Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

2.1.05

 
Balanço geral


Ao longo da vida, o homem passa por várias fases bem características, entre elas a infância e a adolescência.Até aqui nada de novo.A infância, por sua vez, possivelmente possa ser subdividida em períodos cuja seqüência assinala o bom e necessário progresso no sentido de uma crescente, embora precária, autonomia. Convém lembrar que, nas infâncias normais, a falta de autonomia não constitui um ponto negativo dessa fase do crescimento humano.O problema surge mesmo na chegada da adolescência, no momento em que se dá – usando a frase de Gustavo Corção – “o desencontro trágico com as funções que geram a vida.”

Ora, neste início do novo ano, que foi saudado com transitórios sons festivos e fogos coloridos, peço ao leitor licença para fazer uma analogia, estabelecendo um paralelo entre fases da história da civilização e duas idades típicas do ser humano.

Digo, para começar, que na Idade Média, mais especificamente, em torno do século XIII, o Ocidente chegou ao ponto máximo da sua infância. Esta afirmativa não é invenção minha.Com palavras diferentes a essência dessa afirmativa é o que registra o historiador judeu EGON FRIEDELL em sua clássica obra “ A Cultural History of Modern Ages”, citado no livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES.

Pois é, ao findar o Medievo, nosso mundo ocidental de repente entra em sua dramática e sofrida adolescência, que vem se mantendo, ao longo dos últimos oito séculos, com inúmeras manifestações de rebeldia, com desastradas buscas de autonomia, tal como acontece na vida pessoal de cada um de nós antes que cheguemos, mais pacificados, à nossa maturidade.

Só para que o leitor tenha um exemplo de um fato ligado a essa conflituosa procura de autonomia, observe um detalhe na comemoração da passagem do ano, aquela festa que ocorreu à meia-noite do recente 31 de dezembro.Afirmava eu, no “post” de ontem, que, apesar de todas as mancadas que vimos dando ao longo dos séculos, nós, os ocidentais, continuamos fazendo a contagem do tempo tomando como referência o ano em que o Verbo se encarnou para habitar entre nós. Pois bem, quase em seguida à leitura do “post”, um leitor envia-me uma mensagem informando que já existe no mundo certo movimento entre pessoas supostas possuidoras de muito bom nível intelectual, e mais supostas de não maldosas intenções, no sentido de reformar o calendário, dando-lhe uma referência “independente”, “mais universal”, adotando algum parâmetro “cósmico” para a contagem dos anos deste planeta. Falando em português bem claro:
- querem mesmo mandar o Cristianismo às favas.

Falei sobre as “mancadas” do Ocidente, essas que vimos cometendo em nosso multissecular processo de adolescência. Ora, DEUS – cuja paciência com nossa liberdade é infinitamente justa, já que foi Ele quem nos criou livres – permite essas incontáveis mancadas, nas quais podemos incluir centenas de guerras, várias “religiosas“, duas modernas Guerras Mundiais, duas bombas nucleares lançadas sobre populações indefesas, milhares de revoluções sanguinárias (feitas em nome da justiça..).Concede-nos misericordiosa moratória para que reflitamos seriamente sobre o fenômeno físico, silencioso e lento, da entropia crescente do universo e sobre o fenômeno físico, estrondoso e rápido, de um maremoto; para que pensemos, com não menor seriedade, sobre a escassez da água potável e de outras substâncias cada vez mais raras; para que notemos, pesarosos, a irracionalidade do consumismo, agitado e insaciável, que esconde, por trás de suas compras nos “shoppings” apinhados, um generalizado e melancólico desespero.Um desespero risonho e fútil.

Uma coisa que me deixa triste é ver muitos moços católicos , com uma crispada sensibilidade para os reais (e graves) problemas éticos que infernizam a vida do Ocidente ( e, por tabela, infernizam a vida do mundo inteiro), porém que ainda não se deram conta, esses moços, de que algo muitíssimo mais sério está acontecendo em volta de nós, dentro de nós.É perceber que outros moços, também batizados na Igreja, preferem o caminho da fuga sorridente, como se estivessem aceitando estoicamente um tipo de morte prematura e sem esperança, isto é, sem a Esperança, com E maiúsculo.


posted by ruy at 8:45 da manhã

1.1.05

 
Pois é...


