Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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30.10.05

 


Voltando a ler Soljenitsin


Pretendia hoje escrever sobre um tema político (no bom sentido desta palavra), mais precisamente sobre o patriotismo e seu elo com a civilização.Acordei da sesta e fui atrás de um livro de Soljenitsin, onde estava certa reflexão do grande romancista russo.Ao folhear o livro, mudei meu rumo inicial. O “post” de hoje vai mesmo dar a palavra ao moderno compatriota de Dostoievski.

“Como reorganizar a nossa Rússia?”, editado em tradução para o português pela editora Nova Fronteira em 1991, é um livro pequeno (tem menos de cem páginas, em mancha 12x16 cm), porém ali estão excelentes – e oportuníssimas – reflexões do autor dos bem fornidos “Arquipélago Gulag” e “O Primeiro Círculo”.Vale a pena citar e comentar, discretamente, várias dessas idéias do prêmio Nobel de literatura de 1970.

Na página 20 lemos o seguinte:

Cada povo, até mesmo o menor deles, é uma faceta insubstituível do projeto de DEUS.Vladimir Soloviev escreveu, transpondo o mandamento cristão: “Ama a todos os outros povos, como ao teu próprio.”
[Aqui podemos ver uma clara apologia do verdadeiro patriotismo; necessário e oposto ao egoísta nacionalismo, o patriotismo é conexo a uma idéia religiosa do mundo].

Logo em seguida, na mesma página, lemos:
O século XX está abalado e corrompido por uma política que se libertou de toda e qualquer moral. O que se exige de qualquer homem honesto, dispensa-se aos Estados e aos homens que os dirigem.”
[Obviamente, Soljenitsin, criticando aqui os Estados modernos, está pensando, sobretudo, nos países em que existe total ou relativa liberdade política; nos regimes totalitários, ipso facto , não existe lugar para a moral na política].

Saltando várias páginas à frente, vamos encontrar um pequeno capítulo com o título O QUE É E O QUE NÃO É A DEMOCRACIA.Creio que esse trecho do pequeno grande livro é tanto mais importante para nós brasileiros quando nos lembramos (os que temos vergonha na cara) de como é duro suportar um governante, eleito pelo voto livre e direto, que quase não consegue passar um único dia sem externar reflexões bombásticas expressas em frases ridículas.Leiamos na página 50 o seguinte trecho:
Aléxis de Tocqueville considerava opostas as idéias de democracia e liberdade.Era um ardente defensor da liberdade, mas nunca da democracia.

G.Fedotov disse que a democracia foi deformada pelo materialismo ateu do século XIX, que decapitou a humanidade.E Joseph Schumpeter, homem de Estado austríaco do nosso século, considerava a democracia como um erzatz da fé para o intelectual privado de religião.
[Claramente, é preciso ler tais opiniões em um contexto mais amplo. Nem Tocqueville nem Schumpeter eram adeptos de regimes totalitários].

Continua Soljenitsin:
O filósofo russo S.A.Levitski propôs que se distinguisse:
- o espírito da democracia: 1.liberdade da pessoa; 2.Estado de direito;
- e os traços característicos secundários: 1.regime parlamentar; 2.sufrágio universal.Estes dois últimos princípios não têm nada de evidente.

Comenta o próprio Soljenitsin:
O respeito pela pessoa humana é um princípio maior que a democracia, e este sim deve ser absolutamente mantido.

Apesar de estarmos comentando um livro de tamanho pequeno, fica muito difícil colocar dentro deste limitado “post” os adequados comentários sobre o que o autor da obra ali escreveu.Entretanto, é sempre oportuno lembrar isto: o grande romancista russo passou longos anos preso simplesmente por ter, em uma carta escrita do front - isto é, do lugar onde ele, como capitão de artilharia, defendia sua pátria contra o invasor nazista – ter criticado a estratégia do cruel ditador soviético.


posted by ruy at 10:48 da manhã

24.10.05

 

O que realmente está em jogo


Quem não quer se molhar, não sai na chuva, diz o antigo ditado. Paciência.Acho que preciso dar uma saída.

Em meio à carregada atmosfera das notícias divulgadas por todos os meios de comunicação, especialmente pela Internet, pela TV, pelos jornais e pelas revistas noticiosas, somos quase todos levados a fazer o que se pode chamar, usando a linguagem da tecnologia da transmissão de informações, uma análise binária, por exemplo: contra Lula ou a favor de Lula, contra a venda de armas de fogo ou a favor da venda de armas de fogo, contra Bush ou a favor de Bush, e assim por diante. Ora, talvez esteja na hora de deixarmos esse monótono batuque de samba para acompanhar o criativo compasso ternário da valsa.

Comecemos por olhar o passado, lembrando o que há muitos anos vi em um filme de guerra americano: PAST IS PROLOGUE.Mas, não vou olhar agora o passado grandioso, aquele que aparece nos livros especializados e nos grandes romances inspirados na História (não gosto de escrever esta palavra com o H maiúsculo, mas, vá lá...). Vou observar exemplos bem mais prosaicos.

O grande pensado católico Jackson de Figueiredo, um dos líderes da renovação católica no Brasil, era de Aracaju, no pequeno e distante Estado de Sergipe. No final do século XIX e início do século XX, o pai de Jackson exercia a profissão de farmacêutico naquela cidade nordestina e ali ministrava lições de grego por gramática

Meu falecido avô ficou órfão bem pequeno, órfão de pai e, logo em seguida, de mãe. Seus estudos limitaram-se apenas aos quatro ou cinco anos do antigo Grupo Escolar. Começou a trabalhar bem novo e, durante a maior parte de sua vida longeva, foi dedicado funcionário do Serviço Nacional de Meteorologia. Naquele tempo, nem se sonhava com o computador.Meu avô preenchia regularmente uma enorme quantidade de mapas meteorológicos à mão, com uma letra belíssima, que ele manteve até bem poucos dias antes de morrer, lúcido, no Hospital dos Servidores.

Meu falecido sogro foi durante muitos anos exemplar funcionário estadual em Santa Catarina, respeitadíssimo na cidade onde morava.Tal como meu avô, ficou apenas com o diploma do Grupo Escolar.Carregou até morrer o sofrimento do glaucoma, que o deixou praticamente cego. Apesar disso, as cartas que escrevia para a filha, minha mulher, traziam uma caligrafia invejável, que vai ficando cada vez mais raro encontrarmos nos escritos de jovens universitários.Guardava de memória dados sobre os grandes poetas românticos do Brasil.

Graças ao conhecimento de meu avô sobre o clima de todas as regiões do Brasil, ficou meu pai sabendo da qualidade climática de Fortaleza. Isso, entre outros motivos, contribuiu para que eu acabasse fazendo meu curso colegial na capital cearense, nos anos de 1948 a 1950.Ali tive excelentes mestres, entre eles o sábio Pedro Albano, um chestertoniano nas atitudes, e também na forma física (naquele tempo eu ainda não conhecia GKC, que a mim seria apresentado cinco anos depois).Aqueles docentes ministravam suas aulas todos impecavelmente vestidos, de paletó e gravata.

Sintetizando, arrisco-me a dizer que o grave problema atual talvez não esteja simplesmente naqueles esquemáticos, cartesianos desafios binários a que me referi no início deste “post”. O que está realmente em jogo, meus amigos, é isto:


- como recuperarmos o sentido de civilização , que já existiu neste País?


[Por isso, no Juízo Final, talvez muitos bispos brasileiros terão que explicar direitinho por que puseram no ostracismo o livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES].


posted by ruy at 4:45 da manhã

 

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