Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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6.3.05

 
A vital continuidade


Antigamente, nas pequenas e tranqüilas cidades do interior, era possível que um adulto começasse regularmente suas atividades diárias assistindo à missa mais cedo de sua paróquia.Ele, o fiel, ia serenamente a pé até a igreja e, após a missa, saia para o seu trabalho na sociedade dos homens. Aquele hábito salutar sem dúvida alguma marcava o restante do dia do católico interiorano que fosse convicto de sua fé.Ajudava-o a manter uma desejável continuidade espiritual.

No “post” de ontem incluí comentários (enviados em mensagem de um leitor amigo) sobre as tais Campanhas que anualmente são feitas por ocasião da Quaresma.Acho que tais campanhas, ainda que proponham temas interessantes e até mesmo úteis, passam ao largo dessa continuidade espiritual que deveria existir na vida de cada católico deste país.

Já faz muitos e muitos anos, existiu no Brasil um grupo político, muito atuante, que adotara como lema esta tríade: Deus, pátria e família .Um leitor desatento, ao ler estas três palavras juntas, pode sentir de repente uma grande simpatia pela proposta daqueles ardorosos políticos.Ora, por mais simpático que esse lema pareça, ele tem implícito um erro nuclear. Por quê?

Ocorre que, para um cristão, DEUS é o Absoluto.Esse absolutismo do Deus adorado pelos cristãos não é idêntico ao existente em outras crenças.Para nós batizados, Deus é Amor, Deus cáritas est . É um Amor onipotente e onipresente, no Qual existimos e n’Ele nos movemos O mover-se aqui não é apenas deslocar-se de um ponto para outro no espaço; nesse movimento, além do deslocamento físico, estão incluídas todas as nossas mudanças de atitude, de sentimento e de humor; de aquisição de conhecimento e do exercício da vontade.

Sendo, pois, o Absoluto, Deus não deve ser colocado por nós dentro de um esquema semelhante ao adotado por aquele velho grupo político, por mais simpático que o tal esquema se nos apresente. Deus, nosso Criador e Redentor, deveria, sim, ser visto por nós como algo absolutamente necessário em todas as nossas relações, em todos os nossos atos, sejam estes os vividos no âmbito familiar, sejam os executados em nosso trabalho, sejam os realizados no cumprimento de nossos deveres cívicos, como o do patriotismo.

A um leitor que, neste momento, esteja achando que o Ruy está sendo radical, peço que releia com atenção vários trechos do Evangelho em que a linguagem do Senhor foi considerada dura de ouvir por seus discípulos, como por exemplo quando ele lhes disse: Quem não está comigo, está conta mim. (Mt 12, 30), ou quando ele disse que daria sua própria carne em alimento aos homens (Jo 6, 54-56).

Em resumo, a mal denominada prática religiosa não deveria ser vista por nós como um compartimento estanque, como se estivéssemos esquematizando assim: domingo é dia da missa, dia reservado para pensar um pouco em religião; nos demais dias, dividimos nossa atenção entre a família e o trabalho, situações estas em que, geralmente, nos desligamos do mistério, esquecemo-nos do Absoluto que dá pleno sentido à existência humana. Perdemos, assim, nessa acomodação jeitosa, a vital continuidade do espírito.

No meu entender, as costumeiras Campanhas da Fraternidade deveriam, antes de qualquer outro tema, preocupar-se com este assunto.


Em tempo

Meus amigos, por favor, não deixem de comprar o livro " Memória e Identidade", do papa João Paulo II(tradução da editora Objetiva).

posted by ruy at 1:36 da tarde

5.3.05

 
A opinião de alguém que está de olhos abertos


Acho que não possuo nenhuma vocação para eremita. Sinto grande desconforto quando olho em torno e tenho enorme dificuldade para achar uma única pessoa que perceba, do mesmo modo como percebo, a suma, a vital importância do encadeamento histórico que começou há mais de dois mil anos, na distante Judéia e que, ao longo dos seus três ou quatro primeiros séculos, mudou radicalmente o modo de pensar da civilização Ocidental. Note bem leitor, não estou dizendo que, comparando pessoa por pessoa, os homens dos primeiros séculos do Cristianismo tenham se tornado moralmente melhores que nós modernos hoje somos. Entretanto, tenho que dizer isto: eles estavam impregnados pela infinita novidade que haviam recebido da tradição apostólica, enquanto nós, modernos, vimos agindo diuturnamente como se fôssemos pobres desmemoriados.

Não tendo, pois, vocação para eremita, alegro-me quando chega uma mensagem como a que recebi de um leitor distante, a qual transcrevo a seguir, mensagem de alguém que não perdeu a memória, alguém que está de olhos abertos.