Estava eu ali, sentado no barco, enquanto se abria no espaço aquela maravilhosa coincidência de sons e de cores. Podíamos ver bem perto a praia de Icaraí, mais longe a praia do Flamengo e, lá no fundo, por trás de um morro, as cores dos fogos de Copacabana.
Pois é, eu olhava aquelas pacíficas explosões de vermelho, de azul, de amarelo, de verde, de prateado e de dourado e, de repente, fiquei pensando isto

- apesar de tudo, o Ocidente – que já foi uma Cristandade – continua fazendo a contagem cronológica da existência humana neste planeta tomando como referência o ano em que o Verbo se fez carne para habitar entre nós! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!


posted by ruy at 2:42 da manhã

30.12.04

 


Por que ler um certo livro


Várias vezes falei neste “blog” sobre este livro de André Frossard: DEUS EM QUESTÕES. Editada pela QUADRANTE (São Paulo), essa obra merece ser lida e relida por todos nós.Responde a muitas perguntas e objeções que jovens estudantes fizeram a Frossard.
Peço aos freqüentadores deste “oásis” que leiam abaixo os títulos dos 48 capítulos do livro.Que esses títulos sejam 48 motivos para o leitor interessar-se e esforçar-se para ter esse livro em sua biblioteca!

- Por que viver?

- Que vem a ser a fé?

- Quem é você, André?

- Será possível converter-se em dois minutos?

- O Cristianismo fracassou

- Para que servem os dogmas?

- Não terá o homem inventado os deuses para sentir-se seguro?

- Por que existem tantas religiões?

- Quem é Cristo?

- Que é a verdade?

- Como reconhecer se alguma coisa é verdadeira?

- Pode-se dizer que algo é belo?

- Pode-se ser objetivo?

- Ciência e fé são compatíveis?

- A fé e o Big Bang

- E se a ciência viesse a demonstrar que Deus não existe?

- Dizer “Deus” responde a alguma coisa?

- Que se pode afirmar a respeito de Deus?

- E Deus, quem o criou?

- Prove-me a existência de Deus

- Deus é da esquerda ou da direita?

-Por que Deus não se mostra?

- O relato da criação na Bíblia é um poema?

- Como ler a Bíblia?

- Pode-se crer em milagres?

- De que adianta crer?

- Como crer?

- Maria?

- Será preciso rezar?

- Que se pode dizer sobre o amor?

- Como saber que estamos amando?

- Por que casar-se?

- Por que os padres não se podem casar?

- A Igreja está superada

- A Igreja é misógina

- Por que a Igreja intervém na vida privada?

- A lei natural

- A bioética

- O gênio genético

- A Aids

- A liberdade

- Devem-se batizar os recém-nascidos?

- O conhecimento é um mal?

- O pecado original (I)

- O pecado original (II)

- Por que há injustiça no mundo?

- Que existe depois da morte?

- O sofrimento.


posted by ruy at 8:54 da manhã

29.12.04

 

Algumas reflexões esparsas


- Esta é de Santa Teresa d’Ávila, Doutora da Igreja:
Oh my Lord! How true is that whoever works for you is paid in troubles! And what a precious price to those who love you if we understand its value.
[Tirada de um “site” católico americano.Vale a pena traduzir e pensar sobre o tema].Ao ler esta sutil reflexão da “espanhola atrevida” não pude conter meu sorriso.


- As notícias mais recentes dizem-nos que o número de mortos no maremoto que sacudiu o sul da Ásia ultrapassa setenta mil.Famílias inteiras desapareceram em poucos minutos.Todos esses que morreram eram pessoas , cada uma delas com sua identidade, com sua história e sua dignidade própria.É isso o que não é levado em conta nas fantasias de Teillard de Chardin, já que, para ele e seus adeptos, o que interessa mesmo é a evolução, palavra cômoda para fugir ao encontro com o mistério da vida, e da morte.


- Sobre o uso do dicionário. Já falei sobre isso, mas é bom repetir.O falecido professor Gladstone Chaves de Melo costumava dizer que é injusto chamar o dicionário de Pai dos burros . “Burro – comentava o velho mestre – não consulta o dicionário. Só os inteligentes fazem isso.”(Gladstone, respeitado filólogo brasileiro, foi um dos homens mais íntegros que já viveu neste país).


