Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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2.10.05

 


Atendendo a um pedido


Uma pessoa amiga diz que gostaria de ler aqui no DD uma explicação, um esclarecimento sobre o que publiquei nos dois últimos “posts”.Trata-se de um pedido bastante gentil, porém nem por isso fácil de ser atendido, ou de ser atendido como eu gostaria de fazê-lo.Vamos tentar!

Em certo ponto de sua mensagem você diz que precisa “ler mais, estudar mais” para poder entender certas coisas.Ora, não é por aí.Lembro agora um famoso escritor, respeitado em muitos países, que foi, sem dúvida, Jorge Luis Borges, provavelmente seu conhecido. Esse notável “argentino universal” leu muito, estudou muito durante a vida inteira, enquanto a progressiva doença dos olhos lhe permitiu executar esses intelectuais exercícios.
Li pouquíssimo dele, mas, do pouco que li pude perceber que Borges fez literatura por ela mesma, permanecendo no patamar telúrico do esteticismo.Portanto, a solução do problema não está na maior quantidade de leitura ou de estudo.

Curiosamente, percebi também que Borges era um admirador de Chesterton.Bem, o que ele admirava mesmo no saudoso ensaísta inglês era a forma , usando esta palavra com o seu sentido convencional, diferente daquele outro que aprendemos na Filosofia Perene.Arrisco-me até a fazer um trocadilho. Borges amava a forma dos poemas, dos ensaios e dos romances chestertonianos, mas não era sensível à forma subjacente àqueles escritos de GKC isto é, não sintonizava com aquele conteúdo que durante muitas décadas vem dando alegria a milhões de cristãos no mundo inteiro.

Neste ponto, talvez seja bom lembrarmos o nome de um grande pensador que, faz alguns anos, recebeu justa e belíssima homenagem póstuma do escritor Olavo de Carvalho, no artigo “Benfeitor ignorado”, que saiu na revista Época. Trata-se de Mortimer Jerome Adler, esse famoso Doutor sem diploma (os americanos deram-lhe o título de PhD em reconhecimento por sua sabedoria).Uma das luminosas idéias de Adler é a de que pessoas tuteladas, seja essa tutela exercida pela família ou pela escola (de qualquer nível), não podem educar-se.Quem educa a si próprio é o adulto autônomo.

Nesse processo educativo, que só termina quando fechamos os olhos e damos o último suspiro, há três possíveis e desejáveis progressos paralelos: o mental, o moral e o espiritual. Ou seja, não se trata apenas de ler ou estudar muito.

Neste momento, talvez você me faça uma pergunta um pouco angustiada: “ então. Ruy, paro de ler? paro de estudar assuntos mais sérios?” Não, absolutamente: não! Não lhe darei tal conselho. Mas, de qualquer forma, seria interessante lembrar, agora sim, o conselho do nosso nunca assaz admirado Camões, quando ele aconselha ao jovem rei de Portugal:

A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.

[“Os Lusíadas” – Canto décimo, estrofe 153]

Ora, se tal conselho vale para a profissão militar, aplica-se muito mais ao modo de vivermos nossa vida cristã neste mundo.

Não sei se consegui esclarecer a sua dúvida...


posted by ruy at 3:07 da tarde

29.9.05

 




O porquê dos negritos no “post” de ontem


Se o amigo leitor teve paciência para ler meu “post” de ontem deve ter observado que, várias vezes, escrevi em negrito os possessivos meu, minha, meus, minhas.Obviamente isso foi intencional, e a idéia de fazê-lo me veio depois da leitura de certo texto que recebi de alguns distantes amigos portugueses.Daqui a pouco chegarei a esse texto.

De fato, essa pletora de relações de posse mantém-nos desatentos ao que de essencial existe em cada um de nós.Prestamos tanta atenção ao acidente que acabamos passando ao largo da substância. Agarramo-nos às nossas posses, prendemo-nos demais a tudo aquilo que não levaremos conosco ao deixarmos para sempre este mundo visível.

Neste exato instante, um leitor mais atento poderia questionar: “Péra aí, Ruy, então é errado a gente manter todas aquelas relações de posse que você listou no seu “post” de ontem?“

Não, amigo, leitor, absolutamente, não! Elas fazem parte do mistério de nossa vida, mais especificamente de nossa vida no tempo. As inúmeras contradições, os incontáveis desencontros que nos frustram ao longo dos anos não podem ser minimizados, conforme propõem certas mensagens colorido-musicais que abundam na “web”, otimistas mensagens de auto-ajuda. É louvável a boa intenção daqueles que nos enviam esses elaborados e-mails, porém a eficácia deles é bastante reduzida. Por melhores que sejam aqueles conselhos, eles ficam distantes anos-luz do essencial mistério da existência como tal e da nossa existência individualizada. Então, que fazer? Bem, aí entra o texto que me veio do nosso avozinho Portugal, tão distante e ao mesmo tempo tão próximo de nós.

Trata-se de um trecho do livro “O DEUS de Jesus Cristo”, de autoria do então cardeal Joseph Ratzinger. Antes de fazer qualquer comentário, transcrevo a seguir o referido texto.

