Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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9.10.05

 


Três reparos ao “post” de ontem


O primeiro é quanto ao verbo marcar , que usei ao dizer que “Essa festa marca a vitória da esquadra cristã contra a esquadra muçulmana”. Eu deveria ter escrito: “Essa festa lembra a vitória etc.”, ou “Essa festa está ligada à vitória etc.”

O segundo reparo é quanto a um lapso meu. Eu deveria ter contado aos leitores que, de fato, Pio V, enquanto rezava o terço, teve miraculosa premonição da vitória da esquadra cristã, depois confirmada por algum mensageiro que lhe trouxe a notícia.

Finalmente, ao falar sobre o caso do bispo que se colocou contra o tal projeto de transposição do rio São Francisco, posso ter passado para o leitor a falsa impressão de que eu seja favorável a greves de fome.Ora, uma coisa é o jejum, isto é, a voluntária abstenção de certa quantidade de alimento, isso feito em espírito de penitência; outra, materialmente um pouco parecida, é alguém deixar-se morrer de fome. Há milênios que os cristãos sabem distinguir uma coisa da outra.O jornalista Pompeu de Toledo parece que não sabe. Se o soubesse, talvez tivesse citado esse importantíssimo detalhe em seu recente artigo da VEJA desta semana, quando, ao criticar a atitude do bispo que fez greve de fome, aproveitou para exibir alguns conhecimentos dele, Toledo, sobre a doutrina moral da Igreja.


Diogo Mainardi


Esse escritor pode ser apontado como um bom exemplo do que seja um jornalista polêmico.Tem calorosos admiradores e irritados opositores, Na parte que me toca, vejo nesse moço uma brilhante inteligência e uma exuberante independência.Tais características parecem-me muito desejáveis em um país cujo povo, politicamente imaturo, ainda não consegue discernir a diferença entre uma democracia autêntica e o seu simulacro que é o democratismo em que estamos vivendo.

Na VEJA editada na semana que hoje se inicia, Mainardi escreve as seguintes palavras:

- Se soubermos aproveitar a morte política de Lula para enterrar definitivamente o petismo, o país sairá um pouco menos emburrecido dessa enrascada em que se meteu.

Os olhos e ouvidos mais sensíveis talvez não gostem do que está dito aí em cima.Entretanto, peço ao leitor que se lembre de alguns fatos recentes ligados ao atual governo, que é nitidamente de inspiração petista:
- logo no início do governo Lula, é nomeado um conhecido cantor popular para o Ministério da Cultura.Com tal nomeação dá-se nítida ênfase a uma visão folclórica, telúrica dessa manifestação social da inteligência humana a que chamamos cultura .A desejável, a imprescindível dimensão vertical da cultura ficou relegada ao desprezo ou, no mínimo, ao esquecimento;

- em seguida vem um outro recém nomeado ministro (o da mal denominada Educação) e faz esta demagógica proposta ao País: “universidade para todos” , uma proposta que bate de frente contra a tradicional atitude das nações mais civilizadas em que só ingressam nas universidades aqueles que têm realmente vocação para estudos avançados (amigos meus que moraram na Europa confirmaram que é assim mesmo);

- no correr do tempo, um outro ministro (agora o das Relações Exteriores ) de repente suprime a prova de conhecimentos da língua inglesa do concurso para o Instituto Rio Branco.Essa bombástica medida inspirou um corajoso, um lúcido artigo ao jornalista Augusto Nunes, do JB, texto cujo título -“O Brasil está ficando muito jeca” - sintoniza bem com as palavras irreverentes de Diogo Mainardi.


Nossa Senhora Aparecida, protegei a nossa Pátria!


posted by ruy at 11:24 da manhã

8.10.05

 


O Mistério da Ascensão


Ontem, 7 de outubro, comemorou-se a festa de Nossa Senhora do Rosário.Antes de prosseguir na direção do tema deste “post” convém recordar para os bem poucos leitores do DD (que devem também ser católicos, tais como este escriba) a origem dessa comemoração.

