Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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28.5.05

 
A tentação permanente


Faz poucos dias correu pela Internet a notícia de que cerca de cem (100) religiosas teriam participado da recente marcha do MST até Brasília.
Ora, nenhum de nós pode saber o que se passa no interior da consciência dos outros.Por isso, tenho que supor na cabeça daquelas cem freiras a melhor das intenções, isto é, aquilo que para suas respectivas consciências era, naquele momento, o melhor que podiam fazer.

Bem, se por um lado não devo julgar mal a intenção que moveu as mesmas religiosas ao longo da grande marcha, acho que posso – e até mesmo devo – fazer uma análise objetiva do fato.

Faz muitos anos, mais de trinta, certa vez alguém me disse em tom sentencioso: “Ruy, há três grandes perigos na vida de um homem: jogo, bebida e mulher”.De fato, não há dúvida que sejam três perigosas tentações, mas, já naquela época eu sabia que a tentação do poder, a ambição do poder, é a mais perigosa.Acontece, entretanto, que aquelas quatro tentações são, digamos assim, eventuais, e sua ocorrência está condicionada por certas circunstâncias. Por exemplo, um homem que já esteja bem avançado em idade é bem pouco provável que venha a experimentar uma atração sexual por uma bonita mulher.

Ora, nesta serena tarde de sábado, penso creio que existe um tipo de tentação mais generalizada, uma tentação permanente e que pode acontecer com qualquer um de nós cristãos, incluindo nós católicos, leigos ou religiosos.Levada a um certo extremo, essa tentação pode gerar caminhadas semelhantes àquela feita pelas cem freiras que acompanharam o MST.Neste ponto o leitor tem todo o direito de me perguntar: “e qual seria essa tentação permanente?”

A longa história da humanidade nos mostra a existência de Lei Natural, a lei moral inscrita no coração humano. Por isso, estabelecer uma perfeita identidade entre cristianismo e comportamento moral perfeito é, no mínimo, um equívoco.A mensagem do Evangelho – palavra esta que significa Boa nova, a novidade por excelência – para mim tem um significado primordial de Esperança, com E maiúsculo, a Esperança que deu coragem aos mártires de todos os tipos, com ou sem derramamento de sangue.

Pois bem, pergunto: se o Evangelho trouxe-nos, para nós cristãos, essa Esperança, de que modo se daria aquela que chamo a nossa tentação permanente? Acho que ela ocorre diariamente, em qualquer lugar, em qualquer hora, de dia ou de noite, cada vez que nos acomodamos com o mundo, que nos instalamos no mundo.Em termos pouco ou nada convencionais, digo que ela ocorre sempre que deixamos de olhar o mundo de maneira poética . E, por favor, repito:por favor, não entendam essa palavra (poética) com um sentido superficial, fútil, com perfume de banal literatice .
Demos logo um exemplo bem prático. Aquelas cem freiras podem ser honestas, podem até mesmo piedosas, ou pelo menos piedosas como elas acham que devem ser; mas não têm nenhum senso poético.São incapazes de ver o papel tragicômico que representaram naquela marcha. Por quê? Porque toda proposta socialista é, essencialmente, um projeto de telúrica acomodação com este mundo, para o qual não fomos criados.

posted by ruy at 11:12 da manhã

27.5.05

 
Corrupção – um pouco de história


[Quando eu era adolescente, certa vez li em um filme americano esta frase: PAST IS PROLOGUE.Mais tarde, quando tinha pouco mais de vinte anos, me ensinaram que “política é memória”. Pois bem, não se trata de saudosismo; o importante é mesmo – como dizem aquelas frases por mim citadas - aprender com o passado para bem entender o presente e para planejar melhor o futuro]

Diariamente a mídia vem divulgando notícias sobre diversos fatos marcados pela corrupção.Percebe-se que existe no país uma generalizada reação contra essa praga social. Qualquer brasileiro normal, isto é, que tenha noção do que seja certo ou errado, não aceita, não se conforma com esse estado das coisas, graças a DEUS.
Ora, na primeira metade da década de 50, certo jornalista inteligente, culto e, sobretudo, corajoso estava atacando a corrupção e os corruptos que existiam no antigo Distrito Federal.

Por causa dessa atitude corajosa, certa vez foi covarde e traiçoeiramente espancado quando saía de uma estação de rádio na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente, o mesmo jornalista foi alvo de um atentado planejado e ordenado por um auxiliar de confiança do próprio presidente da República (diga-se logo, a bem da verdade isto: o homem que dirigia este país jamais ordenou que aquele infame crime fosse sequer pensado). Em decorrência do atentado, morreu um oficial da Aeronáutica, deixando sua esposa viúva, e seus quatro filhos pequenos órfãos.

