Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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20.3.05

 
A Ilha de SELKIRK


O título deste “post” é o mesmo de um livro sobre “a verdadeira história de ROBINSON CRUSOE”, escrito por Diana Souhami, com a tradução editada pela EDIOURO.Qualquer pessoa que tenha lido em criança uma boa adaptação ou que tenha tido paciência para ler, de ponta a ponta, a edição integral do famoso romance de Daniel Defoe vai certamente apreciar esse minucioso trabalho de pesquisa histórica feito por Souhami.

Ora, é justamente esse caráter de séria pesquisa histórica que várias vezes torna a leitura do livro meio cansativa, tal a quantidade de transcrições de textos de documentos antigos, em especial os diários de bordos de muitos dos navios cuja saga faz o pano de fundo da narrativa.E a autora, conforme acho, não estaria muito interessada em apresentar uma análise interpretativa dos fatos que nos conta.Bem é uma interpretação o que me arrisco a apresentar neste “blog”.

Os fatos narrados em “A Ilha de SELKIRK” passam-se no final do século XVII e início do século XVIII.Um leitor meio ou bastante indiscreto vai se deixar impressionar com os inúmeros episódios do relato, uns simplesmente curiosos, outros comoventes, e uns poucos claramente escabrosos. Envolvido com a indiscrição o leitor poderá passar ao largo da pergunta essencial: por que tudo isso acontecia naquela época? Vejamos um dos razoáveis porquês.

No tempo daqueles fatos, o mundo estava aproximadamente a trezentos séculos distante do melancólico final da Idade Média. Nações como a Inglaterra, a Espanha, a França, Portugal, a Suécia e outras, há muitos anos já estavam em pleno fortalecimento de seus nacionalismos , uns mais outros menos maquiavélicos.A palavra “fortuna”, que no remoto passado significara “sorte” (boa ou má), agora era mesmo sinônimo de riqueza material, em particular a posse do ouro.Muitas daquelas arriscadas expedições marítimas que atravessam as páginas do livro ora comentado eram direta ou indiretamente apoiadas pelos monarcas daqueles países.A palavra“honesto”, agora, aplicava-se apenas a um homem que não roubava, e não a um ato por si mesmo moralmente bom, conforme o mesmo termo significara no Medievo.

A religião cristã que, em séculos passados, formara o consenso de uma Cristandade, agora estava dilacerada por disputas fratricidas (um dos episódios que mais me comoveu na leitura do livro é aquele em que a Bíblia de Selkirk – pobre Alexander... – é queimada por marinheiros espanhóis, os quais – coitados... - ao fazerem aquilo, com certeza estavam achando ser um bem imenso para o mundo destruir um exemplar das Sagradas Escrituras editado pelos protestantes. Não enxergaram eles naquele livro um auxílio para o infeliz solitário não enlouquecer na ilha deserta.

Um dos canais da NET exibiu ontem o filme “Ana dos mil dias”, uma romanceada (e falha em muitos pontos) versão do “affaire” Henrique VIII e Ana Bolena.Quando o filme está quase no seu final, algumas cenas mostram, em um jardim, a menina de cabelos ruivos, filha de Ana e do heresiarca Henrique, a menina que anos mais tarde viria a ser a famosa rainha Elizabete I da Inglaterra.O telespectador, embevecido, dificilmente vai estabelecer uma linha causal entre aquelas sombrias intrigas palacianas, entre aquele arrogante nacionalismo emergindo no século XVI, entre aquela insolente rebeldia religiosa e os modernos e pungentes episódios que culminaram na trágica morte da princesa Diana.

Faz muitos e muitos anos, no tempo da segunda Guerra Mundial, li em um filme americano esta frase concisa e ao mesmo tempo sábia:
- PAST IS PROLOGUE.

posted by ruy at 4:29 da tarde

18.3.05

 
Uma reflexão sobre a família


O professor Gilberto de Mello Kujawski recém publicou um belíssimo – isso mesmo, belíssimo – artigo (UM PAPA RADICAL)no Estadão comentando o livro “Memória e Identidade” , de João Paulo II. Um dos vários aspectos que Kujawski ressalta nessa mais que oportuna obra do papa é a simplicidade, é o modo sereno porém firme com que o pontífice analisa os problemas do nosso agitado mundo contemporâneo.Ora, essa mesma simplicidade ocorre nos textos do irlandês John O’Donohue, em particular no livro Ecos eternos .Vou transcrever em seguida um trecho das reflexões que esse descendente dos celtas faz sobre a família, isto é, a família como tal.


Superficialmente, uma família poderia parecer um ajuntamento casual de indivíduos, reunidos pelo encontro fortuito de um homem e uma mulher, que se apaixonaram e quiseram expressar a profundidade do seu amor na procriação.Em um nível mais profundo, uma família é um inacreditável entrelaçamento de múltiplos fluxos de ascendência, memória, sombra e luz. Cada casa acolhe a chegada da história e assiste à partida de novo destino.As paredes da casa contêm acontecimentos imensos que ocorreram gradativamente sob o véu sutil da normalidade.Embora cada família seja um conjunto de novos indivíduos, relíquias e resíduos antigos se filtram das gerações passadas.Exceto pelos nossos pais e avós, os nossos antepassados desapareceram.

