Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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21.8.05

 


Complemento ao “post” de ontem


Logo no início do empolgante livro a que me referi ontem (“Alem do Fim do Mundo – A aterradora circunavegação de Fernão de Magalhães” – Laurence Bergreen, tradução editada pela OBJETIVA), tomamos conhecimento da vida agitada e repleta de intrigas de Fernão de Magalhães e de como e por que ele, naturalizando-se espanhol, com o nome Hernando de Magallanes, acabou conduzindo navios de Espanha na maior façanha náutica do século XVI.

Sem precisar ir aos detalhes, minuciosos no livro, podemos logo perceber um fato de nuclear importância, a agressiva rivalidade que existia entre aqueles dois reinos do Mediterrâneo ocidental.Disputando inclusive o apoio do papado, os dois monarcas já prenunciavam os irritados nacionalismos que iriam futuramente agitar a Europa e o mundo.E cada um desses reis mostrava, claramente, possuir um poder maior que o que estivera nas mãos dos reis medievais.Esse aumento de poder iria crescer, através dos séculos, em todos os governantes do planeta, até chegar aos atuais poderosos presidentes das repúblicas ditas democráticas (os modernos ditadores, em fanático retrocesso cultural, reeditam, por sua vez, os tiranos da antiguidade pagã).

Levando em conta, pois, essa real e incômoda presença do Estado moderno, poderíamos pensar que a crítica de E.F.Schumacher à “louca disparada pra frente” atinge exclusivamente os chefes de Estado, os homens que tomam a grandes decisões.Antes fosse...O pior dessa longa evolução política, iniciada ao apagar-se o brilho da Idade Média está no fato de que as sociedades, as pessoas também passaram a viver no mesmo ritmo de seus governantes.As famílias, mesmo se dizendo cristãs, mesmo se afirmando católicas, acabaram entrando naquela disparada , tanto mais despercebida quanto mais os fantásticos recursos da medicina moderna acenam com um enganoso prolongamento da vida biológica média do ser humano, do ser que foi criado para a eternidade.

É muito fácil condenar nossos políticos, quaisquer que sejam seus partidos, quaisquer que sejam suas filosofias de vida. Creio que deveríamos, antes, prestar mais atenção nos homens que têm por missão lembrar-nos a nossa vocação intemporal.Por exemplo, ontem à noite, vendo o noticiário na TV, de repente, com desprazer, vejo e escuto o senhor presidente da CNBB discorrendo, muito circunspeto, sobre sua opinião a respeito de uma necessária reforma eleitoral.

Ora, senhor bispo, com todo o respeito que seu estado religioso merece, digo-lhe que a crise atual trouxe como inesperado benefício o fato de podermos acompanhar ao vivo pela TV o trabalho dos senhores deputados e senadores, ficando nós – os eleitores – em condições de avaliar o peso intelectual e a substância moral dos nossos representantes.Estamos podendo ver e ouvir aqueles que desejam tais reformas.Desses homens é que esperamos de fato escutar a palavra especializada no assunto.

Dos senhores bispos gostaríamos de ouvir um outro tipo de discurso, aquele que nos fizesse parar nossa individual “louca disparada pra frente”, que nos fizesse gostar de ouvir Debussy e Dvorac; que nos fizesse apreciar a leitura de Chesterton e Machado de Assis, que nos fizesse estudar muito mais pelo amor à sabedoria do que pelo telúrico desejo de ser um bem sucedido na vida; que nos fizesse ir á missa para encontrar, sobretudo, o bom silêncio que facilita o encontro com DEUS. O silêncio que o mundo atual raríssimas vezes nos propicia.

Chega de ouvir ruidosas e ridículas palmas dentro de nossas igrejas.


posted by ruy at 12:48 da tarde

20.8.05

 


A pergunta de São Judas Tadeu


Quase no final de seu livro “Small is Beautiful”(traduzido no Brasil sob o título “O Negócio é Ser Pequeno” ), o economista E.F.Schumacher aponta o que ele considera o grave problema da civilização moderna, a saber, a louca disparada prá frente .Mal grado nossos inegáveis progressos científicos e tecnológicos, nós modernos estaríamos vivendo desde o século XIX um processo de desumanização, nele incluídas as nossas conhecidas agressões ao meio ambiente.

