Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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6.2.05

 

Parvus error in initio


Comecemos este “post” fazendo referência a três textos recentes.O primeiro é o do brilhante artigo CONSPIRAÇÃO CONTRA O MÉRITO, de autoria de Mauro Chaves, publicado no Estadão no dia 22 de janeiro; o segundo é o “post” “UM CUEPO DE CUECA-CUELA, POR FAVOR”, divulgando as atiladas observações, inteligentemente irônicas, de Fábio Ulanin (vejam o “post” do dia 29 de janeiro no “blog” editado pelo Fabio); finalmente, o terceiro é o corajoso artigo O BRASIL ANDA FICANDO MUITO JECA, escrito pelo jornalista Augusto Nunes, publicado no JB do dia 2 deste mês.Estes três “ensaios” têm em comum o fato de abordarem a lamentável depressão cultural em que nosso país vem vivendo nestes dois últimos anos.

Uma análise apressada do problema, talvez açulada por algum tipo de paixão política, pode levar um observador do referido fato a debitá-lo na conta exclusiva do atual governo do Brasil.Ora, neste instante vale a pena lembrar a sabedoria do Doutor Comum da Igreja.Santo Tomás – segundo nos contam os bem informados – em um de seus escritos disse isto:
- Parvus error in initio, magnus erit in fine
[“O erro pequeno no início, torna-se grande no final”].

Pois é, na opinião deste escriba, o cenário sombrio que serviu de tema para os três escritores brasileiros acima citados começou a ser montado há mais ou menos quarenta anos.Naquela ocasião o erro foi, talvez, pequeno.Os mesmos governantes que de modo firme e valente impediram que este país se transformasse de repente em um grande “colégio interno”, como aquele que há mais de quarenta anos instalou-se naquela que já foi chamada “Pérola do Caribe”, aqueles mesmos bravos homens públicos, tão logo assumiram o poder, começaram um ativo processo desenvolvimentista em nossa Pátria.Pragmaticamente, resolveram abolir de modo drástico o latim de nosso ensino do Segundo Grau. Se quisessem, poderiam ter feito apenas razoáveis adaptações nas ementas daquela matéria.Mas, não; foi mesmo uma retirada “tout-court”.

Quem, como o autor deste “post” , teve a feliz oportunidade de estudar o latim, ainda que hoje tenha se esquecido do muito que leu e aprendeu, sabe com certeza o seguinte: o latim é uma língua de expressão concisa, cujas frases podem ser escritas de modo elegante, obedecendo a regras lógicas cujo próprio aprendizado já constitui excelente exercício para a nossa inteligência. Isso sem falarmos no aspecto, não menos relevante, de ser nosso idioma considerado a “última flor do Lácio”; sem nos referirmos ao valioso patrimônio das obras literárias e filosóficas, escritas em latim, que inspiraram o crescimento da Civilização Ocidental

Na esteira daquela precipitada medida pedagógica, vieram os chamados “cursos profissionalizantes”, incluídos a toque de caixa no curso colegial, veio a supervalorização do diploma universitário e a desvalorização da pobre professorinha do Grupo Escolar.

A abrupta retirada do latim dos currículos dos Ginásios e Colégios tem, a meu ver, um significado simbólico.Assinala a imprudente opção por um tipo de cultura pragmática, por um ensino que faça de nossos moços simplesmente homens práticos, indivíduos que olhem o estudo apenas como mera ponte para o vencer na vida, insensíveis para os valores que fazem cada um de nós crescer como pessoa.E aí é bom lembrar mais uma vez Santo Tomás, quando ele nos ensina que persona significat quod est perfectissimum in tota natura [“Pessoa significa o que há de mais perfeito em toda a natureza”] (Suma Teológica, I- q 29, a )

Ora, para mim pelo menos, o que Mauro Chaves, Fabio Ulanin e Augusto Nunes focalizaram, em seus textos acima citados, é o fato de que, em nosso Brasil de hoje, os governantes não estão nem um pouquinho interessados em que nossos cidadãos cresçam de fato como pessoas .

P S

Seria injusto dizer que o rebaixamento cultural no Brasil foi obra unicamente de erros pedagógicos.Não se deve esquecer o papel demolidor desempenhado pela maior parte dos programas de TV, nem tão pouco se deve esconder – para maior tristeza nossa – as bobices que, a partir da década de 60, foram introduzidas nas comunidades católicas.



posted by ruy at 2:08 da manhã

4.2.05

 

Uma tentação permanente, porém bem poucas vezes percebida


O “post” de hoje vai tentar complementar, esclarecer algumas reflexões feitas em edições recentes deste “blog”.DEUS permita que eu consiga esse intento!

Acho que seja meio Acaciano o dizer que vivemos sob uma envoltória ética ; mas, de qualquer forma essa verdade convém ser lembrada.Nós cristãos somos herdeiros da tradição judaica; dela recebemos os Dez Mandamentos, a Lei, que não só foi confirmada pelo Cristo em seu Evangelho como ainda adquiriu um aprofundamento, tornando-se, assim, muito mais exigente.

