Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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29.8.04

 
Pequena lista de erros e equivocos


[Tudo ou quase tudo que vai ser dito em seguida neste “post” já foi, de um modo ou de outro, citado neste “blog”.Porém, nesta manhã de domingo achei que seria bom fazer uma listagem de alguns pontos para reflexão nossa, minha e do leitor]

“Ele está no meio de nós” - Lembro-me bem de quando foi adotado o uso do vernáculo na celebração das missas.O latim, diziam os introdutores da nova rubrica, afasta o povo comum, ou no mínimo o mantém alheio à cerimônia.Não discutamos esse pretexto, ainda que para nós ele seja apenas isso mesmo: um pretexto, entretanto, dado o primeiro passo os novidadeiros continuaram em frente.
Vamos logo ao começo da missa. Quando o padre antigamente nos dizia: Dominus vobiscum (“O Senhor esteja convosco”) , a resposta correta vinha de pronto: Et cum spiritu tuo (“E com o teu espírito”, ou “Contigo também”), resposta lógica e educada, como a que nos faz responder “Bom dia!” com “Bom dia”, “Boa noite” com “Boa noite” etc. A novidade do “Ele está no meio de nós” equivale a dizer ao padre: “chegou atrasado, velhinho!”

Ora, conforme escreveu Santo Tomás: Parvus error in initio magnus erit in fine , “O erro, pequeno no inicio, é grande no final”. Pois é. Hoje, acabaram introduzindo na celebração várias inoportunas “intervenções” dos fiéis que assistem à missa. Parece muito bonito, muito “democrático”, mas o novidadeiro que as inventou lamentavelmente esqueceu-se disto:as orações em torno da consagração lembram o discurso de Jesus na Última Ceia, ocasião essa de solene gravidade, gravidade essa conexa aos mistérios máximos da Eucaristia e da Paixão; em momentos em que somente Ele, Nosso Senhor, falou, e os discípulos ficaram, com máxima reverência, em silêncio, olhando. e escutando.


Ministério da Educação Este é um tipo de erro que vimos cometendo há muitas décadas, em conseqüência de uma generalizada ignorância nossa quanto ao verdadeiro significado da educação. Vimos, infelizmente, nos esquecendo da sábia orientação socrática, a de começar qualquer discussão definindo os conceitos básicos nela envolvidos. O que é isso? De que se trata?

Neste momento temos que nos lembrar do insigne pensador americano MORTIMER JEROME ADLER, uma lembrança tanto mais relevante quando só falamos naquele povo para criticar os erros de seus dirigentes políticos, os quais, por sinal, foram formados na mesma tradição Iluminista dos demais governantes ocidentais.
Adler, usando uma linguagem sem retórica brilhante, sem inúteis lantejoulas, ensina-nos tranqüilamente que são as pessoas que se educam, e somente uma pessoa adulta , isto é, sem estar tutelada pela família ou pela escola (incluindo aí a Universidade) , pode educar-se. Entregar ao Estado a função de me educar é renunciar à minha liberdade.Um dos muitos textos adlerianos tem justamente por título esta frase: “Escolaridade não é educação”.

O processo realmente educativo implica um crescimento interior , não aquele fantasioso espiritualismo proposto por Paulo Coelho e outros autores semelhantes, incensados pela mídia, porém, sim, um crescimento integral, de que a inteligência, a vontade e a sensibilidade participam fraternalmente, num trabalho árduo e silencioso, na prática contínua das virtudes primeiras da Prudência, da Justiça, da Coragem e da Temperança. Um crescimento essencial para que haja em um país uma democracia autêntica, e não o democratismo em que estamos vivendo.

Escola Pública e Escola Privada Este é um velho erro correlacionado com o do item anterior. Um erro intencionalmente mantido pelos adeptos da chamada “solução socialista” e ingenuamente mantido pelas pessoas comuns desprovidas de uma cultura geral mais sólida.
De fato, todas as escolas são públicas , sendo umas mantidas pela iniciativa privada e as demais financiadas pelo Estado. Um exemplo excepcional de escola privada seria o caso de um milionário excêntrico que instalasse dentro de sua rica mansão uma pequena escola destinada apenas a seus familiares.

