Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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2.10.04

 
Trocando em miúdos alguns pontos recém abordados neste “blog”


[Este “post” provavelmente vai ser longo; peço a gentil paciência do leitor]

Por várias vezes tenho pedido, quase implorado, aos poucos leitores deste “blog” que dêem a ele aquilo que nos sistemas tecnológicos o engenheiro chama de “feed-back” , isto é, uma realimentação, isto é, inserir um dispositivo necessário para que o sistema não fique instável. Pois bem, atendendo ao meu pedido, meu amigo W..., o físico, enviou-me cordial e oportuna mensagem expondo alguns pertinentes comentários a dois recentes “posts” do Ruy. Vou, pois, começar transcrevendo o “feed-back” do meu amigo W...

Em seu último “post” vc. tece comentários que, lidos apressadamente, parecem minimizar a necessidade de inserção no Corpo Místico do Cristo para a salvação (falo do dogma”extra Ecclesiam nula salus”) Por certo nunca haverá uma Igreja militante só de santos, ou mesmo majoritariamente formada por santos. A massa sempre existirá e necessitará do sal para não perder o sabor.Mas isto não significa que a massa possa encontrar salvação fora do Corpo Místico de Nosso Senhor.
[neste começo de sua mensagem, W... está referindo-se ao “post” do dia 27 de setembro]

Também é preciso ter cautela ao dizer que o Cristo não determinou minuciosamente todos os dogmas. Isto é verdade, e não é o ponto que pretendo discutir. Friso, no entanto, que este fato, dito sem mais, pode produzir a falsa impressão de que os dogmas são meras invenções da Igreja,acrescentados posteriormente (e indevidamente) ao núcleo da doutrina de Cristo. Todos os hereges e apóstatas partiram desta falsa premissa.
[nesta segunda parte, a referência é quanto ao “post” do dia 30 de setembro]
Reitero que seus comentários são pertinentes, mas talvez necessitem de um lterior esclarecimento.

Pois bem, vou tentar esclarecer os pontos abordados no “feed-back” do meu amigo.

Foi bastante oportuna a citação da venerável frase extra Ecclesiam nula salus ( “fora da Igreja não há salvação”) , Frase esta que de fato corresponde a um dogma (e neste exato instante peço, por favor, ao meu amigo W... e aos demais leitores que releiam o comentário de André Frossard citado por mim, comentário sobre os dogmas e que está no livro cuja leitura recomendei a vocês todos: DEUS EM QUESTÕES , editora Quadrante, SP).
Em certo ponto do segundo volume do livro DOIS AMORES, DUAS CIDADES, o autor cita e comenta a mesma frase, aquela milenar afirmativa que costuma incomodar os bem-pensantes e os inimigos da Igreja..

Ora, de fato há dois modos, digamos assim, de pertencer à Igreja e, portanto, de participar da salvação que é oferecida a todos os homens. Note bem, leitor: todos.O primeiro modo, e mais desejável, é o de pertencer conscientemente, é a atitude daquele que foi batizado dentro da Igreja, nela foi instruído e, por sua livre e espontânea vontade, a ela pretende ser fiel até morrer.
O segundo modo, sutil, mas, nem por isso inverídico, é a condição de muitos que, involuntariamente privados do conhecimento da doutrina católica, muitas vezes desconhecendo a fundamental mensagem do Evangelho, vivem em contínua obediência à Lei Natural, aquela que DEUS colocou no coração de todos os homens.São, talvez, milhões de seres humanos que estariam prontos a dizer “sim” se a eles fosse corretamente exposta a doutrina católica.Quem poderá afirmar, sem temor de erro, que essas pessoas não participam da superabundante misericórdia divina.

Note o leitor o advérbio “corretamente” por mim usado no parágrafo anterior.Acontece - triste é dizê-lo - que existe um certo modo auto-suficiente de ser católico, um jeito que em outro tempo costumava-se chamar de catolicão , um estilo religioso que pode ser percebido em certas atitudes desprovidas de espontaneidade; um modo de ver a Igreja em que talvez nunca tenha ocorrido o refletir sobre o insondável mistério da Graça. De vez em quando, no diário vai-vem no trânsito da cidade grande, passa por nós um carro em cujo pára-brisa traseiro o motorista fixou um adesivo com estes dizeres: Sou feliz porque sou católico , companheiro ingênuo de um outro adesivo que diz: Amo minha esposa

Existe ainda o grupo, sisudo e muitas vezes brabo, dos que são católicos contra os demais homens, incluindo seus irmãos de crença que sejam mais discretos, no melhor sentido desta palavra. Aliás, por falar em discrição, quantos de nós católicos nos lembramos de que Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face (cuja festa celebrou-se ontem, dia primeiro) é a padroeira das missões?

Esses estilos a que me referi acima prejudicam o desejável efeito salgador do sal da terra .

