Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





Arquivos:





Fale Comigo

5.12.04

 

Quatro distantes causas de um grave problema atual


Antes de iniciar propriamente o tema deste “post”, vou transcrever em seguida a notícia que estava sendo divulgada ontem (4/dez/04) na Internet:
RIO - Um tiroteio entre policiais e bandidos na Avenida Borges de Medeiros causou pânico e tumulto entre os moradores do elegante bairro da Lagoa, Zona Sul carioca, na manhã deste sábado. Foram disparados mais de 50 tiros, muitos dos quais atingiram a Igreja São José - que é toda de vidro -, assustando fiéis que se preparavam para assistir à uma missa.

Na maioria das grandes cidades do Brasil a criminalidade atingiu um índice tal que a maior parte das famílias, independente de sua situação social, vive em permanente tensão, em constante desassossego, restringindo seus rotineiros deslocamentos, que em outra época se faziam com espontaneidade, mantendo-se dentro de suas casas ou de seus apartamentos em incômoda espera até que, no final da tarde, regresse ao lar a última pessoa que estuda ou trabalha fora da residência. Nas demais cidades do interior o problema ocorre em grau muito menor ou, pelo menos, já não é mais considerado impossível de ocorrer. Creio que seja razoável, portanto, fazermos esta incomodativa pergunta:
- por que foi que chegamos a essa dramática situação?

Não sou sociólogo, nem tão pouco tenho acesso a dados estatísticos sobre o referido problema. Em relação a ele sou meramente um cidadão como os outros, ora assustado, ora enraivecido.Portanto, minha resposta é simplesmente uma opinião pessoal.

Vejo, na minha opinião, quatro causas para o fenômeno , causas essas independentes e distantes no tempo. A primeira estaria em um lamentável equívoco cometido pelos homens que, em março de 1964, tiveram a magna lucidez e a não menor coragem de colocar-se contra o solerte movimento de inspiração marxista que pretendia transformar o Brasil numa outra Cuba ou numa outra China. Anulado o gravíssimo perigo que nos ameaçava, os novos dirigentes políticos rapidamente organizaram um amplo esquema de desenvolvimento econômico e financeiro que, realmente, gerou indiscutíveis resultados positivos, reconhecidos até mesmo por adversários do regime.Nosso país chegou à notável posição de oitava economia do mundo.

Ora, no afã de garantir esse desenvolvimento a médio e longo prazo, as novas autoridades escolares adotaram uma nova “filosofia de ensino” (sempre me recuso a usar a inadequada palavra “educação”, que infelizmente vem sendo há muitas dezenas de anos aplicada ao próprio Ministério responsável pela escolaridade), uma filosofia que valorizou o pragmatismo. A retirada drástica do latim do curso secundário foi um sinal característico da nova orientação didática. Seguiu-se a inserção de cursos “profissionalizantes” no curso colegial. Valorizou-se de modo excessivo o ensino universitário e, ao mesmo tempo, desprestigiou-se a professorinha primária , aquela mestra que durante anos havia sido a grande pedagoga do povo brasileiro.

Essa nova filosofia de ensino acabou inadvertidamente propiciando, no âmbito da nossa juventude, uma generalizada pressa de vencer na vida , uma difusa ambição cerceadora de vitais generosidades, tão necessárias para o eficaz exercício das profissões. Praticamente todos os moços passaram a desejar o “canudo”, o diploma universitário, tivessem ou não tivessem pendor para estudos avançados.Prepararam-se, portanto, futuras frustrações e conseqüentes perigosos ressentimentos.

Como segunda causa do problema, aponto a (também generalizada) mediocrização da cultura em conseqüência dos abjetos programas de televisão que, usando os eficientes troncos da Embratel, construídos pela Revolução de 64, entraram facilmente na maioria dos nossos lares, fazendo com que milhões de famílias acabassem perdendo o tradicional respeito a fundamentais valores da vida realmente civilizada. Será preciso explicar ao leitor que existe um vínculo sutil do deboche, do cinismo e da vulgaridade desses programas de TV com a dificuldade de fazer uma boa escolha de candidatos a cargos públicos, um vínculo cultural com a disseminação do nefando uso das drogas?

A terceira causa, para mim pelo menos, está na idéia simplista, e ao mesmo tempo perversa, de que o crime é nada mais nada menos que um “problema social”. Segundo essa idéia simplista, digamos logo: burra, resolva-se esse problema e logo o nível da criminalidade irá quase a zero. É uma das antigas crenças dos partidos de Esquerda.
Homens de nível universitário, como o católico Betinho, pensavam desse modo e, por pensarem assim, acharam que não haveria nenhum problema em darem apoio ao ambicioso político que, ao assumir o governo do pobre Estado do Rio de Janeiro, deixou que o setor da Segurança Pública adotasse um modo acomodado, mais tolerante, de lidar com os bandidos. Estes, logo percebendo que a vida lhes seria menos difícil, cresceram em número, em audácia e em periculosidade.

