Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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22.10.05

 


O desespero organizado


É bem provável que eu já tenha escrito sobre o tema de hoje, e talvez usando o mesmo título. Creio que isso, longe de ser um sintoma de obsessão minha, seja apenas uma prova de que o assunto seja mesmo da maior relevância.

Durante várias semanas temos vivido neste país em uma incômoda atmosfera psicológica, gerada por vários fatos políticos, incluindo entre eles o sombrio “affaire” do mensalão e a discussão em torno do referendo programado para amanhã.Escrevi o adjetivo incômoda , porém é bem provável que os incomodados sejam apenas aqueles que ainda mantém, apesar de tudo, um desejável zelo pela ética e, por isso mesmo, se angustiam diante dos fatos e das decisões que devem tomar em decorrência deles.

Acredito que essa atmosfera, “mutatis mutandis”, pode ser generalizada para outros países onde existam, em razoável número, populações cristãs, em especial populações católicas.Por que em especial os católicos? Porque, tradicionalmente pelo menos, entre nós católicos sempre houve uma preocupação de analisar os fatos com a luz da fé, porém sem abandonar o uso da razão.Ou melhor dizendo, sempre procurou-se, no ambiente católico, verificar até que ponto seria possível transigir com as imposições de César sem deixar de dar a DEUS o que a Ele pertence.Um dos mais dramáticos exemplos desse dilema é o que foi vivido, até o martírio, pelo grande santo que escreveu a famosa Utopia, Santo Tomás Morus.

César sempre foi sinônimo de poder autocrático, sempre significou prepotência. Entretanto, a partir dos séculos XV e XVI, essa autocracia e essa prepotência crescem muito, muito além da ingênua forma que haviam tido no passado, e dão impulso ao Estado moderno, onipresente e intrometido.Mas, também seria injusto esquecer que os problemas humanos nas sociedades modernas exigem, de fato, planejamentos meticulosos e organização severa para serem resolvidos.

O núcleo do problema, principalmente na Civilização Ocidental Moderna, está no fato de que essa nossa civilização é, sem nenhuma dúvida, uma civilização impregnada de laicismo, muitas vezes declaradamente atéia, uma civilização que se esqueceu de suas origens cristãs.Nos países do Ocidente ou do Oriente dominados pelo regime político vermelho, inspirado pela utopia de Marx (muito diferente da generosa Utopia de Morus), essa organização da vida em sociedade é levada ao grau máximo.Haja vista, por exemplo, o número anual de aplicações da pena capital na China.Faz-nos lembrar o velho aforismo latino: Summum jus, summa injuria (isso para não falar sobre um provável farisaico exibicionismo).

Resumindo, gregos e troianos, ocidentais e orientais, cristãos e pagãos, todos vimos vivendo, nos últimos cinco séculos, o que poderia ser chamado um desespero organizado. Aquele clima religioso que fez nascer o mundo medieval das cinzas do Império Romano não mais existe.É confrangedor observar certos católicos que não conseguem aceitar essa situação de fato e, por isso, ficam agitados à espera que, de repente, o mundo venha, de joelhos, pedir perdão à Igreja por esses longos séculos de filho pródigo, um milagre de conversão coletiva que, talvez, não esteja no misterioso plano divino. Então, o que fazer?

Não foi por acaso que Joseph Ratzinger escolheu o nome Bento, para, com ele, exercer o seu pastoreio.É o nome do santo que surgiu quando desmoronou o grande império pagão.Que fez o Patrono da Europa? Simplesmente aquilo que cada um de nós deve hoje fazer: Ora et labora .

[O “post” de hoje é especialmente dedicado ao meu jovem amigo C...]
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posted by ruy at 2:01 da tarde

16.10.05

 


“Ela” e nós


[Este é um “post” que provavelmente não agradará os leitores moços. Peço-lhes antecipadamente desculpa pelo aborrecimento. Porém, asseguro que o motivo de ter escrito o que abaixo vão encontrar é bem razoável. Leiam até o fim e confirmem isso.]

Mesmo nós, que nascemos no primeiro terço do brilhante século XX, brilho esse observável no assombroso progresso científico-tecnológico do mundo civilizado, mesmo nós podemos afirmar que em nossa infância e nossa adolescência não contávamos com a pletora de recursos médicos e farmacêuticos que, desde a segunda metade do século XX, vêm permitindo a melhoria geral da saúde humana e o conseqüente aumento da expectativa de vida sobre a Terra. A corrida espacial, com certeza, trouxe, indiretamente, inúmeras contribuições para esse geral bem-estar físico e as próprias duas Grandes Guerras Mundiais paradoxalmente contribuíram também com a sua parte para esse benefício comum.

Tudo isso é verdade. Entretanto, em que pesem todos esses indiscutíveis recursos que garantem a nossa maior duração biológica, “ela” – a indesejável das gentes, conforme a chamou o nosso saudoso Manuel Bandeira - “ela” continua cumprindo a sua desagradável tarefa de fechar nossos caminhos, sejamos nós poderosos chefes políticos, sempre presentes nos jornais e revistas noticiosas, ou pobres e desconhecidos Josés da Silva, moradores em um longínquo e feio subúrbio carioca.

Na antiguidade existiram os filósofos chamados estóicos, que deram origem ao termo estoicismo. Ensina o dicionário: Estóico, adj . Relativo ao estoicismo ; austero; impassível; rígido; s.m. indivíduo estóico .

Pois é, costumo pensar que muitas das pessoas que tenho encontrado, ao longo destes meus 73 anos de vida, agem em relação à morte com uma atitude vagamente estóica , disfarçada com sorrisos, mais ou menos brejeiros.Mas, o velho Machado de Assis nos dizia, com aquela civilizada sabedoria que o imortalizou: a morte é séria..É essa essencial seriedade da morte que muitas vezes me deixa em desconforto quando tenho que comparecer a um sepultamento.Certa vez, depois de assistir a uma honrosa exceção, escrevi o poema abaixo transcrito (parece-me que não é a primeira vez que o cito):

O Enterro de Paulo Dutra

Paulo Dutra teve um enterro bom:
Manhã fria,
Chuvinha fina,
Alguns parentes,
Alguns amigos –
Ninguém conversava.

No silêncio do cemitério deserto,
Apenas se ouviam,
Rezadas pela mulher e pela cunhada,
As orações de um terço.

Faz poucos dias citei trecho de um livro do então Cardeal Ratzinger. Vale a pena voltar a citar as palavras daquele que hoje é Bento XVI, neste “post” em que falamos sobre “ela”:

(no livro “Der Gott Jesu Christi”)

Ser homem significa: ser para a morte; ser homem significa: ter de morrer… Viver, neste mundo, quer dizer morrer. « Fez-se homem » (Credo); isso significa que também Cristo foi para a morte. A contradição que é própria da morte do homem atinge em Cristo a sua acuidade extrema porque, nele, que está em comunhão total com o Pai, o isolamento absoluto da morte é um puro absurdo. Por outro lado, nele, a morte tem também a sua necessidade; na verdade, o fato de estar com o Pai está na raiz de incompreensão que os homens lhe testemunham, na raiz da sua solidão no meio das multidões. A sua condenação é o ato último da não-compreensão, da expulsão deste Incompreendido para uma zona de silêncio.

Saibamos refletir, em silêncio, sobre estas sábias palavras de Joseph Ratzinger.




posted by ruy at 8:19 da manhã

 

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