Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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11.9.04

 

Lembrando o que aconteceu há três anos em Nova York


No dia 11 de setembro de 2001 o mundo inteiro pôde assistir, ao vivo, as cenas de um atentado meticulosamente planejado e friamente executado, um ato de terrorismo que – se a memória não me trai – poucas horas depois, o papa João Paulo II classificou como “diabólico”. Houve, na seqüência dos dias, uma geral reação das consciências contra aquele ato criminoso. Ainda na continuação dos fatos, os Estados Unidos e seus aliados iniciaram os preparativos para uma guerra contra o Iraque. Realizada essa ação bélica, tivemos a derrota militar de Sadam Hussein. Entretanto, continua existindo, uma outra guerra, agora na forma de luta contra um exército irregular que se opõe aos invasores.De vez em quando chegam notícias sobre atentados à bomba feitos em represália contra a ocupação do país, e notícias mais trágicas sobre a decapitação de reféns executada pelos guerrilheiros muçulmanos.

É interessante notar como esses três anos, todos marcados pela guerra desencadeada pelos Estados Unidos, acabaram, por assim dizer, amortecendo aquela primeira e espontânea reação de generalizada repulsa contra o covarde atentado contra as torres do WTC.E, de certo modo, o papel de vilão nessa tragédia tem sido atribuído, por gregos e troianos, unicamente ao presidente Bush. De fato, é muito difícil, no contexto das notícias que chegam ao ocidente, assumir uma atitude de benevolência para com o chefe da maior potência militar do mundo.

Ora, mesmo desagradando a vários leitores, vou dizer agora isto: talvez a maior tragédia no que toca ao ocidente seja a nossa perda da memória histórica, aquela que poderia explicar-nos por que as coisas chegaram ao ponto em que estão.E essa mesma trágica amnésia torna-se ainda mais sombria quando, alertadas sobre a importância do conhecimento do passado, as pessoas sorriem com ar de superioridade ou, no mínimo, de piedade.

Pois é, podem me chamar de ingênuo, não faz mal. Porém, pretendo continuar ingenuamente refletindo sobre a origem remota dos nossos atuais problemas.Sendo assim, façamos uma rápida excursão ao passado.

Faz poucos dias, meu amigo B..., o excelente engenheiro eletrônico e o admirável artesão que é meu colega de magistério, comentava no intervalo do almoço um fato bem interessante: a Escola de Sagres fora contrária à viagem sugerida por Cristóvão Colombo.Ora, essa recusa de aval às pretensões do genovês que, aos desatentos olhos de um observador moderno, talvez possa ser vista como um lamentável demérito para aquele notável centro de estudos português, de fato essa recusa vem colaborar com o significado profundo da descoberta da América. Colombo era mesmo um aventureiro , no sentido mais nobre desta palavra.E seu nome de batismo – Cristóvão – era sem, dúvida alguma, profético: aquele que conduz o Cristo (“Christóforos”).Aqui vale fazer um parêntese.

A lógica de DEUS é diferente da lógica humana.Isso passa despercebido inclusive para muitos católicos exaltados que não prestam a necessária atenção a uma realidade da narrativa evangélica. Nosso Senhor ressuscita, porém não vai ao encontro dos fariseus, dos doutores da Lei e dos soldados romanos para lhes dizer em tom desafiador: “vejam, eu estou aqui, vivo e poderoso”.O estilo do nosso Mestre é outro, bem diferente do nosso. Fechemos o parêntese.

Esse parêntese era necessário antes de lembrarmos que, na esteira de Colombo, muitos outros navegantes vieram ao novo continente: portugueses, espanhóis, franceses, ingleses, holandeses.E se vários desses nautas traziam em suas velas o símbolo do Cristo não é menos verdade que suas tripulações carregavam consigo uma cultura que não era a mesma que durante cerca de mil anos fora a inspiração do homem europeu. Nessa nova cultura, por exemplo, a palavra “fortuna” não mais significava “sorte” , boa ou má; agora o termo passaria a significar , até os dias de hoje, “riqueza material”. Na Idade Média, algumas fraternidades de trabalho comprometiam-se a não inventar instrumentos que aumentassem a produtividade e, em conseqüência, o lucro dos seus operários. Por que elas faziam isso? Para conjurar o demônio da ambição. Naquele tempo, ambição era ocasião de pecado, era pecado mesmo.

