Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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22.5.05

 
Ainda sobre o tema “ Crença ou causa ?”


Em que pese a forte impressão causada pelos textos produzidos por escritores atilados e habilidosos, dotados de fino desembaraço no uso do respectivo vernáculo, a linguagem escrita não dispõe dos recursos, mais eficazes, que possui a linguagem falada. Segundo os entendidos em lingüística, existem no uso da linguagem escrita alguns entraves, como – por exemplo- a chamada polissemia das palavras.Um exemplo disso é o caso do vocábulo “causa” que usei no “post” de ontem.

No dicionário lemos: causa , s.f. Aquilo que faz com que uma coisa exista; aquilo que determina um acontecimento; princípio; origem; motivo; pleito judicial; partido; facção.
Pois bem, no referido “post” usei a palavra exatamente com estes dois últimos significados que estão registrados no meu Aurélio, “partido”, “facção”. Foi exatamente isso o que eu quis dizer ontem, a saber, que, infelizmente muitos católicos se posicionam diante da Igreja como se ela fosse um “partido” ou uma “facção”..Note bem isso, amigo leitor, ao falar sobre o fato eu estava mesmo criticando aquela atitude facciosa .


Ora, ontem à noite, meu amigo A ..., o serrano, comentando o meu “post” lembrava Henri de Lubac, citava o famoso teólogo que, certa vez, teria escrito isto: “ às vezes em vez de servirmos à causa da Igreja queremos fazer com que a Igreja sirva à nossa própria causa.”
Bem, e agora? Será que de Lubac teria sido favorável a um certo “facciosismo” da Igreja? Como conciliar o que escrevi com o que “disse” o respeitado Cardeal quando escreveu: “em vez de servirmos à causa da Igreja” ?

Eis aí um bom exemplo das dificuldades criadas pela palavra escrita. O busílis está no fato de que, ao fazer aquele comentário citado pelo meu amigo A ... , de Lubac usou o termo “causa” inicialmente em sentido lato, sem maiores compromissos e, logo em seguida, usou o mesmo vocábulo no sentido estrito, aquele que está registrado no meu dicionário, e que estava implícito na minha crítica.

Vamos esclarecer o ponto em questão.Mães e mestras – e a Igreja é, ao mesmo tempo, Mãe e Mestra - não têm causas a serem defendidas; mães e mestras têm, sim, deveres , sérios deveres a serem amorosamente cumpridos.Os filhos devem, por sua vez, cooperar amorosamente com suas mães e mestras.Os que atribuem equivocadamente uma causa à Igreja são quase sempre os que jamais se deram conta, jamais “sentiram” o mistério da Igreja.Conhecem a Igreja apenas “intelectualmente”; podem saber de cor a própria Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, porém não chegaram ao que se pode chamar “um conhecimento poético” da Igreja, em que, aqui, a palavra “poético” tem um significado profundo, daquela profundidade que ocorre, por exemplo, na poesia de um Fernando Pessoa, de um Murilo Mendes ou de um Carlos Drummond de Andrade.

Entre outras razões, é por isso que nos ensinos do Primeiro e do Segundo Grau deveríamos estimular os alunos a gostarem de ler poesia (entenda-se: boa poesia, a poesia perene); a gostarem de ouvir música (entenda-se: boa música, a música perene), para que suas sensibilidades fossem mais bem preparadas para a descoberta do mistério
.
Os cruzados não foram à distante Palestina para defender uma causa; foram, sim, dar o testemunho viril de sua crença , e de sua caridade para com seus irmãos em Cristo, que lá estavam sendo perseguidos.
Mais uma vez, perdoem o meu desabafo.

posted by ruy at 7:06 da manhã

21.5.05

 
[ Graças a ajuda fraterna do meu amigo A ..., o músico, foi superado o problema que tornaria muito difícil a edição deste “blog”. Muito obrigado, A ... ]


Crença ou causa ?


Este é um “post” que provavelmente venha a desagradar um ou outro leitor que faça uma leitura apressada. Porém, apesar disso, creio que devo mesmo editar estas reflexões, com as quais convivo há muito tempo.

Cada um de nós vive em comunidade, seja no grupo dos familiares, seja no ambiente do trabalho. Convivemos diariamente com centenas de pessoas, algumas bem ligadas a nós por laços afetivos, muitas outras por laços funcionais. Se o leitor prestar atenção, verá que, em relação a todas essas pessoas, sejam parentes ou não, mantemos inconscientemente um certo hábito, em geral desprovido de condenável malícia, o costume de catalogar as boas e as más qualidades dos nossos companheiros de caminhada neste mundo (tive o cuidado de conferir o significado da palavra qualidade no dicionário; está de acordo com o que ensina o velho Aristóteles ao listar as suas clássicas categorias , razão pela qual escrevi “más qualidades” em vez de “defeitos”).

