Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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21.11.04

 
Em silêncio


Muitas vezes é melhor ficar em silêncio. E rezar.


posted by ruy at 1:28 da tarde

19.11.04

 
Dois modos de ler um livro


Suponhamos que alguém, parente ou amigo nosso, conversando conosco sobre igrejas do Rio, de repente nos diga que acha a igreja da Candelária a mais bonita desta cidade.Bem, nesse instante é possível que a boa regra da caridade mande o Ruy ficar quieto, sem fazer nenhum comentário.Mas, lá por dentro fico meio melancólico diante daquele juízo estético tão simplório e tão distante do sentido da verdadeira beleza. Por quê?

Creio que o primeiro sinal da beleza autêntica esteja justamente na unidade artística da obra por nós observada. .Ora, quem já entrou na Candelária e prestou bastante atenção no interior daquele templo, um dos pontos turísticos do Rio de Janeiro, pode ter notado a grande variedade de estilos, representativos de diferentes épocas da história do mundo, da história da arte.Falta àquela famosa igreja a unidade artística que é claramente visível, por exemplo, na igreja barroca de Nossa Senhora do Monte Serrat no mosteiro de São Bento, nesta mesma capital carioca..

Essa desejável unidade na decoração do interior das igrejas também deve existir na parte externa, isto é, na arquitetura dos templos. A mistura de estilos será sempre sinal de mau gosto.

Ora, igual exigência pode ser feita no que se refere à pintura, à escultura, à música e à literatura. Todos nós que estejamos com nossos sentidos físicos normais podemos realizar uma análise da obra de arte, isto é, podemos fazer uma decomposição mental de suas partes. Por exemplo, podemos escolher, de uma sinfonia ou de um concerto, qual o trecho cujo ritmo mais nos agrada ou certa melodia que eventualmente nos traga à lembrança alguma fugidia saudade.Entretanto, terminada a execução daquela peça musical, quantos de nós poderemos fazer uma adequada síntese do que ouvimos, dando uma firme opinião sobre o significado da obra completa ?

Considerações análogas podem ser feitas no que toca à silenciosa contemplação da pintura em um quadro.Quem tiver desejo de ler finas observações sobre esse fascinante mundo das cores fixadas numa tela deve procurar o belíssimo livro de Gustavo Corção “O Desconcerto do Mundo”.Ali, entre outras atiladas reflexões do referido autor, podemos encontrar uma cativante apresentação do impressionismo e dos impressionistas , feita por alguém que, além de uma inteligência ágil e penetrante, possuía incomum sensibilidade artística.

Ora, o título deste “post” fala em dois modos de ler um livro.
Um desses dois modos seria, digamos assim, o analítico . Sairíamos, ao longo das páginas de um bom romance ou de um alentado ensaio histórico colhendo exemplos pitorescos, passagens emocionantes, descrições ou comentários que nos obrigam a refletir com mais cuidado. Desse modo, ao findar a leitura da obra, teríamos em nossa memória um mero somatório de trechos que mais nos impressionaram. Bem, e daí? Qual de nós, havendo chegado à página final do livro, está pronto a sintetizar o pensamento, as idéias de quem o escreveu?

Um excelente exemplo desse último tema é o caso do livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES.Ele está repleto de narrativas, de comentários, de citações, de explicações filosóficas e teológicas, tudo isso prestando-se à mera catalogação de um leitor curioso.Mas, qual de nós, ao acabar de ler esse ensaio, estará realmente em condições de sintetizá-lo, expressando fielmente, em poucas palavras, o sentido e o valor da obra? Qual de nós será capaz de perceber, nas entrelinhas dessa obra, o afeto filial de um devotado filho de nossa Mãe, a Igreja?


posted by ruy at 7:22 da manhã

18.11.04

 
Confiança filial


Recebi ontem uma fraterna mensagem do amigo professor B..., na qual ele falava no grande pensador espanhol Manuel Garcia Morente .Ora, desse autor só li o livro “Fundamentos de Filosofia” (Editora Mestre Jou) e, em uma de suas muitas lições, expostas de um modo bastante simples, mas sem perda do necessário rigor, aprendi o que vem a ser a .

Ora, ao ouvir ou ler de repente esta palavra: , a maioria das pessoas faz de imediato uma conexão mental com a atitude religiosa , como se este adjetivo fosse o único anexável ao termo fé. Entretanto, Garcia Morente mostra-nos que existe aquilo que se pode chamar a fé natural , a fé puramente humana, um modo de conhecer imprescindível para uma existência, se não feliz, pelo menos equilibrada.Não costumamos prestar atenção nesse fato, que é a nuclear necessidade da fé natural para que haja um convívio normal dentro da sociedade.

