Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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10.10.04

 
Alguns comentários avulsos


A desesperança organizada


Assim é a cultura nos Estados modernos: a desesperança organizada.
Não sou habitual leitor de jornais, mas, é difícil deixar de ler as manchetes. No Globo de hoje, domingo, 10 de outubro, lá estavam uns três exemplos que confirmam o título deste item do “post”.
Uma delas falava sobre a possível interferência direta do Presidente no problema da etiquetagem de preços nos produtos de supermercados e mercearias !
Uma segunda abordava, de um ponto de vista a meu ver errôneo, o problema das vans (é mais fácil cercear as vans do que reconhecer o verdadeiro nó do trânsito, que é a ausência de um eficiente sistema de metrô. Quem já morou, por exemplo, em Paris conta-nos que o número de ônibus convencionais nas ruas daquela capital é muito menor que o dos que trafegam no Rio).
A terceira falava sobre a opinião e, quem sabe, também uma possível conseqüente ação direta, do Prefeito no planejamento familiar dos habitantes das favelas. De quebra, havia uma charge caricaturando o referido prefeito e apropriando-se, de um modo no mínimo inadequado, de uma grave recomendação de Nosso Senhor Jesus Cristo.


A indesejada das gentes


Meu avô paterno partiu deste mundo aos noventa e quatro anos, e lúcido graças a DEUS. Minha mãe chegou quase aos cem anos, porém sem a mesma sorte da lucidez.No prédio em que moro já faleceram duas moradoras com idades próximas de cem.
Bem, e daí? Não importa a idade, todos um dia vamos nos encontrar com aquela que Manuel Bandeira chamou com rara felicidade: “a indesejada das gentes”.
Os moços em geral não gostam deste assunto, porém, se ele for tratado de modo correto, não deve ser repelido, muito pelo contrário.Explico-me.
Santa Terezinha, antes de dar seu último suspiro, disse estas palavras:

- Tout est Grâce! Mon Dieux, je vous aime !

Pois é, velhos ou moços, cada um de nós, batizados, católicos, deveria viver, a cada hora do dia, com aquela mesma disponibilidade da padroeira das missões. Com tal permanente atitude, a “indesejada” não seria motivo de preocupações excessivas.


“Educação continuada”


Não, leitor, não confunda isso com “escolaridade-sem-fim”, com sucessivas matrículas em cursos, formais ou informais, tais como aqueles que costumam ser recomendados às chamadas “pessoas da terceira idade”. Não é a isso, de jeito nenhum, aquilo a que Mortimer Jerome Adler se refere quando escreve em sua “Proposta Paidéia” estas sábias reflexões:

- O corpo não continua a crescer após os primeiros dezoito ou vinte anos de vida.Na verdade, começa a declinar após esse período.Mas, o crescimento mental, moral e espiritual pode e deve continuar por toda a vida.

O objetivo último do processo educacional é ajudar os seres humanos a tornarem-se pessoas educadas.O ensino é o estágio preparatório, cria o hábito de aprender e proporciona os meios para continuar a aprendizagem ao se concluir todas as etapas da escolaridade.



Reflexão em torno de mensagem recebida de um jovem músico


Por várias vezes em conversa com meu amigo B..., competente engenheiro eletrônico, exímio artesão e apreciador da beleza artística em suas diversas formas, costumamos observar o seguinte: as pessoas que têm sensibilidade para apreciar boa música (especificamente: música erudita, a mal denominada “música clássica” ) têm um modo diferente de interpretar os fatos, de analisar os comuns problemas do trabalho.

O treinamento da sensibilidade musical nos ensinos do primeiro e do segundo grau não se destina a formar futuros músicos, mas, sim, permitir que a maior parte dos moços possa usufruir do patrimônio musical que a humanidade acumulou durante séculos de sério trabalho artístico e, ao fazerem isso, possam tornar-se melhores seres humanos.



posted by ruy at 6:22 da tarde

9.10.04

 
“ Um milhão de amigos “


No início da década de 60 (puxa vida, como estou “antigo”...) o então moço cantor Roberto Carlos e sua turma da Jovem Guarda “estouravam” nas paradas do sucesso, atraindo multidões de rapazes e moças aos auditórios das TV’s e aos palcos dos teatros.Passaram-se os anos. O sofrimento foi amadurecendo Roberto e ele transformou-se no grande intérprete de músicas românticas. Na fase transitória entre os dois diferentes estilos, o artista gravou certa música que teve grande aceitação popular, uma canção em que ele dizia “Eu quero ter um milhão de amigos”. Um generoso desejo pleno de ingenuidade...