- Ainda sobre o maremoto.Meu amigo B..., o músico, enviou-me um texto escrito por certo jornalista de São Paulo que aproveitou a tragédia para apregoar sua descrença em um DEUS bondoso e benevolente.Ora, amigo jornalista, para exibir sua descrença na bondade e na benevolência divina o senhor não precisava usar um fato retumbante.Ao longo dos séculos, e com muito maior freqüência que os movimentos sísmicos, vêm ocorrendo, por exemplo, as dolorosas mortes causadas pelo câncer, os falecimentos de jovens parturientes esvaindo-se em sangue e os longos e silenciosos anos finais de anciãos feridos pelo mal de Alzheimer.E tudo isso, graças a DEUS, não impede que milhões de homens e mulheres mantenham sua fé n’Aquele que nos criou por Amor.

.
- Se a memória não me trai, foi Chesterton quem disse que a nossa vida torna-se algo essencial para nós quando descobrimos que ela é, sobretudo, um drama eminentemente pessoal.Cada um de nós tem o seu próprio. É preciso confiar no Grande Autor, aquele que nos dará a definitiva resposta quando as cortinas do teatro se fecharem.





posted by ruy at 7:36 da manhã

28.12.04

 
Precisamos urgente de radiadores !


Faz dois dias o “post” deste “blog” foi editado com o sibilino título “Precisamos ser práticos!” Ora, o de hoje tem um tom semelhante, porém agora voltado para um tema bem mais específico, e orientado para os leitores mais jovens do DD (que, nesta altura do campeonato, devem ser muito poucos...).

Em seu livro “ Les Grandes Amitiés”, traduzido para o português por Josélia Marques de Oliveira e editado já faz muitos anos pela AGIR, Rahíssa Maritain, em certo ponto da obra, narra como foi o primeiro encontro do casal Maritain com o casal Leon e Jeane Bloy, na humilde casa em que o paupérrimo escritor católico morava.Esse encontro ocorreu no dia 11 de junho de 1905, dia em que a Igreja comemora São Barnabé..
Desse encontro nasceu a conversão dos Maritain à Igreja, o seu batismo e o seu matrimônio, tendo como padrinho Leon Bloy. Ali começava a longa carreira de Jacques como um bravo paladino da fé cristã.

Pois bem, suponhamos que o grande filósofo francês, ao chegar à residência do terrível vociferador, ao lar do “Mendigo Ingrato”, tivesse ali encontrado um homem bem vestido, confortavelmente acomodado, tendo ao lado uma esposa meio fútil, ambos, marido e mulher, sem nenhuma inquietação espiritual. Talvez o professor de filosofia saísse, então, da referida casa falando com seus próprios botões: “é, esse tal de Bloy escreve muito bonito, mas não me convenceu que a vida vale a pena ser vivida, e que o Cristianismo responde á minha angústia, que é também a angústia de minha mulher...”

Olhemos agora o caso – verídico - do ingresso de Thérèze Martin, aos quinze anos, no Carmelo, onde morreria nove anos depois, sem saber que acabaria sendo venerada no mundo inteiro como Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face..Seria bastante difícil entender a corajosa decisão daquela adolescente se não levássemos em consideração o comportamento das pessoas de Louis Martin e sua esposa Zélie, pais da jovem Thérèze, se não lembrássemos que os outros quatro filhos do casal (mais velhos que Tereza) também entraram no Carmelo

.
Bem, agora podemos ir ao tema que deu o título deste “post”. O dicionário nos ensina:
- Radiar: verbo int., emitir raios de luz ou de calor .
Pois é, famílias como as que citamos acima são autênticos radiadores, de um outro tipo de luz e de um outro tipo de calor, luminosidade e aquecimento esses essenciais a uma vida boa e reta da sociedade humana, isto é, um estilo de vida do jeito que nossos modernos governantes – sejam eles “democráticos” ou ditatoriais - não estão capacitados a propiciar a seus governados.

Notemos este significativo detalhe: os Bloy costumavam passar fome, os Martin provavelmente eram bem alimentados. Entretanto, ambas famílias com certeza mantinham permanentemente dentro de seus lares o Cristo em primeiro lugar, antes de qualquer preocupação com o conforto e a segurança, e viviam sem pensar em ganhar prestígios mundanos..Não é o exterior que conta; tanto pode ser santo o rei Luis de França como o pobrezinho de Assis; tanto pode ser santo o chanceler Tomas Morus, convivendo com os grandes e poderosos homens da corte,. como pode ser santo um discreto e desconhecido irmão beneditino rezando e trabalhando em seu distante mosteiro.