Também de modo habitual, cada vez que nos encontramos com elas ou nos lembramos dessas pessoas, de modo imediato vemos, sentimos a relação que temos com cada uma delas, percebemos um determinado aspecto afetivo nesse encontro e armamos interiormente uma questão de ordem prática, a de como devemos agir com respeito a essa pessoa, a esse próximo.

O leitor que já tenha lido uma boa introdução à filosofia, terá com certeza observado ali em cima quatro das categorias aristotélicas, a qualidade , a relação , a paixão e a ação .E terá provavelmente notado que não foi citada a primeira das dez categorias, a mais importante, a substância .O fato é, meus amigos, que, regra geral, costumamos ser exímios analisadores e classificadores de pessoas e de fatos.No que toca às pessoas, muito raramente, quase nunca, acontece pararmos de repente e, de longe e em silêncio, em profundo silêncio, em respeitoso silêncio, olharmos um Zé da Silva, um Pedrinho ou um Lucas para ver não aquilo em que ele é diferente, mas, sobretudo, para observarmos extasiados a essencial semelhança que existe entre nós e eles, aquela que caracteriza cada um de nós como ser humano, que nos identifica como um homem.

Passando ao domínio dos fatos, estamos, em geral, sistematicamente analisando-os e classificando-os como favoráveis ou desfavoráveis à causa da Igreja Irritamo-nos com a teimosia do mundo, esse mundo que se recusa a reconhecer como verdadeira a doutrina católica. Aliás, muitas vezes desinteressados, passamos ao largo da beleza da natureza, da música, da pintura ou da literatura, talvez por acharmos que não valha a pena perder tempo com tais leviandades , como supérfluos devaneios, desnecessários àquilo que para muitos de nós, infelizmente, é o mais relevante, qual seja, a nossa telúrica sobrevivência neste planeta.O mistério do mundo escoa-se diante de nossos olhos, de nossos ouvidos e do nosso tato, sem que percebamos o seu nuclear conteúdo de eternidade. Estamos preocupados demais, excessivamente preocupados com a causa .
Perdoem-me a franqueza.

posted by ruy at 4:01 da manhã

20.5.05

 
Recesso


Por problema de força maior, o "blog" entra em recesso por alguns dias.

posted by ruy at 9:47 da manhã

19.5.05

 
Paz e pacifismo


Faz poucos dias, César Miranda, em seu “blog” ProTensão, referiu-se ao filme CRUZADA, recém chegado às telas do Brasil, classificando-o como “filme bocó”.Comentando essa opinião de César disse-lhe que, embora não tenha assistido a essa produção, eu concordava a priori com aquele adjetivo (“bocó”) porquanto é comum ocorrer semelhante situação com outros filmes que tratam de temas históricos. Honrosa exceção é UMA PONTE LONGE DEMAIS, baseado em fatos ocorridos durante a segunda Guerra Mundial. Entretanto, é um filme que deve desagradar aos pacifistas. E isso nos leva ao assunto deste “post”.

Há mais de quinze séculos, Santo Agostinho definiu de modo sintético: a paz é a tranqüilidade na ordem . Esta magistral definição aplica-se tanto a desejada paz entre as nações quanto a não menos desejável paz dentro de nós mesmos, no interior de cada pessoa.A paz verdadeira, definida pelo sábio e santo Bispo de Hipona, pressupõe a existência da ordem, caso contrário é uma paz mentirosa e injusta. Por exemplo, a paz procurada pelos adeptos da velha heresia do quietismo baseia-se numa desordem , caracterizada pelo injusto esquecimento das próprias palavras de Jesus quando nos mandou: “sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito”.