Pois é, há uma interessante passagem na vida de Santa Tereza d’Ávila que vem bem a propósito. Certa vez, ia a grande reformadora do Carmelo na garupa de um cavalo (ou burro, não me lembro bem) por uma acidentada estrada da Espanha.De repente, o animal tropeça e a freira vai beijar o solo hispânico.Levantando-se contrariada, ela reclama de Nosso Senhor. O Cristo lhe responde:
- É assim que trato os meus amigos.
Ao que retruca a espanhola atrevida:
- Por isso é que os tem bem poucos !


Explicando o “puxar para cima”


Umas duas ou três mensagens que recebi ha poucos dias, falando sobre o assunto deste item me obrigam a fazer o presente esclarecimento.

Tem trafegado pela Internet uma pletora (é isso mesmo: uma pletora) de e-mails trazendo, como anexo, bonitas figuras coloridas, com acompanhamento musical, e tudo isso servindo de fundo para certas simpáticas mensagens. A maioria dos textos referidos mostra nitidamente a preocupação dos remetentes em levar para os destinatários um estímulo ao bem viver, um apelo para que fiquem de bem com a vida. A intenção não pode ser criticada. Mas...

Quando escrevi, em “post” recente, que deveríamos (pelo menos nós católicos): “puxar para cima”, não estava pensando num programa de aperfeiçoamento dos costumes individuais ou familiares, não estava propondo uma campanha, mais firme que as costumeiras, contra o aborto, o homossexualismo, os anticoncepcionais e o uso das drogas. Todas esses combates são válidos e necessários, porém não era nisso que o Ruy pensava quando escreveu aquele “post”.

“Puxar para cima”, meus amigos, no contexto das minhas permanentes preocupações, significa, sobretudo, valorizar ao máximo o bom uso da inteligência e o refinamento da sensibilidade .
Significa lutar para que rapazes e moças, desde cedo, sejam capazes de apreciar os bons autores de livros e os bons compositores de músicas, por exemplo. Que sejam estimulados a pensar com maior atenção nos problemas humanos, pensar não apenas em termos “moralísticos”, mas, sobretudo, propondo-se seriamente indagações existenciais .
Ler, por exemplo, o “Quincas Borba” e perceber, nas entrelinhas, os dramas e conflitos da alma humana. Ouvir, por exemplo, o Largo da sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak, ou Deux Arabesques , de Debussy , e, nessas músicas, de coloridos tão diversos, perceber um som que vem da Eternidade, que vem do mistério das coisas que nos cercam.

Não, apressado leitor que me lê neste exato segundo, não se trata de uma proposta de esteticismo , ou de um vulgar esnobismo.”Puxar para cima “ é preparar os espíritos para o necessário exercício da contemplação .E isso, meus amigos, passa pelo entusiasmo com a verdade e com a beleza. Agora, deu para entender ?


PS : (para quem não sabe) a palavra “entusiasmo”significa “estar fixado em DEUS”.


Uma "dica"

Não deixem de comprar este livro recém editado: "MILAGRES QUE A MEDICINA NÃO CONTOU ", escrito pelo médico paulista Dr. Roque Marcus Savioli, (editora GAIA).


posted by ruy at 1:01 da tarde

8.10.04

 
Noruega


Creio que pela segunda ou terceira vez, recebi informações radiantes sobre aquilo que poderíamos chamar de “o milagre norueguês”. Vejam um trecho de mensagem que recebi agora à tarde:

Na Noruega, o horário de trabalho começa cedo (às 8 horas) e acaba cedo (às 15.30). As mães e os pais noruegueses têm uma partesignificativa dos seus dias para serem pais, para proporcionar aos filhos algo mais do que um serão de televisão ou videojogos. Têm um ano de licença de maternidade e nunca ouviram falar de despedimentos [ a mensagem veio de Portugal; despedimento deve ser termo usual naquele país] por gravidez. A riqueza que produzem nos seus trabalhos garante-lhes o maior nível salarial da Europa.Que é também,desculpem-me os menos sensíveis ao argumento, o mais igualitário.
Todos descontam um IRS limpo e transparente que não é depois desbaratado em rotundas e estatuária kitsh, nem em auto-estradas (só têm 200 quilómetros dessas «alavancas de progresso»), nem em Expos e Euros.


