Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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10.7.05

 


Um equívoco persistente


Com tristeza tenho lido, em uma conhecida revista noticiosa, alguns artigos de um certo escritor possuidor de várias qualidades, incluindo entre elas a seriedade e o espírito patriótico, artigos esses que incidem em um lamentável, um persistente equívoco, que está implícito no teimoso e inadequado uso da palavra educação .

Já escrevi neste “blog” que os homens que em 1964 salvaram este país de transformar-se em um imenso “colégio interno” realizaram muitos frutíferos projetos, trazendo com isso indiscutível progresso econômico e social para o Brasil.Escrevi também que, infelizmente, os mesmos homens, talvez inspirados por um generoso desejo desenvolvimentista , cometeram o erro de não perceber o significado verdadeiro dos ensinos do Primeiro e do Segundo Grau, ensinos esses destinados essencialmente à formação da pessoa humana, e não voltados simplesmente ao treinamento de futuros vestibulandos, tudo se passando como se a maior parte dos jovens tivessem real vocação universitária (irrito-me – é isso mesmo: irrito-me - quando escuto alguém suposto bem informado falar tolamente em “universidade para todos”).

Tenho dois colegas de trabalho, um da minha idade e outro que deve ser uns vinte ou trinta anos mais moço que eu, ambos durante três anos moradores na França, em épocas diferentes, o que comprova uma continuidade pedagógica naquele país no que se refere ao fato contado por esses mesmos dois colegas e amigos meus. Segundo eles me contaram, lá, na milenar pátria de grandes santos, filósofos, poetas, pintores, compositores e cientistas, quando os professores do Primeiro e do Segundo Grau percebem que o menino não tem pendor para estudos superiores, chamam os pais da criança e dizem isso claramente, orientam a família no sentido de encaminhar o filho para uma profissão de nível médio, honesta e tão necessária à vida em sociedade quanto são necessárias a medicina, a advocacia ou a engenharia.

Ao agirem daquela forma, os sensatos mestres franceses evitam que os pais cometam o mesmo equívoco cometido durante muitos anos nos Estados Unidos e, por isso mesmo, tão criticado pelo grande pensador Mortimer Jerome Adler. Um dos muitos textos de Adler tem justamente este título “ Escolaridade não é educação” .

O mesmo filósofo, em brilhante e longa entrevista, comenta o fato de que somente adultos podem educar-se , quem se educa é a pessoa autônoma, é o homem não tutelado, pela família e/ou por uma escola.Esse real processo educativo não tem por mira o obsessivo -e execrável - vencer na vida . Tem, sim, como autêntico objetivo o crescimento da pessoa, crescendo ela como ser único e responsável, crescendo no seu interior.

O estilo de Adler é típico de um professor, é um estilo didático.Vale a pena lermos outros autores que escrevem sobre o mesmo tema usando diferente tipo de abordagem.Por exemplo, o bravo escritor russo Alexandre Soljenitsin no seu belo romance “O Primeiro Círculo” diz pela boca de um dos personagens:

- Todo mundo molda seu eu interior, ano após ano.
Devemos tentar temperar, podar, polir a alma a fim de nos tornarmos um ser humano


O processo educativo só termina quando damos o último suspiro.Em seu magnífico livro “Ecos Eternos”, o irlandês John O’ Donohue, na parte que trata da Ausência , escreve estas palavras sobre o que podemos chamar “um bom envelhecimento”:

Quando se envelhece, seria formidável ficar mais livre e natural.Freqüentemente, vemos pessoas idosas que atingiram essa graça.Embora o corpo esteja envelhecido, a sua presença é imponente e ligeira como a de um bailarino.De algum modo, elas compreenderam o mistério da verdadeira unidade.Elas estão em harmonia consigo mesmas. Essa unidade é o cerne de toda integração.


posted by ruy at 11:54 da manhã

9.7.05

 

Os dois Estados Unidos


Meu jovem leitor amigo C..., em sua mensagem que falava sobre a saída de Olavo de Carvalho do jornal O Globo, transcreveu os seguintes comentários do citado jornalista:

Vou hoje a Virginia Beach para ver a queima de fogos, os concertos de bandas, a alegria nacional de um país que tem amor-próprio e razões para isso. A diferença entre os EUA e o Brasil começa aí: naquele, a festa mais popular é o Dia da Independência; neste, a baderna geral que celebra a fuga às obrigações, a abdicação da realidade. São galáxias de distância entre um patriota com bandeira na mão e um folião bêbado vestido de baiana.