Essa festa marca a vitória da esquadra cristã contra a esquadra muçulmana na famosa batalha naval de Lepanto, travada em 7 de outubro de 1571, vitória essa que livrou a Europa do jugo dos seguidores de Maomé. Neste instante, algum eventual leitor pacifista poderia ficar escandalizado por não enxergar nenhum sentido religioso na referida comemoração.Ora, acontece, amigo leitor, que, no dia daquela dramática batalha, o papa então reinante, Pio V (mais tarde canonizado), ficou em permanente oração, com o terço nas mãos, só interrompendo a prece quando lhe trouxeram a notícia da magnífica vitória (foi ali que Cervantes perdeu um dos braços).

Só como lembrança, existe um belo poema épico de Chesterton justamente sobre Lepanto.Leiamos o final desse poema:

(Don John of Austria rides homeward with a wreath.)
And he sees across a weary land a straggling road in Spain,
Up which a lean and foolish knight for ever rides in vain,
And he smiles, but not as Sultans smile, and settles back the blade...
(But Don John of Austria rides home from the Crusade.)
[Dom João da Áustria foi o comandante das forças cristãs]

Hoje, sábado, a Igreja costuma rezar os chamados Mistérios Gloriosos do rosário.O primeiro deles é o da ressurreição de Jesus.O misterioso fato de o Cristo ressuscitado não ter aparecido diante dos sacerdotes judeus nem diante de Pilatos já deveria alertar os cristãos em geral, e em especial a nós católicos, sobre o fato de que a mensagem evangélica não nos convoca para sermos simplesmente cidadãos honestos e bem comportados.Ela traz, sim, um forte convite para voltarmos à Eternidade a que pertencemos. Um convite para sermos santos .

Pois bem, o segundo mistério Glorioso é o da Ascensão do Senhor. Ele sobe aos Céus, deixa este mundo visível, em vez de se apresentar ostensivamente, como de fato era - e é – o senhor absoluto de tudo e de todos.Esse mistério, para mim pelo menos, é uma clara reafirmação de que o Reino não é deste mundo, conforme o próprio Jesus dissera a Pilatos.

Ora, estamos assistindo nestes últimos dias ao “affaire” do bispo que fez greve de fome contra a tal transposição do rio São Francisco (obra gigantesca de discutível necessidade).Contaram-me que esse mesmo bispo, no passado, teria sido participante dos movimentos “católicos de Esquerda”.Se isso, infelizmente, for verdade, teríamos nesse caso o exemplo de uma patética ironia, a que se refere ao dramático desencontro entre a insistência voluntariosa de certo bombástico político e a resistência passiva do religioso que, em certa época, trabalhou para que esse mesmo político progredisse na busca ambiciosa do poder, apoiado, nessa procura, por um fanático grupo de homens que estão pouco se lixando para o Reino que não é deste mundo.


posted by ruy at 12:01 da tarde

6.10.05

 


Reflexões melancólicas


Um eventual leitor pode neste instante perguntar: “melancólicas para quem, cara pálida?”.
Pois é, melancólicas para alguém realmente católico.Por que esse “realmente”? Porque, infelizmente, existem os que foram batizados na Igreja, mas que, por alguma razão mais ou menos complexa, não conseguem entender o que poderíamos chamar “o paradoxo da Igreja”, uma instituição ao mesmo tempo divina e humana.

Antes de continuar talvez seja bom lembrar um ponto de crucial significado.Uma crença autêntica na divindade de Jesus Cristo sempre deveria ter como corolário a crença na “parte” divina da Igreja. Bastaria prestar a máxima atenção no pessoal , “sur le personnel”, “on the people” que o Cristo convocou para serem seus discípulos, incluindo entre eles Judas Iscariotes.Seria suficiente recordar as diversas mancadas do pescador que recebeu as chaves do Reino.