Realizada pelos colegas do oficial assassinado, uma ampla investigação apurou meticulosamente quais foram os mentores e executores do horrendo crime.E não só apurou essas graves informações como também trouxe a público aquilo que o próprio presidente, ao tomar conhecimento do que estava ocorrendo à sua revelia, classificou como “mar de lama”.O Brasil inteiro posicionou-se contra o crime e contra a corrupção que criara o clima para o infame atentado.

Essa reação, entretanto, sofreu uma absurda mudança de sentido, um giro de cento e oitenta graus no dia em que o presidente, num gesto insano, tirou sua própria vida.Um gesto que certa revista francesa, em artigo escrito por um sério pensador daquele país, classificaria, três ou quatro anos depois, como “un acte politique “.Sim, ato político, porque, no contexto cultural de um povo tradicionalmente propenso ao sentimentalismo, de repente, grandes massas se esqueceram da coragem do jornalista, se esqueceram do crime covarde, se esqueceram da viúva, se esqueceram dos pequenos órfãos e – frisemos bem isto – se esqueceram também da corrupção, do “mar de lama”.

Com aquela absurda mudança de sentido, vários políticos subiram de valor na bolsa do prestígio.Eram os que, como se dizia na ocasião, haviam “segurado a alça do caixão do defunto”, isto é, do falecido presidente.

Vamos mais longe no passado. No meu tempo de menino – e todos os da minha idade sabem bem disso – os mapas do Brasil traziam sobre o Estado de Goiás um pequeno retângulo onde estavam escritas estas palavras: LOCAL DA FUTURA CAPITAL DO BRASIL.Era uma idéia antiga, desde o tempo do Império, do tempo em que eram lembradas as invasões francesa e holandesa, tempo aquele em que não existiam mísseis nem aviões de velocidades supersônicas.

Ora, um dos que “seguraram a alça do caixão”, faturando sobre sua declarada lealdade ao falecido, chega a presidente e resolve entrar na História por meio da transferência da capital.A remodelação urbana da cidade americana de Boston, monumental obra recente de engenharia e ciência aplicadas, foi planejada para ser executada no mínimo em doze ou mais anos. Nossa capital foi transferida em cinco anos, às pressas, fazendo-se vista grossa para eventuais (e o leitor atilado pode imaginar quantas...) irregularidades no transporte de material necessário à construção que tinha porque tinha de ficar pronta no final do mandato.
Colhemos hoje os frutos tardios da falta de memória e do sentimento mal dirigido, do sentimentalismo imaturo e sem capacidade de discernir com firmeza o certo e o errado. Até hoje os habitantes de menor renda, na tal cidade, sofrem por causa da ausência do metrô.


P S: o tal jornalista posteriormente foi eleito governador do Estado onde vivia e hoje é reconhecido, até mesmo por antigos adversários políticos, como o melhor administrador que por ali passou.

posted by ruy at 7:26 da manhã

26.5.05

 
Hoje, 26 de maio, quinta-feira, festa de Corpus Christi.



Um nome profético


O número de janeiro deste ano da ótima edição brasileira da revista NATIONAL GEOGRAPHIC traz um excelente artigo sobre o tema: A primeira Itália (isto é, a Itália antes dos romanos).Em certo ponto do referido texto, Nicola Terrenato, um professor de letras clássicas e arqueologia, faz o seguinte comentário:

Segundo a opinião tradicional, os romanos eram mais avançados, capazes de conquistar o mundo.Mas agora estamos, eu e outros, chegando à conclusão de que as conquistas romanas não implicavam a eliminação das diferenças regionais, e sim a montagem de uma estrutura tão abrangente que permitia a conservação da identidade de cada comunidade.

O que a gente vê na TV ainda é a concepção tradicional, com as legiões romanas avançando como um rolo compressor sobre os adversários.Muitas das elites locais, no entanto, não desapareceram com a conquista romana.E, em muitos casos, o que se nota é que elas prosperaram com a nova situação.