Ora, lembro agora um antigo ditado:”quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Recordo-me também de um fato antigo. A vizinha da Noruega, a Suécia, sempre apresentou ótimo programa de assistência social e alto nível de desenvolvimento, porém era (não sei se ainda é) o país com o maior índice de suicídios do mundo.Um índice muitíssimo inferior era o da menos desenvolvida e menos bem comportada Itália.


Sacramentos e sacramentais


Sou setuagenário.Recebi meu primeiro ensino religioso no tempo (distante...) em que nos ensinavam a diferença básica entre sacramento e sacramental . Mais tarde aprendi definições que usavam expressões em latim, essa maravilhosa língua que diz muito usando poucas palavras:

- o sacramento é um sinal sensível que age ex opere operato , isto é, age por si próprio. Confere a graça santificante independentemente da santidade daquele que administra o sacramento.

- o sacramental é um sinal sensível que age ex opere operantis , isto é, seu efeito depende da fé e do comportamento daquele que faz uso do sacramental.

Demos logo um exemplo.
No caso da água benta, um ateu pode usá-la, fazendo mecanicamente o mesmo gesto que um católico faz ao persignar-se. Mas, para o descrente, aquele ato não traz nenhum bem espiritual.
No caso da Eucaristia, o corpo e o sangue de Nosso Senhor estão ali presentes, mesmo que o padre que tenha feito a consagração seja um sacerdote medíocre, não inteiramente preocupado em santificar-se; mesmo que a pessoa que comungou seja um perverso descrente, um sacrílego blasfemador. Pense nisso, leitor amigo.

Alguns anos atrás, aprendi, com um padre meu amigo, uma verdade da qual muitas vezes nós católicos não nos damos conta.Os sacramentos foram feitos para nós. A Igreja, pela ação inspiradora do Espírito Santo, explicitou esses maravilhosos remédios da alma que têm sua origem no mistério da Encarnação.
Nós não fomos criados para os sacramentos. Mas, precisamos deles.
.
Ora, desses sinais sensíveis transmissores da Graça divina, há dois muito especiais cuja entrega ao homem depende de outro homem.Não são os únicos sujeitos a essa intermediação, mas, esses dois têm uma importância magna em nosso caminhar neste mundo. São o sacramento da penitência e o da Eucaristia.Precisamos deles na vida espiritual como necessitamos do ar na vida biológica.E agora vem o problema – supondo, é claro que estejamos preocupados com o assunto:
- como poderemos ter acesso a essa especial graça santificante se não existirem os homens que a podem entregar para nós? Já pensou seriamente nisso, leitor amigo

E mais, o que você acha, leitor:
- que tipo de comportamento na sociedade humana devem ter os homens que irão nos entregar esses dois especialíssimos sacramentos? Não será desejável que eles vivam de um modo que irradie, para seus irmãos de fé, a hierarquia do procurar em primeiro lugar o Reino de DEUS ?
Que você acha leitor?
:


posted by ruy at 2:48 da tarde

7.10.04

 

Um complemento urgente ao “post” de ontem (6/out/04).


Sinto-me obrigado a fazer um adendo ao que escrevi no “post” de ontem. Caso contrário, meus poucos leitores habituais (e outros eventuais) podem ficar com uma idéia errônea a respeito do modo como me posiciono diante de um real problema que foi abordado na entrevista dada pelo recém eleito prefeito do Rio de Janeiro.Trata-se do continuado crescimento da população que habita as favelas dessa cidade, um visível crescimento que, se por si mesmo não é causa do aumento da criminalidade naquela que já foi Cidade Maravilhosa, sem dúvida alguma, infelizmente, é, esse crescimento, uma condição favorável àquele perigoso aumento do índice de crimes cometidos, muitos deles com violência..Obviamente não vou ofender a inteligência do leitor explicando aqui a diferença entre causa e condição