No entanto, fundamental e imediatamente, são os antepassados que nos chamam aqui.Pertencemos à sua linhagem vital.Enquanto eles servem de base à nossa memória desconhecida, a nossa continuidade lhes confere uma certa eternidade indireta.Na nossa presença, enlaçamos passado e futuro.Virgílio salienta o belo significado da “pietas”.Ela denota muito mais que um dever; é voltada para o futuro assim como é retrospectiva.Embora Enéas esteja comprometido com o seu tremendo e penoso destino, ele se preocupa tanto com o seu filho como com seu pai.

A solidão e a criatividade de ser um genitor são o reconhecimento de que a família é inevitavelmente temporária.A paternidade ou maternidade benéfica é abnegada e, para estimular a independência em um filho que recebeu amor incondicional, age para fortalecer o senso e a essência da integração.Nada, nem mesmo o afastamento, pode desfazer esse senso intrínseco de integração.Os filhos são criados para crescer e deixar o ninho.A família proporciona a integração original e essencial no mundo.Ela é o berço onde a identidade desabrocha e se consolida.

Tal integração supera a si mesma.O lar torna-se demasiado pequeno e demasiado seguro.O jovem adulto é chamado por novo anseio a deixar o lar e empreender nova descoberta.A dificuldade para os pais é deixá-los partir.De certo modo, os pais e os filhos nunca se separam.Esse é um parentesco que nenhuma distância pode romper.No entanto, em um sentido virtual, parte da tarefa da maturidade é ficar livre dos pais.

Agarrar-se aos pais causa um desequilíbrio destrutivo na vida de uma pessoa.A pessoa nunca alcança um senso integral de autocontrole se os pais continuam a dominar grandes regiões do seu coração.Crescer é passar a conhecer a fragilidade, a vulnerabilidade e a limitação dos pais.Existe grande pungência e pathos na dificuldade dos pais em permitir a partida.Kahlil Gibran diz: “Os vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas do anseio da Vida por si mesma.”


posted by ruy at 6:34 da manhã

16.3.05

 
Passando a palavra a um amigo que entende das coisas


Meu amigo Alexandre – o serrano – enviou-me cópia de um artigo escrito por ele. Vou transcrever em seguida um trecho do texto que recebi, e que acho oportuno divulgar!

O cristianismo, antes de ser uma doutrina, é uma experiência pessoal de encontro com Deus, especialmente da figura histórica que foi Jesus de Nazaré. Desse encontro deriva todo o resto. Deriva por exemplo a Igreja, que nasce do lado do Cristo Crucificado trespassado pela lança do soldado romano, e a Autoridade divinamente instituída para, a partir do dado bruto da Revelação, ir resolvendo as questões que a história for apresentando.

Logo no comecinho da Igreja, especialmente nos primeiros seis séculos a coisa foi feia. Havia quem dissesse que o Antigo Testamento podia ser jogado fora, havia quem dissesse que Jesus não era Deus, mas um homem que havia atingido uma perfeição quase divina (essa idéia chegou a ser majoritária na Igreja por algum tempo), e havia quem dissesse o contrário: que em Jesus a humanidade era apenas aparente. Todas essas questões foram decididas pelo Magistério da Igreja, na época e ao longo dos séculos, e hoje estamos aí diante das novas questões trazidas pela ciência e pela tecnologia. Do ponto de vista técnico a Igreja não tem autoridade, mas do moral tem muita. Será que a simples viabilidade técnica, por si mesma, justifica que se faça alguma coisa, como, por exemplo, experiências com embriões humanos? Os aspectos técnicos devem se subordinar aos éticos, e estes, para terem um fundamento verdadeiramente sólido, precisam estar alicerçados na Revelação Divina, ou podem perfeitamente mudar segundo a moda do momento.

Costumo dizer para meus amigos protestantes que a verdade não depende nem do número, nem da sabedoria ou conhecimento, nem da santidade. Um sujeito pode ser muito santo, e até muito inteligente, mas ali na esquina há outro tão santo e tão inteligente interpretando uma passagem da Escritura de modo completamente diferente. Da mesma forma, o número é expressão de força, raramente de justiça, quase nunca de verdade.

O grande medievalista Étienne Gilson dizia que "nós, seres humanos, somos muito propensos a buscar a verdade, mas muito contrários a aceitá-la. Não nos agrada que a evidência racional nos encurrale... Achar a verdade não é difícil, difícil é não fugir dela quando foi encontrada".

É engraçado ver algumas (na verdade muitas) pessoas reclamarem dos dogmas da Igreja. Quando encontro alguém assim sugiro que tente ser budista avisando que não acredita em reencarnação, ou judeu dizendo que não dispensa uma costelinha de porco ou galinha ao molho pardo. Se quiserem outra linha de comparações, experimente entrar numa quadra de basquete e jogar com os pés, para ver se num instante não aparecem aqueles caras fortões segurando uma camisa com mangas muito longas.

