Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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27.2.05

 
O Triângulo Amoroso


Hoje de madrugada, num momento de insônia, fiquei pensando neste assunto. Há vários tipos de amor:
- o amor conjugal
- o amor paternal
- o amor maternal
- o amor filial
- o amor fraternal
- a amizade
- o patriotismo.

Cada um deles pode ocorrer de um modo imperfeito ou de um modo perfeito. A perfeição, no caso, exige aquilo a que várias vezes me referi neste “blog” : a presença de um “triângulo amoroso” constituído por três pessoas , aquela que ama, aquela que é amada e a pessoa do Cristo, Nosso Senhor,

Se Ele não estiver presente no amor conjugal, talvez este possa vir a embaraçar-se com as ciladas do sexo possessivo e egoísta, do ressentimento e do egocentrismo, tudo isso que muitas vezes causa dilacerantes separações.Ou, quem sabe, acomode-se numa vidinha boa em que santidade seja apenas um tetrassílabo paroxítono.

Se não estiver presente no amor paternal, talvez este possa vir a considerar-se como dono da vida de seus filhos, propondo-se como planejador telúrico e detalhista do futuro deles, pensando apenas em dar-lhes conforto e segurança.

Se não estiver presente no amor maternal, o natural e justo instinto materno talvez possa obnubilar a realidade nuclear de nossa existência, a qual só tem sentido quando referenciada à Eternidade, quando centrada no “ Amor que move o Sol e as outras estrelas”.

Se não estiver no amor filial, talvez este deixe de perceber as falhas daqueles que cooperaram na Criação de sua vida biológica, talvez possa tomar como seu principal padrão de comportamento dois seres humanos moralmente imperfeitos.

Se não estiver no amor fraternal, talvez este chegue, em casos extremos, a ser vivido na solidariedade típica das quadrilhas de traficantes ou de ladrões (lembra-se, leitor, dos irmãos de José?); ou em casos tranqüilos, uma união voltada para a adoção freqüente de atitudes mesquinhas (como por exemplo: a maledicência)

Se não estiver incluído na amizade, ela talvez seja mantida gravitando em torno de idéias e sonhos sem grandeza humana, repartindo apenas um burguês instinto de sobrevivência, valorizando um tipo de moral pouco mais exigente que a mera honestidade em questões relativas ao dinheiro dos outros, tendo como assunto costumeiro em suas conversas apenas a corrupção dos políticos.

Se não estiver no patriotismo, este em geral acaba degenerando no arrogante e agressivo nacionalismo, para o qual todos os demais países são naturalmente inimigos, um modo de olhar a humanidade sem levar em conta que todos os povos foram criados por DEUS, e para DEUS.


Erudição e conhecimento vital


Existem muitos livros sobre a Idade Média. Tive a sorte de ler vários deles. De um modo geral essas obras podem ser grupadas em dois conjuntos. No primeiro deles estão os livros que conseguem impressionar o leitor pela erudição dos autores.Como exemplo, podemos citar: “Arte e Beleza na estética Medieval”, Umberto Eco, (Editora Globo); “ The Discarded Image”, C.S.Lewis , (Editora Cambridge University Press) e “Pensar na Idade Média”, Alain de Libera, (Editora 34) .

No outro conjunto estão os autores que têm sobre o tema da cultura medieval o conhecimento que Maritain chama de conhecimento por modo de inclinação , ou “por co-naturalidade”; que me arrisco a chamar: “conhecimento vital”. Aquele tipo de conhecimento que Bilac dizia ser necessário para ouvir as estrelas.Nesse segundo conjunto estão as obras de Régine Pernoud, Egon Frieddel, Jean Gimpel, Christopher Dawdson , William Carol Bark, Huizinga e outros.

Não existindo esse entendimento vital de um livro, o leitor poderá guardar na memória várias informações colhidas na leitura da obra, poderá até mesmo externar alguma apreciação sobre o autor, porém será incapaz de apreender o significado , de vislumbrar o valor integral do livro.

posted by ruy at 10:50 da manhã

26.2.05

 
Um ótimo “feedback”


Entre os muito poucos leitores deste “blog”, está um amigo geograficamente distante, porém bem próximo na afinidade das idéias que ambos compartilhamos, idéias que não são simplesmente manifestações da inteligência fria, mas que trazem a calorosa inspiração da fé comum, fé no Cristo e na Igreja por Ele fundada, a Igreja em que hoje Pedro se chama João Paulo.