Se o leitor leu com cuidado tudo o que escrevi no referido “post” deve ter percebido que minha posição ética é a defendida pela Igreja, é a posição católica, aí incluída a doutrina (antiga) ensinada por vários papas sobre o chamado “controle da natalidade”. Coloquei entre aspas porque, para a Igreja pelo menos, os termos corretos e que devem ser usados ao tratarmos do assunto são os da chamada “paternidade responsável” .Se for esta a perspectiva que o novo governante desta cidade vai adotar no apoio que pretende dar às famílias mais pobres que moram nos morros cariocas, posso pensar em dar meu apoio à nova administração do Rio.Veja bem leitor: posso pensar . Entretanto, se as ações pretendidas forem simplistas e cartesianas , tais como o ato de distribuir gratuitamente camisinhas e anticoncepcionais a essas infelizes famílias, então, Sr. Prefeito conte com minha clara e firme oposição.

Neste ponto cabe um esclarecimento. Não pretendo combater um homem, não pretendo agredir a pessoa que vai dirigir esse ônibus grande e pesado em que todos, diariamente, nos deslocamos solidários, nós pobres, classe média e ricos. Mas vou me posicionar contra qualquer ato que vá desrespeitar a liberdade de decisão das mesmas famílias.

Todo o cenário social está fortemente interligado.O comportamento íntimo das famílias, Sr. Prefeito, é condicionado , entre outros fatores, pela influência – muitas vezes perniciosa - dos programas de televisão, dos filmes, das revistas coloridas (plenas de mediocridades ou de pornografia) que abarrotam as bancas de jornais. E, aí é preciso que se diga isto: não são apenas as famílias pobres, faveladas que sofrem tais perigosas influências. Existe um contexto cultural que, conforme já comentamos neste “blog”, é muitíssimo diferente daquele que existiu na Idade Média.

Vou abrir um parêntese, talvez meio antipático, porém necessário. Nós católicos, de fato, há muitos e muitos anos dispomos de firmes e claros referenciais éticos; é um valioso patrimônio da Igreja.Tal realidade, entretanto, não deveria ser motivo para adotarmos apenas uma atitude negativa , a saber, contra o aborto, contra o homossexualismo, contra os anticoncepcionais etc. Esse “contrismo”, penso eu, pode ser prejudicial à desejável ação de fermento, ao desejável efeito de “sal da terra” no comportamento dos cristãos.Deveríamos pensar, sobretudo, em “puxar para cima!"

Quando muitas vezes me refiro contristado à triste situação em que os novidadeiros deixaram a bela e grave cerimônia da missa, não se trata de uma reação de fundo estético. Acontece que a missa, corretamente celebrada pelo padre e reverentemente acompanhada pelos fiéis, deve ser um apoio para a busca de santidade , entendendo isso não como a simples procura de um comportamento moralmente perfeito, mas, sim, como uma continuada busca da silenciosa vontade de DEUS, como se estivéssemos em todas as horas repetindo, dentro de nós mesmos, a dramática pergunta que São Paulo fez na estrada de Damasco:
- “Senhor, que quereis que eu faça?”

Ora, o relacionamento matrimonial entre um homem e uma mulher cristãos não deveria ser do tipo “ping-pong”; deveria, sim, processar-se na forma de um “triângulo amoroso”, tendo em um dos vértices a permanente pessoa do Cristo, a quem o casal deveria fazer a mesma pergunta paulina, usando agora, antes do verbo fazer, o pronome “nós”. Sem essa “geometria afetiva”, fica muito difícil, se não impossível, realizar a tal “paternidade responsável”. Fechemos o parêntese.

Como o leitor católico pode perceber, fora de uma cultura impregnada dos ensinamentos evangélicos, as exigências morais da Lei Natural surgem, aos olhos dos mal informados como caturrice da Igreja.Os políticos, em sua imensa maioria não são cristãos, não são católicos autênticos. Por isso, de vez em quando, um deles propõe um plano como esse do prefeito que vai continuar.Criticá-lo, meus amigos, é muito fácil. Difícil mesmo é cada um de nós procurar ser santo .

