Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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12.3.05

 
A face alegre do desespero


Contam de André Gide que era um pervertido. Ora, esse mesmo famoso escritor francês certa vez teria dito que a verdadeira, a autêntica face da bondade ele a tinha visto no rosto severo de uma Irmã de Caridade, isto é, de uma filha de São Vicente de Paulo.Muitos leitores neste instante poderão retrucar dizendo que conhecem freiras bondosas cujos rostos mostram uma simpática descontração.Tudo bem, isso, entretanto, não altera o fato de um homem sem fé, um intelectual cínico, haver prestado, certo dia, uma homenagem à bondade discreta, aquela que, em geral, passa despercebida aos olhos humanos.

O que podemos dizer, meio acacianamente, diante dessas observações aparentemente antagônicas, é que nem sempre a face de uma pessoa mostra o que existe em seu íntimo. E um dramático exemplo disso é o que tantas e tantas vezes, ao longo de nossos encontros com outras pessoas, de repente verificamos: por trás de uma simpatia e de um sorriso sinceros, mora uma despercebida falta de esperança, ou melhor dizendo, uma ausência da Esperança.

Bem a propósito, lembramos um recente diálogo nosso com o senhor X...Trata-se de um profissional competente e dedicado ao seu trabalho, competência e dedicação essas que fizeram-no merecedor do respeito e da amizade de centenas, talvez milhares de homens e mulheres a quem ele presta os seus serviços.É bom marido e bom pai. Bem humorado, sua conversa é agradável e amistosa.Tudo bem.De repente, no meio desse diálogo, X... nos diz, muito animado, que leu e gostou de ter lido o livro “O Código da Vinci”, de Dan Brown.

Note bem, leitor amigo, a pessoa que acabou de nos contar que leu esse romance é alguém com nível de escolaridade universitária, é pessoa que tem o hábito da leitura de livros.

Não fiz nenhum comentário sobre o que X... acabou de me dizer.Mantive-me discreto e refletindo sobre este fato: o livro de Dan Brown deve ter rendido milhões de dólares para o autor.E seguramente deve render ainda mais se for usado como tema para um filme.Milhões de pessoas como o senhor X... devem ter lido e igualmente apreciado esse livro repleto de mentiras e meias verdades, estas que – os sensatos sabem muito bem disso – são piores que as mentiras.

Note ainda leitor, creio que X... possa ser moralmente melhor do que eu.Faço questão de dizer isso porque, infelizmente, muitos de nós católicos costumamos estabelecer uma identidade perfeita entre fé religiosa e comportamento moral perfeito, entre religião e moral.Passamos dias, meses, anos preocupados com graves problemas morais – que de fato existem em nosso mundo moderno- e não nos damos conta de que um gato é um gato , não temos olhos admirados para o mistério das coisas mais banais, mais prosaicas que nos cercam, para o estonteante mistério da vida.

Quando ouvi X... dizer que leu e gostou daquele livro nefasto – e X... , com toda certeza, não vislumbra essa triste qualidade do livro – percebi naquele instante como deve existir, infelizmente, uma multidão de homens e mulheres para quem a Esperança trazida pelo Evangelho do Cristo acabou tornando-se desconhecida.Homens e mulheres cujo comportamento moral não faz deles pessoas perversas, intencionalmente nocivas à sociedade dos homens.Pelo contrário, são pesoas que prestam excelentes serviços aos seus concidadãos.

Tenho lido textos do padre John O´Donohue.Já escrevi neste “blog” que não tenho credenciais de filósofo nem de teólogo para julgar o grau de ortodoxia desse moderno pensador e poeta irlandês. Entretanto, tenho certeza disso, o padre O´Donohue tem procurado em seus escritos alertar-nos sobre a supereminente necessidade de uma generalizada atitude contemplativa, aquela atitude que pode fazer-nos redescobrir a maravilhosa Boa Nova que o próprio DEUS certo dia veio trazer-nos pessoalmente.Sem essa atitude, meus amigos, podemos nos tornar apenas irritados moralistas.

posted by ruy at 11:24 da manhã

10.3.05

 
Pequena amostra para quem ainda não comprou o livro


Por duas vezes recomendei aos leitores católicos deste “blog” que comprassem (e lessem) o livro MEMÓRIA E IDENTIDADE, do nosso papa João Paulo II. (observe leitor que de propósito coloquei a palavra católicos em negrito; refere-se aos que de fato são filhos convictos da Igreja).Como é bem possível que um ou outro leitor ainda não tenha ido à livraria, transcrevo a seguir um trecho do citado livro, mais precisamente a parte inicial do capítulo sete (intitulado: PARA UM JUSTO USO DA LIBERDADE).


