Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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17.10.04

 
A difícil permanência na correta posição “média”


Ontem, usando tom queixoso, uma pessoa muito amiga deste “blog” contava, em mensagem a mim enviada, certos comentários que, muito contristada, havia lido a respeito de lamentáveis fatos, muitos dos quais provavelmente verídicos, ocorridos em alguns ambientes monásticos, mais especificamente, ligados à milenar e venerável Ordem Beneditina.

Os comentários referidos haviam sido feitos por uma terceira pessoa que, ao lhe contar os melancólicos fatos, aproveitava a oportunidade para fazer, em paralelo, uma exultante comparação entre aqueles claudicantes ambientes, de onde se esperava uma religiosidade autêntica, e um outro ambiente, este, sim, supostamente adepto da estrita observância da Santa Regra de São Bento.

Ora, admitamos a pior hipótese, isto é, a de que tudo o que foi contado tenha realmente acontecido, ou talvez ainda esteja ocorrendo.Bem, e daí ? Duas possibilidades me passam agora pela cabeça.A primeira é a de que o exultante comentarista seja um ateu ou um protestante. Neste caso, podemos facilmente entender que o seu claro propósito seja difamar o pessoal da Igreja e, indiretamente, atacar a própria instituição em que não acredita e que não respeita.

A segunda possibilidade é a de que o mesmo exultante comentarista seja católico.
Antes de continuar, note o leitor quantas vezes usei o adjetivo exultante .
Pois bem, se o contador das fofocas é mesmo católico, deveria estar bem informado sobre a longa história da Igreja, incluindo nessa megamétrica trajetória o distante tempo dos primeiros apóstolos, entre os quais houve um chamado Judas Iscariotis, o mesmo que traiu o Mestre. A presença física do Cristo, a convivência com Jesus não anulou a liberdade de seus discípulos.E também hoje, não anula a liberdade de cada um de nós, eclesiásticos ou leigos, monges beneditinos ou simples fiéis que vão aos mosteiros à procura da paz que o mundo não pode dar.

Dentro da Igreja, meus amigos, é bom lembrar que só existe uma infalibilidade, a do Papa, e assim mesmo somente quando ele fala ex-cátedra sobre matéria de fé ou de costumes.

Bem a propósito, há uma passagem de LEON BLOY em que o Mendigo Ingrato diz o seguinte:

- qualquer católico pode, e em certas ocasiões até mesmo deve, criticar um erro humano do Papa, desde que declare de imediato, no instante seguinte, sua total obediência ao Bispo de Roma.

(Antes que algum eventual e precipitado leitor se atreva a colocar em prática a reflexão de Bloy, procure antes saber em que terríveis condições humanas vivia o Peregrino do Absoluto. Será que aquele exultante comentarista conhece a dolorosa biografia do escritor francês cujos livros levaram Jacques e Rahissa Maritain a aproximar-se da Igreja? ).

Este é um “post” realmente incômodo. Aquele tipo de “post” cuja redação nos lembra como é difícil a posição do meio. Que fazer:
- fazer vista grossa para os novidadeirismos que, infelizmente, penetraram nos claustros, perturbando lugares que sempre haviam sido verdadeiros oásis de reflexão e sabedoria?
- criticar duramente os que (entre aspas) “não são como nós, que cumprimos fielmente as boas e santas tradições da Igreja”?

Hoje de manhã, ao comentar as leituras da missa, Dom Ireneu falava-nos sobre o significado e a importância da oração. Usando aquele seu jeito simples, sem retórica, o sensato monge frisou que a melhor oração - segundo ele, sempre atendida - é aquela que pede a DEUS os bens espirituais.Pois bem, que tal – em vez de ficarmos apenas na auto-suficiente posição de críticos,
- rezarmos confiantes pedindo que DEUS desperte aqueles que foram adormecidos pelo hipnótico perfume das novidades ?
- pedirmos confiantes a DEUS a conversão de parentes a amigos nossos que sofrem as conseqüências das adversas circunstâncias em que foram educados?


posted by ruy at 7:29 da manhã

16.10.04

 
Mexendo no fundo da gaveta


[Algumas antigas tentativas poéticas do Ruy...]


