Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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5.9.04

 
A paz


As notícias que acabam de chegar da geograficamente distante Rússia constituem mais uma triste página destes dois últimos séculos cujos indiscutíveis progressos, em diversas áreas da atividade humana, contrastam de modo chocante com sombrias e sangrentas tragédias, nelas incluídas guerras, limitadas ou mundiais, e absurdos atos de terrorismo, tais como o diabólico ataque, fanático e suicida, contra as torres do WTC e, agora, essa recente covarde e alucinada agressão contra uma escola para crianças.

Antes de continuar chamo a atenção do leitor para a expressão que de propósito usei acima, a saber, “geograficamente distante Rússia”. Faz alguns anos, Soljenitsin escreveu um pequeno livro (traduzido pela Nova Fronteira) intitulado: “Como reorganizar a nossa (sic) Rússia ”. Esse título comoveu-me. Fez-me lembrar o ecumenismo medieval, aquele mundo em que estudantes dos mais diversos países estudavam fraternalmente juntos na mesma Universidade, que na época era mesmo uma real Universidade ; naquele mundo em que não se exigiam passaportes para o livre trânsito pela Europa. Um mundo em que o santo rei Fernando, da Espanha, conseguia manter em seus domínios um razoável convívio entre cristãos, judeus e árabes.

Já contei neste “blog” que certa vez me desinteressei de ler um livro (de autor católico) porque, ao folheá-lo na livraria , vi que o autor estava criticando Santo Agostinho.É bem de nossa época, essa pretensão dos menos informados darem palpites (é isso mesmo: palpites) contra milenares e respeitáveis tradições (estão ai os Teillards de Chardin e os Leonardos Boff que não me deixam mentir). Ora o grande Doutor da Igreja, o corajoso bispo de Hipona continua – e vai continuar por muitos séculos – a dar boas aulas para quem tiver ouvidos pacientes e dóceis. Uma das centenas e centenas de frases luminosas escritas por Santo Agostinho é justamente esta que se liga ao tema do meu “post” de hoje:

A paz é a tranqüilidade na ordem.

Uma definição clara, concisa e precisa, conforme manda a boa regra dos mais sábios. Entretanto, o perfeito entendimento do que ali foi definido faz supor que uma dos termos da frase seja de fato corretamente compreendido por nós. É a palavra: ordem.Para não alongar demais este excurso, demos logo um exemplo por meio de uma pergunta:
- mesmo havendo certa “tranqüilidade” numa família de mafiosos ou numa quadrilha de traficantes, podemos dizer que em tais ambientes exista de fato uma verdadeira ordem ? Mas, para não darmos exemplos tão “fortes”, perguntemos ainda:
- mesmo havendo certa tranqüilidade numa família convencional, de classe média, de costumes honestos e bem comportados, podemos garantir que nesse ambiente exista de fato uma verdadeira ordem ?

Um parêntese: estamos supondo que nosso eventual leitor seja um cristão convicto, e mais ainda, um católico bem informado sobre sua religião.Alguém que esteja, por exemplo, a par do que está no evangelho da missa de hoje, em que São Lucas relata o radical discurso do Cristo quanto ao amor verdadeiro. Vale a pena citar:


Seguiam com ele grandes multidões; e Jesus, voltando-se para elas, disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo e não me tem mais amor que ao seu pai, à sua mãe, à sua esposa, aos seus filhos, aos seus irmãos, às suas irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não tomar a sua cruz para me seguir não pode ser meu discípulo. (Lc., cap.14).

