Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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10.9.05

 




Queda de qualidade


Faz umas duas semanas assisti em minha casa, em DVD, ao filme “O Vôo do Fênix”. Refiro-me à versão mais recente, produzida em 2004, em que o papel principal é representado pelo ator Denis Quaid. Faz muitos anos, este escriba assistira –louvado seja DEUS! - à primeira versão, a de 1965, em que brilham os nomes de James Stewart (como o piloto), Richard Attenborough (como o co-piloto) e Hardy Krüger (como o engenheiro de aeromodelos).

Não se trata absolutamente de saudosismo, porém, a versão antiga dá de dez a zero na película que acompanhei no DVD.Por quê? Vejamos.

O “Vôo do Fênix” de 2004 é simplesmente um convencional filme de aventuras.Só como exemplo, a tola perseguição, feita por um bando de árabes a cavalo, ao avião que, depois de reconstruído pelos poucos passageiros sobreviventes, tenta decolar no deserto.No filme original, os muito poucos árabes (uns três ou quatro) que aparecem ficam bem distantes do avião e matam traiçoeiramente dois dos personagens, dois homens de caráter, um médico e um oficial do exército inglês, pessoas cuja morte comove quase todos os remanescentes, e o espectador também.

No filme moderno, a presença feminina ocorre ostensivamente, na pessoa de uma engenheira de petróleo, uma jovem sem muitos encantos, e de influência discreta nos acontecimentos.No filme antigo, a mulher aparece de dois modos incisivos, um virtual, profundamente patético.Trata-se da esposa de um passageiro, um técnico, um pobre operário em perfuração de poços, que fora mortalmente ferido na queda da aeronave.Todos imaginamos aquela oculta presença, em certa distante e pequenina cidade da Europa, e acompanhamos a terrível angústia do marido moribundo. O outro modo, bem visível na tela, é o de uma erótica dançarina do ventre, vista na ilusão de um dos passageiros, justamente o de pior caráter do grupo, uma visão criada pela insolação e pela luxúria.

O fundo musical do filme antigo conta com a participação da voz doce e romântica de Connie Francis, entoando bela canção italiana (“Cominciamo ad amarci questa sera”), ouvida no radinho de pilha que, em certo instante, é entregue ao passageiro ferido, um pequeno consolo para as suas duas grandes dores.

Não precisamos falar sobre o sério desempenho de James Stewart e de Richard Attenborough. Quanto a Hardy Krüger, ele é muito mais convincente no papel do homem que, contra tudo e contra todos, vai teimosamente dirigir a reconstrução do “Fênix”.
Em resumo, existe muito mais poesia e dramaticidade no filme antigo.Quem o produziu queria ganhar dinheiro, sim, mas queria também fazer uma obra de arte, e não apenas gerar um filme com lucro garantido.

Ora, “mutatis mutandis” (e coloquemos “mutandis” nisso), ocorre uma análoga queda de qualidade quando comparamos os ensinos do Primeiro e do Segundo Grau de hoje e de cinqüenta anos atrás em nosso país.O velho Grupo Escolar e o velho Ginásio eram repletos de beleza e poesia; ensinava-se e estudava-se com maior ingenuidade. Aquelas escolas não estavam minadas pelo apressado pragmatismo que hoje coloca na pobre cabeça das crianças e dos adolescentes uma quase doentia obsessão pelo passar no vestibular.

Caiu também – e como – a qualidade litúrgica de nossas missas. Caiu o padrão da maioria de nossos políticos.

Pois é, precisamos reconstruir urgente o nosso avião, fazer com que ele se erga das cinzas da mediocridade, e pior, da mediocridade satisfeita consigo mesma.
Perdoem meu desabafo...


posted by ruy at 3:34 da tarde

6.9.05

 





Imprescindíveis hierarquias


Nós católicos não costumamos refletir sobre a curta oração que fazemos na missa pouco antes de comungarmos o Corpo do Senhor, aquela prece que diz:
- Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbo et sanabitur anima meam (“Senhor, não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma será curada”, infelizmente traduzida de outro modo no folheto que é distribuído nas igrejas do Brasil...).

