Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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17.7.05

 


O trigo e o joio


Faz poucos dias, cumprimentando um jovem leitor amigo por haver ele conseguido comprar os dois volumes do magnífico ensaio DOIS AMORES, DUAS CIDADES, do grande pensador brasileiro que foi Gustavo Corção, fiz algumas digressões sobre a memória .Não escrevi novidades, apenas citei o que as Introduções à Filosofia didaticamente nos ensinam no capítulo referente à Psicologia, a saber, que todos os animais, racionais ou não, possuem a chamada memória sensível , porém, nós, os humanos, possuímos também a memória intelectual .E aí eu disse, ao meu amigo C..., que o fato de existir essa memória intelectual é que confere uma eminente importância ao conhecimento histórico.Se a lembrança não me trai (como dizem os gaúchos, abrindo bem o /a/), foi o mesmo autor do DADC quem teria escrito isto: “minimizar o passado é próprio dos bárbaros e dos imbecis”.

A contagem cronológica é feita a partir de um fato histórico , a presença de um homem chamado Jesus que viveu neste mundo durante trinta e três anos, tendo morrido de morte ultrajante e violenta pelas mãos de soldados do império romano.Durante mais de vinte séculos, milhões de homens e mulheres vêm afirmando que aquele homem era e é o próprio DEUS encarnado, e entre essas milhões de pessoas uma incontável multidão afirma ainda que existe uma instituição chamada Igreja, ao mesmo tempo intemporal e visível, fundada pelo mesmo Jesus, e cuja missão é gerar e ensinar (“Mater et Magistra”) filhos destinados a um Reino supra temporal .

Na missa a que assisti hoje de manhã, na capela de um colégio próximo de casa, o celebrante, comentando a parábola do trigo e do joio, lembrava em sua homilia o fato misterioso do respeito que DEUS tem pela liberdade, isto é, pelo livre arbítrio humano, uma essencial característica nossa que se manifesta ao longo do tempo, nosso irmão tempo, co-criado conosco.

Faço estas preliminares considerações pensando, sobretudo, nos leitores católicos deste “blog” que possuem um bom nível de escolaridade e, por isso mesmo, parece-me que sejam moralmente obrigados a usar sua faculdade intelectual de modo a se entusiasmarem (é isso mesmo: entusiasmar-se), a meditarem extasiados sobre a misteriosa corrente histórica que vem desde aquele distante início na milenar Ásia Menor, bem próximo do Mediterrâneo, passa pelo “grande brilho medieval”, espalha-se pelos outros continentes, assiste a terríveis guerras mundiais e hoje, em paralelo com ameaças de enlouquecidos terrorismos, observa com melancólica perplexidade insolentes passeatas a favor do aborto e do “casamento” (...) entre homossexuais (absurdamente chamados “gays”, uma abjeta ofensa à radiosa palavra alegria ).

É por tudo isso que me alegrei muitíssimo quando o meu jovem amigo leitor informou que já possui aquele magnífico livro.Se esse leitor fizer com a devida atenção a leitura dessa maravilhosa obra, vai entender melhor, com toda a certeza, a parábola do trigo e do joio.É lamentável que a maior parte dos bispos e padres brasileiros tenham cometido a mesquinha injustiça de boicotar um ensaio histórico que tem tanta sabedoria para ensinar aos católicos deste país.

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posted by ruy at 7:20 da manhã

16.7.05

 



A educação cristã


É muito provável que a maior parte dos poucos visitantes do DD, ao lerem o título deste “post”, imediatamente associem-no com a imagem de um colégio confessional, uma escola católica ou protestante (luterana, presbiteriana,batista, metodista ou outro grupo cristão mas não ligado à Igreja ).Pode acontecer também que, ao começar a leitura do “post”, um eventual leitor, diante do mesmo título, imagine uma família, por exemplo, católica que batizou os filhos na Igreja e cuida para que eles não percam a missa dominical, não vejam filmes abjetos na TV e procura matricular as crianças, se as condições permitirem, em um tradicional colégio católico. Pois bem, qualquer destas possíveis atitudes do leitor incide em um equívoco.Resta-me explicar por quê.