Ora, acabo de tomar conhecimento de um livro, escrito pelo jornalista americano Laurence Bergreen, intitulado “ Além do Fim do Mundo”, com o sub-título A aterradora circunavegação de Fernão de Magalhães .Lendo em diagonal, naquela primeira leitura que Mortimer Jerome Adler (em sua clássica obra “Como ler um livro”) chama de leitura inspecional I , de repente me dou conta de que a “louca disparada prá frente” talvez tenha mesmo começado no século XVI, no século das chamadas Grandes Navegações.

O livro de Bergreen com certeza vai atrair a curiosidade irreverente dos possíveis leitores que gostam de se informar sobre os detalhes escabrosos dos fatos históricos.Tais leitores provavelmente vão passar ao largo do significado profundo, distantes da síntese interpretativa desses fatos.E se esses mesmos leitores já iniciaram a leitura, por exemplo, trazendo em suas mentes velhos preconceitos contra a religião, contra o cristianismo e contra a Igreja, muitas vezes ao longo daquelas páginas vão encontrar bons pretextos para manter antigas e arraigadas opiniões.

Acontece que a primeira viagem de circunavegação deste planeta ocorreu em época culturalmente já bem distante daquele maravilhoso espírito infantil que o historiador judeu Egon Frieddel, com feliz acuidade, conseguiu perceber na Europa medieval (por favor, não confundamos espírito infantil com infantilismo; uma civilização que ergueu as magníficas catedrais de pedra e escreveu a Suma Teológica na pode ser acusada de infantilismo).

Sempre que falamos ou escrevemos com simpatia sobre a Idade Média corremos o risco de passarmos por teimosos saudosistas, alheios à dinâmica evolução da vida humana neste mundo.Ora, a simpatia que sinto pelo Medievo não me impede, por exemplo, de enxergar o misterioso respeito que DEUS tem pela liberdade humana. O Cristo não fez planos super elaborados para o progresso civilizacional dos povos, nem planejou meticulosas transformações sociais.Quem costuma fazer planos desse tipo são os governantes totalitários, de Esquerda ou de Direita.

Pois bem, da mesma forma que DEUS misteriosamente, em todas as épocas, respeita o livre-arbítrio do homem, também misteriosamente, ao longo dos séculos, escolhe determinadas pessoas, chama certos homens e mulheres, apesar das circunstâncias tantas vezes adversas em que vivem esses chamados por Ele.É esse mistério que me leva a terminar este item do “post” quase como quem faz um desabafo.

Penso que o grau, e mais que o grau, a qualidade da adesão de um batizado, em especial de um católico, à fé cristã só pode ser mesmo aferida pela pessoa no instante em que ela, havendo percebido, de repente, o íntimo mistério do seu pessoal chamado, solta do íntimo de seu coração esta pergunta que, provavelmente, ficará sem resposta, a mesma pergunta de São Judas Tadeu ( que também ficou sem resposta):
- Por que eu, Senhor?


São Bernardo


Hoje, 20 de agosto, dia de São Bernardo, um santo bem representativo da Idade Média. Muitos católicos não gostam dele, mas isso não impede que ele seja admirável, mormente por sua piedade Mariana. Basta lembrar a belíssima oração a Nossa Senhora feita por Bernardo: Memorare (“Lembrai-vos”), modelo de confiança filial.

Lembrai-vos
Lembrai-vos, o’ puríssima Virgem,que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm a vós recorrido, implorado a vossa proteção, reclamado o vosso socorro, fosse por vós desamparado.
Animado, pois, com essa confiança, como Mãe recorro e de vós me valho e gemendo sob o peso dos meus pecados me prostro aos vossos pés.Não desprezeis as minhas súplicas, o’ Mãe do Filho de DEUS humanado, mas dignai-vos de as ouvir propícia e alcançar o que vos rogo.
Amen.




posted by ruy at 2:34 da tarde

15.8.05

 




A repentina descoberta de um poeta


Carlos Lacerda foi o que se costuma, ou se costumava, chamar, “um grande tribuno”.E não apenas um vigoroso tribuno, alguém cuja eloqüência era capaz de inflamar um auditório repleto de admiradores ou de provocar a ira de adversários políticos que ali também estivessem presentes. Foi o que se denomina “um intelectual engajado”, um ardente defensor das causas públicas em que acreditava.

