Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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18.9.05

 



Onde está a força “deles”


Em uma peça de Shakespeare ( Troilus and Cressida ), há uma cena em que um personagem diz a outro: Troy in our weakness lives, not in her strength , “Tróia vive em nossa fraqueza, não em sua força.”

Pois é, pensei nessa frase ao ler em certo “site” católico alguns comentários de um famoso cardeal católico a respeito da chamada Teologia da Libertação.Dizia o prelado que “A Teologia da Libertação, na época, era fortemente contaminada por temas marxistas. Isso ameaçava esgotar toda a esperança cristã em interpretações políticas ou sociológicas. É interessante ver a evolução de padre Gutierrez, que hoje se tornou um autor espiritual latino-americano original. No início, pelo contrário, todos eles sofriam a influência de autores europeus”.(sic)

Pois é, admitamos – conforme insinua o senhor cardeal – que aquela “contaminação” tenha sido mesmo coisa do passado e que hoje, sob o mesmo título, tenhamos uma nova, uma “evoluída”, uma “ortodoxa” Teologia da Libertação.E daí?

Não sou teólogo. Sou um simples católico que sempre se lembra de suas faltas, muitas delas graves, incluindo sérios pecados de omissão.Não sou, pois, modelo de comportamento para ninguém. Ao redigir este “blog”, procuro falar sobre verdades em que acredito e, faz uns dois anos, escrevi que estou sempre sujeito àquela maliciosa crítica que pode dizer assim: “o Ruy está naquela idade em que, já não podendo dar bons exemplos, dá bons conselhos”.

Entretanto, com todas as minhas falhas, com todos os meus pecados, ainda assim não posso calar-me diante da assombrosa, da terrível realidade do mistério: mistério da vida, mistério do mundo, mistério da história, mistério do cristianismo.

Pois bem, para mim, senhor cardeal, o erro essencial da Teologia da Libertação, esteja ela impregnada ou limpa de inspiração marxista, consiste justamente no esquecimento do mistério. Mesmo que essa Teologia renegue agora aquilo que no passado admitiu como razoável acordo com as idéias do tempo, para mim ela continua sendo basicamente um telúrico ajeitamento com o mundo, continua sendo uma recusa a cumprir a forte recomendação Paulina: nolite conformare huic saeculo, “não vos acomodeis com este século, não vos instalei neste mundo.”
Para mim, senhor cardeal, seria maravilhoso que nossos padres, aqueles sacerdotes que pregam para nós nas homilias dominicais, fossem mais poéticos, e conseguissem esse maravilhoso “estilo” sem prejuízo do ensino das eternas leis morais, às quais todos devemos obediência. Que passassem para nós, fiéis, um nítido testemunho de alguém que ama o Senhor Jesus e tem Nele a única esperança.

Eis a palavra-chave: esperança. O que a Teologia da Libertação , “marxista” ou não, promete para nós é o tal “mundo melhor”. Meus amigos, que “mundo melhor” é esse prometido por tão generosos altruístas? Um mundo sem terremotos? Um mundo sem furacões Katrina? Sem avalanches? Sem vulcões? Sem a ameaça sideral de perdidos meteoritos chocando-se com a Terra? Sem a realidade fria e silenciosa da entropia crescente, aquele dramático fenômeno físico cuja existência Pio XII lembrou aos cientistas, provavelmente para que refletissem sobre a Eternidade? Um mundo sem a memória de milhões de inocentes mortos pelos poderosos que se diziam promotores de um “mundo melhor”? Lembram-se dos Iluminados que falavam tanto em “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e entregaram nas mãos de um sujeito boçal o pobre filho de Maria Antonieta, de que resultou a morte da criança, vítima dos maus-tratos do tal sujeito?

Hoje, neste país, estamos passando por uma deprimente – é isso mesmo: deprimente – crise política. Estamos, e não adianta tapar o sol com a peneira, sob o permanente risco de ficar submetidos a um sombrio regime do tipo “colégio interno”, ameaça essa por conta de um grupo que também deseja um “mundo melhor”.Esse grupo de teimosos fanáticos se beneficiou – e ainda se beneficia – não de sua força, mas de nossa fraqueza, de nós católicos, por não vivermos de modo corajoso a crença e, sobretudo, a Esperança em um Reino que não é deste mundo.

Perdoem meu desabafo! Perdoe meu desabafo, senhor cardeal.


posted by ruy at 6:46 da manhã

17.9.05

 




Pequena reflexão sobre a Verdade


Poderia começar este “post” lembrando o que nos ensinam os manuais de filosofia. Ali aprendemos que há três tipos de verdade: a verdade ontológica, que é a concordância do objeto com o pensamento (mais especificamente, com o pensamento divino, criador de tudo), a verdade lógica, que é a concordância do pensamento com o objeto, e a verdade moral, que é a concordância da palavra com o pensamento.