O aprendizado desse modo de conhecer começa dentro do lar, desde a infância, supondo, é claro, uma infância sem traumas, uma infância razoavelmente feliz.As primeiras pessoas em que acreditamos durante a nossa vida são nossos pais.Bem cedo aprendemos a distinguir a verdade de coisas e fatos que não vemos e, apesar disso, neles acreditamos por causa da autoridade de nossa mãe ou de nosso pai, separando essa verdade das fantasiosas histórias que nos eram contadas ao pé da cama para nos fazerem dormir.

Assim, em nossos primeiros anos adquirimos a confiança filial . Quando chega a adolescência, o processo já não é tão fácil, talvez porque começamos a descobrir as falhas, os humanos defeitos daqueles que nos geraram biologicamente, mas, apesar disso, é comum que a confiança permaneça.

Pois bem, vamos agora para um outro tipo de fé.
Se a memória não me engana, foi logo depois de ter assumido a cátedra de Pedro que o papa João XXIII divulgou para a cidade e para o mundo sua carta encíclica Mater et Magistra , “Mãe e Mestra”, justamente aquilo que a Igreja é, ou é apenas para os católicos que nela acreditam, que nela têm uma confiança filial

Eis um problema básico. Há muitos pensadores de bom nível cultural que respeitam a Igreja, admiram-na, chegam até mesmo a defendê-la de ataques maldosos e injustos, mas não têm por essa instituição uma confiança análoga à das crianças perante seus pais.Esses intelectuais, curiosamente, têm uma fé humana na Igreja; vêm-na como uma instituição entre as demais do mundo.

Ora, existe também, infelizmente, muitas pessoas que se dizem católicas, porém, ainda não foram capazes de perceber o mistério da Igreja. Pior, se ouvirem esta palavra, mistério , aplicada à Igreja, pensam logo em suposições maliciosas, em hipóteses sombrias,. São quase incapazes de perceber aquilo que o grande Chesterton escreveu sobre o mistério , isto é, do jeito como está subentendido no contexto deste “post”.O mistério, segundo a bela imagem do saudoso ensaísta inglês, é como o sol ao meio dia; seu brilho ilumina tudo ao nosso redor, mas não podemos encará-lo de frente.


posted by ruy at 8:46 da manhã

17.11.04

 
A louca disparada prá frente


A frase que dá o título a este “post” está no final do livro que faz poucos dias comentei neste “blog” : “ Small is Beautiful ” , um brilhante estudo sobre a economia e seus efeitos na vida humana, “best-seller” do economista E.F. Schumacher. Essa frase, por assim dizer, sintetiza as idéias de Schumacher a respeito dos desastrosos efeitos da economia moderna, mormente a dos países ditos mais desenvolvidos, sobre a existência do homem neste nosso planeta.

Entretanto, o livro citado analisa o presente; não vai às raízes históricas dos problemas que ele descreve com muita perspicácia e não menor elegância.Se o leitor quiser – e seria ótimo que o quisesse – saber como tudo começou, basta que leia com atenção o ensaio DOIS AMORES, DUAS CIDADES.Lá, por exemplo, nas fascinantes páginas referentes à Idade Média, ficamos sabendo que em várias Fraternidades de Trabalho era proibido inventar instrumentos que aumentassem a eficiência da execução de um produto.Por que isso? Justamente para conjurar o perigo da ambição do lucro exagerado.Na Idade Média, a ambição era considerada pecado . Ora, quando se apaga a grande luz do Medievo, quando surge o chamado Renascimento (que foi de fato uma ” regressão” ) , ocorre, por exemplo, uma mutação semântica, a palavra fortuna , que antes queria dizer sorte , passa a ser sinônimo de riqueza, riqueza material.Por isso, os tripulantes das frágeis e ousadas embarcações que fizeram as grandes descoberta marítimas já eram...cristãos ambiciosos... O resto, meus amigos, foi conseqüência.


Conforme já comentei em “posts” mais antigos, no final da Idade Média começou um progressivo processo de antropocentrismo, orgulhosa e auto-suficiente atitude do homem diante do mundo, diante da vida.Nascem os ambiciosos nacionalismos, uns mais outros menos prepotentes (volta e meia fico meio melancólico quando vejo moços inteligentes e de boa cultura deixando perceber que, para eles, o único bandido neste mundo é um sujeito chamado George Bush)..O Estado, esse complexo ente de razão, cresce e esse crescimento propicia as reflexões sombrias e pessimistas de Thomas Hobbes, o criador do Leviathan , não o monstro bíblico, mas o onipresente e controlador governo totalitário.

Preste atenção, amigo leitor, todos esses modernos problemas - do Ocidente em princípio e dos demais países por influência do Ocidente (o regime político chinês funda-se nas idéias de Marx, um ocidental) – todos esses problemas surgiram em decorrência do término daquele assombroso mundo que foi a Cristandade.Com todos os defeitos daquela época, ela possuía o principal, o consenso na fé que dá sentido à vida humana.