[Agora o leitor entende porque o “post” de ontem foi dedicado particularmente aos leitores mais jovens deste “blog”].


posted by ruy at 3:17 da tarde

6.10.04

 
O gigantesco drama do Ocidente


[Este “post” é particularmente dedicado aos leitores mais jovens deste “blog”, mais especificamente àqueles que ainda não ultrapassaram os vinte e cinco anos de idade ]

Faz alguns dias realizaram-se as eleições municipais no Brasil.Aqui no Rio de Janeiro reelegeu-se o candidato em que votei pela segunda vez para o mesmo cargo.
Entrevistado pelos jornalistas, o alcaide vencedor expôs as principais linhas de trabalho que pretende adotar, dando continuidade à sua administração. Ao ler uma de suas propostas, fiquei melancólico.Não pense por isso o leitor que, se eu tivesse sabido previamente da intenção do candidato, deixaria de dar meu voto àquele competente político.Votaria nele de qualquer modo.Não estou atribuindo a ele qualquer intenção malévola; ele está apenas pensando com a mentalidade de um comum representante da moderna civilização ocidental.
Ele quer realmente ajudar o povo desta cidade, que já foi chamada de Maravilhosa; mas, seus critérios de julgamento ético estão afinados com a cultura laicizada em que vivemos.

Antes de continuar, façamos uma digressão. O ser humano é definido como o animal racional .Esta é a sua natureza . Ora, a Sagrada Escritura nos ensina e a nossa continuada, e muitas vezes amarga, experiência confirma que o estado desse homem é o de um ser decaído, isto é, bem distante da perfeição para a qual foi criado.Sob tais aspectos – sua natureza e seu estado - o homem é sempre o mesmo, não importam a época ou o lugar onde viva.É aquela criatura que Chesterton inspiradamente denominou “The Everlasting Man”. Mas, em cada época da história e em cada lugar do mundo variam as envoltórias culturais do homem, como as descreve o autor de DOIS AMORES, DUAS CIDADES.

No primeiro volume deste magnífico ensaio histórico que venho insistindo teimosamente com meus poucos leitores para que leiam, Gustavo Corção dedica três entusiasmados capítulos à Idade Média. Tomando como referência, basicamente, três autores: James J. Walsh, Egon Friedell e Gustave Cohen, o brilhante ensaísta brasileiro nos apresenta as maravilhosas singularidades do Medievo, uma fase da história européia que foi algo tremendamente novo e que provavelmente nunca mais vai se repetir.

O primeiro daqueles três autores citados, o americano Walsh, deixou-nos o livro THE THIRTEENTH, THE GREATEST OF CENTURIES “ ( “O décimo terceiro, o maior dos séculos”), de onde o autor de DADC cita um minucioso programa elaborado na Inglaterra medieval para a realização de um auto religioso, uma longa seqüência de cenas bíblicas representadas pelos diversos profissionais da cidade envolvida na celebração. Ali estão os ferreiros, os carpinteiros, os fabricantes de cartas de baralho, os ourives, os pedreiros, enfim, cada classe profissional colaborando na representação viva, como personagens de uma passagem da História Sagrada.Ou seja, toda a cidade participa do auto , toda a cidade vive o drama sagrado. Deu para entender, leitor amigo ? As pessoas individualmente consideradas, de carne e osso, eram como as pessoas de todas as épocas, como as de nossa época, com os mesmos defeitos e as mesmas qualidades, “the everlasting man”; porém, havia um consenso que nunca existira antes e depois nunca mais existirá. E é isso, é esse maravilhoso consenso que faz uma imensa, uma imensurável diferença entre a Idade Média e a nossa, por exemplo.

São fatos como estes .que escapam ao modo de analisar a política - modo de ver honesto e bem intencionado, porém simplista e cartesiano - do homem que acaba de reeleger-se como prefeito da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Modo míope de ver que não é apenas desse particular político, mas, sim, de quase todos os demais políticos do Ocidente, que não estão, em sua imensa maioria, nem um pouquinho tristes e/ou preocupados porque não mais existe uma Cristandade.

Faz uns três ou quatro dias escrevi sobre a presença na “web” de vários “sites” cuja tônica é o combate ao comunismo, um combate justo e necessário. Entretanto, analisar nossos atuais problemas – brasileiros ou mundiais – em termos unicamente políticos a mim pelo menos soa do mesmo modo como soou uma das bem intencionadas propostas do prefeito reeleito no Rio, um modo simplista e cartesiano .