Ora, os demais povos não ligados àquela tradição judaico-cristã, estão – conforme muito bem nos ensina o Apóstolo - submetidos à chamada Lei Natural.Bem a propósito vou citar mais uma vez um fato que já faz muitos anos me foi contado por um padre alemão, radicado no Brasil.Contou-me ele que um de seus professores mais idosos, no tempo do seminário, havia sido missionário na África.Certa vez, procurando explicar os Dez Mandamentos a um preto velho, esse deu um sorriso cheio de simplicidade e disse ao sacerdote: “padre, tudo isso eu já sabia; só não sabia numerar!”

Peço ao leitor, por favor, que me perdoe, porém vou repetir – mais uma vez! – minhas referências elogiosas às catedrais da Idade Média.No evangelho de São João, capítulo 8, versículo 50, Nosso Senhor diz aos fariseus que o provocavam: Eu mesmo não procuro a minha glória; há quem a procure e com isso faça justiça. Ora, aquelas grandes e belas catedrais não foram erguidas em cumprimento a uma ordem dada pelo Cristo.Elas foram construídas, em um tempo bastante longo, por iniciativa de uma sociedade que desejava, por meio daquela magnífica arquitetura, tributar glória ao Senhor.

Quando lemos a história dos homens e mulheres do Medievo vemos claramente que eram feitos do mesmo barro com que nós modernos fomos criados. O estado em que eles viviam (referindo essa palavra à sua complementar, isto é, a natureza ) é o mesmo em que vivemos, já que todos somos filhos de Adão.Não eram, portanto, pessoa por pessoa, moralmente superiores a nós.Entretanto, a imensa diferença que nos separa das antigas populações européias está justamente naquele consenso que dava à existência humana uma ordenadora hierarquia.Eles conheciam perfeitamente as leis morais, cometendo alguns equívocos por falta de informação científica (como no caso da dureza com que tratavam o suicídio), porém não eram moralistas .

Hoje, nós – especialmente nós católicos - temos uma exacerbada sensibilidade ética.Somos capazes de detectar rapidamente os muitos (e infelizes) desvios morais do mundo contemporâneo.Isso é ruim? Não, em princípio não.Mas, o problema está no fato de que – paralelamente a essa atitude de justa e necessária censura – poucos, bem poucos de nós, possuímos o senso do mistério , o senso da misteriosa beleza das coisas de DEUS. Bem poucos de nós, por exemplo, nos angustiamos com a mediocridade, com a pouca reverência com que o magno Sacrifício da Missa vem sendo celebrado.

Essa generalizada falta de sensibilidade para esses essenciais aspectos da nossa fé, crença essa que nos foi dada pela Graça de DEUS, vem imperceptivelmente impedindo que sejamos irradiadores da maravilhosa novidade do Evangelho.Somos diariamente, continuamente tentados a confundir religião com moral.Demos logo um exemplo, bem prático, para melhor esclarecer o ponto.Tem o leitor alguma dúvida de que nossa humana sociedade seria muito mais justa, mais fraterna, com menos problemas e menos pessoas problemáticas, se nossas famílias tivessem o habitus da oração em comum?


Por favor, não confundamos habitus com hábito.


posted by ruy at 10:17 da manhã

3.2.05

 
Sobre a “tarefa” de rezar por


A comunicação escrita, apesar de todos os recursos de que dispõe, sempre fica devendo alguma coisa.Por isso mesmo, escrever é uma arte, e das mais difíceis.O editor deste “blog” é um teimoso aprendiz.

Note, por exemplo, leitor amigo, a palavra “tarefa” que coloquei entre aspas no título deste “post”.Por que entre aspas? Explico. Sem elas, o termo ficaria com um tom “burocrático”, lembraria algo que se deve fazer para cumprir uma rotineira obrigação profissional ou cívica.Entretanto, o rezar por deve ter um significado muito mais profundo, mormente na atualidade.

Por que na atualidade? Vejamos o porquê ao longo deste excurso .Cada um de nós, nós que já atingimos a idade adulta, tem um grande círculo de parentes e amigos, um círculo que aumenta à medida que os anos vão passando.São pessoas como nós, cada uma delas com seu próprio nome, sua própria história e sua circunstância.Considerando o tamanho típico desse conjunto, não será improvável a existência nele de algumas pessoas a quem habitualmente, em nossas conversas em família ou na hora do cafezinho no trabalho, classificamos – não sem algum motivo – como problemáticas .

Peço que o leitor seja discreto e não me peça exemplos desses problemas . Basta consultar nosso arquivo da memória e rapidamente detectamos as pessoas a quem cabe aquele antipático – e muitas vezes não caridoso – adjetivo.

Ora, em vez de ficarmos apenas nessa atitude crítica, analisando os problemáticos do nosso círculo de relacionamentos, familiares ou profissionais, em vez de darmos, autoconfiantes, certa simplista e cartesiana explicação da origem dos tais problemas (como por exemplo: “fulano é assim por culpa do pai dele”, ou “fulana foi mal influenciada pela mãe”), em vez disso, nós – sobretudo nós católicos – deveríamos olhar a realidade dessas pobres pessoas dentro de um contexto muito mais amplo.Deveríamos ter nossa inteligência desperta para um gigantesco drama que é o do generalizado antropocentrismo de uma civilização – a Ocidental – que há muitos séculos deixou de ser uma Cristandade.Nossas cidades não mais se preocupam com levantar sólidas e belas catedrais de pedra; nosso trabalho é feito apenas para garantir nossa telúrica sobrevivência.