Lembremos que a frase baseia-se na que foi dita por um centurião, um oficial romano, ao pedir que Jesus lhe curasse um servo que estava bem doente.Aquele militar pagão, depois de fazer o dramático pedido, acrescentou:
- pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz. [Mt., vs 8,9]

Pois é, há milênios que a profissão militar se estrutura sobre os fundamentos da hierarquia e da disciplina. Para um observador desatento pode parecer que esse conceito de hierarquia seja de uso exclusivo no meio militar.Para esse superficial observador, o respeito a hierarquias seria algo que rima apenas com uma indesejável perda de liberdade.Acontece que existem de fato hierarquias outras, imprescindíveis, fora dos ambientes castrenses.Vejamos algumas delas.

Nossa vida em sociedade, mormente na sociedade moderna, exige um fantástico número de profissões, desde as mais humildes, mais prosaicas, até as mais exigentes no que toca ao preparo dos respectivos profissionais.Essa miríade de atividades cria permanentes relacionamentos e mantém uma constante troca de serviços entre todos as pessoas da sociedade.Bem, essa realidade não causaria nenhum problema, muito pelo contrário, se a sua dinâmica moderna não estivesse impregnada pelo que se chama funcionalismo, essa atitude de quem vê no seu próximo apenas um outro funcionário , um simples membro da agitada colméia humana.Até mesmo os membros de uma mesma família, sem perceber, acabam aderindo a esse estado de espírito, que é uma das melancólicas facetas da “louca disparada pra frente”.O que está faltando?

Falta dar à poesia, no sentido lato desta palavra, o lugar de preeminência a que ela faz jus.Precisamos descobrir, ou redescobrir, essa necessária hierarquia que dá ao poético um lugar acima do pragmático Precisamos reencontrar poeticamente nosso próximo, a começar por aquele que vemos ao olhar diretamente no espelho.

Pessoas normais sabem perfeitamente que existem leis morais. Inscritas no coração do homem, são leis universais, não dependem de raça, de situação social nem de grau de escolaridade; são reconhecidas por pessoas que praticam essa ou aquela religião, são aceitas por descrentes.São tais leis que tornam razoável e justo o geral protesto contra a volumosa corrupção que infelizmente tem sido detectada em nosso país.

Ora, a moral só tem real consistência quando balizada por um critério supra-moral. Caso contrário, ela tende a se degenerar em moralismo.Por exemplo, se nos encresparmos diante de problemas ligados ao sexo, sem nunca pararmos para meditar no profundo mistério que está inserido nuclearmente no binômio homem-mulher, ficaremos distantes da inteligente reverência que é sumamente desejável diante desse mistério. O mistério jamais a exclui, porém está acima da moral

Como final amostra de uma imprescindível hierarquia, falemos agora sobre a religião. Pessoas religiosas , de qualquer religião, correm o permanente risco de se tornarem “boring people”, maçantes, cansativas.Com absoluta certeza podemos afirmar isto: o Cristo, Nosso Senhor, não foi um “boring”. Quando sua Mãe lhe pediu que fizesse aparecer mais vinho nas bodas de Cana, o vinho que alegra o coração do homem, Ele adiantou o Seu tempo e fez Seu primeiro milagre.

“Praticar” a religião não deveria ser pretexto para esquecermos de viver, de viver com alegria. Ir regularmente à missa é bom. Entretanto, nossa vida precisa ser vivida com alegria, com profunda alegria, com a certeza da presença silenciosa do divino.Essa constante e vital – e “religiosa“ - alegria precisa estar em posição hierarquicamente superior à simples “prática religiosa”.


posted by ruy at 4:35 da tarde

 

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