Desculpem a franqueza do Ruy. Escrevo como católico. Não posso colocar de lado o mistério da Salvação e nem colocar a história fora desse mistério.



posted by ruy at 4:32 da tarde

5.10.04

 
Dando a vez aos mais preparados


[No “post” de ontem falei sobre uma atitude que deveríamos tomar, a saber, a de puxar para cima, a de fazer o que for possível para reconstruir a cultura neste país. Hoje vou passar a palavra a alguém que tem muito mais a dizer sobre um certo aspecto dessa necessária reconstrução.O texto abaixo transcrito foi publicado na revista Seleções em 1982].


Daniel J. Boorstin

O HOMEM “ATUALIZADO” NÃO SABE DE NADA.


[Os bem informados entopem a cabeça com dados e histórias à toa, deixando pouco espaço para os conhecimentos de que realmente precisam.]

Há uma inflação de que ninguém fala e que dispersa a nossa mente. Chama-se “informação”. De manhã à noite, a informação inflaciona o nosso espírito, enche o nosso cérebro e impede-nos de refletir sobre os problemas do nosso tempo. Na TV e no rádio, nos jornais da manhã e nas leituras por computador, inconsistentes “pedaços” de informação inundam-nos e confundem-nos. Este dilúvio de mensagens daqui e dacolá acaba preenchendo cada recanto do nosso consciente e simplesmente expulsa o conhecimento e a compreensão.

Enquanto o conhecimento é metódico e cumulativo, a informação é lançada ao acaso, e heterogênea. Acaba que as indústrias de informação tranqüilamente florescem, enquanto as nossas indústrias de conhecimento (escolas e bibliotecas), estas andam de rastro.

Facilmente esquecemos que o livro é talvez o maior triunfo da tecnologia. Traz até a nossa cabeceira ou o nosso escritório as próprias palavras de Homero, de Platão, de Maquiavel, de Dickens. A partir de Gutenberg, os mortos puderam falar... para milhares, depois para milhões de pessoas. “Se a invenção do navio foi considerada tão nobre”, como em 1605 anotou Francis Bacon, “pois que transportava riquezas e bens de um lugar para outros”, devemos exaltar muito mais os livros, “que, tal como os navios, atravessam os vastos oceanos do tempo, e fazem que épocas tão distantes partilhem o saber, as descobertas e as invenções uma das outras. “Os livros têm sido a memória coletiva, o catalisador e o incentivo para grande parte do saber da raça humana.

Passando em revista algumas das características dos livros, podemos descobrir a natureza particular que distingue o conhecimento, da informação:
Os livros perduram. Muito depois de os jornais de hoje terem forrado as nossas latas de lixo, os livros de hoje continuarão nas nossas estantes, como dádivas bem-vindas. A literatura, empregando a frase de Ezra Pound, é “notícia que continua sendo notícia”. Em contrapartida, os triunfos dos nossos meios de informação são os seus furos jornalísticos, que, numa corrida louca, nos trazem “notícias” uns antes dos outros. Enquanto os livros, que são veículos do saber, permanecem pela sua durabilidade, os meios de informação simplesmente assentam no efêmero.

Os livros são cumulativos. Um novo livro de Saul Bellow dá-nos vontade de ver os seus outros romances. Quando lemos a história universal de Arnold Toynbee, queremos saber o que H. G. Wells ou Oswald Spengler tinham a dizer. A obra de Einstein incita-nos a ler Newton, Galileu, Copérnico e Ptolomeu. O conhecimento novo se soma ao antigo. Já a informação mais recente desloca a precedente; o jornal de hoje nos lembra simplesmente como o de ontem estava errado ou incompleto.

Os livros têm um objetivo. Um livro fala-nos de uma coisa. Os meios de informação falam-nos de tudo. As bibliotecas catalogam os seus livros por assuntos, mas os nossos jornais e noticiários giram normalmente à volta de quando, não do quê. Cobrem absolutamente tudo que tenha acontecido desde ontem.

Os livros constroem uma tradição. Eles são os marcos da civilização. Enriquecemo-nos ao descobrir e redescobrir os nossos grandes livros e, depois, quando escrevemos livros melhores, que atinjam mais pessoas, de modo mais profundo e mais duradouro.

