Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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30.4.05

 
Raízes culturais de um problema atual


Faz poucos dias um velho amigo meu, com quem me correspondo pela Internet, escreveu-me dizendo que, na opinião dele, a atual falta de discernimento político do nosso povo se devia à nossa tríplice origem, a saber: brancos degredados, negros vindos como escravos vendidos por nações escravistas e índios indolentes.

Em resposta ao meu amigo disse-lhe que eu não concordava com sua opinião.Ela seria válida se estivéssemos abordando, por exemplo, os dois primeiros séculos de nossa história, mas, não seria cabível numa análise dos atuais problemas brasileiros.Cabe-me demonstrar minha afirmativa.Vou dar alguns exemplos a favor da minha opinião.

Começando no século XIX, temos o conhecido e luminoso modelo do nosso genial Machado e Assis. Apesar de ter nascido pobre, de origem negra e carregando ainda o peso de uma deprimente doença hereditária, Machado – graças aos seus dotes de cultura, inteligência e sensibilidade - chegou a uma respeitada posição na sociedade da época, sendo acatado até mesmo pelos mestres portugueses, como o velho Eça de Queirós.

No final do mesmo século e início do século XX, o pai do grande pensador católico Jackson de Figueiredo era um simples farmacêutico em Aracaju, capital do distante e pequenino Estado de Sergipe, e lecionava grego por gramática.

Considerando fatos mais próximos da época atual, lembro-me muito bem do que vi ao longo de minha adolescência e minha mocidade. Conheci dezenas e mais dezenas de senhores, homens de espírito amadurecido, que, apesar de terem apenas um diploma de curso primário (o antigo Grupo Escolar), apesar de serem simples comerciantes ou funcionários públicos, sabiam redigir em bom português, escreviam com invejável caligrafia e possuíam ótima cultura geral, adquirida naquele tempo em que o cinema era paupérrimo em recursos técnicos, num tempo em que nem se sonhava com televisão.

Ora, a partir da segunda metade dos anos sessenta começou em todo o país um lamentável processo de decadência cultural. No meu entender, esse fato teve três causas. A primeira foi a exagerada, a hiper-valorização do ensino universitário e o concomitante desprestígio do ensino básico, o injusto e nefasto esquecimento do papel educador da professorinha do saudoso Grupo Escolar.A segunda causa foi o rapidíssimo crescimento das redes de televisão, disseminando pelo Brasil uma sombria atmosfera de mediocridade, mau gosto e grosseria (preciso dar exemplos?)

Por último, e não menos importante, aponto como terceira causa dessa decadência a perda do tradicional respeito que nos meios católicos sempre existira pela nossa faculdade mais nobre, aquela que nos coloca logo abaixo dos anjos, a nossa inteligência.O modo quase populista com que a liturgia da missa passou a ser celebrada é, para mim pelo menos, um sinal evidente dessa lamentável perda de respeito (isso para não falarmos nos absurdos propostos pela chamada “Teologia da Libertação”).
A retirada drástica (vejam bem: drástica) do latim da missa, sob o pretexto de torná-la mais acessível ao grande público, contribuiu bastante para a perda do inteligente e necessário respeito ao mistério eucarístico.

Juntem-se essas três causas, atuando em paralelo, durante mais de quatro décadas, e eu pergunto ao leitor:
- como esperar agora que a grande maioria do povo brasileiro consiga ter uma desejável perspicácia para escolher bem seus administradores e seus governantes ?

posted by ruy at 4:00 da tarde

28.4.05

 
O mistério e a alegria de sua descoberta


[Este “post” está sendo editado em atenção ao pedido feito por meu amigo, A ..., músico]

Chesterton escreveu muitos e brilhantes ensaios.Um deles tem como tema o Livro de Jó, um dos dramáticos textos do Velho Testamento.Se a memória não me engana (li o livro quando tinha vinte e poucos anos), quase no final daquele ensaio G.K.C. escreve isto: “paradoxalmente, o homem é mais bem consolado por aquilo que não consegue compreender”. O mesmo autor, em um de suas obras clássicas (acho que em “Ortodoxia”) afirma que “o mistério é como o sol ao meio dia; não podemos fitá-lo de frente, mas é em sua luz que vemos todas as coisas.”

Esta introdução está intencionalmente ligada ao título deste “post” porquanto Chesterton, sem dúvida alguma, foi, ao mesmo tempo, alguém profundamente sensível ao mistério e homem dotado de um inabalável senso de humor, capaz de sorrir até de si próprio.

