Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

4.6.05

 
A funcionalidade


Em “post” anterior escrevi que os Iluministas deram início a um processo que acabou gerando aquilo a que chamei “o moderno desespero”. Escrevi e não nego, e mantenho com firmeza o que escrevi!

Ora um dos aspectos desse atual “desespero”, um desespero sem gritos e imprecações, um desespero inconsciente, é a generalizada presença de uma atitude que John O’Donohue chama de funcionalidade , uma atitude que, nos regimes totalitários (exemplos típicos: Cuba e China), é mesmo desejada pelos que detêm o poder. Em certos regimes socialistas, mas que ainda permitem certas democráticas liberdades às pessoas ali residentes, a funcionalidade é também desejada, e também vigiada. Nos demais países, os governantes aceitam o fato consumado sem se preocuparem, em geral, com uma interferência no processo.

E o que vem a ser essa funcionalidade ? Trata-se de uma conscientização, mais ou menos vaidosa, dos diferentes papéis que costumamos desempenhar, bem comportados, na sociedade; seja na família, seja no trabalho, seja até mesmo como simples e quietos espectadores de um filme ou de um balé.

Ao usar os termos “papéis a desempenhar” estou mesmo colocando-nos na situação de artistas , como os que representam num teatro. E neste momento vale a pena lembrar Leon Bloy que, se a memória não me engana, certa vez teria dito que, entre todas as artes, o teatro era a menos nobre, porquanto é nela que o artista tem que fingir o que não é, tem que mentir .

Curiosamente, os antigos, dentro da melhor tradição que lhes fora entregue pela velha Cristandade, conheciam isso e ensinavam o que se chama “dever de estado”.Se eu sou pai de família, tenho o dever de ser um bom pai. Se eu sou professor, tenho o dever de ser um bom professor.Se eu sou marido, tenho o dever de ser um bom esposo.Ora, cumprir um dever é muitíssimo mais que representar um papel, ainda que essa representação seja feita de forma honesta e dedicada.

Um parêntese. O leitor – mormente um leitor católico – que se escandalizar com essa nossa referência ao dever, deveria reler o Evangelho e reencontrar o trecho em que o Cristo nos manda amar, até os inimigos, Se é mandamento, é dever.

Entretanto, o ponto em que a nossa função geralmente nos atrapalha – e muito - está no fato de que, ao nos dedicarmos a ela, a essa função, muitas e muitas vezes deixamos de prestar atenção à hiper maravilhosa realidade de que cada um de nós é uma pessoa , é um ser único e intransferível, criado – antes de outro fim – para uma eternidade que trazemos dentro de nós, realidade essa que deveria ser motivo para uma permanente alegria.

Um bom exemplo desse estado de alienação ocorre freqüente entre os que trabalham na área científico-tecnológica. Inebriados pela grande beleza matemática, que de fato existe , nas elaboradas construções teóricas da moderna ciência e da atual engenharia, professores e pesquisadores raramente lêem outra coisa que não sejam os específicos livros e artigos ligados à sua função.

Olhemos com muita ternura aquele mendigo que está deitado ao relento, ali na calçada por onde vamos passar. O Estado, democrático ou totalitário, pode dar a esse mendigo um teto, um agasalho e um alimento. Mas será sempre incapaz de fazer com que esse pobre homem se descubra, maravilhado, como um ser único no universo.O Estado vai querer, sim, que ele volte a exercer uma função qualquer na sociedade.

posted by ruy at 11:28 da manhã

1.6.05

 
Reflexões avulsas


Farisaísmos – Suponhamos que um grupo de amigos resolvesse fundar um novo partido político ao qual seria dado o nome de Partido do Patriota, ou então Partido do Homem Honesto ou ainda, quem sabe, Partido do Idealista. Qualquer nome escolhido entre esses sugeridos seria uma designação excludente, discriminadora. Seria um nome essencialmente farisaico .Foi isso o que me veio à mente há uns dez ou doze anos – não me lembro bem – quando comecei a refletir sobre o provável motivo pelo qual eu não simpatizava com certo Partido existente neste país.

Saudade – Lembro-me do meu curso colegial, feito em uma distante cidade do Nordeste.Além da Física e da Matemática, estudávamos quatro idiomas: português, francês, inglês e espanhol.Aprendíamos geografia do Brasil e da América, em um livro repleto de gravuras e de gráficos, livro que só falava – e com excelente didática – sobre orografia, hidrografia, clima, vegetação e raças dos habitantes e produtos típicos dos países estudados; não havia naquelas páginas uma sub-reptícia inoculação de ideologias em nossas cabeças. Todos os professores ministravam suas disciplinas de paletó e gravata.Não usavam “data-show”, mas expunham suas aulas de modo claro e preciso, usando o velho quadro negro e o humilde giz.Havia, sobretudo, um clima de real transmissão de conhecimento.

O mundo – Em um de seus poemas, escreve Carlos Drummond de Andrade:
- Mundo, vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo,
Seria uma rima,
Não seria uma solução.

Talvez uma das tarefas de um autêntico poeta seja mesmo essa, a de fazer com que despertemos para ver o mundo, nós que, quase sempre distraídos, nos apegamos ao noticiário da TV e à presença sufocante das imagens áudio visuais, criadas por nós mesmos, em vez de prestarmos atenção nas silenciosas imagens naturais do mundo.