Nestes últimos anos, não satisfeito com a atitude de apenas ter deixado de crer no Cristo, o mundo volta-se satanicamente contra Ele. Demos um pequeno exemplo.Faz poucos dias venderam-se no mundo inteiro 6 (seis) milhões de exemplares do livro “O Código da Vinci”, de Dan Brown.Milhões de pessoas, incluindo entre elas ingênuos cristãos, católicos e não-católicos, compraram uma obra que contém mentiras e meias-verdades contra a fé cristã e contra a Igreja.Em continuação dessa desgraçada tarefa, os poderosos vão lançar agora um filme baseado sobre o tal livro, tendo o ator Tom Hanks no principal papel.

Só lembrando, Tom Hanks é o mesmo astro do filme “Náufrago”, pretensioso pastiche do Robinson Crusoe e que na verdade é uma descarada propaganda do FEDEX, o famoso sistema americano de entrega de encomendas, sistema análogo ao nosso eficiente (por enquanto) SEDEX.

Mas, para que os antiamericanistas de plantão não digam agora que tudo isso só acontece porque esse pessoal poderoso e mal intencionado está ao Norte do Equador, lembremo-nos da bem recente notícia sobre o que o nosso Leviathan verde-amarelo pretende fazer no que toca ao trágico problema das drogas no Brasil.
Veja bem, leitor, a que ponto chega uma civilização paganizada, uma civilização que agora se organiza contra o Cristo ..


posted by ruy at 4:40 da manhã

15.11.04

 
Os dois progressos


Uma das inúmeras brilhantes e úteis lições que podemos aprender no magnífico ensaio DOIS AMORES, DUAS CIDADES, tantas e tantas vezes recomendado por mim neste “blog”, é a que se refere aos dois progressos propostos ao homem, o progresso na linha da natureza e o seu “simétrico” na linha da Graça.

O primeiro dos dois, caracteriza-se pela autonomia crescente da pessoa. Dou logo um exemplo que muitas vezes costumo apresentar aos meus alunos, procurando despertá-los para uma realidade da vida escolar.Como não disponho neste ”post” da ajuda de um quadro-negro, peço que o leitor faça um pequeno esforço de imaginação para acompanhar minha descrição.

Ao longo da nossa vida como alunos, podemos percorrer um longo caminho que pode ir do Jardim da Infância até um nível de Pós-Doutorado.Muito bem. Imaginemos, então, uma reta horizontal, eixo dos x’s , sobre a qual vamos escrevendo, com certo espaçamento entre os títulos, estas expressões: Jardim da Infância, Primário, Ginásio, Colégio, Graduação, Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado, isto é, em vez de marcar no eixo horizontal intervalos de número de anos, simplesmente – partindo de zero – vamos para a direita escrevendo a habitual seqüência da nossa escolaridade.

Pois bem, agora tracemos duas retas inclinadas, uma com inclinação positiva, isto é, crescente, que vai representar o grau da iniciativa do aluno, e uma outra, com inclinação negativa, que vai representar o nível da presença do professor .Em outras palavras, esse gráfico bem esquemático nos mostra as duas desejáveis ocorrências: ao passar dos anos, o aluno deve ganhar a máxima autonomia, enquanto o professor deve retrair-se, quase ausentar-se, à medida que aconteça o normal amadurecimento do discípulo. Isso desenhado no quadro toma a figura de um grande “X”, literalmente o “x” do longo processo pedagógico.

Ora, na linha da Graça, o progresso deve ocorrer no sentido inverso, que é o da máxima dependência do discípulo – “Se não vos tornardes semelhantes às criancinhas, não entrareis no Reino do Céu”.Obviamente, Nosso Senhor não nos está propondo um programa de crescente infantilismo. Não! O que ele realmente está dizendo, sublime pedagogo das almas, é que nos devemos precaver contra o nosso orgulhoso e vaidoso amor-próprio, que não deve ser confundido com o bom e desejável amor de si próprio.

Em outro trecho do Evangelho, o Cristo nos diz :”Sem mim nada podeis fazer”. É claro que podemos – e até mesmo devemos – fazer muitas coisas, necessárias à nossa vida natural, tais como trabalhar para ganhar o nosso sustento, criar obras de arte e pesquisar no domínio da ciência. Entretanto, Nosso Senhor está ali se referindo ao agir no terreno espiritual, aquele terreno onde, infelizmente, temos encontrado, neste nosso agitado mundo moderno, uma Legião de novidadeiros, de falsos Cristos.

Agora, para terminar, vem a parte mais melancólica deste “post”.
Quem leu tudo o que está aí em cima pode – quem sabe – achar que, havendo ultrapassado os 70 anos, este escriba não tenha muito que aprender, já possua a desejável pequena autonomia. Ledo engano. Ontem mesmo, no final da tarde, o Ruy pisou na bola . Não preciso entrar nos detalhes, o que seria indiscreto exibicionismo. Apenas digo que, infelizmente, pisei na bola ... Que DEUS me perdoe.


posted by ruy at 3:44 da manhã

 

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