Tais comentários fizeram-me lembrar de um livro que li em minha mocidade, “Bandeirantes e Pioneiros”, de Vianna Moog, e lembrar-me também de uma recente entrevista que o bem humorado escritor baiano João Ubaldo Ribeiro concedeu à revista Veja.
Moog e João Ubaldo, acadêmicos de diferentes épocas, cada um com seu estilo próprio, falam sobre a diversidade na formação histórica das duas nações, a brasileira e a americana. Referem-se às diferenças culturais, psicológicas dos homens que colonizaram o nosso país e dos que no século XVII desenvolveram as treze colônias do leste americano. O fato inegável é que lá, acima do Rio Grande (como se costuma dizer na América do Norte), a população, de um modo geral, adquiriu ao longo de quatro séculos um sentido de auto-estima, uma consciência da própria dignidade.Um ótimo exemplo disso é o belíssimo canto “América - the Beautiful”, belo na poesia e na música, um verdadeiro hino nacional do povo americano (sugiro aos leitores que procurem ouvir esse canto na Internet ).

Pois bem, em que pesem esses aspectos “positivos” da civilização americana, creio que seja possível distinguirmos naquela grande nação dois aspectos de certo modo opostos, tudo se passando como se ali houvesse de fato dois “Estados Unidos”. Um deles seria constituído pelo povo que há muitos anos vem mantendo um civilizado padrão de conduta, cuja inspiração profunda é religiosa, dando a este adjetivo um significado mais sério que o ligado à rotineira “prática religiosa”.Escute-se com atenção os versos do canto acima referido e então pode-se entender melhor sobre o que estamos falando.

O outro “Estados Unidos” é o formado pela classe política que desde a Independência vem governando o país.Faz alguns anos, passou pelos cinemas do mundo o filme “Independence Day”, uma história fantasiosa sobre a invasão da Terra por alienígenas. Durante o filme há um instante em que os invasores bombardeiam sem piedade o congresso americano.Contam os bem informados que, aos verem a referida cena, os espectadores sobrinhos do Tio Sam bateram palmas, aplaudiram o bombardeio.Mesmo descontando um provável exagero, esse episódio é bem característico (imaginem os leitores como seria recebida no dia de hoje, por muitos dos espectadores patrícios, uma cena semelhante envolvendo o congresso em Brasília).

Arrisco-me a afirmar que essa desagradável dicotomia é um dos efeitos melancólicos da doutrina Iluminista, esse corpo de idéias que serviu de base teórica não só para a independência Americana como também para a independência das demais nações do Novo Continente.


posted by ruy at 11:16 da manhã

8.7.05

 


“Prática religiosa” e Crença


Muitos de nós católicos que temos o hábito de cumprir o dever de assistir à missa dominical infelizmente deixamos de refletir sobre uma frase que pronunciamos pouco antes da comunhão.Não pensamos bastante sobre o fato de que o Domine, non sum dignus, ut intres sub tectum meum, sed tantum dic verbo et sanabitur anima meam (“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma será curada”) foi escrito a partir da frase que o centurião disse ao Cristo, ao pedir-lhe a cura de um servo que estava muito doente, quase a morrer.

Aquele oficial romano estava a serviço de um império cuja religião oficial era politeísta.Por isso mesmo, com certeza o centurião, o pagão a quem devemos aquele autêntico testemunho de fé não tinha o hábito de comparecer à sinagoga, nem tinha qualquer outro costume ligado à prática religiosa judaica.

Estas reflexões iniciais foram-me inspiradas por um fato que acaba de ocorrer neste país, um acontecimento que certamente não será comentado nas televisões, nos jornais e revistas noticiosas.Estou me referindo ao fato de o jornal O Globo não ter mais Olavo de Carvalho no rol de jornalistas que publicam seus artigos naquele matutino.Pois é, o Olavo não vai mais escrever naquele jornal.Escrevi ao meu amigo A... (o serrano) dizendo-lhe que O Globo foi quem saiu perdendo. Meu amigo retrucou enfaticamente: “não! Quem perdeu foi o país!”