É evidente que todos precisamos de informação. Precisamos dela enquanto cidadãos, pais e consumidores. Os nossos cientistas e tecnólogos precisam dela para se manterem atualizados, para preservarem as suas faculdades intelectuais, para não terem de inventar de novo a roda. A informação protege-nos dos ditadores, dos tiranos e dos escroques.

O problema não é que a informação seja inútil, mas sim que ela se espalhe demasiado depressa e nos faça submergir. Pior ainda, este tipo de informação torna-se um vício. A nossa sede de informação, por seu lado, a faz proliferar.

Como conseqüência, desenvolveu-se nossos tempos uma espécie humana muito particular, já não Homo sapiens, mas Homo atualizadus, maravilhosamente bem informado, mas lamentavelmente ignorante. Ele conhece os tiques dos presidentes, as gafes das celebridades, as ameaças das subidas de preço da OPEP; mas pode sentir-se inteiramente perdido nos meandros do conhecimento, da política exterior, da economia ou da tradição política.

A minha receita pessoal contra esta inflação em nossa massa cinzenta baseia-se na premissa de que o valor de qualquer informação é geralmente determinado pelo tempo que medeia entre a sua concepção e a sua publicação. Isto significa que, normalmente, os livros têm mais valor que as revistas; estas, mais valor que os jornais; e estes, mais valor que os noticiários de TV ou de rádio.

Cada um de nós pode iniciar um programa para se livrar do vício da informação, deixando de ler o jornal de vez em quando e não vendo o telejornal durante um dia ou dois, passando progressivamente a ler o jornal e a ver as notícias na TV apenas uma vez por semana. Em substituição, pode-se ler um semanário noticioso. Em breve, você descobrirá que cada vez sente menos a falta das doses de notícias intercalares, e acabará mesmo por não sentir falta nenhuma delas. Enquanto isso, poderá encher o seu consciente com saber, lendo mais livros!


(artigo publicado na revista Seleções do Reader Digest, dezembro de 1982).


posted by ruy at 8:52 da manhã

4.10.04

 

É preciso puxar para cima !


Faz poucos dias um leitor muito amigo do DD enviou-me o endereço de mais um “site” combativo, e combativo a favor de corretas posições políticas, combativo contra o permanente perigo do totalitarismo socialista ou comunista. Instruído, desde a minha mocidade, por bons mestres e bons livros, há mais de cinqüenta anos conheço o significado do conceito de Bem Comum e conheço a correlata importância da Política como atividade dirigida ao Bem Comum da sociedade humana. Portanto, não seria o Ruy quem iria minimizar a importância daquele combate. Entretanto, sou obrigado a escrever, com todos os “éfes” e “érres” isto: aquele “site” recém enviado pelo meu amigo e outros “sites” semelhantes existentes na “web” não contam a história completa.Essa verdade incompleta me deixa melancólico, e me cansa...Por isso, preciso falar sobre algo que, na minha opinião, anda fazendo muita falta nessa intensa conversação eletrônica no Brasil.

Há um fato que vem servindo de tema a um sem número de anedotas, piadas umas mais outras menos elegantes, que trafegam diariamente pela Internet.Esse fato é o incômodo desnível existente entre a cultura do nosso mais importante mandatário e a elevada função por ele exercida.

Antes de continuar, é bom lembrar um detalhe a respeito do qual, certa vez, conversando comigo sobre outro famoso político brasileiro (recém falecido), o saudoso professor Gladstone Chaves de Melo me alertava. No sentido mais amplo da palavra, em princípio todos os nossos políticos são homens cultos , já que nenhum deles é um índio que habita a distante e intrincada floresta amazônica.Mas, não é uma carência conexa a esse amplo sentido da palavra a que dá ensejo às maliciosas anedotas. Os que as inventam sabem perfeitamente que existe, no referido governante, um grande vazio de instrução básica ; sabem que ele é carente de conhecimentos necessários a um administrador de tão elevadas responsabilidades.

Diante desse quadro patético, uma boa pergunta é esta:
- Como foi possível que chegássemos àquele incômodo desnível?
Antes de responder a esta razoável pergunta, notemos que muitos brasileiros não estão sentindo-se incomodados com o fato, entre eles o próprio referido mandatário.

