Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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26.12.04

 
Precisamos ser práticos!


Relendo meus três ou quatro “posts” mais recentes sinto uma certa frustração.Ainda que eu os tenha editado com a melhor das intenções, ainda que os tenha redigido com cuidado para que o leitor compreendesse tudo o que ali está escrito, percebo que fica faltando alguma coisa essencial, algo que talvez seja nuclear em textos que, supõem-se, sejam portadores de uma mensagem de conteúdo que se pretende cristão .
Hoje, ao assistir à missa de Natal na capela de um colégio próximo de minha residência, juntamente com um número pequeno de outros fiéis, de repente fiquei fazendo um exame de consciência, dando um balanço em antigas e teimosas dívidas e omissões minhas.Depois, já em casa, lembrei-me de um trecho do evangelho segundo São Mateus, capítulo 25, versículos 34 a 44.

Se o leitor consultar seu exemplar da Bíblia, especificamente o Novo Testamento, verá que naquele trecho Nosso Senhor fala sobre o Juízo Final e está justamente dizendo que os escolhidos serão aqueles que neste mundo praticaram as chamadas obras de misericórdia : dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, acolher o hóspede, vestir os nus, visitar os enfermos e os que estão prisioneiros.
Ora, durante muitos anos, o que sempre me intrigou nessa passagem do evangelho é a surpresa dos justos quando eles perguntam ao Cristo:
- quando foi que fizemos tudo isso a Vós, Senhor?.
Não sou especialista em exegese, entretanto hoje, com o amadurecer dos anos, percebo que aquela surpresa inserida na parábola faz parte do estilo com que Jesus reforça certos aspectos de sua mensagem. Caso contrário, a pregação do Mestre ficaria sem sentido.Sim, porque só haveria real motivo para surpresa se não tivesse existido a pregação que nos alerta.

O que realmente interessa é executar aqueles atos, é praticar de fato as obras de misericórdia. Pois bem, se fizermos uma leitura do evangelho à moda protestante, isto é, seguindo ao pé da letra o que está escrito, sem o cuidado de usar com a necessária sutileza a inteligência que DEUS nos deu, sem procurarmos o apoio da tradição da Igreja, sem prestar atenção no comportamento dos santos de todas as épocas – então poderemos cometer graves erros de omissão, ainda que tenhamos em nossa bagagem intelectual uma pletora de excelentes leituras, ainda que conheçamos com razoável profundidade a boa doutrina.Se não vejamos.

Muitos poucos de nós, ao longo dos anos – mormente se tivermos a sorte de levarmos uma existência rotineira, sem grandes percalços – teremos ocasião, por exemplo, de encontrar, de repente, alguém realmente necessitado de alimento convencional, ou alguém completamente despido, ou um outro preso por algum crime cometido. Visitar doentes em estado realmente grave não é também muito comum de acontecer.

Acontece, meus amigos – e é aí que faz falta o bom espírito poético – acontece que existem fomes outras que não a fome convencional, a fome física, usada demagogicamente pelos políticos ambiciosos para conseguir ou aumentar seu poder.Existem as silenciosas fomes de carinho, de compreensão, de apoio nas horas de sofrimento, de uma simples frase de incentivo sincero e, sobretudo, fome de nossas orações (lembremo-nos de Santa Terezinha reclusa em seu convento, rezando pelos outros)..

Existem outras formas de nudez, como a que acontece quando pessoas vestidas com elegância e luxo não percebem como estão despidas de sabedoria. Basta olhar, por exemplo, certas revistas coloridas que divulgam elegantes reuniões da chamada “alta sociedade,” para descobrirmos a tristeza que é ficar nu no sentido em que estamos falando.

Existem certas formas de estar preso, ainda que a pessoa não esteja colocada por trás de grades de ferro.Basta prestar atenção no limitador efeito da ignorância. Por exemplo, nosso descaso com o essencial ensino de primeiro e do segundo grau vem gerando milhões de “prisioneiros” na sociedade brasileira.Essa “prisão”, meus amigos, muitas vezes ocorre até mesmo com pessoas possuidoras de diploma universitário. Por isso, em certos momentos, temos que dar a esmola da nossa paciência, da nossa caridosa tolerância. Parece pouco, mas o Cristo está esperando esse pouco.

