Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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16.1.05

 
Dando a vez aos que falam muito melhor


Uma das homenagens mais belas e mais generosas que já foram publicadas na imprensa brasileira é, sem nenhuma sombra de exagero, o artigo que vamos abaixo transcrever.Trata-se de um texto escrito, em julho de 1979, pelo Professor JOSÉ ARTHUR RIOS, pessoa de enorme cultura e não menor sensibilidade, alguém a quem podemos tranqüilamente chamar “um homem civilizado”.



A LUZ QUE SE APAGOU
(JB 12/7/79)
José Arthur Rios

Durante muitas noites, em certa janela do Cosme Velho, ardeu uma lâmpada que foi, por muito tempo para amigos e discípulos o sinal de uma presença, luz maior de inteligência, amizade e calor humano. Quem espiasse pelas grades da janela, rente a rua, avistava o fino perfil de um velho, quase cego, que debruçado sobre a mesa simples enchia metodicamente, com letra regular, resmas de almaço. Nos momentos mais difíceis dessa vida – e deste país – em horas de risco e incerteza, ali esteve sempre esse homem, na sua vigília. Na saleta, entre o grande crucifixo e o retrato de São Tomás Morus, cercado das imagens de amigos vivos e mortos, esse homem doente, alquebrado, por vezes agonizante, conduzia sem vacilar uma luta desigual contra os erros do seu tempo e as forças desencadeadas do mundo. Naquele espaço celular, mas que confinava com as fronteiras do bem e do mal, uma consciência vigilante, abrasada num intenso amor, combatia o bom combate que só deverá cessar no fim dos tempos.

Decorrido um ano da morte de Gustavo Corção – um ano, um século? – fez-se o silêncio sobre a figura e a obra do grande pensador católico. Trata-se indiscutivelmente de um morto incômodo como todo aquele que nos recorda compromissos e nos indica obrigações, com a mesma solicitude com que nos abria a porta para a ajuda e o conselho. A calúnia e a difamação que armaram uma ciranda em torno dele até pouco antes de expirar, dão-se agora as mãos para aposentá-lo na imensa academia dos esquecidos.

Não importa que esse homem de exemplar pobreza tivesse espalhado, a mancheias, em aulas, cursos e conferências, os dotes extraordinários de seu saber. Mais que isso, tivesse prodigalizado sua sabedoria em lições, artigos, palestras: que tivesse deixado páginas de extraordinária profundidade e beleza: que juntasse a isso capacidade inventiva, altura científica e competência técnica – que tivesse sido, em suma, uma flor de civilização neste país.

Em terra de minoria católica onde a inteligência trilhou todos os descaminhos e prostituiu-se, vezes sem conta, aos senhores do mundo, esse pregador sem púlpito e doutor sem diploma pregou e ensinou a verdade pela pena, pela palavra, pelo exemplo.

Raro, na história da inteligência em nosso país, um homem reuniu tais e tamanhos dons: a precisão minuciosa do cientista, o rigor do raciocínio matemático, as graças do escritor. Espécie rara, pertencia a mágicos e lógicos, montava equipamentos eletrônicos enquanto compunha ensaios definitivos. Enxadrista exímio, absorvia-se no convívio dos santos e na contemplação do Corpo Místico.

Quando um artigo memorável de Alceu Amoroso Lima revelou ao país esse inédito escritor de 50 anos, surpreenderam-se os que até então só o tinham visto debruçado sobre fios e oscilômetros. O primeiro livro: A Descoberta do Outro espécie de pilgrim’s progress, ao sabor de nosso tempo, era, sob as espécies da ficção, a descrição de um roteiro espiritual. O “outro”, para surpresa geral dos existencialistas, não era apenas o próximo, o homem de carne e osso. Era Cristo mesmo, Deus encarnado, pai, irmão e amigo. Aos poucos se desenhava um perfil de escritor singular – técnico que escarmentava o tecnicismo, cientista que subordinava a ciência a uma verdade maior, pensador que mergulhava na teologia, como na humildade e na obediência, as raízes profundas de sua interpretação do homem e do mundo.

De todos os grandes encontros de sua vida, em carne ou em livro, o mais importante foi sem dúvida o conhecimento de Santo Tomás, que leu e meditou até o fim, bússola permanente no mar de infidelidades e vacilações que nos cerca. O que o levou ao Tomismo – ele cientista, manipulador de números e aparelhos – foi a fidelidade ao objeto, a uma realidade negada pelos idealismos.

Poderia ter tecido com o próprio fio de sua vida inúmeros romances. Preferiu dedicar-se ao ensino da filosofia e da teologia e, nos últimos anos, dizia preferir a mestra à ancila.

De repente – foi nos idos de 60 – começou a preocupar-se com os rumos da civilização, sua decomposição a partir do Renascimento, e traçou essa topografia sinistra em Dois Amores e Duas Cidades, balizando-a pelos fachos do messianismo revolucionário.

De sua mocidade ficara a amarga lembrança de uma experiência comunista e a desconfiança das salvações sociais. Via sem ilusões o problema econômico e as falsas esperanças do marxismo “A hediondez da economia capitalista” – escrevia em 1947 – “reside no fato da desumanização do trabalhador para proveito de seus empreiteiros. Ora, a primeira reivindicação enérgica e generosa que aparece na história tem uma esquisita contradição que o mundo irá pagar muito caro. Refiro-me ao marxismo. O seu ponto de partida, apesar de todos os aspectos científicos de que se reveste, é de natureza moral”. E depois de analisar a apropriação do lucro do trabalho pelo capitalista segundo a doutrina marxista, diz: “Ora, o remédio que o mesmo doutrinador proporá para corrigir tamanha injustiça é rigorosamente amoral. Liquida-se com a justiça para se acabar com a injustiça; desumaniza-se a sociedade inteira para corrigir o desumano tratamento que se dá ao trabalhador; tecnicaliza-se rigorosamente a economia para curar essa viciadíssima economia capitalista que tecnicaliza a mão-de-obra e dela tira tudo o que pode”. (As Fronteiras da Técnica, Agir. 1947, págs. 79-81).