O fato, meus amigos, é este mesmo: a paz verdadeira, a paz cristã não é um arreglo, não é uma acomodação com o mundo. Esquecido há seis ou cinco séculos desta exigência, o Ocidente – que já foi uma Cristandade – hoje vê angustiado as modernas conseqüências de uma desordem , de uma quebra de hierarquia, aquela radical hierarquia de amor que o evangelho da missa de hoje nos ensina.


posted by ruy at 7:19 da manhã

2.9.04

 
Parafraseando o “post” de ante-ontem


Ensina-nos o velho Aristóteles que existem, na comunicação humana, os quatro discursos: a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica. O mesmo mestre diz-nos ainda que, dos quatro, a Poética é o menos preciso, o que tem menor eficácia no que se refere à transmissão da verdade. Ora, há dois dias editei neste “blog” um poema, com o título, não muito simpático, de Desespero . Justamente por causa da pobreza do primeiro dos quatro discursos, pedi a um amigo geograficamente distante (porém bem próximo na amizade) que me desse sua opinião sobre o poema. Para minha grata surpresa, meu amigo acertou em cheio! Deu a interpretação que eu tinha quando escrevi aqueles versos.Não vou privar os demais amigos da leitura da maior parte da fraterna carta que recebi do Wagner, a quem agradeço de todo coração.
.

Caro Ruy,

(..........)



Tentarei fazer aqui algumas breves considerações. Espero que seja útil, embora não me julgue muito competente no assunto.


O poema retrata a modernidade. Particularmente interessante a descrição do tempo perdido com falsas alegrias, com uma euforia por coisas novas, uma voracidade pelo vazio insaciável. A vertigem que o progresso material causa
faz com que a brevidade desta existência seja esquecida, o valor quase que infinito de cada segundo que nos é dado desperdiça-se com tolices.


Todos querem ser jovens para sempre, e a sabedoria que a velhice trazia outrora é substituída pelo espírito de uma perene adolescência, em que a desordem interior é sinônima de virtude.

O movimento incessante serve, para muitos, como pretexto para ignorar o ser. É preciso um retorno ao ser, ao ser das coisas.
Todo movimento tende a um fim, e todas as coisas que se movem, movem-se para o fim último, que é Deus.
Mesmo os absurdos que não compreendemos possuem uma finalidade que um dia nos será revelada. Sem a esperança cristã, única verdadeira, o século rende-se à loucura do nada.

Ideologias totalitárias, guerras sem sentido, mortes stúpidas, atos de brutalidade, mutilações, perversões morais, genocídios, assassinatos, todas estas coisas espantosas que não compreendemos envolvem-nos como trevas imensas.

Do desespero e da revolta contra o ser nasce o frenesi para converter este vale de lágrimas em um novo Éden, um novo mundo que não é nem nunca será.
Terrível ilusão, que multiplica o pranto e inunda a terra com o sangue de inocentes.


Apenas a luz da fé formada pela caridade pode nos ajudar a encontrar repouso, e só repousaremos em Deus. Isto já sabiam os medievais. Ignora-o nossa avançada civilização.
Esta é a tragédia do tempo, e a ruína de nossa época.


Pax et Bonum!


Wagner.


[Melhor paráfrase eu não poderia fazer do meu próprio poema !}





posted by ruy at 3:55 da manhã

31.8.04

 
Desespero


Não vejo rostos enraivecidos,
não escuto gritos lancinantes,
nem choros convulsos.
Porém, sobram risos descontraídos,
velórios animados;
sobram acirradas discussões políticas,
futebolísticas,
olímpicas –
tudo que for matéria do consabido serve,
mas, ninguém escuta ninguém,
ninguém escuta a si próprio.

Onde outrora a luz brilhava,
cresce muito o conhecimento,
cresce bem pouco a sabedoria.

Muito cinema,
muita televisão,
não importa a qualidade,
conta só a diversão.

Rios de carros, rápidos e nervosos,
fluem em ruas largas e tristes,
onde não há vitrines brilhantes e nem janelas curiosas.

Em festas ruidosas, agitadas,
jovens embarcam sorridentes em absurdas viagens sem volta.

E enquanto neste Ocidente, que um dia soube olhar para cima,
a indesejada das gentes hoje vai sendo assim, cada vez mais,
alegremente esquecida,
chegam-nos de longe rumores de guerra e de loucura.


posted by ruy at 11:15 da manhã

 

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