Pois é, o Cristo, sendo DEUS encarnado, sabia de tudo o que iria acontecer ao longo dos séculos. Sabia que aconteceriam heresias e perseguições, como também sabia que, em certa época da história, os homens mais fiéis à boa doutrina usariam a engenhosidade, a habilidade manual e a força física para construir as magníficas catedrais de pedra; e também usariam a razão para elaborar uma Suma Teológica onde os grandes mistérios da fé são expostos de modo que a inteligência humana possa pacificamente contemplá-los. Sabia dos papas da Renascença (de triste memória) e sabia também dos papas que desde o século XIX vêm testemunhando sua fidelidade à mensagem evangélica sem que isso os torne indiferentes aos sofrimentos do homem moderno. Em resumo, sabia que a Igreja havia de crescer organicamente, como um corpo, com todos os progressos e percalços que esse crescimento implica.

Ora, a mensagem de Esperança, com E maiúsculo seria, em todos os tempos, a mesma, ou seja: a promessa de um Reino que não é deste mundo.E quem conhece a história da Igreja, quem conhece, por exemplo, a vida de um São Vicente de Paulo, quem conhece a vida dos milhares de anônimos santos e santas que dedicaram suas vidas em benefício dos pobres, dos doentes e dos perseguidos sabe que a Igreja, por meio de seus melhores filhos, nunca deixou de olhar as necessidades dos seres humanos.Portanto, manter a Esperança viva jamais significou indiferença diante do sofrimento do próximo.

Neste ponto um leitor mais atento pode perguntar: “onde está a melancolia que deu o título a este “post”? Pois é, leitor amigo, a melancolia surge diante da grande quantidade de bispos, padres e leigos que, obcecados em “transformar” este mundo em um tipo de paraíso telúrico (como sonham os socialistas e os comunistas) acabaram criando uma teologia que desse apoio àquela triste obsessão. Chamaram-na de “Teologia da Libertação”. Libertação de quê? Da morte, ocorra ela por um acidente fatal ou pelos achaques da idade provecta? Libertação das catástrofes naturais que matam milhares de pessoas em alguns minutos? Libertação do cansaço físico? Ou da solidão que, de repente, pode acontecer mesmo quando estamos no meio de uma festa repleta de convidados, a solidão do encontro com o profundo mistério da existência?

Faz pouco tempo, o escritor Olavo de Carvalho, que nunca se afirmou como católico, publicou no JB um interessante artigo que bem poderia ser assinado por um filho convicto da Igreja, intitulado: “A mãe dos trambiqueiros” .Essa mãe é mesmo a famigerada Teologia da Libertação.Os trambiqueiros a que Olavo se refere são mesmo os personagens da tragicomédia da corrupção e da luta pelo poder absoluto, tragicomédia essa a que estamos assistindo graças à liberdade de imprensa (escrita e televisionada) que ainda existe no país.

Em 25 de outubro de 2002, o jornal “O Estado de São Paulo” publicava um excelente editorial sob o título “A advertência do papa [então João Paulo II] à CNBB”. Distribuída a uma delegação de bispos do Nordeste, aquela advertência, entre outras considerações, incluía estas palavras:

- mesmo levando-se em conta os delicados problemas sociais existentes, a ação pastoral não deve ser reduzida à dimensão temporal e terrena.

Acrescentaríamos nós, com todo o respeito filial ao bispo de Roma, que a ação pastoral jamais deveria ter escondido a milenar mensagem da Esperança, com E maiúsculo.Ora, é justamente a organizada, a sistemática falta dessa mensagem que está na essência dos regimes totalitários.

Por isso, é sumamente melancólico perceber que no Brasil de nossos dias ainda existe um grupo de políticos obcecados, desejosos de instalar neste país um desses nefandos regimes, e saber também que esse grupo continua recebendo certo apoio de pessoas “soi-disants” cristãs.


posted by ruy at 3:00 da tarde

 

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