No parágrafo anterior falei sobre um antigo líder católico Isso me leva à quarta causa, a mais dolorosa.
Lamentavelmente – e este é um advérbio “modesto” – muitos bispos e padres durante décadas deturparam a mensagem nuclear do Evangelho, passando aos fiéis (pobres ovelhas sem pastor...) a idéia errada de que ao Cristianismo cabe primordialmente transformar este mundo num tipo de Paraíso terrestre.Lembro-me, por exemplo, de uma fotografia publicada no jornal O Globo, em que aparece um bispo , ajoelhado junto de uma cerca de arame farpado, enquanto ajuda um membro do MST a cortá-la...E o bispo sorria muito satisfeito para o fotógrafo que registrou a triste cena.

Essa deformadora visão do transcendente mistério da Salvação direta ou indiretamente ajudou – e ainda ajuda... - o trabalho da propaganda socialista, comunista, que sempre, teimosamente, insiste no tal “mundo melhor”, e muito pouco ou nada se sensibiliza com os problemas atuais das pessoas , pessoas atuais e concretas que no seu cotidiano vêm sendo agredidas moral e fisicamente pelos bandidos.

. Terminando de expor essas quatro causas, afirmo agora que há muitos analistas brasileiros, dotados de boa cultura e inspirados com as melhores intenções, mas que só têm olhos para o perigo – verdadeiro – de uma radical mudança política no país. Entretanto, esses mesmos analistas – infelizmente – não têm a desejável sensibilidade para as causas culturais a que nos referimos.Por isso, escrevem e falam copiosamente como se tudo girasse apenas em torno de uma luta entre a Direita e a Esquerda.Tal atitude, para mim pelo menos, é um tipo de interpretação míope dos fatos. Não vai à raiz do problema e, por isso mesmo, não ajuda a resolvê-lo.

Me perdoem por eu ter escrito com franqueza este “post” longo e queixoso.



posted by ruy at 9:24 da manhã

4.12.04

 
Um lembrete


Nunca é demais lembrar o pequeno poema em forma de oração escrito pelo saudoso poeta católico (note bem amigo leitor: católico ) Murilo Mendes:


Senhor, minha prece se faz
em termos exatos:
que os maus sejam bons
e os bons não sejam chatos.



Agradecimento


Agradeço calorosamente ao amigo Professor B... (não o engenheiro, mas o músico) por ter-me enviado o ótimo texto sobre Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, incluindo várias citações da grande Doutora da Igreja.
Bem a propósito, em certa passagem de DOIS AMORES, DUAS CIDADES, Gustavo Corção, comentando as complementares virtudes da Humildade e da Magnanimidade, nos diz que Santa Terezinha escolheu a petite voie porque queria ir mais longe e mais alto.


posted by ruy at 2:28 da manhã

3.12.04

 
A pergunta essencial


[Este “post” é especialmente dedicado aos leitores mais moços e que ainda estejam sendo “tutelados” pela família e/ou por uma escola, tutela essa comentada por Mortimer Jerome Adler quando nos explica, com muita clareza, que “somente adultos podem educar-se”]

Hoje de manhã bem cedo, antes do início de nossas atividades, conversei durante um bom tempo, em particular, com meu antigo colega e velho amigo B...., girando o assunto em torno de um delicado e incômodo problema ligado ao nosso trabalho profissional. Durante essa conversa, muito séria, em certo instante toquei em alguns temas que venho abordando no DD.

Muitos de nós, batizados na Igreja, costumamos analisar nossos problemas profissionais, familiares, pessoais de modo estanque , isto é, separados uns dos outros e separados daquilo que Ortega y Gasset – com muita felicidade – apontou como parte essencial de nossa existência como pessoas , as nossas circunstâncias . Eu sou eu e minhas circunstâncias. Meu amigo B...é ele e as circunstâncias dele. Você, leitor que agora me lê, é você mesmo e suas circunstâncias.

Para alguém apressado pareceria que o notável filósofo espanhol, grande mestre de Julian Marías, estaria propondo com aquela frase um tipo de determinismo psicológico. Não! Não se trata nada disso! Bastaria neste exato momento que nos lembrássemos do Evangelho, especialmente da passagem em que Nosso Senhor nos diz isto:
- Se alguém quiser ser Meu discípulo, tome a sua cruz e siga-Me [Mc 8,34]
Nossas circunstâncias são a nossa permanente cruz.

