Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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19.2.05

 
Algumas reflexões sobre a família


Toda análise esquemática de realidades humanas é perigosa; corremos o risco de sermos injustos ou, no mínimo, cometer involuntários erros de julgamento, mais ou menos graves.Entretanto, mesmo correndo tal risco, vou começar este “post” dizendo, esquematicamente, que há três possíveis atitudes nossas diante da realidade sociológica que constitui a família. A primeira delas é a que se poderia chamar de “esportiva”; a segunda é aquela a que se pode adjetivar como a “mafiosa”.Finalmente, a terceira pode ser classificada como a “judaico-cristã”.

Mais uma vez lembro ao leitor que estamos esquematizando.Por essa razão, os três adjetivos classificatórios estão entre aspas.

Feita esta ressalva, digo que no modo “esportivo” o ambiente familiar mostra uma generalizada descontração, uma ausência de tensões exageradas.Todos ali vivem adaptados a certas “regras” consuetudinárias, estabelecidas, ao longo de anos de convivência, para diminuir a possibilidade de eventuais atritos.No passar dos dias, a vida vai sendo, como se costuma dizer, empurrada com a barriga. A preocupação maior existente nesse pequeno grupamento humano talvez seja a de sobreviver numa sociedade sabidamente competitiva, submetida a um regime político superficialmente democrático.

No jeito “mafioso”, percebe-se que ali existe uma união firmemente desejada, consciente, orgulhosa, em que os interesses dos membros da família são defendidos, ainda que honestamente, sem que haja, paralelamente, uma solidária preocupação com os problemas, com os sofrimentos dos outros, isto é, das outras famílias.O vencer na vida é mais uma questão de honra que um, mais humano, desejo de sobreviver.Percebe-se, muitas vezes, a ausência do chamado “senso de reciprocidade”. Talvez esse vazio explique freqüentes maledicências nas reuniões familiares.

Finalmente, no pequeno círculo dos que ainda teimosamente procuram, apesar dos tropeços, seguir a milenar tradição judaico-cristã, é possível que as pessoas não sejam moralmente melhores que as que vivem nos outros dois grupos. Entretanto, nesse terceiro conjunto seus elementos ainda guardam na consciência uma verdade essencial, a de que a família foi instituída pelo próprio Criador; não é mera convenção humana.Essa crença fornece o critério para a tomada de decisões mais graves, para a aceitação de corajosas renúncias.Isso faz uma colossal diferença a favor dessa minoria silenciosa.

É preciso lembrar: tudo o que escrevi aí, nos parágrafos anteriores, comporta sutilezas, recobrimentos com tonalidades misturadas.Não implica a existência de nítidos e cartesianos contornos.

John O’Donohue


Nestes últimos dias tomei conhecimento da existência do padre irlandês John O’ Donohue.Teólogo e poeta, esse escritor católico tem divulgado certa mensagem muito pessoal que talvez mereça, por parte dos doutos, uma análise que defina o quanto de ortodoxia nela existe.

Como não sou filósofo nem teólogo, vou opinar sobre algo com que desde logo senti uma jubilosa afinidade. Sinto que o padre O’Donohue procura – com enorme entusiasmo – fazer com que as pessoas fiquem em silêncio, mormente silêncio interior, para melhor perceberem a presença do mistério, a presença da Eternidade em torno de nós, dentro de nós.

Ora, ainda que eu ache louvável esse desejo do sacerdote irlandês, ainda que ele tenha minha grande simpatia, acho que essa percepção do mistério, essa descoberta do eterno ocorre de modo intuitivo, bem pessoal, bem íntimo. Será sempre bem difícil despertar diretamente os outros para verem aquilo que, em certo dia, nós mesmos, maravilhados, descobrimos. A intuição tem certo parentesco com a fé.

posted by ruy at 1:54 da tarde

16.2.05

 
Passando a palavra a quem tem sabedoria


Dom Lourenço de Almeida Prado OSB ingressou no mosteiro beneditino do Rio de Janeiro em 1946.Por mais de quarenta anos foi Reitor do Colégio de São Bento. Tem publicado, durante todos esses anos, dezenas de livros e centenas de artigos em jornais e revistas, sem falar nas muitas palestras e entrevistas que concedeu, abordando temas educacionais e religiosos.É, sem nenhuma dúvida, um dos maiores educadores deste país.O texto que abaixo vamos transcrever foi colhido em um artigo (SÃO BENTO E O LIVRO) escrito por Dom Lourenço em 1980, ano do sesquimilênio do santo patrono da Europa.
Peço ao leitor que leia o que vai abaixo transcrito, refletindo sobre o profundo significado do que vai ler. Sufocados pela massa de informações que nos são diariamente fornecidas pela imprensa e pela televisão, carecemos da leitura de textos como esse para recuperar nosso fôlego espiritual.