Leitores mais jovens que me lêem neste momento, por favor, reflitam sobre isso. O que vocês estão pensando fazer da vida que têm pela frente, acomodar-se e empurrar a morte com a barriga, ou criar núcleos de radiação cristã?

Perdoem-me aqueles que ficarem incomodados depois da leitura deste “post”.


posted by ruy at 1:34 da manhã

27.12.04

 
A Esperança com E maiúsculo


O Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII em 1959, bem no início de seu pontificado, era visto pelo sucessor de Pedro como uma esperança de primavera para a humanidade, tão maltratada por duas sangrentas Guerras Mundiais. Ora, bem antes daquele grande movimento eclesiástico, muitos católicos já achavam – não sem motivo – que era necessária uma renovação na Igreja, ou melhor dizendo, uma grande renovação no comportamento do pessoal da Igreja .A Igreja, lembremos isso, é intrinsecamente Santa; nós, seus filhos, podemos ser santos ou pecadores.

De fato, fazia muitos e muitos anos que se criara nos ambientes católicos uma perigosa acomodação , um certo espírito de rotina que não se coaduna com a maravilhosa aventura do Evangelho.Em que pese a existência da Ação Católica, que tantos frutos produziu no passado (incluindo autênticas vocações religiosas e sacerdotais), muitos leigos católicos viviam distantes da desafiadora busca da santidade , preferindo viver uma vidinha medíocre, sem grandes ideais, sem compromissos exigentes.

Lamentavelmente, o Concílio Vaticano II teve a influência nefasta dos novidadeiros, particularmente dos adeptos das fantasias de Teillard de Chardin.Esses palpiteiros não puderam alterar a essência dos documentos elaborados pelo Concílio, mas, infelizmente, conseguiram impingir o estilo com que aqueles resumos doutrinários foram escritos.

[No final do segundo volume de DOIS AMORES, DUAS CIDADES, o leitor poderá ler um ótimo comentário sobre esse assunto].

Abramos um parêntese..Se conseguirmos ficar em silencioso recolhimento, poderemos abrir bem os olhos e ver em torno de nós a presença de uma imensurável pletora de mistérios. O que é o vento que neste instante sopra minhas cortinas sobre o teclado do computador? O que é minha mão, esse conjunto de carne e osso que bate nas teclas e segura o “mouse”? O que é o som, em especial esse musical som que estou escutando, neste exato minuto, na antiga melodia “ Que será, será”, tocada lá na sala? Por que existe na natureza um particular animal, meio desengonçado, de pescoço bem longo, a que chamamos girafa? O que é o riso, o que é a lágrima? O que é a vida, o que é a morte? O que estou fazendo neste mundo? Ou será que tenho que viver sem pensar nisso? Vale a pena viver?

Ora, estamos no Natal.Esta festa comemora a descida do Verbo, que se faz carne e habita entre nós para dar a definitiva resposta às nossas angústias. Os medievais, que ignoravam o que hoje sabemos sobre psiquiatria, tratavam com a máxima dureza o crime que consiste em alguém tirar a própria vida.Eles sabiam que essa vida humana estava impregnada pelo próprio DEUS, Criador e Redentor do homem.E eles viviam, em, seu dia a dia, a Esperança do Reino que não é deste mundo, conforme fora dito claramente a Pôncio Pilatos pelo próprio Cristo.

Pois bem, os novidadeiros Teillardistas propunham (e ainda propõem; aí está, por exemplo, o irrequieto assessor do governo chamado “frei” Betto, admirador confesso de Fidel Castro e da ditadura cubana) um "Cristianismo" naturalizado , telúrico, sem mistérios, sem poesia e, sobretudo, sem esperança, isto é, sem a Esperança.

Meus amigos, vejamos agora um ponto de capital importância para nós que nos afirmamos ligados à Esperança com E maiúsculo.Antes de nos empenharmos irritados em constantes e desgastantes críticas aos comunistas, aos protestantes, aos ateus defensores do cruel aborto e do absurdo homossexualismo, quem sabe esteja na hora de pararmos para responder lealmente, a nós mesmos, esta pergunta:
- já teria eu percebido, clara e definitivamente, que o relacionamento meu com todas as outras pessoas que me cercam precisa considerar a necessidade permanente deste essencial triângulo: o Cristo, o próximo e eu?

Se não formos capazes de responder “sim” a esta fundamental pergunta, talvez ainda não tenhamos vislumbrado o essencial mistério da Esperança cristã..


posted by ruy at 1:46 da manhã

 

Powered By Blogger TM