Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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6.11.05

 


Duas historietas


[O tema deste “post” não é uma continuação do que foi editado no dia 2 de novembro, apesar dos títulos ligeiramente semelhantes].

Primeira historieta

Ela foi-me contada há muitos anos por um padre.
Vinham por uma estrada do oriente um sábio zen e um grupo de seus jovens discípulos, caminhando atrás do mestre cujos cabelos já estavam encanecidos. De repente, o grupo chega às margens de um regato, junto ao qual estava parada uma bonita moça que mostrava claramente sinais de medo, sem coragem de atravessar o rio. De fato, a profundidade não era grande, porém a forte correnteza fazia certo barulho um pouco assustador.

Percebendo a indecisão da jovem mulher, o sábio zen se aproxima, toma-a no colo e atravessa o regato para deixá-la enxuta do outro lado.Isso feito, continua impassível sua caminhada, seguido pelos moços que também atravessaram sem nenhum problema.Em certo instante, o velho escuta certo ruído atrás de si. Apura o ouvido e vê que os discípulos estavam nervosos, como se estivessem discutindo.Pergunta-lhes o que estavam discutindo.

Um deles, encabulado, explica: Mestre, lá no regato, o senhor pegou a jovem e bonita mulher no colo e, com ela junto ao corpo, atravessou o rio... O sábio zen então responde:
- Ah ! é isso que vocês vêm discutindo até agora? Ora, eu deixei a mulher lá atrás. Vocês é que continuam com ela no colo!

[sempre me lembro desta historieta quando alguém comenta certos erros que uma pessoa cometeu em um distante passado, erros de que essa pessoa se arrependeu, mas não tem como apagar da memória dos outros]


Segunda historieta

Esta eu costumava ouvir na minha infância e creio que também cheguei a escutá-la na adolescência.
Vinha por uma estrada um viajante quando, de repente, encontra três homens suados, sujos de pó, que estavam quebrando algumas enormes pedras. Perguntou-lhes:
- O que vocês estão fazendo?
Um deles, com a voz cansada, respondeu:
- Estou quebrando pedras...
Um outro, com voz zangada, disse em resposta:
- Não está vendo? Estou trabalhando!
O terceiro deu um sorriso, limpou o suor da testa e respondeu:
- Estou construindo uma catedral!

[Durante muitos anos essa historieta significou para mim apenas o seguinte: devemos executar as nossas usuais tarefas não apenas como um pragmático trabalho, mas, sobretudo, dando a esses fazeres um sentido nobre, ligando-os a um ideal elevado.De fato, esse modo moralista (no bom sentido desta palavra) de interpretar a historieta é válido.Entretanto, a pessoa (ou as pessoas) que criou (ou criaram) essa narrativa possivelmente ignorava (ou ignoravam) a maravilhosa história da construção das magníficas catedrais de pedra que foram erguidas pelos povos medievais. E a palavra povo aqui não entra apenas como simples adjunto circunstancial na frase.No Medievo existia mesmo uma consciente participação coletiva naquela obra que poderia levar mais de um século para chegar a seu termo.E é esse tipo de participação que não mais existe na moderna civilização ocidental]


posted by ruy at 4:54 da manhã

2.11.05

 


As duas histórias


Hoje, dois de novembro, nas igrejas são celebradas missas por intenção daqueles “a quem chamamos mortos”, conforme escreve Adélia Prado em seu “Manuscritos de Felipa” (Uma vela não termina; vai para onde se formam os maios e os meninos, onde estão os que chamamos mortos ).Isso me ajuda a escrever este “post”.

Um dos aspectos mais tristes da senilidade é a perda da memória, isto é, esse involuntário desligamento das pessoas e dos fatos que estiveram presentes em nosso passado.Na Sagrada Escritura, mais precisamente no Antigo Testamento, existe uma forte recomendação aos filhos para que não deixem de tratar com carinho seus pais quando estes, envelhecidos, estiverem passando por esse melancólico processo de esquecimento.

De fato, na vida normal está incluída uma continuidade, uma conexão inteligente e sensível com tudo o que aconteceu no passado.Cada um de nós tem sua história individual , que é a história de uma pessoa , única e intransferível.Por mais prosaica, por mais desprovida de brilho que seja a existência de alguém, ela contém um nuclear mistério, o assombroso mistério do eu, distante do qual passou Freud. navegando com seu triste divã e ao sopro de suas indiscretas perguntas.

Ora, a nossa história pessoal, gostemos ou não gostemos disso, está ligada à história geral, aquela cujo nome é comum escrever-se com H maiúsculo.Quando, por exemplo, digo que nasci em agosto de 1932, que meu pai veio rápido das trincheiras, viu o filho recém nascido e em seguida voltou para o combate, imediatamente me lembro da existência da chamada Revolução Constitucionalista de São Paulo.E mais, vêm-me à memória outras revoluções que ocorreram neste país depois da Proclamação da República.Isso que acontece comigo ocorre de modo semelhante na vida de todas as pessoas, as duas histórias – a individual, pessoal, e a coletiva, geral, - estão inevitavelmente ligadas.

Tudo isso pode ter para o leitor uma sonoridade acaciana.Entretanto, como dizem as línguas maliciosas, existe um hiato entre a teoria e a prática, entre o que achamos óbvio e a nossa atitude pragmática (no bom sentido desta palavra) diante da obviedade.E é justamente a comum ausência da desejável coerência que fez um escritor redigir esta frase dura, porém verdadeira:

- a retração (isto é, o desprezo) do passado é próprio dos bárbaros e dos imbecis.

Comecei este “post” falando sobre as missas que, em milhares e milhares de igrejas espalhadas pelo mundo, estão sendo rezadas por intenção daqueles a quem chamamos mortos.E DEUS queira que muitos de nós nos lembremos deles.E, além disso, que nos lembremos também de fatos históricos de imensurável importância, mas que hoje – para nossa infelicidade - estão sendo escamoteados pela nossa, assim chamada, “louca disparada prá frente”.Refiro-me à passagem por este mundo de um homem chamado Jesus, que se afirmou claramente como o Caminho, a Verdade e a Vida; refiro-me aos primeiros discípulos desse homem e às grandes, as profundas transformações sociais que eles, sem alarde e sem nenhum planejamento, trouxeram para um mundo em que a Esperança (com E maiúsculo) não era ainda conhecida.

Sem a lembrança desses fatos históricos, da história geral, as nossas orações pelos não mais visíveis neste mundo terão um significado incompleto.


posted by ruy at 4:54 da manhã

1.11.05

 



Dia de Todos os Santos


Neste dia vale a pena lembrar uma atilada reflexão de Murilo Mendes em seu inspiradíssimo livro “Discípulo de Emaús”:

DEUS é tão elegante que não comparece pessoalmente para receber os aplausos; manda os santos em seu lugar.

Grande Murilo Mendes, poeta de um tempo em que este país era mais civilizado.


posted by ruy at 2:02 da tarde

 

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