Entretanto, não pretendo discorrer sobre esses aspectos formais da verdade. Atenho-me apenas a um fato ocorrido no final da tarde de quarta-feira, fato esse que me proporcionou enorme alegria, justamente por eu ter ouvido alguém dizer, de público, várias verdades entaladas, talvez, na garganta de milhões de brasileiros.

Sem entrar em detalhes, faço um simples comentário sobre o que alegremente escutei.. Suponhamos que, em certo país, um homem, sobejamente conhecido por suas falhas morais, alguém em quem não enxergamos o desejável hábito da prática das virtudes cívicas, afirme em nossa presença o seguinte:
- a soma dos ângulos internos de um triângulo equivale a dois ângulos retos.
Ora, a verdade contida nesse bem conhecido teorema da geometria plana não sofre o menor abalo pela circunstância de ter sido ele enunciado por um mau cidadão.

De modo semelhante, se essa mesma pessoa aponta abertamente, por exemplo, os maus hábitos de um importante homem público e seus cupinchas, e se tudo isso que foi apontado é verdade notoriamente conhecida por milhões de habitantes do país, essa verdade não ficará menos verídica por causa do mau caráter de quem fez as afirmativas.

E é óbvio que o fato de ter ele dito aquelas verdade não o redime de suas próprias culpas.


posted by ruy at 9:47 da manhã

15.9.05

 




Tentando respirar um pouco


Desde junho nós brasileiros temos vivido sob a diária pressão das notícias que nos vêm de Brasília, divulgadas pelos jornais, pelas revistas noticiosas, pela TV e pela Internet.Os recentes e melancólicos fatos analisados e discutidos no Congresso nacional tornaram-se tema obrigatório das conversas que vimos mantendo em família, no trabalho, nos almoços com amigos e demais ocasiões de encontro.Isso tudo acaba criando, pelo menos comigo, uma certa sufocação mental, inibindo uma desejável, uma saudável atitude contemplativa, no sentido amplo desta palavra.

Faz pouco tempo, ganhei de presente de um dos meus genros o livro de Carlos Lacerda: “A casa do meu avô”.Pois bem, por meio da leitura dessa obra, que é simplesmente uma descontraída e poética exposição de reminiscências do autor, tenho conseguido isolar-me um pouco da atmosfera sufocante, carregada de inevitável e cansativo moralismo, criada pelos escândalos da assombrosa corrupção política.

Pois é, mesmo não tendo sido um grande político, um corajoso tribuno, mesmo não tendo vivido uma infância, uma adolescência e uma mocidade repletas de românticas experiências, cada um de nós tem um passado . Pode ter sido um passado pouco feliz, mas tal circunstância não o elimina de nossa memória.E mais, apesar de tudo, os anos por nós vividos não se perderam; a tempo e a contratempo eles se tornaram parte de nosso longo processo educativo, um processo que é de nossa pessoal responsabilidade.

Ora, o que se passa com cada um de nós, ocorre, feitas adequadas mudanças, com a memória das cidades, dos povos e das nações.Todos esses conjuntos humanos têm o que se costuma chamar uma memória coletiva.E quanto maior o grau de civilização desses grupos, com mais zelo eles conservam a lembrança de seu passado.

No que toca à Civilização Ocidental, parece-me que hoje, mais do que antes, ela precisa olhar para trás, como diria Chesterton, e responder, para si própria, uma pergunta de transcendental importância:
- o que representa para nós um homem chamado Jesus Cristo, um homem que durante mais de vinte séculos vem sendo inspiração para milhões de crentes em sua divindade e, ao mesmo tempo, tem provocado o desprezo ou até mesmo o ódio de milhões de não crentes nessa mesma divindade?

Uma outra pergunta, agora muito mais incômoda, deveria ser formulada no íntimo de cada um de nós, como pessoa independente:
- de que modo eu mesmo me posiciono diante desse homem? Qual o lugar que eu dou a Ele em tudo o que faço, quando ajo como chefe de família ou quando atuo na minha profissão, quando procedo como companheiro e amigo de outras pessoas ou quando convivo com estranhos, ou até mesmo com meus desafetos? Quem, de fato, é Ele para mim? Já parei para refletir seriamente sobre como tudo começou naquela distante Palestina? Já parei para pensar demoradamente em todos os mistérios narrados pelos evangelistas?

O maior problema causado pelos barulhentos temporais noticiosos é justamente este: eles nos afastam dessas questões essenciais.


posted by ruy at 6:22 da tarde

 

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