Quem o conhecesse, portanto, não se poderia surpreender com a posição que assumiu nos anos 60 contra a subversão e a corrupção. Como o país, radicalizou-se nessa luta. Mais que o problema político, no entanto, absorvia-o a preocupação com sua casa, a infiltração modernista e marxista na Igreja, a nova traição dos clérigos. Denunciou-se com a cólera, a paixão e a veemência que punha em todos os seus atos. Tornou-se mais duro em suas posições. Fernando Carneiro, meio a sério, meio a riso, disse que Corção era um dos poucos temperamentos espanhóis do Brasil. Estranho, por isso, ao nosso pendor para o conformismo, o arreglo e a conciliação.

Nas arquitraves leves e cerradas desse espírito, a chave de abóbada que tudo prendia e sustinha era um apaixonado sentimento de fidelidade. Como Jackson de Figueiredo, em outra época e com outros recursos, dedicou sua vida à defesa da Igreja, cujo centro via na Paixão de Cristo Crucificado. Foi essa a constante dulcinéia desse quixote que a levou ardente, em seu coração, até expirar, no catre em que dormia, no dia que a Igreja venera o sangue de Nosso Senhor.

Das noites na casa do Cosme Velho ficou, na memória dos amigos, a imagem do velho moço, as mãos descarnadas torturando o castão da bengala, as lições de sabedoria, as descobertas imprevistas, os lampejos verbais. Mais que tudo isso, essa luz de fidelidade que mantinha acesa, nos olhos amortecidos, um brilho de infância.




posted by ruy at 8:25 da manhã

14.1.05

 
Algumas considerações sobre os Estados Unidos da América


Dois leitores deste “blog”, residentes em diferentes e distantes Estados do Brasil, enviaram-me nestes dois dias mensagens que falam sobre aquele grande e complexo país cujo nome difere significativamente de todos os nomes das demais nações deste planeta.Um nome que une, de modo sintético, uma realidade geográfica e uma especial circunstância histórica.

Em “post” recente afirmei que, em geral, é bem fácil elogiar ou criticar os Estados Unidos. E por que ocorre essa facilidade? Porque costuma ser uma escolha binária e baseada nos fatos atuais.Sendo binária, restringe suas possibilidades; baseando-se apenas em fatos atuais, torna mais cômoda a análise que a precede.

Creio que o primeiro problema armado diante de quem pretende analisar o poderoso país do Norte é o fato de ser ele, por assim dizer, dois países em um só.Para tentar explicar essa minha opinião, lembro um fato aparentemente sem importância.O leitor que já tenha prestado atenção em filmes de enredo ou em documentários transmitidos pela televisão deve ter percebido que os americanos têm dois “hinos nacionais”.Um deles é o hino oficial do país, composto durante a chamada “segunda guerra da Independência”, no século XIX, e que começa com os conhecidos versos O say can you see, by the dawn’s early light... .É o hino solene, cantado com a mão sobre o peito, típico nas aberturas das cerimônias cívicas e das grandes competições esportivas. O outro “hino” é a belíssima – na música e nos versos - canção “America, the Beautiful”.É o que se canta nas ocasiões mais emotivas como, por exemplo, nas cerimônias fúnebres em que se homenageiam os heróis, sejam eles combatentes mortos na guerra ou bombeiros desaparecidos na tragédia do 11 de setembro.Quem tiver alguma sensibilidade musical e poética poderá entender meu ponto de vista.

Pois é, acho que existem dois Estados Unidos. Um seria o dos políticos que, ao som do hino oficial, dirigem a máquina burocrática do país. O outro seria o do povo que canta, em tom sereno, aquele poema impregnado de ternura, patriotismo e religiosidade, no qual, em vários versos, a poetiza pede a DEUS que abençoe aquela nação.

O país dos políticos nasceu sob a liderança de homens como Benjamin Franklin, pensador medíocre que era recebido com júbilo em Paris pelos mesmos homens que iriam montar a sanguinária máquina do Terror, que entregariam o pobre filho de Maria Antonieta nas mãos de um sujeito boçal que, de tanto maltratar a criança, acabaria matando o inocente. menino.

O leitor que tenha se escandalizado por ter eu escrito as palavras “pensador medíocre” deve ler – ou reler, se por acaso já possui o livro – o que sobre Franklin está escrito no excelente ensaio DOIS AMORES, DUAS CIDADES, livro tantas vezes recomendado por mim.

O fato é que a política americana nasceu sob a influência Iluminista, a mesma que inspirou os modernos nacionalismos, deístas ou pura e simplesmente ateus.E aí estão neles incluídos o nosso próprio Brasil e os demais países latino-americanos.Sim, porque é necessário que nós outros, os não americanos, deixemos de ser pretensiosos fariseus.

Por causa disso tudo, repito: por incrível que possa parecer, para entender perfeitamente o fenômeno americano – e as nossas próprias mazelas - urge irmos ao final da Idade Média, quando então se apagou o grande brilho que construíra as catedrais de pedra, construção essa feita com o povo inteiro das cidades cooperando naquela magnífica arquitetura; o grande brilho que escrevera a Suma Teológica com a sabedoria e a santidade de Tomás de Aquino.Temos que achar, na história, o distante ponto em que os homens deixaram de ser crianças, no sentido profundo desta palavra, e colocarem a si próprios como centro do mundo.


posted by ruy at 2:21 da manhã

 

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