Acho que não preciso continuar.O leitor mais atento já pode começar a descobrir, muito próximo de si, as pessoas carentes de nossas obras de misericórdia. Sejamos, pois, bem práticos, vamos realizar essas obras!


posted by ruy at 1:23 da manhã

25.12.04

 
O Logos e o Ethos


Um bom amigo enviou-me pela Internet uma notícia a respeito de certo curso que provavelmente deve ser muito interessante, principalmente para eventuais alunos católicos.Acontece que a notícia dada pelo meu amigo estava sendo divulgada em certo “site”.Ora, visitando o referido “site”, veio-me à lembrança certo livro que li há mais de quarenta anos.

Esse livro, escrito por Alceu Amoroso Lima, em uma época em que ele ainda não tinha se deixado impressionar pelas fantasiosas propostas do padre Teillard de Chardin – de infeliz memória – é uma coletânea de crônicas publicadas em jornais pelo Dr.Alceu, como costumávamos chamá-lo.Nunca me esqueci de uma dessas crônicas, a que tinha por título esta frase: “O logos e o ethos

Explicava-nos o saudoso mestre (sempre foi uma pessoa boa, mesmo quando se extraviou da reta doutrina) que tradicionalmente o catolicismo era marcado pelo que Alceu chamava o logos , isto é, um lugar de relevância dado à razão (não ao racionalismo , com certeza), uma preeminência concedida à inteligência, usada esta para contemplar a Verdade; enquanto, no protestantismo, a ênfase tinha sido sempre dada ao ethos , isto é, à Moral, ao modo como o homem deve comportar-se diante da Lei de DEUS, perante os Seus mandamentos.

Pois é, creio que aquela perspectiva de Alceu Amoroso Lima ainda continua plenamente válida.Curiosamente, hoje estamos vendo muitos de nós católicos que, pressionados psicologicamente pelas notícias com que a mídia diariamente bombardeia nossas consciências, acabamos por adotar uma quase permanente atitude, digamos assim, “moralista” (por favor, notem que coloquei esta palavra entre aspas).Nossos escritos, nossos bate-papos à mesa do bar ou da lanchonete da universidade, nossos “posts” nos “blogs” que editamos na “web” – todas essas manifestações das nossas idéias versam muitíssimo mais sobre aspectos éticos da cultura contemporânea do que sobre a grave carência de “religiosidade” (também entre aspas, por favor) que a caracteriza.Aquela religiosidade que inspirou a Idade Média na construção magnífica das grandes catedrais de pedra e na construção menos visível aos olhos comuns, mas não menos elaborada, não menos brilhante, da Suma Teológica de um Santo Tomás de Aquino.

De fato, é muito mais fácil escrever sobre o efêmero do que sobre o Eterno. Depois que saímos da infância, parece que o criticar torna-se muito mais espontâneo do que o contemplar.
Com essa atitude “moralista” (entre aspas), acabamos passando ao largo do mistério. À semelhança dos nossos irmãos protestantes, nós, católicos, deixamo-nos, pois, atrair pelo ruidoso ethos muito mais que pelo sereno logos. E digo isso contristado...

Ora, há uns dois dias sugeri aos leitores a leitura do livro DEUS EM QUESTÕES, de André Frossard. Pois bem, ao longo de seus quase cinqüenta capítulos, esse grande pequeno livro mostra, a quem prestar atenção, justamente como é possível abordarmos importantes e urgentes questões éticas sem que deixemos de dar prevalência ao essencial das coisas, sem que renunciemos à correta hierarquia, aquela em que o Logos ocupa o primeiro lugar. Hierarquia, meus amigos, não significa exclusão

E para que não se diga que André Frossard é mais um intelectual católico distante da realidade da vida, informemos ao nosso leitor que esse homem serviu à Marinha da França, na segunda Guerra Mundial, lutou junto à Resistência contra o invasor nazista, foi detido pela Gestapo e esteve preso em campo de concentração.