Um parêntese. Nós brasileiros há muito tempo nos reconhecemos como irreverentes, folgazões, permanentes criadores de piadas pesadas, à vezes pornográficas, muitas vezes nelas envolvendo assuntos naturalmente sérios.Não temos muita tradição no que se refere ao autêntico senso de humor.Machado de Assis é uma rara e feliz exceção. O senso de humor exige mais inteligência e mais perspicácia, pressupõe uma sutil profundidade , qualidades essas mais freqüentes em outras culturas. Fecho o parêntese.

No meu tempo de menino, distante época em que nem sonhávamos com a televisão, líamos muito, incluindo nesse exercício mental a leitura das chamadas “revistas policiais”. Traduzidas do original em inglês, elas editavam contos em que se narravam misteriosos crimes, intrincados assassinatos, casos esses resolvidos por argutos e corajosos detetives.Vário deles foram transformados em personagens de filmes.

Ora, o mistério na clássica historieta policial de saudosa memória é uma difícil charada que precisa, tem que ser resolvida. Nossa inteligência acompanha, atenta, o desenrolar das investigações e a nossa sensibilidade aguarda, ansiosa, o término da história com as respostas que tornam iluminadas as causas, os ocultos motivos do sombrio crime. Bem diferente é o mistério ontológico, o mistério que está em tudo o que nos rodeia e em nós mesmos, em nosso corpo e em nossa mente, o mistério cuja existência Chesterton percebia com muito rara atenção. Não se trata de um desafio, mas, sim, de um convite.

Contemplar o mistério do ser , o mistério da existência como tal, não deve ser para nós um mero exercício intelectual, como o que usamos na solução de problemas de física ou de matemática.É muitíssimo mais; é uma atitude de integração, para usar a palavra tão do agrado de John O’Donohue.Contemplar o mistério é ouvir com os ouvidos da inteligência o silêncio da vida e, ouvindo-o, ficar em profunda reverência. E com uma não menos profunda alegria.

Nós católicos, ou a maioria de nós católicos – graças a DEUS – vimos nos posicionando, por exemplo, contra os absurdos do aborto e do “casamento” (...) entre pessoas do mesmo sexo.Ora, pergunto: como esperar que a atual sociedade humana pare e, parando, reflita sobre o mistério da vida, ficando reverente diante desse mistério, alegre-se com esse mistério, se todos nós – gregos e troianos – estamos todos envolvidos naquela que E.F. Schumacher denominou, com muito acerto, “a louca disparada prá frente” ?
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posted by ruy at 6:30 da manhã

27.4.05

 
Reflexões avulsas


Refletindo sobre a pergunta de São Judas Tadeu – Os recentes acontecimentos ligados à partida de João Paulo II e à eleição de Bento XVI tiveram uma repercussão tão grande que podem levar até mesmo um católico mais tranqüilo a uma atitude eufórica por saber-se filho da Igreja.É humano que isso aconteça. Porém, agora que as coisas vão voltando a um ritmo mais sereno, nunca será demais refletirmos no mistério de nossa vocação católica, repetindo - e também sem aguardar resposta – a mesma pergunta que Judas Tadeu fez ao Cristo: “por que vos revelastes a mim, Senhor? Por que me destes a graça de pertencer à Vossa Igreja?”
Em que pesem a importância e a necessidade de criticarmos os muitos desacertos do mundo atual, aquela pergunta não deveria ser esquecida por nós.

O anjo e a alegria – Nosso anjo da guarda, que é concedido a cada um de nós logo ao nascermos, companheiro fiel, mesmo quando nos esquecemos de sua invisível e constante presença, existe – como o próprio nome diz – para nos proteger e ajudar.Proteger contra perigos físicos e morais, ajudar-nos, por exemplo, a encontrar de repente pessoas que podem fazer-nos algum tipo de bem espiritual. Penso que todos essas proteções e esses apoios que podemos receber do nosso anjo possam ser resumidos em um só: manter em nós uma alegria permanente e profunda, uma alegria nem sempre compatível com algum tipo de manifestação exterior.Quem, de juízo perfeito, por exemplo, vai rir ao receber a notícia da morte de um ente querido?Como disse o velho Machado: “a morte é séria”.Entretanto, no mais íntimo de quem possui a Esperança (a com É maiúsculo), mora uma silenciosa alegria. É essa alegria a quem o nosso anjo mais protege.

