Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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30.7.05

 


Democracia e oclocracia


Faz poucos dias, numa reunião de professores da qual eu participava, levantou-se uma dúvida sobre o significado da palavra prístino (no Aurélio podemos ler: “prístino - adj., prisco, antigo, relativo a tempos antigos” ).
Creio que as nações civilizadas tenham em seu idioma um vocabulário bem rico, tanto mais rico quanto maior for o grau de civilização do povo que usa a referida língua.
Ora, a palavra prístino tem, para mim pelo menos, uma sonoridade agradável.O mesmo não podemos dizer do esquisito vocábulo oclocracia que, em português, tem o mesmo significado da palavra inglesa mobocracy , a saber, governo da populaça, governo da multidão.

Nestas duas ou três semanas mais recentes, certo notório político brasileiro e seus companheiros de partido têm usado e abusado da palavra “elites”, emprestando ao termo um sentido pejorativo.Pois bem, esses declarados inimigos das “elites” são os mesmos que há muitos anos se apresentam como exaltados defensores da democracia.Esse é um excelente exemplo do ponto a que chega a ignorância obtusa ou o cinismo maquiavélico de muitos de nossos políticos. Por quê?

A resposta a esta pergunta pode ser achada em muitos autores os quais, há séculos, vêm estudando com seriedade as diferentes formas de regimes políticos.Um desses autores é Aléxis de Tocqueville, o genial francês que escreveu, no século XIX, o magnífico, o profético ensaio a que chamou “A Democracia na América”. Com muitos desses respeitáveis pensadores podemos aprender que a forma democrática de governar é, sem dúvida alguma, a mais difícil, a mais exigente quanto ao seu exercício perfeito e, entre as condições necessárias à sua realização plena, isto é, necessárias à sua passagem eficaz da teoria à prática, está a presença de elites, homens de larga cultura e cuja inteligência tenha amadurecido durante muitos anos de estudo e reflexão, homens que se mantenham, de certa forma, nobremente afastados das preocupações telúricas e rotineiras das pessoas comuns.Homens que se recusem a praticar o jogo fácil e grosseiro da demagogia.

Um fato melancólico acontece com lamentável freqüência. Muitas pessoas que se opõem – com razão – aos demagogos detratores das “elites”, costumam ser tolerantes com uma generalizada mediocridade, observável, por exemplo, nos currículos de todas as nossas escolas de Primeiro, Segundo e Terceiro Grau; observável na ausência de programas artísticos de bom nível colocados ao alcance do grande público(um falecido amigo meu contava que certa vez ele viu, em uma pequena cidade alemã, o povo reunido em praça pública ouvindo, em respeitoso silêncio, um concerto de música erudita (essa que se costuma chamar de “música clássica”).

Ora, se quisermos realmente, meus amigos, que neste país cresça uma real democracia e não uma triste oclocracia , não basta ficarmos na posição defensiva, criticando – com razão – os pérfidos demagogos que nos irritam. Precisamos muito mais que isso.Precisamos, todos os dias, em todas as horas, divulgar a beleza, o bom gosto, o apreço pela boa literatura. Precisamos levar a sério a correção da linguagem falada e escrita. Precisamos difundir o habitus da leitura de livros (bons livros, é claro). Precisamos incentivar os nossos adolescentes a não serem bobocas imitadores dos modismos.Precisamos estimular (por que não?) nossos paroquianos mais moços a conhecerem e apreciarem o canto gregoriano, a milenar música da Igreja.

É mesmo difícil construir uma verdadeira democracia.


posted by ruy at 12:35 da tarde

29.7.05

 


Um quase despercebido efeito da atual crise política


Faz alguns dias João Ubaldo Ribeiro publicou um ótimo artigo (“O que é isso, companheiro?”- in O Globo, 24/jul/05) cujo tema é o mesmo de muitos outros textos publicados por dezenas, talvez centenas, de jornalistas que têm, em relação à atual crise, a mesma posição assumida pelo bem inspirado e bem humorado escritor baiano.Entretanto, o que mais me chamou a atenção no referido artigo não foram observações específicas feitas sobre os fatos que vêm ocorrendo no congresso nacional, observados nas TV’s (com ênfase na própria TV do senado e da câmara) e analisados nos jornais do Brasil. Foi, sim, um ponto focalizado por João Ubaldo logo no início do artigo e que merece nossa particular reflexão.

Deixemos o próprio escritor falar:

Já é comum escreverem-se ensaios polissilábicos sobre como a massa de informação que nos bombardeia e nem temos tempo de pensar direito. E a tecnologia, cada vez mais célere, torna tudo obsoleto de um dia para outro.Consumimos novidades, não queremos senão novidades, tudo envelhece em poucos dias, às vezes horas.O massacre de ontem hoje não mais interessa e a corrupção denunciada hoje cansa, se repisada amanhã. Tudo, até a notícia, virou uma espécie de mercadoria e o consumidor quer o último lançamento.

Este comentário de João Ubaldo fez-me lembrar um artigo do escritor americano Daniel J. Boorstin, cuja tradução foi publicada em dezembro de 1982 pela revista Seleções (“ O homem atualizado não sabe de nada”). Em certo trecho desse artigo escreve Boorstin:

Há uma inflação de que ninguém fala e que dispersa a nossa mente. Chama-se “informação”. De manhã à noite, a informação inflaciona o nosso espírito, enche o nosso cérebro e impede-nos de refletir sobre os problemas do nosso tempo. Na TV e no rádio, nos jornais da manhã e nas leituras por computador, inconsistentes “pedaços” de informação inundam-nos e confundem-nos. Este dilúvio de mensagens daqui e dacolá acaba preenchendo cada recanto do nosso consciente e simplesmente expulsa o conhecimento e a compreensão.

Note bem, leitor amigo, esta frase: “De manhã à noite, a informação inflaciona o nosso espírito, enche o nosso cérebro e impede-nos de refletir sobre os problemas do nosso tempo.”
Esse é o ponto crucial do problema, a ausência de reflexão.Por não existir esse desejável exercício da nossa inteligência, deixamos de ir às raízes profundas da crise.Agitados pela compreensível emoção, perturbados pela nossa raiva diante de tantas ofensas ao Bem Comum, cometidas com maquiavélico cinismo, esquecemo-nos da longa cadeia histórica que, iniciada no apagar da Idade Média, acabou trazendo para os tempos modernos aquelas que Chesterton – com genial perspicácia – chamou de idéias cristãs enlouquecidas

A contagem cronológica do tempo em nossa civilização ocidental tem sua origem no aparecimento de um homem chamado Jesus, um pregador religioso que afirmou de si próprio Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida .Para nós cristãos esse homem é o próprio DEUS encarnado, o DEUS que mantém, ao longo dos séculos, um profundo, um misterioso respeito pela liberdade humana.Os crimes mais bárbaros, as guerras mais absurdas e mais sangrentas, as corrupções mais nefastas – tudo isso que nos deixa perplexos está inserido no tapete bordado pelo divino tecelão. Só Ele conhece o definitivo desenho de sua obra, que estará terminada no fim dos tempos.



posted by ruy at 7:15 da tarde

 

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