Ao escrever lá em cima a palavra educação o Ruy estava mesmo ligado à concepção de Mortimer Jerome Adler.Um dos lúcidos textos deste insigne pensador americano tem como título exatamente este Schooling is not education , “Escolaridade não é educação”. Ali escreve escreve Adler:

Há mais de 70 anos, um princípio básico de minha filosofia educacional tem sido o reconhecimento de que ninguém jamais foi (e jamais será) educado na escola ou na universidade. Isto seria verdade mesmo que nossas escolas e universidades fossem perfeitas, o que certamente não são, e mesmo que os alunos estivessem entre os melhores e mais brilhantes, além de conscienciosos na aplicação de seus poderes.
O razão é simplesmente que a própria juventude, a própria imaturidade, constitui um obstáculo insuperável para a educação.


A escolaridade é para os jovens. A educação vem mais tarde, em geral muito mais tarde. O melhor que nossas escolas têm a fazer é preparar os jovens para o aprendizado contínuo, oferecendo-lhes os instrumentos do conhecimento e o amor ao conhecimento. Nossas escolas e universidades não estão fazendo isto no momento, mas é o que deveriam estar fazendo.

Neste instante peço ao amigo leitor que volte e releia as afirmativas “adlerianas” e depois continue a leitura deste “post”.O mesmo pensador, em uma entrevista concedida a Max Weismann, um intelectual seu amigo, afirma também que “apenas adultos podem ser educados”.Citemos um trecho dessa desafiadora entrevista:

A palavra "educação" assumiu um significado tão restrito que se tornou enganador. Quando a maioria das pessoas pensa em educação, tende a pensar no desenvolvimento dos filhos e não no seu próprio desenvolvimento; pensa no aprendizado na escola e não fora da escola. Uma grave conseqüência deste fato é que a expressão "educação de adultos" é freqüentemente mal compreendida. Como pensamos na educação como algo praticado principalmente com jovens e na escola, a "educação de adultos" é encarada como uma coisa anormal, algo em que você pensa geralmente para os outros, se é que pensa, e não para si próprio.

Note bem leitor o adjetivo “grave”, grave conseqüência , usado pelo próprio Adler.E note também como, logo ao começar a responder ás primeiras perguntas de Weismann, o entrevistado expõe de modo claro e sintético suas idéias fundamentais sobre o tema da entrevista.Em outro trecho do texto anteriormente citado (“Escolaridade não é educação”), lemos o seguinte:

Apenas a pessoa que compreende que a idade madura é a época de obter a educação que nenhum jovem está em condições de adquirir está finalmente no verdadeiro caminho do saber. O caminho é íngreme e acidentado, mas é um caminho nobre, aberto a qualquer um que tenha capacidade de aprender e que busque a meta final de todo aprendizado: compreender a natureza das coisas e o lugar do homem no universo.
Uma pessoa educada é aquela que durante a vida assimilou as idéias que o tornaram representante de sua cultura, que o tornaram um portador de suas tradições e lhe permitem contribuir para o seu aperfeiçoamento.


Bem, aproveitando a palavra final do parágrafo anterior (“aperfeiçoamento”), tento agora explicar o segundo termo do título deste “post” (“A educação cristã”).Ao escrever “educação cristã”, pensei em um continuado processo de descoberta, que deveria ser bem comum entre nós cristãos, mormente entre nós católicos. Descoberta do quê? Descoberta essencial do mistério da existência, do maravilhoso, estonteante mistério do ser .As nossas atitudes éticas deveriam ser conseqüência desse assombro nosso.