O Deserto


Ah! Robert Frost,
você tinha razão –
Os “desert places” não estão lá, no distante espaço sideral,
(aquele cujo silêncio assustava Pascal ).
Estão bem próximos de nós, “so much nearer home”,
sem areias, sem calores escaldantes.
E caminhamos, diurnos sonâmbulos,
nestes caminhos solitários,
no meio do vozerio de palavras mudas,
em que raras vezes,
(tão raras como os oásis no Saara imenso),
ouve-se uma frase, um verso verdadeiro,
que fale na fonte que não seca,
que afirme que este deserto, tão pouco percebido,
é uma transitória passagem para o Reino.

[ Rio, 18/jun/1991]


A menina engraxate


Nove anos sem boneca...
Sob os cabelos feios,
um rosto quase adulto.
No pé descalço,
a unha mal cuidada.
Na mão pequena,
a graxa e a escova.
E enquanto cresce o brilho em meu sapato,
foge-me a lágrima –
Protesto, mudo e líquido,
contra a tese spenceriana.

[Campos do Jordão, 6/jan/1991]


Soneto da Piedade


Senhor – que esta palavra tão pequena
não seja uma rotina inconsciente,
exclamação comum a toda gente,
sem peso e sem raiz, qual uma pena

que a brisa leva e logo sai de cena.
Nem seja apenas norma reverente
que se guarda cumprindo fielmente,
obediência fácil e quase amena.

Porém, em qualquer hora que se a diga,
traga consigo o pleno sentimento
da total dependência que nos liga

a vós, Senhor! E tenha o mesmo acento,
o mesmo ardor daquela fé antiga,
n’Aquele que se fez nosso alimento.

[Rio, 28/jun/1991]







posted by ruy at 6:12 da manhã

15.10.04

 
Quem de fato é Ele para nós? Quem é Ele para mim?


A obra intitula-se “Telecommunications Systems”.É uma edição americana do livro do engenheiro Pierre-Girard Fontolliet ( creio que seja professor na Suiça).
Em suas quinhentas e tantas páginas são ensinados ao leitor os princípios básicos dos sistemas de telecomunicações, os meios e os processos de transmissão, os diversos tipos de modulação analógica e digital, o uso da fibra óptica e dos satélites repetidores, e vários outros assuntos pertinentes ao tema do livro, que se apresenta com centenas de deduções matemáticas, fórmulas e tabelas de apoio aos projetos.É, pois, sem nenhuma dúvida, um livro da área científico-tecnológica.

Ora, no final desse compêndio, o engenheiro Fontolliet faz várias reflexões sobre a repercussão dos modernos sistemas na vida das sociedades e das pessoas e termina com as seguintes palavras:

Desde os seus primórdios as telecomunicações têm procurado satisfazer à necessidade de relacionamento entre os seus usuários.O rápido e permanente sucesso de sistemas tais como o telégrafo, e depois o telex e o telefone demonstraram sua utilidade.Entretanto, tais sistemas não garantem por si próprios a qualidade da comunicação humana que os enlaces [“links”] permitem. Qual a real utilidade de interligar 500 milhões com outros assinantes telefônicos, se não tivermos nada a dizer para o nosso vizinho? A instalação de telefones na Torre de Babel não a teria tornado mais habitável!

E, em seguida, o mesmo autor cita o seguinte trecho de um poema de T.S.Elliot:

How much knowledge
have we lost un information?
How much wisdom
have we lost in knowledge?