Já se disse que o avanço da civilização, isto é, o amadurecimento da vida do homem em sociedade, pelo acesso à vida civilizada, não tem sido causado pelos grandes políticos reformadores, nem pelos grandes generais ou líderes revolucionários, mas pelo trabalho silencioso e quase imperceptível daqueles que vão introduzindo, no convívio cotidiano da família, dos grupos de trabalho, da aldeia ou da fazenda, princípios de relacionamento, práticas de reciprocidade e mutualidade, que se transformam em hábitos comuns e depois são acolhidos e consagrados pelas leis.

Podemos dizer, nesse sentido, quase sem exagero, que a verdadeira história da humanidade não está nos compêndios.Estes tratam das guerras e das revoluções, do surgimento e da derrubada dos tiranos, do crescimento e da morte dos impérios e quase nunca se dão conta de que, entre a hora em que um rei suplanta o seu antecessor e a hora em que ele mesmo é suplantado, não há sequer um passo de verdadeiro progresso humano.O progresso realmente digno desse nome vem de dentro, nasce do coração humano que se aprimora, e transborda para as leis e as instituições.

São Bento é, certamente, um desses grandes construtores silenciosos da história, de que a história fala sem dúvida, mas fala muito pouco ou quase nada.Ninguém encontrará, ao percorrer os livros e os tratados da história medieval e contemporânea, numa aceitável avaliação de grandeza, uma imagem adequada da semeadura beneditina para a germinação da Europa.

Entretanto, é de suma importância tomar contacto correto com esses grandes pais da civilização, não só para fazer-lhes justiça, mas, sobretudo, porque os valores de sua mensagem são ainda eficazes e necessários para a saúde do nosso tempo.


posted by ruy at 3:14 da manhã

14.2.05

 
Povo e Democracia


Em 1961 o cinema americano lançou o filme épico El Cid , apresentando nos papéis principais o ator Charlton Heston (vivendo o imortal cavaleiro Dom Rodrigo Diaz de Bivar, El Cid ) e a atriz Sophia Loren (fazendo a bela e sofrida Jimena).Trata-se de uma dessas antigas produções cinematográficas em que o justo e razoável desejo de lucro não impedia que se fizessem filmes com arte.

Há uma dramática cena na história quando El Cid segura, com rude firmeza, o pulso de um nobre espanhol, pretendente ao trono, e o obriga a jurar, com a mão sobre a Bíblia, que não havia cometido certo nefando e covarde crime. Tão logo o juramento é feito, diante de muitas testemunhas, Dom Rodrigo se ajoelha e presta vassalagem ao homem que dali a pouco seria sagrado rei.

Neste instante, um leitor malicioso que tenha visto o filme poderia comentar: “houve um trágico perjúrio”. De fato, quem acompanha o roteiro do épico sabe que isso é verdade.Entretanto, se esse mesmo observador for um cristão convicto, e não alguém que apenas tenha sido batizado, sabe também que ali, naquele instante, havia sido cometido um horrendo pecado mortal.O homem que jurou em falso sabia disso. A opção foi dele.

O episódio passa-se no século XI, em plena Idade Média.A mentalidade das pessoas era outra, muito diferente daquela que conduz os homens do Ocidente neste recém começado século XXI.Era um tempo em que, em reuniões familiares ou formais, se podia falar em pecado sem provocar, em pessoas supostamente inteligentes, sorrisos de auto-suficiente superioridade.Um tempo em que só iam para a universidade os que realmente tinham vocação para serem estudantes, dispostos a crescer em sabedoria, filosófica ou teológica, ou em ambas.

Naquela época, conforme nos lembra C.S. Lewis, na reflexão que divulgamos no “post” do dia 8, podia eventualmente existir um “robber baron” cúpido irritando o povo que vivia em redor do castelo.Entretanto, como comenta o autor das Crônicas de Narnia, havia menor tormento para aquela gente simples do Medievo do que para os cidadãos das nossas modernas sociedades sujeitos aos frios ditadores que se consideram generosos benfeitores do povo, e por isso mesmo dormem com suas consciências tranqüilas.E não só as sociedades sujeitas aos ditadores, como também aquelas cujos governantes foram eleitos pela burocrática engrenagem do voto obrigatório; esses governantes que prometem, por exemplo, a demagógica (e burra) “universidade para todos”.

Os parágrafos anteriores nos foram inspirados pelo oportuno artigo CRISE DA DEMOCRACIA:O POVO, do Professor Ives Gandra Martins, publicado no JB do dia 10 de fevereiro, quinta-feira.Quem fizer uma leitura atenta desse texto, vai perceber que ele certamente foi escrito com a tinta da melancolia, como diria o velho Machado.Percebe-se o desconforto do Dr Gandra ao ter que expor a infeliz situação de fato em que vivem as pretensas democracias modernas, incluindo a nossa.Para não alongar este “post”, transcrevo as palavras com que o respeitado mestre do Direito Tributário termina seu pungente desabafo:

Na verdadeira democracia,os direitos individuais deveriam ser garantidos por governos preocupados na promoção da sociedade.Apenas no dia em que os cidadãos tiverem consciência de que são mais importantes do que qualquer burocrata ou político, é que poderão implantar o verdadeiro regime democrático.Até lá, serão apenas “administrados”.

posted by ruy at 1:54 da manhã

 

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