Ao falar em “paz injusta”, imediatamente nos vem à lembrança a pouco simpática idéia da guerra justa, idéia que sempre desagradou aos adeptos do pacifismo.Para que o leitor não pense que, ao falar em “guerra justa”, eu esteja inventando moda, transcrevo a seguir um trecho da longa e brilhante encíclica Mystici Corporis Christi do grande papa, hoje esquecido por muitos católicos, Pio XII. Leiamos:

94. E primeiramente imitemos a vastidão daquele amor, esposa de Cristo é só a Igreja; contudo o amor do divino Esposo é tão vasto, que a ninguém exclui, e na sua esposa abraça a todo o gênero humano; pois que o Salvador derramou o seu sangue na cruz para conciliar com Deus a todos os homens de todas as nações e estirpes, e para os reunir num só corpo. Por conseguinte o verdadeiro amor da Igreja exige não só que sejamos todos no mesmo corpo membros uns dos outros, cheios de mútua solicitude (cf. Rm 12,5;1Cor 12,25), que se alegrem com os que se alegram e sofram com os que sofrem (cf. lCor 12,26), mas que também nos outros homens ainda não incorporados conosco na Igreja, reconheçamos outros tantos irmãos de Jesus Cristo segundo a carne, chamados como nós para a mesma salvação eterna. É verdade que hoje não faltam - é um grande mal - os que vão exaltando a rivalidade, o ódio, o rancor, como coisas que elevam e nobilitam a dignidade e o valor do homem. Nós, porém, que magoados vemos os funestos frutos de tal doutrina, sigamos o nosso Rei pacífico, que nos ensinou a amar os que não são da mesma nação ou mesma estirpe (cf. Lc 10,33-37) até os próprios inimigos (cf. Lc 6,27-35; Mt 5,44-48). Nós, compenetrados dos suavíssimos sentimentos do Apóstolo das gentes, com ele cantemos o comprimento, a largura, a sublimidade, a profundeza da caridade de Cristo (cf. Ef 3,18), que nem a diversidade de nacionalidade, ou de costumes pode quebrar, nem a vastidão imensa do oceano diminuir, nem as guerras, justas ou injustas, arrefecer.

É isso mesmo, leitor amigo, Pio XII, o inteligentíssimo e culto Pio XII, conhecedor exímio da longa tradição católica, fala claramente sobre “guerras justas”.

Bem, para que não digam que estou me ligando demais a um passado distante, torno a lembrar (pois já o citei em outros “posts” ) o livro MEMÓRIA E IDENTIDADE do recém falecido João Paulo II. Em uma das partes daquela obra o leitor vai encontrar, bem desenvolvidas, justamente as idéias essenciais de pátria e de patriotismo , conceitos esses que dão suporte moral à existência de exércitos nacionais, tropas capazes de defender os povos que as organizam.
Pense bastante nisso, leitor amigo, quando assistir a um desfile de soldados marchando ao som vibrante de uma banda militar.

posted by ruy at 11:40 da manhã

16.5.05

 
“Eles deveriam pedir desculpas, de joelhos.”


Este é o título de um pungente artigo publicado no Globo de domingo, dia 15 de maio.Foi escrito por um pai.Por favor, leiam e reflitam bastante sobre o que vem ocorrendo em nossa Pátria, nossa de nós que acreditamos na existência de pátrias e que amamos a nossa; nós que não desejamos viver no tal “mundo só”, governado por um “Big-Brother”, pessoal ou colegiado. Não vou transcrever o artigo completo.Vou citar apenas alguns parágrafos, eles serão suficientes para um leitor um pouco mais atilado.


Eles deveriam pedir desculpas, de joelhos
(Sidney Goldenzon).

Minha filha de sete anos estuda em um bom e caro colégio particular no Rio de Janeiro. No último dia 10 recebi uma carta do colégio onde ela cursa a primeira série do ensino fundamental, solicitando uma “ïnformação autodeclaratória” para atender à Portaria no 156 do Ministério da Educação (emitida em 20 de outubro de 2004) que objetivaria coletar dados para o programa “Mostre sua raça – declare sua cor”, com prazo de devolução até 13/05.

Quase não pude acreditar no que estava lendo. O formulário, além da minha identificação e da minha filha, perguntava, em forma de múltipla escolha, qual a sua cor/raça: amarela, branca, indígena, parda ou preta, além de uma última opção – “opto por não declarar neste momento tal informação”. O MEC estava pedindo para uma menina de sete anos “autodeclarar” sua cor/raça!

Minha filha é branca, aliás, muito branca, já que todos os meus avós eram judeus poloneses. Entretanto, esta não é a sua raça, apenas o tom de sua pele.Ela pertence à raça humana, como todos os seus colegas de turma (dos vários tons de pele).



Por favor, amigos, releiam aquela belíssima afirmação: “ela pertence à raça humana”, uma afirmação digna de um homem cujos ancestrais são os mesmos da virgem que, em certo dia , lá na distante Palestina, disse o essencial Fiat à palavra de um anjo.

Vale a pena ler o artigo completo desse pai.

posted by ruy at 4:59 da manhã

 

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