Professor,

É preocupante a situação. O que me entristece mais é o canto de sereia de várias campanhas, desarmamento, cidadania, solidariedade, etc. Não que não haja virtudes nisso, mas não há clareza nos conceitos; há,sim, uma idéia vaga, à espera de que o brasileiro a siga como um carneiro (como naquela frase em inglês, people follow like sheep ).

No fundo, ao se afastar de Deus e da Igreja, o homem perde toda uma maneira de agir e pensar. Por que solidariedade e outros termos tornados vazios, quando há a caridade cristã? Irrita muito também o pressuposto de que o homem precisa que lhe digam como agir e como pensar, abandonando o livre-arbítrio.

Solidariedade e cidadania em vez de caridade, estado e político em vez de Deus, obediência em vez de liberdade, mente vazia em vez de fé e foco em Deus. Como sempre, há antecedentes para haver conseqüentes.Podemos enumerar todos, da Reforma à Revolução Francesa, do marxismo à psicanálise, do darwinismo à fé cega na ciência, do fascismo ao comunismo. Todos esses têm em maior ou menor grau o abandono da fé em Deus, ou a acomodação da mesma a conveniência de cada um; a destruição dos valores judaico cristãos, entre eles a família; ou a franca hostilidade e negação de todos os princípios pregados por Cristo (isso sem contar com a relativização dEle: para alguns, mesmo cristãos, Cristo estaria próximo de Buda, Confúcio e outros, como ser "iluminado", passo importante de uma paganização).
E o pior é que tende a se agravar. Um abraço preocupado e cansado.


Amigo S..., permita-me glosar seus comentários com uma opinião deste escriba. Acho que seria maravilhoso se a CNBB lançasse campanhas propondo para reflexão Quaresmal certos temas como estes:
- como será a nossa vida no Céu;
- o mistério da vocação de Nossa Senhora;
- o sentido espiritual do trabalho humano;
- confiar em DEUS sempre,
e outros análogos que um leitor deste “blog”, usando um pouco de imaginação, poderá acrescentar.

Será que nossos bispos julgam nosso povo incapaz de pensar, incapaz de aprender verdades essenciais da fé cristã?


Uma “dica” bem quente


Já está nas livrarias, recém saído do forno, o livro editado em português: Memória e Identidade , do papa João Paulo II (editora Objetiva). Trata-se de uma obra de leitura imprescindível para os católicos. Peço aos leitores que divulguem isso entre seus parentes e amigos.
(O preço do livro não chega a trinta reais).

posted by ruy at 1:08 da tarde

4.3.05

 
Três poeminhas de aprendiz teimoso


Parando em ponto morto


Múltiplos fazeres,
eficientes,
eficazes,
(alguns brilhantes),
constroem grandes obras,
aprendem não menores conhecimentos,
tudo entremeado de risos tristes
(sinal da Esperança ausente).

Sobra-nos, assim, pouco tempo,
muito pouco realmente,
para perceber,
dentro ou fora de nós mesmos,
nossa louca disparada prá frente.


Oração ao Pescador


O’ Pescador de peixes e de homens,
Que foste capaz de grandes arrojos,
Capaz do amargo pranto,
Ajuda-nos a ouvir,
Sobre o revolto mar do cotidiano,
A voz d’Aquele que promete (e dá)
A vida que não morre.


Amor conjugal


Chove bastante lá fora.
Ele dorme, nada escuta.
Ela, sem fazer barulho,
tira do guarda-roupa um certo par de sapatos,
os que, no dia seguinte,
vão proteger melhor os pés do seu marido.


Uma reflexão bem útil de Santa Joana Francisca de Chantal


[transcrita de um “site” católico americano]

The great method of prayer is to have none. If in going to prayer one can form in oneself a pure capacity for receiving the spirit of God, that will suffice for all method.

-- St Jane Frances de Chantal


posted by ruy at 11:09 da manhã

2.3.05

 
Uma situação extremamente desejável


Os advérbios existem de um modo geral para reforçar o efeito dos adjetivos.Ora, ao usar um advérbio podemos, sem dúvida, cometer um exagero.Entretanto, naquele “extremamente” que está ali no título deste “post” garanto ao leitor católico deste “blog” que não houve nenhum exagero.Digo leitor católico porque somente alguém que seja filho dedicado da Igreja poderá entender e, mais que entender, concordar com o que vou escrever a seguir.