Pois é, estamos todos vivendo mergulhados em um agitado oceano de informações, as quais nos chegam rápidas e detalhadas, trazidas pela televisão, pela Internet, pelos jornais e pelo rádio. Diante dessa assombrosa massa de notícias - cujo espectro vai desde inocentes eventos esportivos até os combates raivosos no Iraque e na Palestina; desde as fofocas envolvendo notórios artistas de cinema e badalados cantores do “hit-parade” até o registro chocante de crimes brutais; desde os tufões e terremotos que sacodem distantes regiões do planeta até o importante debate político em que um dos debatedores se afirma católico mas a favor do aborto – diante dessa gigantesca onda informativa, muitos poucos de nós conseguimos manter a desejável paz interior, que não é a mesma paz sugerida nas faixas das passeatas promovidas pela televisão

Neste instante acho que seja muito oportuno citar as palavras do Cristo:

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não
se turbe o vosso coração, nem se atemorize.
(Jo 14, 27)

Em meio ao continuado bombardeio informativo, talvez estejamos, como se fosse um tipo de fuga, procurando a paz mundana , na forma da busca frenética de um emprego muito bem remunerado ou de uma função pública segura e cheia de prestígio na sociedade.Talvez estejamos buscando a paz mundana por meio da contínua procura de diversões, umas mais outras menos agitadas, sem deixar nenhum tempo para fazermos uma leitura séria que nos obrigue a refletir sobre a silenciosa presença da vida.

Quando voltaremos a conversar em família? (eu disse “conversar” , e não discutir futebol ou política).
Quando voltaremos a celebrar nossas missas com TOTAL recolhimento, com uma reverência plenamente adequada ao mistério infinito da Eucaristia?.
Quando faremos, com plena sinceridade, a nós mesmos aquelas duas perguntinhas que dão o título ao “post” de hoje ?


Santa Teresa d’Ávila


Hoje a Igreja festeja vosso dia, o’ grande e santa Doutora. Ajudai-nos a ter coragem para seguirmos sempre o Cristo, Nosso Senhor!



posted by ruy at 3:34 da manhã

12.10.04

 
O papel da inteligência


[É possível que eu já tenha editado algum “post” com este mesmo título. .Mas isso não muda a importância do tema]

Do muito que Mortimer Jerome Adler escreveu, infelizmente, repito, infelizmente apenas três livros dele foram traduzidos e editados aqui no Brasil, a saber, “Como ler um livro” (editora Guanabara), “A Propsta Paidéia – Um manifesto educacional” (editora da UnB ) e “Os Anjos e Nós” (editora EDIOURO).

Este terceiro livro, escrito com o habitual estilo simples de Adler, sem que essa simplicidade jamais prejudique a precisão com que os conceitos são expostos ao leitor, é uma brilhante aula sobre os seres que, na hierarquia da Criação, estão logo acima do homem.De modo bem didático, Adler começa definindo o que é um anjo, basicamente uma mente sem corpo.Mostra-nos o fascínio que tal curioso conceito exerce sobre as pessoas e a importância dos anjos na cultura universal.

Ao longo do livro vamos recebendo claras lições sobre os anjos como objeto da fé religiosa e como objetos do pensamento filosófico.Obviamente em muitas páginas ocorrem oportunas referências àquele que foi talvez o maior estudioso do assunto e, talvez por isso mesmo, tenha passado à história como o Doutor Angélico , Santo Tomás de Aquino.

Bem, feita esta introdução, pergunto agora:
- em geral, como costumamos valorizar, entre nossas três faculdades básicas – inteligência, vontade e sensibilidade – aquela que nos coloca logo abaixo dos anjos?

Quem tem ou já teve cachorro em casa, sabe que esse animal é capaz de reações afetivas, pode perfeitamente mostrar alegria esfuziante, ciúme ou raiva. Os animais têm sensibilidade.Quanto a esse aspecto, de certo modo eles e nós estamos empatados. Digo de certo modo porque jamais alguém verá um cão ou outro animal, por mais experto que este seja, ficar sentadinho, quieto, no Teatro Municipal, para escutar em silêncio um concerto de Beethoven para violino e orquestra ou um trio de Mozart .Ainda que a apreciação dessas músicas seja feita com a nossa sensibilidade, com a participação do nosso supermaravilhoso sistema auditivo - cujo ouvido médio é uma das mais elegantes provas da artística ação divina - tal apreciação só é possível porque, nesse caso, a sensibilidade está, por assim dizer, impregnada de inteligência.