A música –Seja de que tipo for, qualquer música é mesmo uma efêmera sensação auditiva.. Entretanto, há músicas que guardam dentro de seus compassos um pouco de eternidade .Tais músicas permanecem vivas ao longo dos séculos.Toda vez que voltamos a escutar uma delas, as mal denominadas “clássicas”, tornamos a perceber que somos peregrinos nesta vida, voltamos a acreditar que existe uma vida invisível, real motivo de profunda e indescritível alegria.É uma grande lástima que os cursos do Primeiro e do Segundo Grau não propiciem às crianças, aos adolescentes, oportunidade para aprenderem a ouvir – e apreciar - essa música de sempre.

As famílias – Esse nuclear grupo humano pode prestar-se a diferentes papéis.Um deles seria o de um acidental encontro de pessoas, ligadas por interesses comuns, com certo grau de solidariedade entre elas, sem maiores compromissos que não seja o de obter segurança diante dos comuns problemas da vida em sociedade.
Outro papel seria o das famílias do tipo “mafioso”, no sentido lato ou no sentido estrito desse termo.Caso típico é o dos familiares mais próximos de um político corrupto.Há entre os membros desse clã uma união férrea em defesa das benesses, das mordomias, dos injustos privilégios adquiridos de maneira imoral, com ou sem violência.
Um terceiro papel seria o desempenhado pelas bem poucas (infelizmente) famílias onde ainda existe, muitas vezes discreta, uma permanente atitude de oração, onde ainda permanece, silenciosamente, a Esperança.

posted by ruy at 4:00 da manhã

30.5.05

 
Democracia e democratismo


Entre os muitos e variados temas analisados de maneira muito inteligente e de modo não menos elegante no livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES está o conceito de democracia ou, melhor dizendo, está o milenar ideal democrático. Ao usar este adjetivo (milenar) estou me apoiando nos comentários do autor do livro quando nos mostra como o referido ideal existiu de modo embrionário, inconsciente, em muitas antigas civilizações.Vale a pena ler (para quem ainda não leu) ou voltar a ler (para quem já conhece o livro) o assunto no magnífico ensaio de Gustavo Corção.

A rigor, a primeira experiência política a que se pode aplicar o qualificativo de democrática stricto sensu ocorreu na Grécia antiga. Várias circunstâncias juntaram-se para que aquilo acontecesse: a geografia, o clima ameno, a paisagem marítima, a tradição filosófica, e, nunca esquecendo, o reduzido tamanho das populações envolvidas naquele processo. Duas dessas circunstâncias – o clima ameno e a população pequena - favoreciam de modo especial a reunião dos grupos humanos a fim de discutirem e votarem suas decisões.

Se isso é verdade, não o é menos o fato de que jamais houve, entre os antigos povos gregos, uma reunião específica para decidir sobre a adoção do regime democrático, algo como se um grego estivesse dizendo para um outro grego: “vamos à ágora a fim de votar a democracia para o nosso povo!”

O fato mais curioso ligado àquela notável experiência política é ter ela existido juntamente com o regime social da escravidão, algo hoje impensável na maior parte das nações supostas civilizadas.Isso mostra como o progresso da consciência moral do homem não vem acontecendo de maneira uniforme, progredindo simultaneamente em todas as necessárias direções.

Uma espontaneidade semelhante existiu na Idade Média. Nunca os grupos cristãos anteriores àquele fulgurante milênio se reuniram para declarar isto: “vamos fundar uma Cristandade!”

A primeira auto-suficiente e orgulhosa pretensão de criar, de modo organizado,. com mudanças radicais, um novo regime político vai acontecer no século XVIII. O grande pretexto – pretexto justo, reconheçamos – para aquela violenta mudança de direção foram as muitas e perversas injustiças cometidas por uma nobreza que, há pelo menos dois séculos, deixara de viver o ideal evangélico, uma nobreza que, em lugar das veneráveis catedrais de pedra, dentro das quais todos – ricos e pobres – se uniam em oração, agora erguia suntuosos palácios, custeados com o sangue e o suor dos pobres e usados para os bailes luxuosos freqüentados por sibaritas e mulheres fúteis.

Ao tentar corrigir aquelas sombrias injustiças, aqueles que a si mesmo consideravam Iluminados acabaram cometendo um outro tipo de injustiça, menos visível, porém tão real quanto aquela que se propunham corrigir. Deram início a uma progressiva corrupção do milenar ideal democrático. Mentiram para o povo ao conduzi-lo para o que se pode chamar o democratismo , uma forma de regime político que, por exemplo, pode colocar no topo do Poder alguém carente da inteligência e da cultura condizentes, necessárias ao bom exercício de uma função pública da mais alta relevância.

Uma coisa é colecionarmos piadas e gafes ditas e cometidas por uma alta autoridade; uma coleção que pode trazer-nos um pouco de alegria nas horas de lazer. Outra coisa bem diversa é pararmos para refletir e perguntar-nos seriamente :
- como foi possível que isso acontecesse ?

- P S – Pretendendo “organizar” a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, os Iluministas do século XVIII acabaram mesmo “organizando” o moderno desespero.

posted by ruy at 4:12 da manhã

 

Powered By Blogger TM