Será ridiculamente Acaciano afirmar que hoje em dia vivemos bombardeados por uma pletora de notícias.Notícias políticas, notícias policiais, fofocas dos meios artísticos e literários etc., todo esse bombardeio de informações está dificultando a nossa observação atenta daquilo que está mais próximo de nós, que são as nossas famílias.Tal fato não preocupa os governantes já que a maioria deles é mesmo deísta e, como tal, não vê em cada família um conjunto de pessoas , mas, sim, apenas um grupo de seres humanos que precisam comer e trabalhar, e distrair-se, no futebol ou na televisão, de modo a recobrar forças para continuar trabalhando.Seres que devem ter saúde para não onerar o Estado com despesas de médicos, remédios e hospital.Estão aí as vultosas campanhas para diminuir os acidentes de trânsito e a ocorrência da AIDS; os governantes não se preocupam em saber por que os jovens se embriagam ou usam drogas.

Um católico, uma família católica não deveria assumir diante dessas tragédias sociais uma atitude distante, fria, semelhante à dos que governam nossos povos. Disse “nossos” porque o problema não é só do Brasil.

Vamos logo ao ponto.Penso neste instante em duas famílias e em um casal, todos franceses. As famílias de Leon e Jeanne Bloy, de Louis e Zélie Martin (pais de Santa Terezinha) e o casal Jacques e Rahíssa Maritain (casal que mantinha em sua casa um sacrário com o Santíssimo Sacramento). Ora, sem chegar a copiar tais exemplos, seria extremamente desejável que, na maioria de nossas famílias, houvesse permanentemente um estado de generalizada contemplação do mistério da vida, do mistério do Cristo e da Igreja por ele findada.

Ora, meus amigos, para chegarmos a esse desejável estado em nossas famílias católicas, seria preciso que os pastores, isto é, os nossos bispos estivessem, eles mesmos, plenamente convictos da existência desses mistérios essenciais na existência do homem neste mundo. Porém, quando se faz no Brasil inteiro uma Campanha da Fraternidade a que se dá o simpático título “paz e solidariedade”, o que transparece, pelo menos para quem estiver atento, é o que se chama “o carro na frente dos bois” . Por que? Porque neste país (e também em outros que já formaram uma Cristandade) com certeza haveria muita paz e não menor solidariedade se as pessoas , se as famílias procurassem dentro de si mesmas o Reino de DEUS, procurassem submeter-se de fato a esse Senhor que prometeu a paz que o mundo NÃO pode dar.

Bispos e padres não deveriam ser simplesmente simpáticos líderes de grupos risonhos e ativos, agitadamente ativos, barulhentamente ativos.Deveriam, sim, ser pessoas que se mostrassem angustiadas por não serem santas. Lembro mais uma vez o que já escrevi neste “blog” , citando frase de certo escritor francês cujo nome não me lembro:
:
- padre santo, paroquiano virtuoso; padre virtuoso, paroquiano honesto; padre honesto, pobre paroquiano ...

E, pelo amor de DEUS, não me enviem mensagens de solidariedade. Falem, sim, com seus bispos e párocos sobre este assunto, conversem, sim, com seus amigos e familiares de confiança sobre este assunto, que é extremamente sério.

Santo Tomás Morus, rogai por nós!

posted by ruy at 5:00 da manhã

1.3.05

 
Uma opinião de Dom Lourenço


Em setembro de 1968, Dom Lourenço de Almeida Prado OSB, então já respeitado Reitor do Colégio de São Bento do Rio de Janeiro, publicava na revista Verbum um artigo referente a um livro recém editado naquele ano, um livro sobre o qual venho falando há muito tempo neste “blog”.Vou transcrever a seguir alguns trechos do artigo de Dom Lourenço.Oxalá este “post” possa incentivar os leitores a procurarem e, obviamente, a lerem o livro.


“DOIS AMORES – DUAS CIDADES”, CONFIANÇA NA VERDADE.
(Dom Lourenço de Almeida Prado OSB ).

Se quiséssemos caracterizar o livro de Gustavo Corção – “Dois amores – Duas Codades”- por um dado geral de sua atmosfera, poderíamos apresentá-lo como um livro de bom senso ou um livro lúcido. Corção é um homem que acredita na inteligência, um dos raros homens para quem ainda tem sentido pleno o aviso do Senhor de que é a Verdade que nos libertará –Veritas liberabit vos (João, VIII, 32).Por isso mesmo esse agudo escritor escreve um livro em que em nenhuma linha se faz concessão ao “golpismo”, à esperteza ou à habilidade como caminho de solução dos problemas humanos.Ninguém que conheça o autor, concluirá daí que falte ao pensamento de Corção a agilidade de espírito, a finura na análise das situações e na busca dos remédios.Um livro de quem acredita que a verdade, como a reta, é o caminho mais curto entre dois pontos.Creio ser essa a sua nota mais viva: um livro de bom senso, um livro de lucidez, mas antes de tudo, um livro de confiança na verdade, de amor a ela e de recusa de acomodações imediatistas.