Sobre a Idade Média


(Aproveitando a referência que acima fizemos sobre a religiosidade do Medievo).
No excelente livro que tantas vezes vimos recomendando aos leitores, isto é, DOIS AMORES, DUAS CIDADES, em certo instante Gustavo Corção refere-se ao fato de que, naquela época, nas rotineiras conversas em família, intercalavam-se comentários brejeiros sobre as últimas intrigas da Corte com outros mais sérios sobre as recentes teses teológicas discutidas na universidade. Neste nosso moderno Ocidente, nossas habituais conversas domésticas alternam-se entre maledicências sobre pessoas comuns e outras igualmente venenosas sobre os maquiavélicos políticos que nos governam.Isso já mostra uma enorme diferença entre os consensos existentes nas duas respectivas culturas, diferença a favor deles, os Medievais.


Natal

Como escreveu meu amigo C..., lá no distante Piauí:
- um SANTO Natal para todos nós!
E como disse meu amigo B..., no também longe Recife:
- que o Natal volte a ser para as pessoas do mundo a resposta de Esperança que se anunciou 2000 anos atrás


posted by ruy at 1:13 da manhã

22.12.04

 
[Por motivos imperiosos é bem provável que o DD entre em recesso por alguns dias. Se DEUS quiser, voltaremos ao ar tão logo seja possível.]


A infinita poesia do Natal


Existe sem dúvida alguma um modo convencional de falar quando as pessoas referem-se à chamada “poesia do Natal”.Tradicionalmente vem (ou vinha) sendo esta época do ano marcada por imagens e sons típicos, em que os coloridos e as melodias usados procuram (ou procuravam) criar uma atmosfera de alegre cordialidade entre os homens na maior parte do Ocidente.

Um parêntese.Ali em cima usei o tempo imperfeito em “vinha” e em “procuravam” porque as notícias recém recebidas pela Internet nos dizem que em muitos lugares vem sendo feita uma não disfarçada campanha contra tudo que lembre o Natal como festa religiosa, isto é, que nos lembre o que ele de fato é. Fechemos o parêntese.

Pois bem, seria no mínimo pouco inteligente se nós cristãos menosprezássemos aquele tradicional conjunto de hábitos ligados à grande festa da Cristandade (não a maior por certo, já que a Páscoa é a magna celebração).Por dentro dessas manifestações ingênuas sempre esteve presente, em profundo silêncio, aquela que podemos chamar “a infinita poesia do Natal.”

Ensinam-nos as boas introduções à Filosofia que são quatro os discursos aristotélicos, a saber: a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica. Segundo os mesmos manuais, em termos de comunicação racional o mais fraco dos quatro discursos é o poético, e o mais forte é o lógico.

Tudo bem.Se fôssemos adeptos do Racionalismo – e infelizmente muitos de nós católicos de vez em quando agimos como se fôssemos guiados por esse desvio da inteligência – poderíamos olhar com certo desprezo, ou com desdenhosa condescendência, a poesia e os poetas. Ela e eles seriam assunto com que não valeria a pena perdermos tempo.

Bom, agora temos que dizer isto: existe poesia e poesia . Existe uma poesia que é feita unicamente de forma, isto é, de palavras habilmente escolhidas para causar apenas emoção naquele que lê os versos, e neles admira a estética de quem os escreveu. Acontece que toda poesia, por sua própria essência, é feita para falar à emoção. Entretanto, existe um modo de fazer poesia em que, apesar da linguagem sintética que a caracteriza, o poeta, o escrivinhador dos versos quer mesmo enviar sua personalíssima mensagem ao leitor. Mensagem não convencional, exigente da nossa cultura mais ampla, da nossa capacidade de ouvir os sussurros de uma pessoa única e intransferível. Sob esse aspecto, o espiritismo é profundamente antipoético.