Um eventual leitor, mesmo um leitor católico com bom nível de escolaridade, neste instante poderá, talvez, mostrar um sorriso irônico, dizendo que isso aí em cima seriam patriotadas do professor Terrenato.A esse eventual leitor sorridente recomendo que releia nos Atos dos Apóstolos a dramática passagem em que o apóstolo Paulo escapa de sofrer duros açoites ao declarar-se cidadão romano.Esse episódio é belamente lembrado em DOIS AMORES, DUAS CIDADES (Op. cit., primeiro volume).A cidadania romana era marca de honra.

Passam-se os séculos. Cai o império romano. Não foi uma queda repentina, houve tempo suficiente para que aquela velha cultura se espalhasse por toda a Europa. De qualquer forma, começava uma nova civilização, um começo cheio de incertezas, vazio de decisões.Eis que nesse cenário meio ou bastante caótico, surge naquela mesma Itália a figura de um homem singular, um jovem que, apesar de sua mocidade, já trazia consigo uma autêntica maturidade, aquela maturidade conferida pela fé.É Bento de Núrsia quem vai, sem que nunca tivesse planejado isso, por meio dos muitos mosteiros organizados sob a Regra que ele escrevera, lançar a fecunda semente da miraculosa renovação civilizacional do Velho Continente.

Ora et labora , reza e trabalha. Eis que estas duas simples palavras fizeram, com o auxílio da Graça, um tipo de conquista profunda e silenciosa, diferente daquela que em séculos passados fora feita pelas orgulhosas legiões romanas.Aproveitou-se do passado aquilo que podia – e devia ser preservado – incluindo aquele idioma cuja estrutura gramatical faz permanente uso da inteligência, conseguindo com economia de palavras a transmissão precisa do pensamento. Meu DEUS, como é possível que pessoas instruídas sejam tão insensíveis à beleza elegante do latim?

Pois bem, depois da decadência da fulgurante Idade Média, surgiu no mundo um novo tipo de império. Não, leitor apressado, não se trata do tão criticado, tão malquisto “império americano”. O novo império é o da Razão, com R maiúsculo, conforme a chamaram – e ainda chamam – os partidários, ostensivos ou ocultos, do Iluminismo.Esse pretensioso, arrogante império que hoje assiste às muitas conseqüências da sua auto-suficiência: o uso espalhado das drogas, as aberrações morais (aborto “legal”, casamento (...) entre pessoas do mesmo sexo), os regimes políticos do tipo “colégio interno”, os ridículos “democratismos”(pobre Brasil...), o terrorismo, a ameaça de guerra com armas nucleares, e vai por aí.

Certa vez o grande cardeal Charles Journet escreveu estas generosas palavras:
- Une nouvelle Chretienté demand à nâitre .
Talvez tenha sido esse mesmo desejo que, em boa hora, inspirou o nosso novo papa ao adotar o nome Bento, um nome que, diante da generalizada e sombria decadência cultural moderna, assume um caráter profético.Resta-nos, a nós católicos, unirmo-nos a Joseph Ratzinger, nessa silenciosa, persistente e confiante ação reconstrutora, sem esquecer a sábia divisa beneditina
- Ora et labora

São Bento, rogai por nós!

posted by ruy at 3:17 da tarde

25.5.05

 
Sobre a prece


[O “post” de hoje é fraternalmente dedicado ao amigo C..., a quem venho sugerindo, talvez de modo impertinente, que não deixe de ler o livro ECOS ETERNOS]

Vou simplesmente fazer algumas citações do livro ECOS ETERNOS, de John O’Donohue, tradução publicada pela editora Rocco.Oxalá os trechos citados estimulem vários visitantes deste “pequeno oásis” a procurarem o referido livro!


Com freqüência é nos extremos que o eterno se manifesta. Quando estamos acomodados em segurança na nossa rotina diária de tarefas e expectativas, esquecemos quem somos e por que estamos aqui. Quando o sofrimento nos elege, o tecido de autoproteção se rasga.Os velhos desembaraços e certezas se dissolvem como se nunca houvessem existido.A enormidade de desejos que guiavam a vida cotidiana se torna totalmente insignificante. De repente, eles parecem fantasias de uma outra era. Cada grama de energia se concentra em uma intenção: o desejo de sobreviver.Em um sutil sentido animal, sempre soubemos secretamente como a nossa presença aqui é precária e vulnerável.O sofrimento desvenda plenamente essa fragilidade.Escreve E.M.Cioran: “Sem DEUS , tudo é noite, com ele a luz é vã.” [Op.cit., pg 211]

