Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

16.10.05

 


“Ela” e nós


[Este é um “post” que provavelmente não agradará os leitores moços. Peço-lhes antecipadamente desculpa pelo aborrecimento. Porém, asseguro que o motivo de ter escrito o que abaixo vão encontrar é bem razoável. Leiam até o fim e confirmem isso.]

Mesmo nós, que nascemos no primeiro terço do brilhante século XX, brilho esse observável no assombroso progresso científico-tecnológico do mundo civilizado, mesmo nós podemos afirmar que em nossa infância e nossa adolescência não contávamos com a pletora de recursos médicos e farmacêuticos que, desde a segunda metade do século XX, vêm permitindo a melhoria geral da saúde humana e o conseqüente aumento da expectativa de vida sobre a Terra. A corrida espacial, com certeza, trouxe, indiretamente, inúmeras contribuições para esse geral bem-estar físico e as próprias duas Grandes Guerras Mundiais paradoxalmente contribuíram também com a sua parte para esse benefício comum.

Tudo isso é verdade. Entretanto, em que pesem todos esses indiscutíveis recursos que garantem a nossa maior duração biológica, “ela” – a indesejável das gentes, conforme a chamou o nosso saudoso Manuel Bandeira - “ela” continua cumprindo a sua desagradável tarefa de fechar nossos caminhos, sejamos nós poderosos chefes políticos, sempre presentes nos jornais e revistas noticiosas, ou pobres e desconhecidos Josés da Silva, moradores em um longínquo e feio subúrbio carioca.

Na antiguidade existiram os filósofos chamados estóicos, que deram origem ao termo estoicismo. Ensina o dicionário: Estóico, adj . Relativo ao estoicismo ; austero; impassível; rígido; s.m. indivíduo estóico .

Pois é, costumo pensar que muitas das pessoas que tenho encontrado, ao longo destes meus 73 anos de vida, agem em relação à morte com uma atitude vagamente estóica , disfarçada com sorrisos, mais ou menos brejeiros.Mas, o velho Machado de Assis nos dizia, com aquela civilizada sabedoria que o imortalizou: a morte é séria..É essa essencial seriedade da morte que muitas vezes me deixa em desconforto quando tenho que comparecer a um sepultamento.Certa vez, depois de assistir a uma honrosa exceção, escrevi o poema abaixo transcrito (parece-me que não é a primeira vez que o cito):

O Enterro de Paulo Dutra

Paulo Dutra teve um enterro bom:
Manhã fria,
Chuvinha fina,
Alguns parentes,
Alguns amigos –
Ninguém conversava.

No silêncio do cemitério deserto,
Apenas se ouviam,
Rezadas pela mulher e pela cunhada,
As orações de um terço.

Faz poucos dias citei trecho de um livro do então Cardeal Ratzinger. Vale a pena voltar a citar as palavras daquele que hoje é Bento XVI, neste “post” em que falamos sobre “ela”:

(no livro “Der Gott Jesu Christi”)

Ser homem significa: ser para a morte; ser homem significa: ter de morrer… Viver, neste mundo, quer dizer morrer. « Fez-se homem » (Credo); isso significa que também Cristo foi para a morte. A contradição que é própria da morte do homem atinge em Cristo a sua acuidade extrema porque, nele, que está em comunhão total com o Pai, o isolamento absoluto da morte é um puro absurdo. Por outro lado, nele, a morte tem também a sua necessidade; na verdade, o fato de estar com o Pai está na raiz de incompreensão que os homens lhe testemunham, na raiz da sua solidão no meio das multidões. A sua condenação é o ato último da não-compreensão, da expulsão deste Incompreendido para uma zona de silêncio.

Saibamos refletir, em silêncio, sobre estas sábias palavras de Joseph Ratzinger.




posted by ruy at 8:19 da manhã

13.10.05

 




Voltando do mundo


[Creio que este “post” deverá ser mais bem compreendido pelo meu amigo A ...., o serrano]
Nos “posts” anteriores, particularmente no que saiu dia 9, estive “fora”, dando um giro pelo “mundo” .Hoje pretendo “voltar”.


Neste momento vale as pena citar um trecho do livro ECOS ETERNOS, do irlandês John O`Donohue, obra esta várias vezes citada por mim neste “blog”.Vamos lá, ao capítulo 2, PRESENÇA, onde, em certo ponto lemos estas reflexões:

-Cada um de nós está só no mundo. É preciso coragem para enfrentar a plena força do nosso isolamento.A maior parte da vida na sociedade se destina, inconscientemente, a sufocar a voz que clama na vastidão no nosso íntimo.O místico Thomaz à Kempis disse que, quando uma pessoa freqüenta o mundo, ela retorna havendo perdido parte de si mesma..Até aprendermos a habitar o nosso isolamento, a distração e o ruído solitários da sociedade nos seduzirão para a falsa integração, com que apenas nos tornaremos vazios e exaustos.

Pouco mais à frente, O`Donohue nos diz que é nossa tarefa contínua encontrar o verdadeiro lar dentro da própria vida.Ela [essa tarefa] não é narcisista, pois, assim que repousarmos na casa do nosso coração, portas e janelas começam a se abrir para o mundo. (ib)

Um leitor mais atento, neste instante, notará que a palavra “mundo” ao longo deste excurso não é unívoca, ou pelo menos não será unívoca a nossa atitude diante do mundo.Ora nos deixamos envolver por ele, e nos perdemos nele.Ora o olhamos com a discreta e iluminada perspectiva da contemplação amorosa (este adjetivo é outra palavra que deve ser usada “cum grano salis”).

Os difíceis problemas morais que enfrentamos em sociedade, em especial os problemas políticos, levam os pensadores mais sérios a escrever artigos, ensaios, estudos, e até mesmo romances, onde o autor faz a sua análise daqueles problemas e, às vezes, sugere, mais ou menos discretamente, um princípio de solução.Ora, ao ler esses autores críticos nem sempre vamos encontrar entre eles, mesmo entre os mais perspicazes, alguém que, ao mesmo tempo em que nos ensina, também nos comove .(por favor, amigo leitor, não dê à palavra comove um sentido piegas, superficial)

Conversando ontem, pelo telefone, com um jovem, porém amadurecido, leitor deste “blog”, eu lhe dizia que isso é que torna tão agradável a leitura do magnífico ensaio DOIS AMORES, DUAS CIDADES.O autor desse livro, obra que infelizmente foi posta no ostracismo pelos medíocres deste país, ao mesmo tempo que nos conta a dramática história da Civilização Ocidental Moderna, à qual pertencemos, consegue passar para o leitor não apenas excelentes aulas de filosofia, teologia, ciência e história, mas, também, um sentido poético de tudo o que ali está sendo contado. O leitor mais atento percebe a vibrante alma do homem que redigiu aqueles dois volumes repletos de sabedoria Era um autor que olhava o mundo com aquela amorosa contemplação a que nos referimos lá em cima.
.


posted by ruy at 2:30 da tarde

 

Powered By Blogger TM