Cardeal Joseph Ratzinger [Papa Bento XVI] [Do livro: Der Gott Jesu Christi, O DEUS de Jesus Cristo].
«É preciso que o Filho do homem sofra…, seja rejeitado… e morto, e que ressuscite»
Ser homem significa: ser para a morte ; ser homem significa : ter de morrer… Viver, neste mundo, quer dizer morrer. « Fez-se homem » (Credo) ; isso significa que também Cristo foi para a morte. A contradição que é própria da morte do homem atinge em Cristo a sua acuidade extrema porque, nele, que está em comunhão total com o Pai, o isolamento absoluto da morte é um puro absurdo. Por outro lado, nele, a morte tem também a sua necessidade ; na verdade, o fato de estar com o Pai está na raiz de incompreensão que os homens lhe testemunham, na raiz da sua solidão no meio das multidões. A sua condenação é o ato último da não-compreensão, da expulsão deste Incompreendido para uma zona de silêncio.


De igual forma, pode-se entrever alguma coisa da dimensão interior da sua morte. No homem, morrer é sempre ao mesmo tempo um acontecimento biológico e espiritual. Em Jesus, a destruição dos suportes corporais da comunicação quebra o seu diálogo com o Pai. Portanto, o que se rompe na morte de Jesus Cristo é mais importante do que em qualquer morte humana ; nela é destruído o diálogo que é o verdadeiro eixo do mundo inteiro.

Mas, tal como este diálogo o tinha tornado solitário e estava na raiz da monstruosidade desta morte, assim em Cristo a ressurreição está já fundamentalmente presente. Por ela, a nossa condição humana insere-se na partilha trinitária do amor eterno. Ela jamais pode desaparecer; para lá do limiar da morte, ela ergue-se de novo e recria a sua plenitude. Só a Ressurreição revela, pois, o caráter único, decisivo deste artigo da nossa fé : « Ele fez-se homem »… Cristo é plenamente humano ; sê-lo-á para sempre. A condição humana entrou por ele no próprio ser de Deus ; é esse o fruto da sua morte.


Se o leitor reler o texto acima transcrito com muita atenção, achará a pista para o encontro com o seu próprio eu essencial.



posted by ruy at 3:06 da tarde

28.9.05

 




Os dois “eus”


De repente um grande cansaço, mais psicológico do que simplesmente físico.Um cansaço causado pela minha inserção distraída naquela “louca disparada prá frente” deste nosso mundo moderno.E aí, a misericórdia divina faz-me parar, parar e refletir sobre coisas essenciais..

Cada um de nós tem dois “eus”. O primeiro eu, aquele de quem bem cedo, no distante país da infância, tomamos conhecimento, é o que está ligado ao meu nome de família, ao nome que consta de minha certidão de nascimento e do meu registro de batismo na antiga igreja de Nossa Senhora de Loreto. Esse eu é quem que dá as minhas aulas, e que se irrita com as irreverências de alguns imaturos jovens que estão entre os meus alunos.É o mesmo eu que ama a minha família, a família que minha mulher e eu geramos.

Esse primeiro eu é o que conserva as minhas idéias e as minhas opiniões.Neste ponto é bom abrir um parêntese.Essas idéias que eu mantenho podem ser verdadeiras, e as opiniões que eu exterioriza podem ser legítimas.Quando eu afirmo, por exemplo, que “a finalidade da Política é o Bem Comum”, ou quando eu digo que, naquele concerto para piano e orquestra de Mozart, transmitido hoje de manhã pela rádio MEC, pude perceber a inspirada alma do compositor deslizando suavemente entre os risos e as lágrimas com que flui a existência de todos nós, nos dois casos exerço um dos meus direitos.Igual direito eu teria para apregoar que “o mundo marcha para o socialismo” (como afirma tolamente, por exemplo, o “frei” Betto) ou para opinar (como infelizmente disse um colega, engenheiro muito competente...) que “a música clássica” [ele está se referindo à música erudita] “foi inventada pelos seus compositores para deixar as pessoas confusas, incapazes de entendê-la”.

Também esse primeiro eu é aquele que se angustia com os atuais problemas do meu país, aquele eu que envia diariamente mensagens aos meus amigos que compartilham comigo semelhante angústia.É ele, esse primeiro eu, que sobe comigo a escada que leva ao consultório do dentista, paciente profissional que tenta recuperar os poucos dentes naturais que ainda restam em minha boca.É o eu que guarda as minhas saudades e planeja minhas pequenas esperanças.

Pois é, talvez pudéssemos neste instante dizer que as considerações que fiz aí em cima apenas confirmam o que está na bem conhecida frase de Ortega y Gasset.(“Eu sou eu e minhas circunstâncias”).Entretanto, estive falando até agora no meu primeiro eu. Existe um segundo eu, um eu que muitíssimas vezes permanece desconhecido para a maioria de nós, que vamos até o final de uma existência longeva sem nunca nos darmos conta da silenciosa, discretíssima presença desse outro eu..

No “site” americano EWTN, junto à lista das leituras litúrgicas de hoje (28/set), está citada uma curta reflexão de Santa Terezinha. Vale a pena transcrever:
Our Lord needs from us neither great deeds nor profound thoughts. Neither intelligence nor talents. He cherishes simplicity.
Ora, é bem possível que a falta dessa simplicidade a que se refere Tereza atrapalhe o desejável encontro que deveríamos ter com o nosso eu essencial Ficamos demasiado presos aos nossos fazeres e pensamentos, satisfeitos com nossa inteligência e nossos talentos, excessivamente ligados ao primeiro eu.


posted by ruy at 2:37 da tarde

 

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