ótima classificação.Teoricamente esse fato deveria neutralizar o efeito nocivo do excesso de imagens visuais, reduzir o efeito maligno, por exemplo, de certas reportagens chocantes e/ou vergonhosamente mentirosas apresentadas pela TV. Pois é, acontece que existe – e basta olhar com demorada atenção as estantes das livrarias abarrotadas de livros para verificar isso – uma enxurrada de obras medíocres, editadas por uma nefasta ambição comercial (vide, por exemplo, o caso do badalado livro de Dan Brown, “O Código da Vinci”), obras que se vendem bastante devido à maciça propaganda e ao baixo nível cultural de uma população que há dezenas de anos recebe péssima formação escolar no Segundo Grau , há muito transformado em simples ponte para o vestibular.

No que tange ao corrosivo papel desempenhado pela televisão, é interessante transcrever o início de um recente artigo do sociólogo Antônio Marcos Capobianco (“Quem perde com a vulgaridade da TV”), publicado no JB do dia 14 deste mês:

O Brasil é o país cuja população passa mais tempo vendo TV: cerca de seis horas diárias. Os televisores (50 milhões) estão em 87% das residências.Os canais de TV são concessões do Estado, que deve cuidar para que a TV seja um aliado na formação cultural do seu povo.Entretanto, no Brasil a televisão está atingindo níveis assustadores de vulgaridade, prejudicando especialmente crianças e adolescentes.

Merecem especial encômio dois pontos no trecho acima citado: primeiro, o fato de o autor ter dito que o Estado deve cuidar da formação cultural, mas não disse que deve cuidar da educação do povo; segundo, o fato de o articulista ter escrito que a TV tem sido prejudicial principalmente para as crianças e os adolescentes, mas não escreveu que ela é prejudicial apenas para esses componentes mais moços da sociedade.

Pois bem, (ou pois mal...), ocorre um melancólico processo de “feedback”. Pessoas viciadas em TV têm péssimos critérios para escolher os livros que vão ler; pessoas que compram livros medíocres para ler, têm péssimos critérios para selecionar seus programas de TV.. Faz-nos lembrar a clássica imagem do cachorro mordendo o próprio rabo.


posted by ruy at 1:49 da tarde

 

Powered By Blogger TM