A existência das escolas mantidas pela iniciativa privada é uma das garantias do regime verdadeiramente democrático.Por exemplo, como afirmar que em um país existe liberdade de crença religiosa se negarmos ao povo desse país o direito de possuir escolas inspiradas por uma fé compartilhada por milhares e milhares de habitantes? Infelizmente, muitos pais católicos matriculam seus filhos em tradicionais colégios religiosos apenas para garantir às crianças, aos adolescentes um ensino sério. Entretanto, eles mesmos, os pais, não estão ligados à completa formação religiosa dos filhos.” Missa aos domingos? Isso é coisa do passado.”Com tal atitude dos seus responsáveis , como esperar que as famílias entendam o significado maior da mal denominada “escola privada” ?

Ora, vem sendo divulgado pela “web” um texto publicado em São Paulo, do qual transcrevemos este trecho inicial:

ESTÁ EM ANDAMENTO UMA REBELIÃO SEM VOLTA
(Gilberto Dimenstein, Folha SP,25/07/04)
Começou a percorrer o país, na semana passada, uma notável lição de cidadania. É uma exposição, em praça pública, de uma série de produtos, na qual uma só idéia está à venda: a de que o consumidor não sabe quanto deixa para o governo ao comprar qualquer coisa - de um automóvel a um chiclete.
Ao analisar as placas com porcentagens grudadas em cada produto, o visitante da exposição saberá, por exemplo, que, ao adquirir um carro de mil cilindradas, terá deixado 44% para o poder público. Cada vez que enche o tanque com gasolina, são mais 53% em impostos.
Os organizadores dessa experiência, exibida no centro de São Paulo, apostam no seguinte: quando o consumidor, de fato, souber quanto o governo lhe tira diariamente, haverá mais pressão para que melhore o desempenho da administração pública.


Aproveitando esse texto, reflitamos sobre a parte que toca ao governo na manutenção do mal denominado “ensino público” ( mal denominado e mal administrado) .


“Mundo melhor” Dos erros e equívocos listados neste “post” talvez este seja o mais disseminado, o mais divulgado por gregos e troianos.Espalhado pelos esquerdistas, velhos e teimosos adeptos das idéias marxistas e/ou teillardistas (que tristeza lembrar neste instante o apoio público dado por padres e leigos católicos aos comunistas...). Espalhado por muitos de nós católicos que vemos no cristianismo, sobretudo, um sublime processo de transformar a sociedade, tornando-a mais humana, fazendo com que a vida seja mais digna de ser vivida.Vou me ater ao erro ou equívoco nosso, isto é, dos que pertencemos à Igreja.

De fato, existe no mistério da Redenção uma seminal possibilidade de o mundo ser, por assim dizer,“transformado”.Isso, entretanto, deveria ocorrer como um transbordamento.Quando, em nossas paróquias, por exemplo, estimulamos os chamados “encontros de grupos” (de casais, de estudantes, de trabalhadores etc.) deveríamos pensar nisto: a real eficácia desses encontros dependerá do nível da profundidade religiosa com que eles forem constituídos. Se isso não for levado em conta, tais movimentos serão apenas outras formas de grupismo , ajuntamentos que dão às pessoas neles inseridas apenas uma sensação de conforto, e isso quando não forem prejudicados por pequenas disputas internas pelo prestígio dos primeiros lugares (aquilo contra o qual Nosso Senhor nos previne no evangelho deste domingo).

Uma boa pergunta: em que medida tais movimentos estão contribuindo para a ocorrência de autênticas vocações sacerdotais?


posted by ruy at 9:38 da manhã

28.8.04

 
Dia de Santo Agostinho

A Igreja é Mãe e, por isso mesmo, costuma agir de modo silencioso e sábio.Ela dedicou o dia de ontem, 27 de agosto, à comemoração de Santa Mônica, portanto precedendo o dia de hoje, dedicado ao grande filho Santo Agostinho, filho do sangue, das lágrimas e das orações. Vamos falar um pouco sobre ele. Aliás, tudo que falarmos sobre o bispo de Hipona será sempre pouco.