O leitor que vem freqüentando este pequeno oásis já deve ter reparado nas várias vezes em que cito o livro “Ecos Eternos”, de John O’Donohue. Ora, o que esse lúcido irlandês expõe é mesmo um forte convite à nossa descoberta do mistério e, com essa descoberta, despertarmos para uma vital alegria. Não é um convite moralista ; é, sim, um convite para descobrirmos a silenciosa - e amorosa - presença de DEUS, uma descoberta íntima que deve continuar até o último segundo nosso neste mundo visível. Fechemos este “post” com outra citação de Adler, tirada de um dos três únicos livros dele que foram traduzidos no Brasil (“A Proposta Paidéia – um manifesto educacional”):

Enquanto se está vivo, a aprendizagem pode e deve prosseguir.O corpo não continua a crescer após os primeiros dezoito ou vinte anos de vida. Na verdade, começa a declinar após esse período.Mas, o crescimento mental, moral e espiritual pode e deve continuar por toda a vida.
[grifo meu]


posted by ruy at 12:37 da tarde

12.7.05

 




Sobre a imprescindível função de “rezar por”


[Se a memória não falha, acho que já escrevi sobre o tema, mas, ele é tão importante que merece ser abordado muitas vezes].

É bastante comum ouvirmos a expressão “vou rezar por você!”, expressa muitas vezes com a errada preposição “para” ( “para você” ). Essa frase é dita quando um parente ou amigo nosso vai viajar para um local distante, ou vai passar por uma cirurgia mais ou menos delicada, ou quando um neto nosso vai fazer exame vestibular ou prestar concurso para um cargo público, ou ainda quando uma pessoa amiga está para enfrentar um espinhoso processo judicial..Nesses casos, os entendidos costumam chamar essa oração de “prece”, oração de pedido. Fazemos uma prece a DEUS em favor da pessoa a quem desejamos um bem legítimo.

Haverá quem diga que esse tipo de oração seja menos nobre que a oração de louvor . Talvez seja, porém, pergunto, no ato de reconhecer a protetora onipotência divina não está implícita uma forma de louvar a DEUS? Creio que sim. Entretanto, não é a nenhum desses dois tipos de oração que estou me referindo no “post” de hoje.Vamos explicar de que se trata.

Tem sido muito comum entre nós católicos, infelizmente, darmos uma exagerada ênfase ao ethos em paralelo com um quase esquecimento do logos.Trocando em miúdos, ao analisarmos os diversos problemas que nos preocupam, e às vezes nos angustiam, sejam eles problemas familiares, sejam problemas profissionais ou políticos, analisamos, interpretamos esses problemas apenas à luz da moral.É raro, infelizmente, nos darmos conta da silenciosa presença do mistério em nossa vida.Em geral, nossas análises, nossas interpretações dos fatos são simplificadamente cartesianas , assim como na fria matemática: “ x + y = z, logo...” Nada melhor do que um exemplo para ir ao núcleo da questão. Vamos lá!

É raro encontrarmos uma família em que não exista um membro a quem se aplica o adjetivo “problemático”.Admitamos que o uso dessa qualificação seja feito com um mínimo de falta de caridade.Menos mal.Ora, a presença dessas pessoas-problemas deveria armar para nós um desafio, o de usar firmemente nossa imaginação para fazermos aos nossos botões esta amadurecida pergunta:
- ainda que eu possa fazer um rol de todas as circunstâncias que acabaram predispondo Fulano (ou Fulana) a ser uma pessoa problemática, isso explicaria cabalmente por que ele (ou ela) é daquele jeito?

Talvez haja maior falta de caridade em deixar de fazer esta pergunta do que em aplicar o antipático adjetivo em alguém.

Bem, e daí? - pergunta o leitor. Daí é que surge uma imprescindível “função” (se é lícito usar um termo tão burocrático para tratar de assunto tão pungente), a função de “rezar por”, isto é, rezar no lugar de alguém; rezar como essa mesma pessoa rezaria se tivesse tido as graças que nós recebemos; fazer um pedido que essa pessoa faria a DEUS se estivesse ela mesma consciente de sua pobreza, ou de sua miséria. Rezar por essa pessoa sem que ela talvez nunca venha a saber que o fizemos.

Estivemos falando sobre um eventual parente “problemático”, alguém a quem somos ligados por algum laço afetivo. Ora, o Evangelho é radical:
- Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos, e orai por aqueles que vos perseguem. (Mt 5,43-44).

No belíssimo “Poema do Cristão” há um instante em que Jorge de Lima, o saudoso poeta alagoano e universal, escreve estas palavras:

- Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado
.




posted by ruy at 4:04 da manhã

 

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