Afirmo que Olavo de Carvalho a rigor não pode ser considerado católico.Entretanto, em muito do que ele vem há muito tempo escrevendo podemos, sem dúvida alguma, perceber uma autêntica inspiração católica .Sendo assim, presto minha homenagem a esse bravo jornalista, a esse indômito pensador brasileiro, transcrevendo abaixo seu último artigo publicado no Globo, um texto que merece a demorada reflexão de todos nós católicos brasileiros.



DEUSES DE OCASIÃO


Olavo de Carvalho - O Globo, 02/07/2005
"Quando os homens já não acreditam em Deus, não é que não acreditem em mais nada: acreditam em tudo.” Se essa observação de G. K. Chesterton já não tivesse sido comprovada milhares de vezes, bastaria a experiência brasileira das últimas semanas para mostrar sua veracidade. Quanto mais este país renega a fé cristã que esteve nas raízes da sua formação, com tanto mais crédulo entusiasmo se entrega ao culto de ídolos de ocasião, e quanto mais se avilta na adoração do desprezível menos força tem para arrepender-se e mudar de rumo quando uma nova divindade postiça e impotente, seguindo o caminho das anteriores, o decepciona pela enésima vez. Ao contrário: cada desilusão sucessiva não só reforça a propensão idolátrica, mas a torna ainda mais tolerante para com a inépcia dos deuses, mais pronta a fabricar desculpas para as lacunas da sua onipotência e as manchas do seu véu de santidade. Por esse caminho, as relações entre a alma devota e seu objeto de culto chegam à completa inversão: já não é a criatura que vive da misericórdia divina, é a divindade pecadora e criminosa que se alimenta do perdão humano, não recebido como um dom da graça, é claro, mas extorquido como um dever, como um imposto, de tal modo que o fiel, quanto menos recebe de seu deus, mais se sente obrigado a lhe dar em profissões de fé e atos de sacrifício, numa espécie de masoquismo teológico.

Tal é, com efeito, o deus da “teologia da libertação”. A única entidade imaterial e transcendente em que os doutores dessa escola acreditam é aquela força a que chamam “processo revolucionário”, lei suprema que, a seu ver, governa o curso da História. Mas é uma lei que funciona às avessas. Ao contrário do Deus bíblico, cuja credibilidade advém do cumprimento de Suas promessas, ela jamais precisa cumprir as suas. A autoridade de que desfruta ante os fiéis assenta-se no próprio rastro de crimes e fracassos que constitui até o momento o único legado do processo revolucionário na URSS, na China, no Vietnã, na Coréia do Norte ou em Cuba. Esse aparente paradoxo explica-se pela dialética do prejuízo intolerável: quanto maior a dose de sacrifício inútil tanto mais dificultoso admitir que foi inútil. Tanto maior, por isso, a necessidade compulsiva de redobrar indefinidamente a aposta perdida, reafirmando a fé contra os fatos em escala de progressão geométrica. O credo quia absurdum , que em Agostinho era uma figura de retórica, torna-se aí um preceito literal, o dogma constitutivo da Igreja revolucionária.
Não espanta que, numa cultura intoxicada desse dogma ao ponto de já não poder reconhecê-lo como tal mas apenas obedecer-lhe como impulso inconsciente, as esperanças do povo acabem se voltando para personagens cada vez menores, mais desprovidos de real valor e das condições mais mínimas para honrar a confiança neles depositada.
Quando, mais de uma década atrás, o sr. Herbert de Souza foi aceito pelas classes letradas como a máxima encarnação da virtude e um candidato à beatificação, tomei isso como indício de um embotamento da sensibilidade moral coletiva, incapaz de distinguir entre um santo e um mero estrategista esperto, cujo único mérito era o de ter ensinado a esquerda a sugar o prestígio das entidades caritativas em vez de acusá-las de instrumentos da classe dominante.
Os anos que se seguiram confirmaram esse diagnóstico, quando uma nação quase inteira apostou na moralidade superior de um partido cuja improbidade e malícia, no entanto, eram claramente visíveis no teor mesmo das suas discussões internas e na rede de suas alianças criminosas internacionais, alianças que ora ele ocultava sob negações peremptórias, ora adornava com um manto de subterfúgios dourados, sem que a mídia cúmplice consentisse em notar, sequer, a duplicidade do discurso, prova inequívoca da mentira.
Por isso, agora, que toda a indigência moral desse partido veio à tona, não é impossível que o esplendor mesmo da sua feiúra ofusque a visão popular, produzindo, após o choque passageiro das más notícias, uma restauração da confiança inicial jamais merecida.
* Filósofo, Escritor e Jornalista


posted by ruy at 11:41 da manhã

7.7.05

 