É curioso como a história se repete, ainda que as circunstâncias de cada época criem a ilusão de que tudo, absolutamente tudo, seja coisa nova. Santo Agostinho deixou escrito um livro famoso, que para muitos é o que se denomina a Teologia da História, denominado A Cidade de Deus .(foi baseado nessa monumental obra que Gustavo Corção deu a seu “opus maximus” o provocante título “Dois Amores , Duas Cidades”) .
O motivo de Agostinho haver escrito aquele grandioso livro foi a gritaria dos pagãos contra a Igreja, atribuindo a ela a causa do desmoronamento do orgulhoso, do poderoso Império Romano.Uma gritaria que hoje se repete, contra a Igreja e contra o Cristo, como se nossa religião fosse a origem de muitos problemas que o mundo vem enfrentando há alguns séculos.

Santo Agostinho, como bom discípulo d’Aquele que disse aos fariseus: Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus , d’Aquele que disse a Pilatos ; Meu Reino não é deste mundo , como bom discípulo do Cristo o grande Doutor da Igreja sabe distinguir perfeitamente as duas ordens, a da natureza, com suas leis próprias, respeitadas pelo DEUS que a criou, e as leis da Graça, que fogem ao alcance limitado da inteligência humana, leis estas muito mais misteriosas mas nem por isso menos verdadeiras.Sabe também que Nosso Senhor disse a seus discípulos: Buscai primeiro o Reino dos Céus e o resto vos será dado por acréscimo, uma consoladora promessa que vale tanto para as pessoas individualmente consideradas quanto para as nações, supondo que elas tenham sido impregnadas pelo fermento do Evangelho. E é isso exatamente que vai acontecer na Europa depois da morte do santo Doutor que, de certo modo, baliza o início da Idade Média.

Morrendo em 430 AD, Santo Agostinho não chegou a ter a alegria de ver o batismo de Clóvis, Rei dos Francos, que ocorreria sessenta anos depois, batizado esse marcado com as clássicas palavras do bispo São Remígio, palavras essas que aprendi da boca de meu pai quando eu era menino:
- Curva a fronte, orgulhoso sicambro! Queima o que adoraste e adora o que queimaste ! [que DEUS tenha a alma de meu pobre pai! ].
Daquele batismo nasceria a “fille ainée de l’Eglise ” .
Vemos, pois, como são misteriosos os caminhos da Providência. Cai o orgulhoso Império Romano e de suas cinzas nasce uma nova civilização. Como seria ela?

Faz alguns dias, meu amigo P.E. enviou-me um e-mail falando em Johan Huizinga, que teria escrito, em seu livro: “ The Autumn of the Middle Ages (1919) comentários semelhantes aos feitos por Egon Friedell em livro já por mim citado neste “blog” ( “ A Cultural History of Modern Ages” ). Ora, ante-ontem a professora S.M. fez-me a gentileza de enviar um texto sobre Huizinga do qual destaco este trecho:

"Quando o mundo era quinhentos anos mais jovem, todos os eventos tinham contornos muito mais nítidos que hoje em dia. A distância entre tristeza e alegria, entre boa e má sorte, parecia ser muito maior do que para nós; cada experiência tinha o grau de espontaneidade, de completude que a alegria e a tristeza ainda possuem na mente de uma criança. Cada evento, cada ato era definido de forma cabal e reveladora e estava de acordo com a solenidade do casamento, da morte - por força dos sacramentos, banhados na radiância do mistério divino. Entretanto, mesmo os eventos menores - uma viagem, um trabalho, uma visita - eram acompanhados por uma infinidade de bênçãos, cerimônias, pronunciamentos e convenções." ( trecho do livro The Autumn of the Middle Ages, de Johan Huizinga )

Ora, Huizinga está escrevendo sobre o que seria o final ou o começo do final do Medievo, mais ou menos no século XIV. Aí pergunto ao leitor: se o
final daquele período histórico tinha aquela maravilhosa atmosfera cultural descrita no trecho ora citado, como não deveria ser na fase áurea, por exemplo, em pleno século XIII ? Tudo isso talvez não tenha sido vislumbrado por Santo Agostinho.Não importa. Ele já havia deixado para a posteridade suas sábias e santas reflexões.