Cada um de nós é chamado a realizar-se como pessoa É isso mesmo que o citado Adler passou sua vida inteira dizendo às famílias americanas.Dizia e escrevia àquelas famílias – e vale igualmente para as nossas – que, ao enviar seus filhos à escola, nós pais não deveríamos preocupar-nos com coisas tais como o dar apenas segurança e conforto aos moços, fazer deles vencedores na vida. Essa preocupação – tão pobre de grandeza humana – gera na sociedade uma silenciosa arena, separando as pessoas em dois grupos antagônicos, o dos vencedores e o dos vencidos.Os pais deveriam, sim, olhar a escola (por exemplo, a universidade) como um auxílio para o crescimento integral de seus filhos como pessoas , isto é, como seres capazes de gerar verdade , bondade e beleza neste mundo.

Ora, a grande circunstância deste nosso mundo moderno, particularmente do Ocidente, é a de ser ele antropocêntrico . Fica tedioso, ou no mínimo ridículo, atribuirmos aos chefes políticos uma culpa além da que eles realmente têm. Por exemplo, é facílimo criticar as melancólicas limitações culturais da nossa atual primeira autoridade. Entretanto, qual de nós já parou para pensar, por exemplo, no desastrado democratismo do voto obrigatório, essa moderna herança do orgulhoso Iluminismo?

É igualmente facílimo deblaterar sobre o banditismo em nossas grandes cidades e o correlacionado aumento da criminalidade (aquilo que as TV’s - a Globo na frente - chamam pelo calhorda eufemismo de violência ).Entretanto qual de nós já parou para refletir sobre esta infeliz cadeia de causalidade : 1-falta de fé autêntica , 2-ausência de ideais e valores, 3-vida vazia, 4- tédio e, finalmente, 5- a droga ?

No início deste “post” escrevi – e agora confirmo – que ele é especialmente dedicado aos leitores mais moços, àqueles ainda “tutelados”. Pois bem, vocês que ainda estão nessa relativamente cômoda situação de “stand-by” aproveitem-na para fazerem seriamente a si próprios a pergunta que devia ser essencial em nossa vida:
- Quem é Jesus Cristo para mim?


posted by ruy at 10:47 da manhã

1.12.04

 


Pondo o pingo nos ii


Ensinam-nos as boas introduções à Filosofia que existem três tipos de verdade, a saber:
- verdade ontológica , isto é, a conformidade da coisa com o pensamento;
- verdade lógica , isto é, a conformidade do pensamento com a coisa;
- verdade moral , isto é, a conformidade da palavra com o pensamento.
Vamos aplicar tais conceitos a este “blog”, ou melhor dizendo, vamos ver como a presença da verdade pode ser verificada nestes “posts”

Pergunto: os períodos, as frases, os substantivos, os adjetivos e os verbos por mim escolhidos vêm correspondendo exatamente a tudo aquilo eu desejei explicar, comentar? Todo esses textos por mim redigidos representam de modo preciso minha perspectiva diante das coisas? (Verdade “ontológica”)

Pergunto: tudo o que ali venho escrevendo não contraria os fatos e nem contém erros conceituais, erros esses que seriam fruto da minha in-ciência ?(Verdade “lógica”)

Pergunto ainda: os “posts” por mim editados são sinceros? Não existe neles a menor intenção de enganar o leitor? (Verdade “moral”)

Ora, suponhamos a melhor hipótese, qual seja, a de que o Despoina Damale passe incólume por esse teste tríplice de avaliação.Pois bem, mesmo que este “blog” seja verdadeiro sob qualquer faceta da verdade, ainda assim ele vale quase nada se o procedimento habitual do Ruy deixe muito a desejar quanto ao que se espera de alguém que se afirma cristão e católico convicto. Todos esses “posts” serão apenas “flatus vocis” se deixar de existir coerência entre o que eu escrevo e o modo como vivo.


Entusiasmo


Diz-nos a etimologia que a palavra entusiasmo quer dizer “fixação em DEUS”.Estar entusiasmado é estar “fixado em DEUS”.Ora, no final da tarde de hoje recebi uma entusiasmada mensagem do meu amigo M.... Peço-lhe autorização para transcrever em seguida a maior parte do que ali está, omitindo apenas a referência que M... fez a uma certa pessoa.

Caríssimos, não posso deixar de externar a minha estupefação após a leitura do volume I dessa obra maravilhosa! [ele está referindo-se ao livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES].
Tons se sobrepõem, matizes se firmam, nuances são mescladas numa harmonia singular e envolvente! Carecem palavras de admiração e agradecimento pelas repetidas aulas que podemos auferir da sólida, inebriante e objetiva exposição de temas. Realmente, Corção é um mestre.
(...)
Pede uma segunda – e uma terceira e uma quarta – leitura. Farei isso depois de ler o volume II.
Recomendo enfaticamente esse livro!
Um abraço fraterno.
M...