A prece nunca se desperdiça.Ela sempre causa transformação.Quando realmente queremos algo e não o recebemos, tendemos a achar que a nossa prece não foi atendida.Tal prece contém uma vigorosa intencionalidade e é verdade que, às vezes, a nossa prece não é atendida dessa forma direta.Não recebemos aquilo por que ansiamos.Sem que o saibamos, essa prece atuou secretamente sobre outro aspecto da situação e efetuou uma transfiguração que talvez só se torne visível em uma etapa posterior.Sem que o saibamos, a prece está sempre a serviço do destino. [Op. cit., pg. 212]

Por meio da prece, aprendemos a enxergar com os olhos da alma.A nossa visão normal é sempre condicionada pelas necessidades do ego.A prece ajuda-nos a obter uma visão mais clara.Ela nos deixa disponíveis para uma experiência que, de outro modo, nunca admitiríamos.Refina os nossos olhos para a narrativa desconhecida que se está, silenciosamente, insinuando em nossas palavras, atos e pensamentos.Assim, a prece emana da humildade e a aumenta.O entendimento usual da humildade envolve uma autodepreciação passiva, a que qualquer sentido de amor-próprio ou valor se reduz.A humildade possui um significado mais profundo. “Humildade” é um derivado da palavra latina húmus , que significa “da terra”.Nesse sentido, humildade é a arte de estar acessível à sabedoria interior da nossa argila. . [Op. Cit., pg. 213]

Se o leitor reler com maior atenção os trechos acima citados, poderá perceber – a menos que esteja de espírito preconcebido – que John O’Donohue não usa uma linguagem convencional, bem-comportada, uma linguagem que externa apenas lugares-comuns da piedade estereotipada, esse tipo de piedade à qual, infelizmente, muitas vezes atribuímos um real sentido religioso . A piedade desejável não é incompatível com uma profunda alegria. Muito pelo contrário, exige a companhia dessa alegria!

posted by ruy at 9:11 da manhã

23.5.05

 
Questionário


Um bom amigo meu, com quem tive a alegria de trabalhar juntos durante cerca de dez anos, certa vez me disse isto: “não há perguntas indiscretas; as respostas, sim, é que podem ser indiscretas.” Esta frase me veio à lembrança quando meu amigo M..., o engenheiro eletricista, enviou-me um questionário que, segundo explicou M..., vem há um bom tempo circulando pela Internet.Atendendo ao gentil convite desse amigo, vou tentar responder às sete perguntas que constituem a referida lista.

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser ?
- Ora, não vi esse filme. Se não estou enganado trata-se de uma fábula, um pouco no estilo do “1984” de Orwell. Numa sociedade regida por um governo totalitário, os livros deveriam ser todos queimados a fim de evitar que as pessoas, por meio do exercício da leitura, começassem a desconfiar de que algo estava errado e, então, procurassem libertar-se da ditadura.O problema da pergunta, para mim pelo menos, é o de saber se, escolhendo um certo livro eu desejaria mesmo que ele fosse destruído, por ser um livro intrinsecamente perverso, ou essa minha escolha seria um simbólico sacrifício em favor da liberdade.

Já alguma vez ficaste apanhado (o termo é este mesmo) por uma personagem de ficção?
- Dando um balanço na memória, eu escolheria, de pronto, três personagens: Odisseus, com seu dramático retorno a Itaca, Ivanhoe, o cavaleiro cuja fé não o impede de ser bastante humano, e Jim Hawkins, o adolescente herói de A Ilha do Tesouro , cuja coragem ganha a admiração até dos homens mais calejados.

Qual foi o último livro que compraste?
- ECOS ETERNOS, do irlandês John O`Donohue, editora Rocco.

Que livro estás a ler ?
- Justamente este, ECOS ETERNOS.Trata-se de uma obra para leitura habitual,
pelo menos para mim.

Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
- Bem, a pergunta não esclarece se eu estaria indo de livre e espontânea vontade, a fim de passar ali uma certa temporada, ou estaria sendo coagido a viver como um tipo de Robinson Crusoe. Nesta segunda hipótese, é bem provável que eu levasse:
- a Bíblia
- Dois Amores, Duas Cidades
- Ecos Eternos
- um volume com a obra completa de Murilo Mendes, e
- uma coleção, grande, de problemas de matemática do curso colegial .
(mas, nessa mesma hipótese, rezaria para voltar ao convívio humano).

A que quatro pessoas vais passar este Questionário ?
- Sem dúvida, vou passar a estes: Conrado, Alexandre, Alfredo e Sérgio.
Eles sabem quem são.

posted by ruy at 5:06 da manhã

 

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