Menos de meio século depois da profética viagem de Colombo, instala-se na Europa a rebeldia de Lutero.Com ela surge Calvino e a idéia de que o homem rico é um predestinado da graça divina. Com ela surge a apostasia de Henrique VIII, que abriu caminho para o orgulhoso nacionalismo inglês que, para mim pelo menos, é a origem remota do pungente drama da infeliz princesa Diana.

Juntando a bagunça religiosa, incompletamente corrigida pela Contra-Reforma, com a bagunça filosófica (basicamente os seculares e nocivos efeitos do nominalismo: Descartes, Kant e seus descendentes), abre-se o caminho para o chamado “Iluminismo” (...) , cujo nome já deixa perceber a soberba , aquele pecado que fez Lúcifer dizer : “Non serviam!” – “Não servirei!”São homens formados pelo Iluminismo que vão fazer a Independência dos chamados Estados Unidos (não muito unidos, haja vista a sangrenta Guerra da Secessão).Um dos mentores daquela Independência é Benjamin Franklin.Quando lemos certos medíocres textos de Franklin sobre a Moral, sobre o que ele achava ser um aperfeiçoamento moral, podemos entender por que no futuro haveria naquele país políticos tão pequenos, de nível não coerente com a grandeza, com o poderio e até mesmo com o que de melhor existe na tradicional cultura americana, e cujo bom exemplo é Mortimer Jerome Adler.

Outro parêntese. Não fique o leitor achando que nós no Brasil tenhamos, culturalmente falando, um passado muito melhor, muito diferente daquele dos americanos.Os homens que fizeram nossa a independência e a nossa República estudaram na mesma escola Iluminista.Essa mesma que gerou o democratismo , esse modo de fazer política que acaba colocando nos postos mais elevados os homens que menos méritos possuem (preciso entrar em detalhes?)
.
Por tudo isso, leitor amigo, ao lembrar aquela agressão brutal ao WTC, não veja no fato uma superficial agressão aos Estados Unidos, à política externa americana.Ver assim é ter um olhar míope. Reflita em silêncio sobre a liberdade humana, essa liberdade que pode aceitar ou recusar a invisível presença do Cristo. A invisível presença daquele que, depois de sua vitória sobre a morte, não apareceu diante dos judeus e dos romanos exigindo adoração e temor, e também não obrigou os homens da Idade Média a construírem as magníficas catedrais de pedra.
De resto, é muito mais fácil ficar criticando o medíocre Bush do que fazer a reflexão sugerida neste “post”.


posted by ruy at 11:21 da manhã

10.9.04

 
Um risco permanente, porém muitas vezes pouco percebido


Nós católicos vivemos numa situação de excepcional privilégio.Protegidos pelo zelo maternal da Igreja, nossa Mãe e Mestra, conhecemos a reta doutrina que há vinte séculos vem sendo elaborada, a partir do que está escrito no Velho e no Novo Testamento, por homens sábios, muitos deles santos. Entre esses muitos estudiosos destacam-se, por exemplo, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. Temos as obras de muitos ilustres teólogos, filósofos, pensadores e ensaístas que, mantendo fidelidade à Igreja, procuraram colocar ao alcance do homem comum, ao nosso alcance, aquele maravilhoso acervo de reverente, piedosa e secular pesquisa, muitas vezes feita com as lágrimas de seus autores.