Se, depois da queda dos sistemas totalitários, as sociedades se sentiram livres, quase ao mesmo tempo surgiu um problema fundamental: o do uso da liberdade.Trata-se de um problema que tem não só dimensões individuais, mas também coletivas; por isso, o que se aplica é uma solução de certo modo sistemática.Dizer que sou livre significa que posso fazer uso bom ou mau da minha liberdade: se a uso bem, conseqüentemente eu próprio me torno melhor, e o bem que realizei influi positivamente sobre quem me rodeia; se, pelo contrário, a uso mal, as conseqüências serão o arraigamento e a difusão do mal em mim e no ambiente circundante
[comentário meu: note leitor, desde logo, a maneira precisa e ao mesmo tempo simples, direta com que João Paulo II analisa os fatos]

A periculosidade da situação que se vive hoje está no fato de que, no uso da liberdade, pretende-se prescindir da dimensão ética, isto é, da consideração do bem e do mal moral; uma certa concepção da liberdade, que goza atualmente de larga repercussão na opinião pública, desvia a atenção do homem das responsabilidades éticas.
[comentário meu: quando li este trecho, lembrei-me imediatamente de uma notícia dada faz uns três dias pelo Estadão, a de que grande parte dos católicos (sic) é favorável ao uso da camisinha e à prática do aborto em certas circunstâncias]

Aquilo que importa hoje é a liberdade pura e simples.Dizem: o que interessa é ser livre, totalmente desligado de freios e vínculos, para poder mover-se segundo os próprios alvitres, que, na realidade, freqüentemente não passam de caprichos.É claro que um liberalismo de tal gênero só pode classificar-se como primitivo (sic) ; em todo o caso, a sua influência é potencialmente devastadora.
[comentário meu: ao ler esta palavra, “devastadora”, pensei logo no nefasto programa Big Brother Brasil, que muitos, ingenuamente, acham que só tem de ruim eventuais cenas de sexo mais ou menos explícito; não percebem, esses ingênuos, que ali, naquela chamada realidade virtual , esconde-se um traiçoeiro processo de demolição do respeito por si próprio, de perda da necessária e reverente intimidade com o nosso eu interior, aquele eu que pode dialogar com o DEUS que nos criou por amor]


Pois é, leitor amigo, não deixe de comprar e ler esse livro oportuníssimo.Você vai encontrar ali muitas e úteis lições dadas pelo sucessor de Pedro.
(o livro custa menos de trinta reais).

posted by ruy at 1:45 da tarde

8.3.05

 
A doutrina dos dois amores


Ao longo de uma leitura atenta do livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES, podemos aprender muitas e claras lições sobre a história, sobre a origem do Direito, sobre fatos da ciência, sobre artes e literatura, sobre filosofia e teologia.O autor do livro foi homem de vasta cultura e refinada sensibilidade, e valeu-se também de sua grande experiência como engenheiro e professor de várias gerações.

Um dos temas abordados no livro é a tradicional doutrina católica dos dois amores.Para minha imensa alegria, logo no início do recém editado livro de João Paulo II, MEMÓRIA E IDENTIDADE, leio ali a referência que o papa faz aos possíveis dois amores.Essa referência é concisa.No livro de Corção, essa mesma doutrina é exposta demoradamente, para que um leitor mais lento consiga entende-la sem dificuldade.

Na ordem da Caridade, o primeiro próximo a quem devemos amar somos nós mesmos, logo abaixo de DEUS.Melhor dizendo, devemos amar a nós mesmos do modo como DEUS quer, procurando amar-nos do jeito que Ele nos ama.

Há um modo egoísta de amar a si próprio.Isso ocorre quando amamos em nós o nosso eu , a nossa sensibilidade, a nossa opinião própria, o nosso apego ao conforto e à segurança colocados em primeiro lugar.Esse modo de amar é a raiz de todos os conflitos familiares e sociais.Este é o falso amor de si próprio.É o que se denomina amor-próprio

O verdadeiro amor de si mesmo começa com a vital experiência da humildade, que não deve ser entendida como se fosse um mecânico e forçado abaixar a cabeça.A humildade, conforme nos ensina Santa Tereza d’Ávila, é essencialmente o reconhecimento e a aceitação da verdade; é a recusa enérgica da mentira.

O essencial e mais grave erro dos socialistas e comunistas está justamente na valorização exacerbada desse amor sensível do homem por si próprio, um afeto desregrado em que o principal de nós – nossa alma racional – nem sequer é lembrado.Os regimes tipo “colégio-interno” procuram manter os cidadãos bem comportados de modo a não terem tempo para refletir sobre o mistério da vida, para descobrirem, de repente, que foram criados pelo amor de um Deus Pessoal.

João Paulo II escreve claramente em seu livro: a partir de certa época, os homens se colocaram no lugar de DEUS.Essa tenebrosa arrogância, diz-nos o papa, é a essência do Pecado Original (se Gustavo Corção ainda estivesse vivo, com absoluta certeza daria um sorriso de radiosa alegria ao ler o MEMÓRIA E IDENTIDADE).



posted by ruy at 4:53 da manhã

 

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