O fazer e o agir – O livro AS FRONTEIRAS DA TÉCNICA talvez não seja dos mais importantes do autor de DOIS AMORES, DUAS CIDADES.Entretanto, contém alguns ensaios bem lúcidos em que certos conceitos básicos são expostos com muita clareza.É justamente o caso das páginas onde o saudoso escritor nos explica a diferença entre o Fazer e o Agir.
Bem, no evangelho desta quarta-feira lemos em São João estas incisivas palavras de Nosso Senhor:
Sem mim, nada podeis fazer. [ São João, cap. 15, vs.5]
O verbo que está na frase é de fato o nosso bem conhecido “fazer”. Ora, nós homens podemos fazer milhares de coisas, na filosofia, na ciência, na engenharia, na medicina, na vida jurídica, nas artes, na política, na indústria, no comércio, enfim, em tudo o que se relaciona com a cultura, com a vida em sociedade. E a maioria de nós – infelizmente – ao fazer tudo isso, nem sequer se lembra da pessoa de Jesus Cristo. Hoje mesmo, de manhã, meu amigo A ..., um músico, enviou-me cordial mensagem na qual lembrava o fato de que muitos indiscutíveis gênios da música não eram pessoas devotas.Algo análogo poderia ser dito quanto a cientistas e engenheiros.E agora, como entender aquela incisiva frase do Cristo?
Na verdade, aquele “fazer” do Evangelho corresponde ao “agir”, não um genérico agir, mesmo realizado com boas intenções, mas, sim, uma atividade intencionalmente voltada para o crescimento do Reino de DEUS entre os homens.

posted by ruy at 6:21 da manhã

25.4.05

 
Duas irmãs muito unidas, a Natureza e a Graça


Começo o “post” de hoje citando um trecho, um pouco longo talvez, do livro ECOS ETERNOS, de John O’Donohue>

A instrumentalização da vida contemporânea empurra-nos cada vez mais para longe da Natureza.Mesmo os agricultores, na verdade, já não sujam as mãos.Há anos, quando se olhava para as mãos de um agricultor, elas eram como léxicos em miniatura da paisagem. As mãos eram gastas e ásperas devido ao contato com o solo e a pedra.Com freqüência, linhas estriadas de argila se insinuavam nas linhas da pele.Era uma imagem poderosa de mãos vivas a nos lembrar que aquelas mãos originalmente foram e voltariam a ser argila.

As pessoas vestiam as melhores roupas para ir à missa.Ao ajudar na missa, viam-se homens impecavelmente vestidos dirigirem-se ao altar para a sagrada comunhão.Eles se postavam reverentemente e apresentavam um par de palmas devastadas e terrosas sobre as quais resplandeceria a hóstia branca: o pão da vida sobre mãos de argila.Essa é uma cena de um mundo em desaparecimento.

Em geral, quando perdemos o contato individual com a Natureza e o contato de uns com os outros, perdemos pouco a pouco a nossa profundidade e diversidade de presença..O mundo da função, do instrumento e da imagem é um limbo onde não vive nenhuma presença, onde nenhum rosto é identificável, onde tudo se nivela no mesmo painel de uniformidade.


Foi apenas uma bem pequena amostra.De fato,o livro do padre irlandês O’Donohue é um contínuo apelo ao leitor desarmado, por exemplo, um leitor católico que não pretende ser um boring, um apelo no sentido de que abra bem os olhos e os ouvidos para a eternidade em que somos e nos movemos, abrindo-nos para a eternidade silenciosamente escondida nas coisas naturais, animais, plantas, águas, ventos, céus e pedras, e o nosso próprio corpo.Um apelo pessoal e discreto que não deve ser confundido com o escarcéu dos ambientalistas, nem muito menos com a esotérica papagaiada da Nova Era.

O’Donohue não faz em seu livro nenhum tipo de proselitismo católico.Para mim pelo menos, na mente desse escritor de origem celta tudo se passa como se ele muitas vezes estivesse fazendo a si mesmo e a seus amigos esta essencial pergunta:
-como posso ter uma autêntica veneração pelos sacramentos se sou incapaz de admirar, com profundo respeito, toda e qualquer criatura de DEUS? Como posso de fato estar atento para o magno mistério da Graça se antes não me dei conta, sinceramente, do humilde mistério da Natureza?

Há muito tempo costumo pensar que um dos episódios mais dramaticamente belos do Evangelho é o das Bodas de Caná.É uma passagem que costuma passar pouco percebida pelos cristãos.Se estes são protestantes, deixam de prestar a necessária atenção à solícita, carinhosa intercessão de Maria, de Nossa Senhora, junto a seu Filho, conseguindo que Ele antecipasse o início dos assombrosos milagres que ainda iria fazer..Se os leitores são católicos, deixam de prestar uma voluntária atenção ao fato de que Maria pediu a Jesus que conseguisse mais vinho – mais vinho, gente! - aquela bebida que alegra o coração dos homens.
As Bodas de Caná, muito mais que um simples, um comum matrimônio, representam o feliz encontro, em público, da Natureza e da Graça.

posted by ruy at 5:00 da manhã

 

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