Temos as muitas encíclicas de vários papas que, sem perderem de vista a Eternidade para a qual fomos todos criados, preocuparam-se com os graves problemas do mundo e ofereceram, para a solução deles, reflexões serenas e sensatas, reflexões onde o leitor atento (notem bem isso) percebe a verdade exposta sem o menor indício de sectarismo ou de fanatismo. Entre as encíclicas podemos destacar as que abordam a chamada questão social ., cartas essas que nos dizem, clara e firmemente, que o socialismo e o comunismo são doutrinas inaceitáveis. Outras encíclicas abordam certos problemas éticos que acabaram sendo armados pelo maciço progresso científico e material da sociedade humana, tais como o volume e a rapidez do fluxo de informações e o crescimento demográfico em regiões pobres. As prudentes orientações dos papas costumam desagradar os não-católicos, e infelizmente, também, muitos católicos mal informados (ou mal formados)....Não vou me alongar.Estou falando sobre aquilo que, filhos da Igreja, nós estamos cansados de saber.

Bem, paradoxalmente, em que pese esse fabuloso patrimônio cultural de que nós católicos dispomos, ou talvez por causa disso mesmo, estamos permanentemente sujeitos a um certo risco que usualmente fica despercebido.Antes de continuar, transcrevo o início do poema que publiquei no “post” do dia 7 de setembro:

“Depois de muitos dias turbulentos.
em que o ethos , censor impertinente,
vigiava tudo e a tudo denunciava,
de repente retorna-me o silêncio,
e volto a ver, bem perto e renovado,
o mundo muito mais substantivo”

Pois é, esquecidos de que o fato de termos à nossa disposição aquele fabuloso patrimônio cultural é antes de mais nada uma Graça de DEUS, sem mérito nenhum nosso e, ao mesmo tempo, pressionados pela “turbulência” das notícias, nacionais ou internacionais, que diariamente inundam nossa casas, chocando-nos muitas vezes com fatos absurdos e trágicos, assumimos aquela atitude a que um escritor francês se referiu num pequeno livro sobre como renovar o exame de consciência, a pouco simpática atitude de: moraliser a propos de tout. Ficamos em permanente vigilância e conseqüente denúncia dos erros morais (ética, ethos ) que nos cercam.

É claro que todo erro moral deve ser condenado.Não é a isso que estou me referindo. O cuidado que deveríamos ter, nós católicos, é o de não perdermos de vista o mistério das coisas, o mistério do mundo, é a essencial prevalência do SER sobre o AGIR. Deveríamos lembrar, por exemplo, que no Céu não haverá lugar para o papel pedagógico das regras morais já que, tendo sua vontade pacificada, os eleitos estarão livres e definitivamente contemplando Aquele que criou a nós e o mundo em que hoje vivemos.

Mais ainda, outro cuidado que deveríamos ter é o de não perder certo savoir faire , certa naturalidade e, perdendo-a, tornarmo-nos auto-suficientes, rígidos, com certa pose, aquela pose a que o genial poeta católico Murilo Mendes, de saudosa memória, o poeta que escreveu a maravilhosa “Contemplação de Ouro Preto”, devia estar se referindo quando escreveu aqueles versos bem simples, porém nem por isso faltos de sabedoria:

Senhor, minha prece se faz
em termos exatos:
- que os maus sejam bons
e os bons não sejam chatos


Se é verdade que muitas vezes devemos fazer uma análise clara e firme dos fatos que observamos, criticando com franqueza um eventual erro ético neles percebido, não é menos verdade que certas análises apressadas, esquemáticas, cartesianas, feitas por nós católicos deixam escapar valiosos detalhes, importantes sutilezas que faziam parte da realidade completa. Por isso os antigos, com muita prudência, diziam: Est modus in rebus


Minha querida T...