Acho que algumas causas explicam o fenômeno.Uma delas pode ser compreendida por quem já leu, há uns dez anos, certa coleção de oportunos ensaios publicada por um polêmico, um combativo jornalista brasileiro.Em um desses brilhantes ensaios, o autor descreve, de modo claro e preciso, como o partido hoje no poder durante anos “fabricou” o seu líder, esperando a oportunidade, a qual acabou de fato acontecendo na passada eleição para presidente.Esse antigo e continuado “treinamento político” identifica uma estratégia maquiavélica, bem ao conhecido estilo dos movimentos comunistas, e hoje dá aquele notável ensaio um tom profético.

Creio que podemos dizer dessa “fabricação” que ela seja a causa eficiente do incômodo fenômeno (lembrando, incômodo para grande parte dos brasileiros). A causa final seria a tomada do poder pelos teimosos adeptos de Marx. Resta saber, qual seria a causa formal , essa causa que infelizmente costuma passar despercebida.Vamos tentar sua identificação.

Em março de 1964 fez-se, neste país, uma Revolução com o urgente objetivo de impedir que nossa pátria ficasse debaixo do mesmo tipo de regime totalitário que há mais de quarenta anos controla a vida dos malfadados cidadãos cubanos.
.
Passado um certo tempo, um antigo processo inflacionário foi freado, baixaram-se seus índices e deu-se início a uma indiscutível fase de progresso material que elevou nossa economia ao oitavo lugar no mundo. Chegou-se a criar a expressão “milagre brasileiro”.Esse enorme desenvolvimento foi interrompido pela famosa crise do petróleo, que teria forçosamente de prejudicar, mais que às outras nações, este nosso país de imensa extensão geográfica.

Pois bem, excessivamente preocupados em promover o desenvolvimento material, os homens que fizeram aquela Revolução cometeram um lamentável equívoco na área do Ensino, área que há muitas décadas vem erroneamente sendo chamada de Educação . Manteve-se o errado nome de Ministério da Educação; supervalorizou-se o ingresso nas universidades (ingresso que na França e na Alemanha há muitos e muitos anos é restrito aos que têm real vocação para estudos avançados); desvalorizou-se o ensino básico; desprestigiou-se o tradicional e essencial trabalho da romântica professorinha do Grupo Escolar,

Some-se a isso o deletério trabalho da televisão, que, aproveitando-se da expandida rede de telecomunicações da Embratel, mediocrizou impiedosamente, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, a cultura brasileira.Programas como o do Ratinho, do Faustão, do Big Brother Brasil, e mais as novelas com temas escandalosos, e mais os noticiários políticos bombásticos e tendenciosos, exibidos durante anos a fio acabaram minando os valores éticos que dão apoio à família.

O vício de ficar-se, dia após dia, sistematicamente sentado diante da telinha colorida quase acabou com o inteligente hábito da leitura de livros. Hoje vai ficando cada vez mais difícil achar, entre as pessoas detentoras de diploma do chamado nível “superior”, incluindo os providos de títulos de Mestre ou Doutor, alguém que seja capaz de ouvir boa música (a mal denominada “música clássica”), alguém que goste de ouvir poesia em voa alta, que seja capaz de ler textos escritos em outra língua que não seja a nossa (e olhe lá...) .

De quebra, triste é dizê-lo, na maioria de nossas igrejas católicas substituiu-se a tradicional beleza da missa por um ruidoso processo de agradar a sensibilidade dos fiéis, cada vez mais incapazes de ficar em silêncio, contemplando o tremendo mistério da Eucaristia. Em paralelo, muitos bispos, padres e leigos católicos renderam-se às novidades de Teillard de Chardin. Esquecidos do Reino de DEUS, passaram a cuidar, com muito maior empenho, da construção de um quimérico “mundo melhor”.

E agora, depois desse rápido balanço, eu pergunto ao leitor:
- com que cara vamos exigir do homem que está lá em cima uma atitude menos favorável à inspiração de gracejos e anedotas?

Nesta verdadeira época de catacumbas em que estamos vivendo, urge, pois, fazermos todos um esforço no sentido de puxar para cima . Para baixo, meus amigos, já existe muita coisa puxando.
Somente a combativa ação – certamente necessária – dos vários “sites” anticomunistas não será suficiente para reconstruir a cultura deste país.



posted by ruy at 4:17 da tarde

 

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