Farisaicamente, nós, os não-problemáticos , não percebemos que, com ou sem problemas, todos estamos dentro do mesmo barco.Mortimer J.Adler, o lúcido pensador americano, já havia alertado seus compatriotas para o grave erro de muitas das famílias naquele país, que é o de desejar que seus filhos sejam vencedores na vida , um erro que nossas famílias no Brasil há muitas décadas vêm igualmente cometendo (o que é a teimosa mania de enviar o filho ou a filha para a universidade, tenham ou não vocação para estudos superiores, se não um sintoma desse disseminado carreirismo?) E o que é o espalhado e tenebroso vício das drogas se não a conseqüência do geral esquecimento da Esperança, com E maiúsculo? Aquela que o Cristo trouxe para nós.

Não podemos quixotescamente tentar mudar, de uma hora para outra, esse triste cenário.Porém, podemos e devemos rezar - e muito - por essas pobres vítimas da circunstância histórica em que estamos vivendo.Não basta ficarmos honestamente bem comportados e irmos rotineiramente à missa dominical.


posted by ruy at 9:39 da manhã

1.2.05

 
O grave dilema dos nossos dias: sobreviver ou viver?


Um eventual leitor (entre os muito poucos que bondosamente ainda freqüentam este “blog”), ao ler o título deste “post” e lembrando a pergunta que o Tonto fez ao Zorro, pode, talvez, perguntar: “grave para quem, cara pálida?”

Pois é, antes de mais nada, é preciso dizer que se trata de um dilema grave para os batizados, e mais especialmente para nós católicos.Os não cristãos, em particular os ateus, já vivem uma tácita opção pela sobrevivência; para eles, portanto, não faz sentido falarmos em um dilema existencial. Nós outros, que nos dizemos cristãos, estamos nestes últimos três ou quatro séculos sendo postos à prova. Vimos sendo convidados a tomar a decisão essencial: sobreviver ou viver?

O ser convidados na frase anterior não é mera figura de retórica.Para melhor explicar isso, vamos lembrar dois fatos, separados por mais de dois mil anos.O primeiro deles é o modo desafiadoramente discreto com que ocorreu a ressurreição do Cristo, Nosso Senhor.Ele não apareceu diante dos sacerdotes judeus nem diante de Pilatos para lhes dizer: - vejam, estou vivo!

O segundo fato é o que se refere à existência do Santo Sudário, essa milenar relíquia que no final da década de 70 foi exaustivamente analisada por uma equipe de competentes cientistas, não havendo eles chegado a uma clara e precisa explicação da impressionante imagem tridimensional do homem crucificado.Por mais que se analise aquela peça de pano, ela continua sendo um incólume desafio à nossa fé.

Resumindo, permanece, ao longo dos séculos, o infinito respeito que DEUS tem pela liberdade do homem.E é esse mesmo respeito que justifica aquelas palavras que escrevemos no início (“vimos sendo convidados a tomar a decisão essencial: sobreviver ou viver?” )

Talvez o mais grave nas atitudes de Teillard de Chardin e seus seguidores (neles incluídos os Bettos e os Boffs da vida) não seja o apoio que eles deram e vêm dando às fantasiosas propostas comunistas e socialistas. Talvez o pior seja mesmo a generalizada acomodação com o mundo, a sutil mensagem de sobrevivência que esses maus profetas conseguem passar até mesmo aos católicos supostamente mais bem informados.

Ora, sem chegar aos extremos desses fabricantes de moeda falsa (como os chamava Maritain), os novidadeiros vêm introduzindo na liturgia da missa diversas práticas, superficialmente simpáticas, tais como: animadas palmas de parabéns, cantos ruidosos, excessivos e indiscretos cumprimentos no momento do “saudai-vos uns aos outros”, inserção (indevida) de frases ditas pelos fiéis na oração eucarística (durante a qual, à semelhança do que ocorreu na Última Ceia, somente o celebrante deveria falar), práticas essas que agradam à sensibilidade dos presentes na igreja, porém afastam a nossa inteligência das realidades da fé, dificultam ou mesmo impedem nossa reverência ao mistério.No fundo dessas novidades está, quem sabe, o desejo de propor aos católicos uma religião de sobrevivência, isto é, de acomodação, mais ou menos burguesa, e não uma religião de vida , isto é, de exigente, desafiadora procura da santidade .


PS: Oração eucarística é o trecho da missa que vai do término do Prefácio (com a aclamação do Sanctus, feita por toda a assembléia) até a Doxologia final, quando o povo responde, de modo enfático, para o sacerdote o Amen que vem pouco antes da oração do Pai Nosso.


posted by ruy at 9:14 da manhã

 

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