Ontem, na hora do almoço, meio aborrecido com certos fatos e certas notícias matinais, estava eu solitário, meio ou bastante jururu, quando, de repente, peguei meu celular e liguei para alguém que amo, aquela que há muitos anos DEUS com certeza colocou no meu caminho para me ajudar a procurar ser bom, mas sem tornar-me um chato .Liguei e, depois de alguns rápidos segundos de conversa à toa, a feminina ternura que veio através do espaço, em invisível movimento ondulatório, devolveu-me a vital alegria.Assim, a sabedoria divina, mais uma vez, confirmou aquela perene novidade:

Não é bom que o homem fique só .





posted by ruy at 11:53 da manhã

7.9.04

 
Reencontrando o mundo


Depois de muitos dias turbulentos,
em que o ethos , censor impertinente,
vigiava tudo, e a tudo denunciava,
de repente retorna-me o silêncio,
e volto a ver, bem perto e renovado,
o mundo, muito mais substantivo:
- pessoas que se mexem ao meu redor,
sem saberem que estou admirando
esse fato comum do movimento,
o delas, o meu e muitas coisas mais,
que mudam de lugar freqüentemente.
Contemplo ainda, a estática presença
deste chão em que todos nos movemos,
deste invisível espaço onipresente,
e sobre os quais tão pouco refletimos.
Escuto vozes, gritos e risadas,
e pergunto a mim mesmo o: que é o som ?
Não aquilo que os livros me ensinaram
(formal definição ensolarada),
porém, o próprio som e seu mistério,
que desagrada em forma de barulho,
e me alegra se escuto Debussy.


Pessoas


Minha mulher e eu fomos os últimos da família a comprar um DVD.Essa novidade tem-nos permitido agora assistir, e no maior conforto, velhos filmes do tempo em que o cinema tinha muito mais poesia.Particularmente, posso agora rever, por exemplo, os bons épicos do “far-west” americano, com a saudosa presença do insubstituível John Wayne.

Faz uns três dias, graças ao presente enviado por dois netos distantes, assistimos ao clássico de Franck Capra: A FELICIDADE NÃO SE COMPRA , estrelado por James Stewart e Dona Reed nos papeis principais.Esse filme, que os endurecidos poderão chamar de ingênuo ou coisa parecida, traz em seu núcleo uma fundamental mensagem, e que é o papel insubstituível de qualquer pessoa , por mais insignificante que ela nos pareça.

Há dois pontos de vista extremos possíveis de colocar-se diante da realidade daquilo que é uma pessoa . De um lado está a atitude totalitária, que vê no homem pouco mais que um animal aperfeiçoado, enxerga nele um ser que precisa apenas de um certo mínimo de apoio em alimentação, ensino e cuidados médicos básicos, de modo que possa ser mesmo um indivíduo útil para a sociedade.É o que ocorre, por exemplo, em Cuba ou na China.Não importam os êxitos que tais países consigam em Olimpíadas. Tais conquistas sempre deixam perceber o intencional esforço do Estado onipresente, em benefício de solerte propaganda.

No outro extremo, temos a adulação, o incensamento do indivíduo com suas paixões, suas idiosincrasias e seus egoísmos. Vemos o incentivo à luta competitiva, como se a sociedade, em vez de um fraternal convívio de pessoas, fosse uma imensa arena, silenciosa e triste.É a atitude que faz um Presidente levar a palácio um notório animador de auditório de TV, homem bem conhecido por suas atitudes vulgares, por seus modos grosseiros de tratar o público, atitudes e modos esses que só cooperam com o generalizado rebaixamento cultural do nosso pobre país.

Ora, como sempre, a virtude está mo meio. E este meio, como tão bem explica o autor de DOIS AMORES, DUAS CIDADES, não é uma média , uma mistura dos extremos; é, sim, um meio elevado, tal como a crista que separa duas profundas ravinas.Uma crista de caminhada difícil, mas nem por isso indesejável.
O antigo filme de Franck Capra foi feito numa época em que tais conceitos ainda eram compreendidos por grande parte do mundo ocidental. O filme nos mostra a importância real das pessoas .


posted by ruy at 5:57 da manhã

 

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