.Pois é, depois dessa manifestação de entusiasmo – que entendo perfeitamente, porquanto o sinto do mesmo modo – posso comentar:
- eis ali um leitor que “captou” de fato a mensagem do livro!


posted by ruy at 2:54 da tarde

29.11.04

 

Crescimento humano


No sábado passado, numa tarde quente, típica de um novembro carioca, tive a enorme alegria de voltar a conversar pessoalmente com Dom Lourenço de Almeida Prado OSB, lá no mosteiro. Dom Lourenço caminha um pouquinho arqueado e, como ele mesmo disse, com as pernas “titubeantes”, porém está perfeitamente lúcido, apesar de seus noventa e quatro anos. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Depois de falarmos sobre várias reminiscências dele e deste escriba que, pela idade, poderia ser filho desse homem tão respeitado e estimado por milhares de pessoas, entramos nos assuntos que talvez deveriam ser os principais na conversação de pessoas batizadas, mormente sendo elas católicas.

Dom Lourenço, com aquela voz serena e firme, em que pese a idade, em certo instante lembrou o grande problema que tiveram os primeiros cristãos, nos séculos I e II de nossa era.Os chamados Padres da Igreja , isto é, os Pais , os primeiros pensadores da Igreja, perceberam logo que a primitiva Cristandade estava de fato imersa numa cultura pagã, cultura milenar em que havia uma pletora de escritos literários e filosóficos, nos quais existiam várias idéias contrárias às exigências da fé cristã. Que fazer? Ignorar aquele imenso acervo dos pagãos? Condenar de modo sumário todas aquelas obras, sem fazer nenhuma concessão?

Prevaleceu a sensatez, inspirada pelo Espírito Santo. Os Padres viram que seria possível aproveitar muito do que estava no pensamento pagão, mesmo porque – e esse é o ponto principal do “post” de hoje – aquele muito serviria para o crescimento humano dos cristãos, porquanto, é bom lembrar, nós somos, ao mesmo tempo, carne e espírito; existe em nós aquilo que os mestres da Filosofia Perene chamam uma união substancial . Nós não somos anjos; e também não somos meros animais aperfeiçoados, como de nós afirmam os adeptos ferrenhos do evolucionismo.

Um dos trechos mais belos do livro de Chesterton sobre Santo Tomás de Aquino é justamente aquele em que o saudoso ensaísta inglês fala sobre a grandeza do Santo Doutor em saber aproveitar, sem sentir-se diminuído, a sabedoria de Aristóteles e outros sábios não-cristãos.Vemos, assim, que no século XIII repetia-se o que acontecera mil anos atrás no início da Igreja. Apesar de estarem de fato vivendo o Evangelho , isto é, a Boa Nova , a mais autêntica das novidades, os cristãos não viravam orgulhosamente as costas para os valores do passado.

Um parêntese. Creio que existam três modos de posicionar-se diante das artes e da literatura.O primeiro é o jeito, digamos, “diletante”, cujo protótipo poderia ser Jorge Luis Borges. O segundo é o “moralista”, um pouco no estilo da raposa olhando as uvas que não conseguia alcançar.O terceiro, mais sensato, é o dos Padres da Igreja e de Santo Tomás de Aquino.Fechemos o parêntese.

Pois é, lamentavelmente vai ocorrer no começo do século XX uma trágica mudança de atitude em vários filhos da Igreja, que foi a de apegarem-se à mais burra das novidades, o evolucionismo. E pior, paralelamente a essa infeliz opção, liderada pelo padre (...) Teillard de Chardin, muitos católicos embarcaram na telúrica proposta dos marxistas, a do “mundo melhor”. Vieram os padres-operários, vieram os Boffs, os Bettos e os Betinhos. Vieram as missas barulhentas, em que a milenar e inteligente reverência ao mistério eucarístico cedeu lugar à sentimental e ruidosa atmosfera de mero encontro de bons amigos, como se a igreja fosse um tipo de clube festivo, e não a casa de DEUS.

Com aquela mudança de atitude, perdeu-se aquilo que os antigos haviam cultivado durante séculos, o integral crescimento humano . Os tradicionais colégios católicos, por exemplo, em sua maioria perderam a respeitável qualidade de ensino, uma qualidade que era reconhecida até pelos descrentes, até mesmo pelos inimigos da Igreja.Um universitário católico há sessenta anos era alguém que lia, que estudava a doutrina de sua crença. Hoje, infelizmente, são bem poucos os moços católicos que se interessam por um sistemático e sério cultivo da inteligência. Regredimos...

PS
Aos que quiserem ler um excelente livro sobre o evolucionismo, sugiro “A Caixa Preta de Darwin”, do bioquímico americano Michael Behe, editora Jorge Zahar.




posted by ruy at 8:58 da manhã

 

Powered By Blogger TM