Despoina Damale

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29.10.04

 

Os dois amores


Tenho insistido inúmeras vezes com os (bem) poucos leitores do DD para que leiam o admirável livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES. Conquanto seja basicamente um magnífico ensaio histórico, desenvolvido em dois volumes de agradável leitura, essa obra está repleta de lições sobre vários temas filosóficos e teológicos, assuntos históricos propriamente ditos e até mesmo algumas incursões na área científica (afinal, o autor foi competente engenheiro e, depois, professor durante muitos anos em escola de engenharia).

Ora, uma das muitas lições que podemos aprender no livro é a que se refere à chamada doutrina dos dois amores . Seria muito difícil, para mim, expor em detalhes tudo o que ali está escrito sobre essa doutrina.Além disso, será melhor que o próprio leitor deste “blog” tenha a alegria de fazer a descoberta quando fizer, sozinho, a sua leitura.Vamos, pois, ao essencial.

Em relação a si mesmo, o homem pode ter duas muito diferentes formas de amar. Uma é o vituperável amor-próprio, fonte de um infinito número de desencontros na vida, princípio das discussões familiares e das sangrentas revoluções nas ruas das cidades.O amor-próprio consiste em amar acima de tudo o eu sensível , com todas as suas costumeiras mazelas, seus caprichos, suas vaidades visíveis ou ocultas, seus desejos, uns mais outros menos egoístas.É o amor daquilo que não é o principal no homem.

Ao contrário, o bom e desejável amor de si próprio coloca sua ênfase naquilo que é o principal no homem, a saber, sua natureza racional, aquilo que nos separa infinitamente dos outros animais. Esse bom amor de si próprio não despreza o cuidado com o irmão corpo , não o priva do alimento e do repouso, não o afasta da contemplação de uma luminosa paisagem vista do alto da montanha, nem o proíbe da audição de uma sinfonia executada no bem pouco iluminado interior de um teatro.

O amor-próprio é o egoísta amor de si próprio. O bom amor de si próprio é o amor de Caridade para consigo mesmo.

O amor-próprio tende a comprazer-se em infindáveis introspecções, em teimosas auto-análises, impedindo aquele que as faz de olhar a realidade imediata e mais simples à sua frente.Ora, esse modo de se conhecer não é aquele recomendado até mesmo pela milenar sabedoria pagã, de um Sócrates, por exemplo, quando nos recomendava: Nosce te ipsum , “Conhece a ti próprio”.O autêntico e desejável conhecer a si próprio não é feito com a curiosidade típica dos maledicentes.É, sim, descobrir, admirado e agradecido, em si próprio, a misteriosa presença da criação divina, que faz, de cada um de nós, uma pessoa , única e intransferível, e cujo verdadeiro nome só vai ser conhecido na Eternidade.

O amor-próprio, fazendo-nos girar freneticamente em torno de nós mesmos, dando primazia ao nosso eu egoísta, leva-nos ao orgulho , que é basicamente uma fuga da verdade, é uma mentira.
Ao contrário, o bom amor de si próprio conduz à humildade , que – como nos ensina Santa Tereza – é a dócil aceitação da verdade.


[Este "post" está sendo editado em homenagem ao meu prezado amigo L...]



posted by ruy at 4:46 da tarde

26.10.04

 

Reflexões ao correr das teclas


- Não adianta querer embromar.O que o Cristianismo pede a nós homens não é que sejamos simplesmente honestos e bem comportados.O que ele nos propõe é que sejamos santos . E essa santidade, meus amigos, não implica que tenhamos de ser dinâmicos o obcecados “construtores de um mundo melhor”.Quem nos propõe esse obsessivo dinamismo é Teillard de Chardin, é Leonardo Boff, é “frei” Betto.

- (complemento à reflexão anterior).Meu primeiro próximo, na linha da caridade, sou eu mesmo.Se eu me entregar totalmente àquela pretensiosa tarefa de melhorar a vida das gerações futuras, estarei esquecendo do meu primeiro dever logo abaixo do amor a DEUS.

- Um amigo, conversando hoje comigo na hora do almoço, deplorava a badalada premiação, de suposto grande valor cultural, recém conferida a um notório cantor popular brasileiro.Meu amigo dizia que os responsáveis pelo referido prêmio haviam agido por burrice.Antes fosse. O ato, para mim pelo menos, insere-se no intencional movimento de anticultura que varre, qual silencioso maremoto, a superfície deste planeta.Foi mesmo um ato de maldade, e não de burrice.

- A família é um bem natural. Defende-la, portanto, é justo e necessário.Entretanto, precisamos ir além de uma simples defesa, muito mais.Uma família cristã, mais especificamente, uma família católica deveria viver continuamente em espírito de fé autêntica.Deveria ser, por exemplo, o ambiente propício ao surgimento de eventuais vocações religiosas, no sentido estrito desta palavra.

- A propaganda é um terrível engodo, mormente contra pessoas de cultura rasa. Faz pouco tempo, o livro “O Código da Vinci” teve uma enorme vendagem.Muitas pessoas católicas compraram esse romance sem saberem que ele é, na verdade, um grande repositório de mentiras ou meias-verdades, (que são piores que as mentiras), contra a Igreja. Sugiro um antídoto: quem por azar leu o livro, leia agora o “Decodificando da Vinci”, de Amy Welborn , editora Cultrix.

- Certa vez um padre conhecido meu, fazendo alguns comentários sobre a Ascensão de Nosso Senhor, dizia-nos que aquele fato desvinculava a Igreja de sua geográfica origem na Palestina, vínculo que continuaria existindo se o Cristo não tivesse voltado ao Céu.Ora, embora meus conhecimentos teológicos sejam rudimentares, acho que a Ascensão, antes de mais nada, foi – e é – um modo bem prático de Jesus nos provar que o seu Reino não é deste mundo.Nossa vida deveria ser vivida com a permanente lembrança daquele movimento ascensional.

- Problemas.Cada um de nós tem seus problemas, uns mais e outros menos difíceis de resolver.De qualquer forma, esses desafios tornam-se sempre menos angustiantes na medida em que nos damos conta do problema dos outros , na medida em que abrimos mais os olhos para fora, daquele modo que Chesterton gostava de ressaltar quando comparava as imagens de santos cristãos com as imagens de santos budistas.O santo cristão tem o olhar arregalado para o exterior, para a Criação inteira.


posted by ruy at 10:20 da manhã

 

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