Quanto ao outro comentário de W..., referente ao “post” do dia 30, acho que o meu “post”editado no dia 25 de setembro (“O Mistério da Igreja “) aborda o núcleo da questão, a saber, o primado de Pedro, entendendo as palavras de Jesus como uma garantia da sucessão apostólica através dos séculos..A clara referência à entrega das chaves do Reino deixa claro para quem não julgar com a vontade , para quem analisar usando a inteligência, que o entendimento correto da doutrina necessária à salvação passa pelo colégio apostólico liderado pelo detentor das chaves.

Certos detalhes importantes costumam passar despercebidos aos que treslêem o Novo Testamento.Um bom exemplo desse fato é o esquecimento do modo como se fez a eleição de Matias para ocupar o lugar de Judas Iscariotes.Note leitor, os onze apóstolos rezam e, em seguida, lançam a sorte para fazer a escolha. Eles não pedem uma voz do alto, não pedem a presença visível de um anjo, para efetivar o nome do sucessor. A existência da fé não implica que deixemos de usar os legítimos recursos humanos.Não impede que homens inteligentes, crentes sinceros, façam, durante séculos, um continuado e sério trabalho intelectual para tirar novas coisas de tesouro da fé (“ Todo o escriba instruído no Reino dos Céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisa novas e velhas”, Mt, 13,52). Os dogmas fazem parte das coisa novas..


posted by ruy at 10:17 da manhã

30.9.04

 
Um certo equívoco teimoso e lamentável


Faz uns três ou quatro dias, entrei na Internet a fim de achar informação sobre um certo professor brasileiro. Ao realizar essa busca, de repente encontrei por acaso um “site” e, nessa página, vi, colorida e bem nítida, uma foto em que aparecia, em pé e olhando seriamente para a máquina, um grupo de homens. Detesto polêmicas; faço tudo para não discutir, principalmente quando o assunto for religião ou política. Por isso, não vou expor certos detalhes identificáveis naquele conjunto de pessoas.Vou apenas fazer um excurso inspirado no que vi no referido “site”.

A fé cristã, e mais rigorosamente a fé católica, apresenta para o homem a única resposta diante do mistério da nossa existência.É claro que esse problema de procurar uma resposta somente se arma para os que não se deixam hipnotizar pela agitação moderna, para os que largam – pelo menos um pouco – a “bicicleta” diária da rotina cansativa e monótona, e passam a andar mais “a pé”.

Em um certo trecho de seu excelente livro ”DEUS EM QUESTÕES” (traduzido pela Quadrante), o escritor francês André Frossard faz esta genial reflexão:

Os dogmas não são os muros; são as janelas da nossa prisão .

Ora, quem torcer o nariz para a palavra “prisão” usada pelo saudoso ensaísta, pelo brilhante pensador católico, é porque ainda não sentiu a menor angústia diante do mundo, diante de sua própria imagem refletida no espelho. Ou então, ainda não foi capaz de descobrir, extasiado , que “um gato é um gato”.

Quando Nosso Senhor nos adverte para que sejamos “semelhantes às crianças” não está absolutamente nos propondo um absurdo programa de infantilismo. Está, sim, fazendo uma forte recomendação para que tornemos a encontrar o mundo e, reencontrando-o, tenhamos uma alegria semelhante àquela que sentíamos quando nosso pai terreno, segurando nossa mão pequenina, ia nos mostrando e ensinando os nomes das coisas, uma por uma. Agora, depois de crescidos, é necessário colocar nossa mão, tão segura de si própria, tão auto-suficiente, na invisível mão d’Aquele que é o Pai de todos nós, na mão d’Aquele que fez todas as coisas.

Os bons educadores sabem e ensinam que não é bom educar crianças na chamada pedagogia do voluntarismo. A criança deve, sobretudo, ser conduzida pelos caminhos da inteligência e da afetividade. O pai do tipo “mandão” consegue, sim, muitas coisas dos seus filhos; porém, quando o maestro sai de cena, a orquestra desafina.Pois bem, a pedagogia de DEUS age de modo semelhante, ou seja, ela atua por meio do amor e da sabedoria.Me perdoem, mas, vou repetir mais uma vez o que já comentei neste “blog”. Quando o Cristo ressuscitou glorioso ao terceiro dia não apareceu diante dos fariseus, diante dos soldados romanos, diante de Pilatos. Se Ele tivesse feito isso, teria imposto sua vontade aos homens.