Intolerante?


Não sei se este livro terá muitos leitores. A sua leitura não é fácil, embora seja admiravelmente bem escrito.Mas não é a dificuldade da leitura que levanta o meu receio de que essa obra não tenha os leitores que merece. Corção não é escritor que se permita a demagogia de aliciar a benevolência dos leitores, dourando o seu pensamento com a coloração do que está no gosto do público e da moda. Quantos verão nisso a lealdade do autor? Quantos verão nisso o zelo pela verdade? Chamarão facilmente de intolerante, de duro e inflexível, um livro que é, no mais puro sentido da expressão, um testemunho de amor.Esse é o grande título de nobreza e dignidade de quem escreve ou ensina: ser um mártir, isto é, uma testemunha da verdade. Ai do professor que, para agradar ao aluno, diminui a verdade e coloca sombra nos olhos do discípulo para que tropece no caminho. No diálogo do mais velho com o mais moço, o grande dever do primeiro é não negar ou esconder ao segundo, a pretexto de ser compreensivo, a palavra de sua experiência e maturidade.

Corção é um homem que não brinca com a verdade.Como amá-la sem tomá-la a sério? Será pena que muitos não o leiam por pensar que as posições rígidas assumidas decorram de uma tomada de partido no jogo apaixonado das opiniões em voga. Um reacionário! Que significa isso aplicado ao caso? Direi, antes, que vejo em Corção um homem sofrido pelo zelo da Casa de Deus, um homem que acredita, prática e concretamente, que iota unum aut unus apex da verdade não passará e que será mínimo no reino do Céu quem quiser não levar a sério uma pequena verdade e, pior ainda, quem quiser ensinar aos homens que essas pequenas verdades já não valem mais, já estão ultrapassadas.

E por aí vai o longo e entusiasmado texto de Dom Lourenço, justa homenagem ao saudoso escritor e àquela que, sem dúvida alguma, é sua obra máxima.

posted by ruy at 2:02 da tarde

28.2.05

 
Uma oportuna reflexão de São Francisco de Sales


De certo modo coincidindo com um dos temas ontem editados neste “blog”, hoje (28/fev/05) está registrada em um “site” católico americano a seguinte reflexão de São Francisco de Sales:

One of the principle effects of holy abandonment in God is evenness of spirits in the various accidents of this life, which is certainly a point of great perfection, and very pleasing to God. The way to maintain it is in imitation of the pilots, to look continually at the Pole Star, that is, the Divine Will, in order to be constantly in conformity with it. For it is this will which, with infinite wisdom rightly distributes prosperity and adversity, health and sickness, riches and poverty, honor and contempt, knowledge and ignorance, and all that happens in this life. On the other hand, if we regard creatures without this relation to God, we cannot prevent our feelings and disposition from changing, according to the variety of accidents which occur.
- St. Francis de Sales.



Um perigo real, silencioso e muitas vezes pouco percebido


Já comentei este assunto várias vezes neste “blog”, mas creio que convém sempre alertar os mais moços, os que ainda não chegaram aos trinta anos.

Faz muitos anos, encontrei numa cidade distante um velho conhecido meu, conterrâneo e amigo a quem eu não via há bastante tempo. Depois de uns quinze minutos de papo e reminiscências, esse senhor – mais velho que eu – disse-me a seguinte frase em tom sentencioso:
- Ruy, há três perigos na vida de um homem: jogo, bebida e mulher!

Devido à diferença de idade, não quis retrucar, mas, para os meus botões eu dizia: de fato, são mesmo três perigos; entretanto, o perigo maior é a ambição de poder.

Bem, hoje, passados mais de trinta anos depois daquele encontro, estando meus cabelos embranquecidos, os olhos sem o mesmo brilho da juventude, as pernas sem a antiga firmeza, e somadas muitas experiências de vida, vejo agora que a ambição de poder talvez não seja o perigo maior.Existe um outro, mais generalizado, que consiste, paradoxalmente, em alguém ser o que se costuma chamar: “um bem sucedido na vida”.

Quando isso ocorre, a pessoa em tal situação muito dificilmente vai admitir que seus referenciais éticos e o modo de viver sua fé religiosa estejam errados. E pior, a mesma pessoa não percebe a correlação entre esses referenciais capengas e certos problemas que, apesar do sucesso obtido, surgiram em sua vida.


Errata

No “post” anterior, onde está escrito: “tetrassílabo oxítono”, leia-se “tetrassílabo paroxítono”. Desculpem meu erro...

posted by ruy at 7:46 da manhã

 

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