Um teste


O “post” de hoje é um teste da edição deste “blog”, teste esse feito devido a certo problema que surgiu com a ausência de “justify” nos textos editados por mim. Entretanto, para não fazer um teste frio, sem conteúdo, vou citar um pensamento de John D’Donohue que me foi enviado por uma jovem leitora. Vamos ver como sai a postagem!


AUTOCOMPAIXÃO E A ARTE DA COLHEITA INTERIOR (John O’Donohue)

A velhice pode ser uma época excelente para desenvolver a arte da colheita interior. O que significa colheita interior? Colheita interior significa que efetivamente começamos a examinar os frutos da nossa experiência. Começamos a agrupa-los, selecioná-los ou integrá-los. Um dos locais em que a colheita interior é mais vital é nas áreas abandonadas dentro da nossa vida. Áreas de descaso e abandono interior bradam por nós. Elas reclamam colheita. Podem, então, sair do falso exílio do descaso e entrar no templo da vinculação, a alma. Isso é particularmente necessário em relação às coisas que consideramos difíceis na vida, coisas a que tivemos grande resistência. Acima de tudo, as feridas interiores clamam por cicatrização. Há duas maneiras de fazer isso. Podemos faze-lo pela análise compulsiva, em que voltamos à ferida e a reabrimos. Removemos a crosta cicatrizada protetora que se desenvolveu à sua volta. Fazemos com que fique sensível e exsude novamente. Muita terapia inverte o processo de cicatrização. Talvez haja uma atenção menos importuna que se possa dar às feridas. Pois a alma possui o seu ritmo natural de cicatrização. Conseqüentemente, muitas das nossas feridas estão muito adequadamente cicatrizadas e não deveriam ser reabertas. Se quiséssemos, poderíamos selecionar uma lista das nossas feridas e passar os trinta anos seguintes abrindo-as, até finalmente ficarmos como Jó, com o corpo coberto de chagas. Se nos dedicarmos a esse exercício de inspeção das feridas, transformaremos a nossa alma em um acúmulo de chagas exsudativas. Cada um de nós tem uma liberdade prodigiosa, mas precária, em relação à nossa vida interior. Necessitamos, portanto, tratar-nos com grande delicadeza.

Parte da sabedoria da auto-presença emotiva espiritual é poder deixar em paz determinados aspectos da nossa vida. Essa é a arte da não-interferência espiritual. No entanto, outros aspectos da nossa vida exigem insistentemente a nossa atenção. Convocam-nos como seus protetores para ir colhe-los. Podemos distinguir onde essas feridas se acham no templo da memória, em seguida visitá-las de maneira suave e atenciosa. A única espécie de presença criativa que se pode levar a essas áreas é a compaixão. Algumas pessoas podem ser muito compassivas para com outras, mas são excepcionalmente severas para consigo mesmas. Uma das qualidades que podemos desenvolver, particularmente nos anos mais avançados, é um senso de grande compaixão por nós mesmos. Quando visitamos as feridas no templo da memória, não devemos censurar-nos por cometer erros graves que muito lamentamos. Algumas vezes crescemos inesperadamente por meio desses erros. Freqüentemente, em uma viagem da alma, os momentos mais preciosos são os erros. Eles levam-nos a um lugar que, de outra maneira, teríamos sempre evitado. Devemos ter uma atenção compassiva com nossos erros e feridas. Empenhar-nos para entrar de novo no ritmo em que nos achávamos naquela época. Se visitarmos essa configuração da alma com perdão no coração, ela se encaixará no seu lugar. Quando nos perdoamos, as feridas interiores começam a cicatrizar.


posted by ruy at 10:38 da manhã

 

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