Comentando meu “post” de ontem, esse meu amigo enviou-me cordial mensagem, da qual transcrevo o seguinte trecho:


Quanto ao “post”, ele me fez pensar que os políticos desde há muito
sentem saudade (ou inveja) da "divindade" dos antigos reis europeus, ou de
certo modo voltam aos primórdios da civilização onde curandeiros encarnavam
o poder dos deuses. Eles e os políticos não se interessam em conhecer a Deus, mas em usar, manipular, uma imagem de Deus em proveito próprio. É o que, por exemplo, faz o presidente do Brasil quando volta e meia fala o seu "graças a Deus" ou o seu "se Deus quiser". É um Deus confortável que se acomoda às circunstancias e às necessidades de cada um deles, e com o Qual eles , em troca, não se comprometem.

O mais triste nisso é que antes se procurava atingir a Igreja,
hoje eles já não têm escrúpulos em querer atingir Deus (e digamos que Ele é
deveras paciente com eles) em qualquer menção à sua existência. É aquela
história do "não tenho religião mas creio em Deus", que se tornou pouco a
pouco o "proíbam a Igreja e a religião". Isso é perigoso, é como dormir em
um local de avalanches: cedo ou tarde as pedras virão sobre a pessoa, e ela
não terá como ou para onde escapar.

Sobre a questão do catolicismo e das tentativas de religião
secular que tentaram usurpar seu lugar (comunismo, por exemplo), há uma
história corrente na Polônia do pós-guerra, citada na biografia de João
Paulo II escrita por Carl Bernstein. Conta-se que um visitante, andando
pelas ruas da Polônia (não recordo agora a cidade, e não recordo se havia
citação de cidade) viu várias igrejas e perguntou ao polonês: "Vocês são
católicos?" Ao que ele respondeu "Somos, mas não praticamos". Minutos
depois o visitante viu um imenso retrato de Marx e perguntou: "Vocês são
comunistas?", e o polonês respondeu: "Não somos, mas praticamos."

Tristes tempos estes, em que nem os que tentaram usurpar o lugar
de Deus e colocar o homem como centro estão mais à frente das coisas, e
temos tudo feito em nome de um abstrato "estado". Virá algo ainda pior?



Um leitor católico de fato e que seja razoavelmente informado sobre a história do mundo, ao ler o trecho acima transcrito, não terá nenhuma dificuldade em perceber certa referência implícita ao trabalho deletério feito pelos intelectuais do século XVIII, aqueles pensadores, cientistas, poetas e romancistas que, pretensiosamente, a si mesmos chamavam de Iluminados , aqueles arrogantes e maneirosos intelectuais que deram origem ao moderno Democratismo , que hoje nos inferniza, aqui no Brasil e em outras partes do mundo.

Muito obrigado, amigo S..., pelo seu bem oportuno “feedback” a este “blog” oásis. DEUS lhe pague!

posted by ruy at 4:17 da manhã

25.2.05

 
Uma fantástica suposição


Suponhamos que hoje ou amanhã um notório político, alguém situado na cúpula governamental deste ou de outro país do mundo, venha a público e, diante das câmeras de televisão, diante dos microfones, na presença de centenas de testemunhas, faça uma declaração em que manifeste sua conversão , em que deixe bem claro haver chegado, depois de muito refletir, de muito rezar, que acredita realmente na pessoa do Cristo e, coerente com essa crença, não mais deseja participar do jogo pelo poder , jogo esse que, agora, ele, o convertido , vê que é – infelizmente – a política de fato na civilização ocidental.Continuando sua declaração, o tal político afirma que vai renunciar à sua posição administrativa, vai deixar o Poder, para dedicar-se discretamente à sua família e a trabalhos modestos que possam ajudar, sem alarde, pessoas carentes, nos vários tipos de carências, materiais e outras.

[ Neste exato momento do “post” de hoje , haverá com certeza algum leitor sorrindo discreta e maliciosamente, dizendo para seus prósperos botões: “esse Ruy é mesmo um baita ingênuo!”]

A suposição é mesmo fantástica, e fantástica por várias razões, podendo citarmos algumas delas:
- a forte e irritada oposição da própria família do possível renunciante, o apego dele às benesses e às mordomias do cargo e, at last, but not at least o medo da conseqüente ira dos demais poderosos na política, no seu próprio país e nos outros.

Não adianta tapar o sol com a peneira. Praticamente quase todos os governantes do mundo há pelo menos dois séculos são deístas Para poupar tempo ao leitor vou transcrever o que o dicionário diz sobre o deísmo:

Deísmo ,s.m. Sistema dos que, com rejeitar toda espécie de revelação divina, acreditam todavia em Deus, mas um Deus destituído de atributos morais e intelectuais e considerado apenas com a força infinita, causa cega de todos os fenômenos do Universo.