Ninguém é obrigado a ser católico, budista, ou jogador de basquete. Mas quem quiser ser, tem que aprender as regras primeiro e, mesmo que não consiga lembrar de todas ou praticá-las nos conformes, deve-se lembrar que, se o Barão de Coubertin dizia que "o importante é competir", Deus, por sua vez, não quer que disputemos com ninguém, mas nos empenhemos, com toda força, em procurar encontrar e viver na verdade, e ela nos libertará.

[ de “Formação de preço e formação da fé”, de Alexandre Ramos da Silva) ]

posted by ruy at 2:59 da manhã

15.3.05

 
Pequena reflexão sobre o Anjo da Guarda


Ontem à noite estava eu pensando em escrever algo sobre o Anjo da Guarda. Coincidentemente, meu amigo S..., hoje de manhã enviou-me pela Internet um longo texto sobre os anjos maus (“ What the Devil!”, artigo escrito pelo padre Nicholas Halligan OP). Como não podia deixar de acontecer, o padre Halligan faz várias referências a Santo Tomás de Aquino. É o mesmo Doutor Angélico que serviu de apoio a Mortimer Jerome Adler para escrever seu livro “Os Anjos e Nós”, uma das bem poucas (de fato três apenas) obras do grande pensador americano traduzidas para o português.

Quando eu era menino, aprendi a rezar a oração católica (católica, sim, porque rezada por todas as populações católicas do mundo) dirigida ao Anjo da Guarda:

Santo Anjo do Senhor,
Meu zeloso guardador,
Se a ti me confiou a piedade divina,
Sempre me rege,
Me guarda,
Governa,
Ilumina,
Amen.


Ora, no livro de Adler aprendemos que os anjos não podem agir sobre a nossa vontade.Se tal ação fosse possível, não teríamos o livre-arbítrio, não seríamos moralmente responsáveis por nossos atos.Então, como podemos rezar pedindo ao Anjo da Guarda que sejamos regidos por ele, governados por ele?

O mesmo Adler nos explica que a ação do anjo sobre nós opera através de nossa imaginação e de nossa memória sensível. Quando pedimos ao guardião celeste: “sempre me rege”, “me governa”, dele esperamos que impeça nossos devaneios maliciosos, nossas fantasias pseudo poéticas e que nos faça lembrar das coisas que de fato merecem, precisam ser lembradas. Por exemplo, que é o ressentimento se não um péssimo uso da memória?

Houve um famoso escritor francês (Malebranche) que chamou a imaginação de la folle du logis , a louca da casa. Pascal dizia que ela é “mestra de erro e falsidade”.Talvez eles tivessem exagerado um pouco nesses modos de dizer; mas, por vias das dúvidas, peçamos ao nosso Anjo da Guarda que conserve essa importante, essa utilíssima faculdade humana dentro dos limites recomendados pela Prudência.


Obrigado, amigo S..., pelo envio do artigo.

posted by ruy at 3:44 da tarde

14.3.05

 
Complemento ao “post” do dia 12

Peço aos leitores amigos que tornem a ler, sem pressa, meu “post” do dia 12 deste mês.Em seguida, por favor, reflitam sobre dois pontos que vou expor em seguida.

Muitos de nós católicos estamos fazendo a incômoda descoberta da existência de livros “best-sellers”, filmes bombásticos e insinuantes programas de TV todos nitidamente negadores do Evangelho e da Igreja e, mais que negadores, arrogantes e agressivos opositores às verdades que há mais de vinte séculos vêm fermentando a civilização.

Ora, essa incômoda descoberta não deveria provocar em nós apenas um veemente movimento de justa repulsa. Acho que, em primeiríssimo lugar, essa melancólica constatação nossa deveria mover-nos a fazer a nós mesmos algumas perguntas bem francas, como estas:

- qual é de, fato, a profundidade da minha crença?

- sei com certeza qual é a diferença entre santidade e comportamento moral excelente?

- quem é Jesus Cristo para mim? Passo o meu dia a dia sem pensar n’Ele ?

- já parei para refletir seriamente sobre o fato de que estou, humanamente falando, só? Já me angustiei com isso?

O outro ponto que proponho à reflexão dos amigos é o da existência das pessoas , a começar pelas que estão bem próximas de nós.Pergunto:
- já olhamos tais pessoas com um olhar bem objetivo, bem infantil, no sentido mais profundo – e mais necessário - dessa infantilidade , ou nosso olhar é mais orientado pela análise cartesiana ou, quem sabe, pseudo-poética, ignorante, desatenta para o mistério do outro? Quando esse outro acaba de nos contar que leu e gostou de ter lido, por exemplo, o infeliz livro de Dan Brown, surge logo dentro de nós um movimento de misericórdia diante da pobreza do outro, ou nosso primeiro impulso é o de entrar em discussão, em mostrar ao outro a sua triste ignorância?


Ainda sobre o livro de João Paulo II

Continuo descobrindo com alegria, nas páginas desse livro, o modo simples e ao mesmo tempo firme com que o papa fala sobre os problemas do mundo moderno.É mesmo o estilo de um pastor de almas.

posted by ruy at 5:01 da manhã

 

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