Daqui a três dias vamos comemorar no recinto das igrejas, em nosso coração e em nossas casas a festa do maior dos poetas, Aquele que certa vez fez esta afirmação tão pequena em número de palavras, porém imensa em seu significado:

- Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.


Um Natal autêntico para todos os leitores deste “blog” e suas famílias.É o que lhes deseja o Ruy.


posted by ruy at 4:49 da manhã

21.12.04

 

Falando sobre um grande pequeno livro


Em que pese a opinião favorável de alguns leitores sobre o “post” de sábado no DD (“A Igreja ‘institucionalizada’ “), o referido texto infelizmente não saiu conforme eu desejava. Para tentar compensar minhas falhas, vou em seguida falar sobre um assunto que pode trazer, para os poucos que freqüentam este “blog”, muito mais alegria que um eventual agrado pelo que editei anteriormente.Mais especificamente, vou falar sobre um grande pequeno livro (grande em seu valor intrínseco, pequeno no tamanho físico: 13 cm x 20 cm, e não mais que duzentas e poucas páginas)..

Trata-se essa obra de uma coleção de curtos ensaios escritos por André Frossard sob o título: DEUS EM QUESTÕES, traduzidos para o português pela editora QUADRANTE a partir do original francês (“Dieu en Questions”).Expliquemos o porquê do nome do livro.O autor, respeitado intelectual em seu país e em outros da Europa, quando ainda era vivo por diversas vezes proferiu palestras em várias cidades européias.Nessas ocasiões muitos estudantes apresentavam perguntas desafiadoras ( questions ) ao palestrante, questões cujos temas eram quase sempre ligados à religião.Cada capítulo do livro é a resposta a uma dessas questões.

Para que o leitor tenha uma rápida apresentação de André Frossard, transcrevo em seguida o início da Nota Editorial da tradução brasileira:

No dia 8 de julho de 1935, um rapaz de vinte anos entrava numa capela de Paris à procura de um amigo, com quem tinha combinado jantar.Chamava-se André Frossard.Era filho do líder sindical O.L. Frossard, jornalista e primeiro secretário geral do Partido Comunista francês.Dizia-se “cético e ateu de extrema esquerda. Ainda mais do que ateu, indiferente e ocupado em coisa bem diversa do que em um Deus que nem pensava mais em negar.”
Cinco minutos depois, saía de lá “católico, apostólico, romano, transportado, levantado, retomado e envolvido pela onda de uma alegria inexaurível.”


Pois é, a conversão de André Frossard, conforme ele mesmo narra em seu livro “ Deus existe, e eu o encontrei”, deu-se de modo miraculoso. Há católicos que não aceitam esse fato com tranqüilidade; chegam quase a duvidar que ele tenha ocorrido, ou ocorrido exatamente daquele jeito. Não é o meu caso; eu creio, sem titubear, que possa ter acontecido,sim.Provavelmente, como dizia Leon Bloy, alguém pagou por isso, com a moeda do sofrimento oculto oferecido ao Cristo. Minha volta à Igreja, por exemplo, creio que tenha sido paga com uma terrível nevralgia do trigêmeo no rosto de uma de minhas tias mais velhas.

Pois bem, agora explico ao leitor por que acabei não gostando do meu “ post” de sábado.Ao fazer, no final do referido texto, aquelas perguntas a um hipotético leitor protestante, de repente acabei me esquecendo de que a fé, isto é, a circunstância de alguém ter fé, é, antes de mais nada, uma Graça misericordiosa de DEUS. Faz parte do mistério da Salvação. Não nos vem por meio de raciocínios, por mais bem arquitetados que eles sejam.

Se por acaso algum irmão protestante tiver lido aquele “post”, peço que perdoe minha inabilidade ao querer chamar sua atenção para certos fatos do catolicismo. Estou mesmo dizendo: fatos.Eles continuam existindo, verdadeiros independente do meu desajeitado modo de apresentá-los aos leitores.


Sugestão ao leitor

Para tomar informação sobre como adquirir o livro de André Frossard, envie um e-mail para este endereço:

quadrante@quadrante.com.br



posted by ruy at 1:26 da manhã

 

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