É isso aí.Inúmeras vezes, passando pela web, tenho visto, por exemplo, calorosas diatribes contra Bush ou, inversamente, contra os opositores de Bush .Existe gosto para tudo.Entretanto, raríssimas – o advérbio é este mesmo: raríssimas – vezes terei lido, entre gregos e troianos, algum critério nuclear, filosófico, teológico, em que a existência de um Deus pessoal sirva de referência para o julgamento dos fatos, para dar aos fatos o seu correto sinal ético, positivo ou negativo. As análises feitas, pelos gregos ou pelos troianos, são cartesianas demais para o meu gosto.

Estamos em plena Quaresma. Talvez seja ocasião oportuna para escrever neste “post” este apelo quixotesco:
- senhores bloguistas, meus colegas na web , se vocês forem mesmo cristãos convictos – e não apenas homens e mulheres simplesmente batizados - peço que reflitam sobre isto: estamos vivendo as dramáticas conseqüências do antropocentrismo que começou quando se apagou o grande brilho medieval.Por isso mesmo, estamos vendo, por exemplo, leis (leis...) a favor do aborto e do “casamento” ( barbaridade!...) entre pessoas do mesmo sexo, leis essas feitas com o beneplácito desses mesmos orgulhosos, petulantes governantes do mundo moderno.Meus colegas, diante desses fatos, será que vale a pena ficar apenas bailando, saltitando em torno de elegantes diletantismos e brilhantes lantejoulas ? Custa tanto dar um testemunho de viril amor ao Cristo e à Igreja? Por que vocês acham que João Paulo II se recusa a renunciar?
Oremus pro pontifice nostrum, Johanes Paulus!

posted by ruy at 4:40 da manhã

23.2.05

 
Sobre regras e disciplina


Consideremos dois espetáculos entre os muitos que costumam ser apresentados à sociedade dos homens: um jogo de futebol, jogado entre dois bons times, no Maracanã repleto, e o recital de uma brilhante orquestra sinfônica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.Note o leitor que, bem de propósito, escolhi um espetáculo bem popular e um outro cujos espectadores pertencem a um conjunto de pessoas com maior nível de escolaridade e, de um modo geral, em melhores condições financeiras que a maioria da população.Essas diferenças não alteram o fato essencial, o de que são realmente dois espetáculos, um esportivo e o outro musical.

Ora, a beleza – que é o óbvio produto esperado em qualquer dos dois exemplos dados por mim – só pode ocorrer se os protagonistas – no caso: jogadores, árbitros, músicos e maestro – seguirem disciplinadamente as regras, do jogo ou da partitura, conforme o caso.

Note bem leitor, embora os animais irracionais se divirtam com certos tipos de brincadeiras, embora as aves canoras se dêem ao exercício vibrante dos seus cantos, tudo isso ocorre entre esses seres de modo espontâneo, indisciplinado e sem regras . É o ser humano que há milênios inventa regras, compromete-se a cumpri-las para receber em troca a alegria da beleza, seja essa a de um elegante gol de placa, seja a de uma primorosa interpretação da Nona Sinfonia de Beethoven.

Creio que seria enfadonho continuar esta digressão em torno dos dois exemplos escolhidos.Vamos ao principal deste “post”.

Faz mais de dois mil anos, ocorreu na cidade de Jerusalém uma ceia, certa refeição vespertina marcada por uma especial solenidade, porquanto o homem que a presidiu sabia que ela seria a última ceia a ser tomada por ele junto com seus amigos. Ele sabia que dali a poucas horas seria preso, açoitado, cuspido, insultado, coroado de espinhos, condenado injustamente e, em seguida, crucificado como se criminoso fosse.

Os olhos dos amigos estavam fixos sobre aquele homem. Só ele falava . E, entre as graves palavras que proferiu, estavam as misteriosas frases que constituem o desafiador milagre da transubstanciação . Foi a primeira missa.

DEUS, criador de nossa inteligência, obviamente sabe das limitações dessa faculdade humana, mas sabe também que ela é capaz, quando correta e diligentemente usada, de gerar beleza. Ora, ao longo dos séculos, homens inteligentes e piedosos, usando a inteligência que DEUS nos deu, elaboraram regras e disciplina que garantissem à liturgia da missa uma beleza coerente com o magno mistério que ali acontece.Um mistério que deveria ser sempre contemplado , em silêncio, em um silêncio muitíssimo mais respeitoso que o do teatro durante a execução da Nona Sinfonia.

As orações rezadas em latim - língua concisa em palavras e de sonoridade nobre, língua que não pertence a nenhum país hoje existente, e por isso mesmo naturalmente ecumênica - sempre ajudaram essa desejável atmosfera de reverência, sempre propiciaram a intuição da beleza das coisas do espírito.

