Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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27.3.05

 
Páscoa


Creio que um dos vários aspectos do magno mistério pascal que deveria ser contemplado por nós com a máxima atenção é o fato de o Cristo ressuscitado não haver aparecido diante dos príncipes dos sacerdotes, diante do Sinédrio ou diante de Pilatos.Esse fato costuma passar despercebido pelos cristãos, incluindo entre eles nós católicos.

(Um modo distorcido de analisar essa estranha discrição de Nosso Senhor no que toca àqueles homens que haviam cometido, sem saber, a maior injustiça que já houve no mundo, e outra igual jamais haverá - é o de nos olharmos como os sequazes de Calvino olhavam a si próprios, isto é, como “predestinados”).

Esse aspecto intrigante do mistério pascal, para mim pelo menos, liga-se a uma advertência que Jesus fez aos seus discípulos: Vós sois o sal da terra . Ora, o sal deve entrar em pequena quantidade no meio do alimento. Seus grãos invisíveis ficam dispersos na massa.É o modo normal como nossas refeições são preparadas.

Por isso, ao dizer aquilo, além de nos confiar uma tarefa de magna relevância, o Senhor parecia estar nos prevenindo para que não ficássemos escandalizados com a pequenez do nosso número e a nossa conseqüente solidão, como a que ocorre nestes nossos tempos modernos, nestes dias em que, por exemplo, um petulante escritor ganha enorme fortuna, torna-se célebre ao publicar certo livro repleto de grosseiras mentiras contra o Cristo e contra a Igreja por Ele fundada.

Mas, essa incômoda solidão já ocorreu também em outros séculos, como, por exemplo, na época em que alguns papas deixaram-se envolver pelo mundanismo, cometeram o desastrado equívoco – se não um claro erro - de se considerarem detentores do poder temporal, esquecendo-se do que o próprio Senhor dissera sobre a moeda de César, ao ser tentado pelos maliciosos fariseus que desejavam apanhá-lo em erro.

Muitos de nós, pressionados por certos fatos atuais, cuja indiscutível malignidade é amplificada pelo estardalhaço da mídia, tomamos uma compreensível atitude de irritados defensores da moral, de ardorosos paladinos da Lei Natural.Entretanto, ao assumir essa atitude, muitas e muitas vezes deixamos de contemplar o mistério, o mistério da Criação e o mistério da Salvação, o mistério da própria vida, o silencioso mistério da eternidade divina, em volta de nós e dentro de nós. E não nos esqueçamos do terrível mistério do Mal.Às vezes, ao contemplarmos todos esses mistérios, a solidão nossa torna-se ainda muito mais incômoda.

A Páscoa renova para nós a Esperança de que esta presente solidão é finita.Faz com que nos lembremos do prometido encontro com a eterna presença, a eterna companhia de DEUS.

posted by ruy at 4:41 da manhã

22.3.05

 
O significado da Cruz


A missa tradicional, celebrada segundo o rito estabelecido por São Pio V, quase sempre terminava fazendo-se a leitura do magnífico prólogo do evangelho segundo São João, prólogo esse que, por sua vez, finaliza com estas palavras E o Verbo se fez carne e habitou entre nós..

Esse fato de hiper infinito significado, um Deus que se faz carne, que assume todos os nossos sofrimentos físicos e morais exceto o pecado, deveria fazer-nos refletir em silêncio não só sobre esse magno mistério em si mesmo como também em sua desejável repercussão em nossa vida de batizados.Vou transcrever, em seguida, pequeno trecho do livro ECOS ETERNOS, do irlandês John O’Donohue. Oxalá possa a leitura desse texto auxiliar-nos a refletir sobre os mistérios centrais da nossa fé cristã.


POR TRÁS DAS TREVAS UMA TÊNUE CLARIDADE

As Estações da Via Sacra são pungentes pontos de piedade. São uma série de imagens que mostram como a dor se concentra na vida humana. A Cruz é um eixo único no tempo.É onde o tempo e a intemporalidade se cruzam.Todo o passado, presente e futuro foram fisicamente carregados Monte do Calvário acima, nessa Cruz.Essa escuridão é carregada monte acima a fim de poder defrontar-se com a nova aurora da Ressurreição e transfigurar-se.Em essência, a Cruz e a Ressurreição são a mesma coisa.Uma não é subseqüente à outra.A Ressurreição é a luz interior oculta no coração das trevas da Cruz.Na manhã de Páscoa essa luz explode sobre o mundo.Esse é o mistério da Eucaristia.A Eucaristia é um ponto fascinante.Ela abrange o Calvário e a Ressurreição dentro do mesmo círculo.Em termos cristãos não há caminho para a luz ou a glória exceto pelo terreno penoso sob o peso tenebroso da Cruz.

A Cruz é um símbolo solitário e desamparado.A Sexta-Feira Santa é sempre profundamente desolada. No âmago desse dia, há uma tristeza lúgubre e perturbadora.Na Sexta-Feira Santa, a dor do mundo está voltando à Cruz, à espera novamente da transfiguração.A Cruz é um símbolo antigo.Expresso liricamente, em toda dor, dificuldade e tristeza existe uma estrutura cruciforme.Nesse sentido, a Cruz não é um objeto externo que fica à distância, em um monte em Jerusalém.A forma da Cruz é, antes, intrínseca ao coração humano.Todo coração tem um feitio cruciforme.

Quando examinamos os diferentes conflitos na nossa vida, verificamos que eles se situam onde as contradições se cruzam. No nervo da contradição, acha-se o centro da Cruz, o cravo da dor onde duas realidades íntimas, porém conflitantes se entrecruzam. Observar a Cruz erguida é verificar como ela abarca todas as direções.A travessa vertical estende-se da profundidade mais inferior da argila ao zênite mais elevado da divindade, a travessa horizontal cobre a extensão do mundo.A promessa a cada um de nós é a de que nunca seremos chamados a percorrer a trilha solitária do sofrimento sem ver, à nossa frente, as pegadas que afinal conduzirão além do cimo do monte onde a Ressurreição nos aguarda.


posted by ruy at 1:31 da tarde

 

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