Vamos logo ao ponto.Estou cansado de ver a quantidade enorme de bispos, padres e leigos católicos com escolaridade dita “superior” e que, há muitos anos, jogaram para o escanteio essa faculdade que – DEUS faça que isso nos suceda - vai permitir que contemplemos , pelos séculos dos séculos, a infinita Beleza, o indefinível e inesgotável Amor divino.

Meu DEUS do Céu, até quando vamos considerar as pessoas de pequena instrução, de pouca escolaridade como incapazes de usar suas inteligências para admirar o mistério? Até quando vamos privar esses humildes católicos de nossas paróquias de uma religiosidade adulta ? Ser semelhante às crianças, meus amigos, não é viver num agitado infantilismo !

Desculpem o mau jeito...


Prece

Nossa Senhora Aparecida, protegei nosso país !


posted by ruy at 5:26 da manhã

11.10.04

 

Carta a um amigo leitor deste “blog”


Muito prezado H...


Tenho recebido inúmeras mensagens dos poucos leitores deste “blog”. Eis que ontem chega a sua longa e minuciosa “carta”, um texto que li e me fez lembrar, com um pouco de saudade, outra carta, escrita há exatamente meio século, que um moço de vinte e dois anos enviou certa vez a um escritor que só conhecia através dos livros, do mesmo escritor.Sua mensagem, H..., obrigou-me a parar e a refletir sobre qual a melhor resposta que eu deveria dar a você. Que DEUS me ajude nesta tarefa.

Começo citando uma passagem do evangelho segundo São João que por diversas vezes já citei em meus “posts. Ela é contada no capítulo catorze, versículos 21 a 24. Em certo momento São Judas Tadeu pergunta a Jesus:

- Senhor, por que razão hás de manifestar-te a nós e não ao mundo?

Ora, na seqüência imediata, a resposta do Cristo não é uma resposta direta. Diríamos que Jesus de propósito nega-se a satisfazer a curiosidade do apóstolo:

- Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e nele faremos nossa morada.

A condição de católico, amigo H..., o fato de alguém ser católico é essencialmente uma misericordiosa graça de DEUS.Não é um prêmio dado a eventuais virtudes nossas, não é um mero fruto de pacientes lucubrações nossas. O porquê último da nossa pessoal pertença à Igreja será sempre um insondável mistério.

Essa realidade pode ser aceita por você e por muitos que compreendam o sentido da palavra “mistério” numa perspectiva religiosa, numa perspectiva católica . Entretanto, o fato de você e outros aceitá-la, não garante para nós uma vivência cômoda. Por quê? Simplesmente porque em nosso cotidiano estaremos sempre convivendo com centenas, milhares de pessoas para as quais tudo isso é desconhecido É, mal comparando, como falar com um surdo sobre a beleza da música que estamos ouvindo.E isso, amigo H..., acaba gerando para nós uma desconfortável solidão...

Faz muitos anos, li em um texto de Gustavo Corção um comentário dele sobre a discussão, no sentido habitual desta palavra. Escrevia o autor de DOIS AMORES, DUAS CIDADES que um antigo lugar-comum afirma que “da discussão nasce a luz”. Não !, dizia G.C.; dizer que da discussão nasce a luz é o mesmo que afirmar que a água nasce da fenda na rocha. Ora, explicava ele, a água de fato nasce do reservatório oculto na pedra. A fenda dificulta a saída do líquido.

Pois é, da discussão nascem de fato o mau humor, a irritação, a voz exaltada, o palavrão, a raiva, a briga, o ressentimento e a inimizade.Por isso, H..., fuja da discussão. Procure ouvir com muita paciência certas ingenuidades, certas idiossincrasias, mormente se elas forem ditas pelas pessoas mais próximas de nós. Reze e espere. Reze e confie. Quem converte é DEUS.

Talvez a melhor maneira de convencer os outros sobre as verdades em que acreditamos seja mesmo um nosso comportamento mais santo (por favor, não confunda isso com um simples bom comportamento ).

Bem, não sei se o que escrevi acima irá ajudá-lo. Mas tenho certeza que DEUS pode ajudá-lo!

Um cordial abraço do Ruy







posted by ruy at 6:21 da manhã

 

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