Mas, para quem não gosta de obedecer regras, para quem tem urticária quando escuta a palavra disciplina , tudo isso que escrevi aí em cima e nada é a mesma coisa...

posted by ruy at 5:22 da manhã

22.2.05

 
Lembrando – mais uma vez – a terrível simetria


No “post” de ontem fiz referência ao mistério do mal e à liberdade humana (entenda-se: o livre-arbítrio).Hoje torno a citar essas duas realidades existenciais para lembrar ao leitor um assunto que já havia sido abordado neste “blog”. Não se trata de teimosia minha. Acontece que o tema pode ser considerado um “adendo ao adendo” feito ao “post” do dia 20.

A mesma liberdade que permite a um homem ou a uma mulher abandonar uma promissora carreira profissional, renunciar à legítima opção de constituir família, deixar de lado conforto e riqueza – tudo isso para dedicar-se inteiramente a uma contínua e aprofundada procura de DEUS, o DEUS pessoal que se fez homem por amor ao ser humano, essa mesma liberdade, esse mesmo livre-arbítrio pode, misteriosamente, levar um homem (ou uma mulher) a fazer o sombrio trajeto na direção contrária, no sentido oposto.

Você já teria refletido alguma vez sobre isso, amigo leitor?

De resto, urge que nós cristãos nos lembremos de que fomos criados por DEUS e para DEUS.E não para construirmos uma confortável e segura morada neste mundo.
[o dicionário ensina: urgir: v. int.. Ser preciso sem demora]

.
Desabafo

Diante dos demais “blogs” que fluem pela “web”, sinto-me como um estranho no ninho.Talvez haja no máximo umas duas ou três pessoas que, generosamente, lêem estas reflexões escritas de modo apressado e deselegante, em que abordo assuntos distantes dos temas simpáticos à maioria das pessoas...

posted by ruy at 2:56 da manhã

21.2.05

 
Adendo (muito necessário) ao “post” de ontem


Escrever é mesmo uma arte muito difícil. Por melhor que se procure fazer, sempre fica a frustração de verificarmos, depois de terminado o trabalho, que faltou alguma coisa essencial... Pois é, revendo meu “post”de ontem vejo que deixei de inserir três pontos básicos no tema a que me propus.Algo como se, ao contar a história de Branca de Neve, eu tivesse esquecido de falar sobre a rainha madrasta e sobre o príncipe que deu na princesa o beijo salvador.Apresso-me, pois, a complementar as reflexões que fiz sobre a família em geral.

Ainda que o que escrevi esteja razoavelmente exposto, perde seu inteiro significado se não levarmos em conta três realidades de infinita relevância, a saber:
- a existência do Mal
- a liberdade do homem
- a pessoa do Cristo, Nosso Senhor,
três realidades que se conjugam para dar à nossa vida seu verdadeiro sentido, três realidades que, se nós as esquecermos, de repente podemos nos tornar meros moralistas analisando problemas humanos.

Posso fazer uma análise minuciosa, bem cartesiana, para explicar, por exemplo, por que uma certa pessoa minha conhecida costuma agir desta ou daquela criticável maneira.Posso elaborar sua biografia e traçar seu perfeito retrato psicológico.Tudo isso vai explicar, sem nenhuma dúvida, o porquê do comportamento desagradável ou agressivo da tal pessoa.E daí? Ficará sempre esta interrogação incômoda e sem resposta conclusiva: por que existe o mal no mundo.Por que existem pessoas más no mundo? Por que, entre milhares de pessoas que conheço, justamente aquela a que me refiro foge do que se costuma chamar um padrão de normalidade ?

Correlato com esse angustiante mistério do mal, surge agora o da liberdade humana.Se não a levarmos em conta, como colocar culpa em alguém por alguma coisa errada que essa pessoa tenha feito? Com que fundamento, pergunto, podemos nos queixar, por exemplo, dos bandidos que infernizam a vida das famílias residentes na pobre cidade do Rio de Janeiro? Se esses facínoras não agem com plena liberdade quando agridem e matam pobres idosos indefesos, como poderemos desejar que sejam punidos? Que sentido terá essa punição?

Por último – mas não menos importante – vem a pergunta-chave:
- em todas essas famílias a que me referi no “post” de ontem, o que representa para elas a pessoa de Jesus Cristo? Se as pessoas nessas famílias conseguissem reservar para si um certo tempo de solidão e de silêncio, como responderiam para si próprias esta nuclear interrogação:
- quem é Jesus Cristo para mim?
Talvez o grande mérito dos escritos do padre John O’Donohue seja mesmo o de sugerir poeticamente que nos isolemos de vez em quando para prestarmos total atenção ao mistério da vida e respondermos honestamente a esta essencial pergunta.

posted by ruy at 4:39 da manhã

 

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