Mais ainda. Nosso Senhor não foi detalhista, não foi minucioso quando falou na edificação de Sua Igreja.Não definiu de forma explícita o que deveria ser um sacramento, nem quantos deveriam ser os sacramentos. Não deixou, de modo bem nítido, a diferença entre um sacramento e um sacramental . Tudo isso, e muito mais, iria surgir mais tarde, como fruto de uma contínua e persistente reflexão, feita durante séculos, feita com amor e com inteligência, e sob a inspiração do Espírito Santo. A vontade humana teria, sim, sua participação nesse longo processo evolutivo. Entretanto, precisou sempre ser aplicada de modo humilde. Toda vez que ela, a vontade do homem, passou de seus limites, tivemos os escândalos que a história registra, para tristeza nossa e maldosa alegria dos descrentes.

Outro ponto que continuamente os quatro evangelhos frisam - para quem tiver olhos e ouvidos bem abertos - é a dureza com que Jesus chamava a atenção dos fariseus.Não que eles fossem desonestos ou mentirosos, não. O grande problema deles – e nosso se nos descuidarmos – era achar que sua virtude era mérito somente deles, era o esquecimento da Graça de DEUS. Era o colocar sua vontade própria num sombrio pedestal.

Conforme escrevi no início deste “post”, não desejei expor detalhes referentes àquela fotografia, pormenores ligados àquele grupo de homens que olharam sérios para a máquina que os imobilizou em cores brilhantes, retrato de um equívoco teimoso e lamentável. Sérios talvez demais. E este, meus amigos, talvez seja o grande problema, uma seriedade que pode significar a distorcida valorização de si próprio, coisa que as crianças com certeza não fazem.


Sugestão

Se puderem, comprem na editora QUADRANTE, São Paulo, o livro de André Frossard:
DEUS EM QUESTÕES. É pequeno no tamanho e no preço; mas é muito grande na sabedoria que está registrada em suas páginas.


posted by ruy at 5:16 da tarde

27.9.04

 
O sal da terra


Creio que já falei sobre este assunto, mas acho que vale a pena voltar a ele.
Nosso Senhor disse que seus discípulos deveriam ser o sal da terra. Ora, qualquer pessoa que tenha o paladar razoavelmente sensível é capaz de perceber que um bom prato deve ter uma adequada dosagem de sal, caso contrário a comida fica intragável.

Ora, infelizmente há muitos católicos que nos passam a idéia de estarem desejando que o mundo fique, digamos assim, “salgado demais”, “salgado em excesso”.Parecem achar que todos os habitantes deste planeta teriam, de um jeito ou de outro, que reconhecer a Igreja, obedecer ao Papa, enfim, converterem-se todos, completamente, ao catolicismo, já que nossa religião é mesmo a verdadeira.

Esses exaltados defensores da fé esquecem-se, por exemplo, de que o Cristo ressuscitado não apareceu diante dos fariseus, diante de Pilatos e seus soldados, diante de todos os que o haviam crucificado para lhes dizer: “vejam, sou eu, vivo e vitorioso!”. Esquecem-se de São Judas Tadeu, com aquela sua pergunta que ficou praticamente sem resposta: “por que a nós, Senhor?” Uma pergunta em que também poderíamos pensar, e também para ela não teríamos resposta, porque a escolha de DEUS vai ser sempre um insondável mistério.

Neste instante alguém vai me dizer: “mas, Ruy, você mesmo não vive elogiando entusiasmado a Cristandade Medieval?”
Sim, amigos, tenho elogiado e vou continuar elogiando o Medievo. Entretanto, notem bem: aquela maravilhosa fase da história humana ocorreu de modo espontâneo , com a ingenuidade própria da infância. Por exemplo, os papas e os reis daquela época jamais se reuniram em Roma ou em outra cidade européia para planejarem aqueles mil anos de fantástico e criativo consenso religioso.


O primeiro pecado


A palavra “primeiro” tem um duplo sentido, tanto pode significar algo que, na escala do tempo, vem antes dos demais eventos, como pode também significar aquele que é o mais importante entre os possíveis atos de um homem.
Se pensarmos neste segundo sentido da palavra, então há uma longa tradição que afirma: o primeiro pecado é o do orgulho

Bem, não sou teólogo, nem muito menos exímio conhecedor da espiritualidade católica. Como simples leigo, com minha experiência de setuagenário, ouso afirmar que, no sentido “temporal”;“cronológico” da palavra, o primeiro pecado talvez seja o de deixar de rezar antes de executarmos nossas ações, mormente as que dependem de sérias decisões nossas.


A bicicleta


Seria muito bom se nós católicos passássemos a andar mais a pé e menos de bicicleta.
[quem sabe andar de bicicleta vai entender o que eu quis dizer com esta frase]


São Vicente de Paulo


Hoje, 27 de setembro, dia do santo da caridade sensível.Lembro-me de uma distante época em que, juntamente com alguns colegas, ia o moço Ruy semanalmente visitar os pobres. Lembro-me de quando fiquei conhecendo a centenária, a profética figura admirável de António Frederico Ozanam.


posted by ruy at 5:33 da tarde

 

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