Para iniciar este “post” com um pouco de bom humor, vou lembrar um fato ocorrido quando Lacerda era deputado federal na antiga Câmara, no tempo em que o Distrito Federal ainda estava junto à Baía da Guanabara.

O bravo deputado estava a discursar diante de seus pares quando, de repente, chega atrasado Leonel Brizola, um seu ferrenho opositor sem papas na língua. Brizola entra, senta-se e logo em seguida, em voz bem alta, para que todo o plenário escute, faz este comentário: tudo o que Vossa Excelência disse entrou por aqui [mostrando o ouvido direito com o dedo indicador] e saiu por aqui [mostrando o ouvido esquerdo]. Lacerda, sem se perturbar, retruca de imediato:
- Vossa Excelência acaba de dizer uma inverdade, já que – como todo mundo sabe - o som não se propaga no vácuo.

No fatídico ano de 1954 – que para mim marca uma virada histórica no Brasil – Lacerda escapou de morrer em um planejado e covarde atentado, de que resultou a morte do Major da Aeronáutica Rubem Vaz..Nas investigações que se seguiram ficou comprovada a existência de uma sombria rede de corrupção, a que o próprio presidente Vargas – surpreendido com as revelações – chamou de “mar de lama”. De fato, a maior autoridade do país lamentavelmente ignorava o que se passava ao seu redor.

O povo brasileiro, em sua quase totalidade, posicionou-se a favor de Lacerda, ficou contra os assassinos e contra a corrupção. Infelizmente, no dia 24 daquele mesmo agosto de 1954, Getúlio sai do Catete por meio de um ato insano, fato que três ou quatro anos depois levaria certo escritor francês a escrever um artigo com este sugestivo título: “Du suicide comme acte politique.” De fato, aquela triste maneira de deixar o poder perturbou o modo de pensar de milhões de pessoas simples, pessoas sensíveis porém desprovidas da necessária maturidade para analisar de modo correto os fatos políticos. Até hoje estamos colhendo os frutos do infeliz equívoco que essas pessoas cometeram.

Vamos deixar a política de lado por um instante para tratar do principal assunto deste “post”.Ontem à tarde, ao findar o Dia dos Pais, uma de minhas filhas e seu marido vieram à minha casa trazendo-me de presente um livro, um livro sobre o qual há tempos eu já tivera rápida notícia, porém, infelizmente na ocasião não movi-me a comprá-lo. Trata-se de uma coleção de crônicas , chamemos assim, de Carlos Lacerda, obra por ele intitulada – com muita felicidade – “A casa do meu avô”.

Pois bem, as orelhas do livro trazem referências elogiosas feitas por vários conceituados escritores, incluindo entre eles o nosso indiscutível mestre Carlos Drummond de Andrade.Ora, pouco depois de iniciar a leitura, depois de ler várias páginas, fui alegremente surpreendido por uma faceta de Carlos Lacerda que eu desconhecia, a de um poeta, um legítimo poeta, no sentido mais amplo e mais autêntico dessa palavra.Um poeta de grande cultura e não menor sensibilidade.Vejamos uma pequena amostra ( op.cit., pg.14).

Há em tudo uma explosão de amor contida, proibida. Em cada um existe essa parte intocada, essa reserva que não vem sempre de aceitação e beatitude, mas de sinais que uma vez recebidos imprimem caráter, deixam marcas definitivas – dessas que em vão se procura apagar, mas reaparecem.Azuladas tatuagens da memória.
Disto me lembro na paisagem das últimas neblinas e no primeiro pássaro que canta no verde constante dos pinheiros alpinos. É um bafo quente de infância que me vem da beira lamacenta do Paraíba, do maciço azul do céu, do destroçado perfil daquela casa, do vulto do meu Avô.Tenho pena dos que não tiveram um Avô.Esses bem cedo ficam adultos.Assim, tardam muito a descobrir o país da infância.


E agora, amigos, peço que me perdoem por retornar à política. Um dos aspectos que mais me machucam na crise por que estamos passando é o que se relaciona com a grossura e/ou a truculência dos protagonistas, é a generalizada falta de senso poético dos personagens da tragicomédia. Dói olhar e não ver, no cenário que nos rodeia, uma única pessoa com a grandeza humana de um Carlos Lacerda. .


posted by ruy at 2:46 da tarde

 

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