Muitos entre os doutos gostam de falar sobre o que consideram o platonismo de Santo Agostinho.Não tenho lastro para discutir essas minúcias filosóficas. Prefiro citar, para encerrar este “post”, três frases do grande Doutor da Igreja, frase essas que falam sobre o essencial: o amor. Não o mero amor sensível, superficial e passageiro, mas, sim aquele amor que vai durar por toda a Eternidade, “o Amor que move o Sol e as outras estrelas “, conforme disse Dante.
:
- Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova! (“ Tarde te amei , beleza tão antiga e tão nova!”)

- Amor meus, pondus meus ( “Onde está meu amor, está meu centro de gravidade”)

- Feciste nos ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te ( “Fizeste-nos para Ti, e inquieto estará nosso coração até que descanse em Ti” )

Santo Agostinho, rogai por nós !



posted by ruy at 12:58 da tarde

27.8.04

 
A onipresença do Estado moderno


Hoje a Igreja comemora a festa de uma santa que chegou a esse estado de perfeição exercendo o doméstico ofício de mãe.Nessa diuturna e silenciosa tarefa, essa mulher viveu anos fazendo, sobretudo, duas coisas: rezar e chorar por seu filho.E qual seria o motivo dessas orações e dessas lágrimas? Por acaso essa mãe andava preocupada com alguma doença crônica e grave do rapaz? Quem sabe, se ela se angustiava por ele estar sempre desempregado ou, no mínimo, ganhando um salário muito baixo? Ou ainda, talvez houvesse alguma séria confusão política em que seu filho andava metido? Ora, sabemos todos que não era nenhuma dessas hipóteses o motivo das preces e do pranto de Mônica, mãe de Agostinho, aquele que viria a ser o notável bispo de Hipona, defensor impávido da fé católica e, depois de morto, para sempre reconhecido como insigne Doutor da Igreja.

Antes de continuar este “post”, é preciso ficar bem claro que é perfeitamente legítimo que as mães se preocupem com os comuns problemas de seus filhos, como aqueles que listei acima, e que são diferentes, bem diferentes, da situação que fazia Mônica sofrer, a saber: a vida dissoluta, e afastada da fé verdadeira, em que Agostinho vivia. Se a memória não me trai, há uma passagem em Santo Tomás de Aquino em que ele afirma ser perfeitamente legítimo que a mãe de um assassino não queira que seu filho morra sofrendo o castigo legal na forca.

Bem, admitida, pois, a legitimidade dos zelos maternos convencionais, podemos agora perguntar ao nosso leitor o seguinte:
- e quantas de nossas mães modernas têm o bom costume de preocupar-se com a fé de seus filhos? quantas rezam pedindo que seus rapazes e moças não tenham medo de buscar a santidade? quantas estarão dispostas a ouvir com serena alegria um filho que, de repente, informe que deseja seguir o caminho do sacerdócio, ou escutar, sem sobressalto, uma filha dizer que pretende ingressar numa ordem religiosa contemplativa?

Leitor amigo, antes que você torça o nariz diante do que acabou de ler no parágrafo anterior, achando que este escriba esteja, de modo farisaico e antipático, cobrando total generosidade cristã de pessoas comuns, pessoas sem maldade, dou logo minha opinião sobre o assunto:
- vai ficando cada vez mais difícil encontrar na sociedade moderna famílias constituídas por pessoas batizadas na Igreja e que tenham um comportamento religioso favorável a uma vida cristã autêntica, vale dizer: uma vida impregnada de fé como a possuíam as famílias antigas.Vejamos um exemplo clássico. Se o leitor gosta de pintura, certamente terá visto em livros antigos ou em paredes de velhas residências o célebre quadro do pintor Millet intitulado: “A hora do Angelus ” .Ali estão humildes camponeses rezando no final de um duro dia de trabalho. Pergunto: em que moderna fazenda do Ocidente, tido como cristão, ocorre uma semelhante cena ?

Acontece que o Estado moderno - e digo moderno considerando ele já cristalizado a partir do século XVIII - é um Estado laico , e muitas vezes infenso à fé cristã. E pior, é um Estado onipresente .Tudo e todos dependem dele, seja nos regimes ditos “democráticos” (muitos dos quais realmente “democratismos”) seja, com maior razão, nos regimes totalitários (tipo Cuba ou China). Essa onipresença, com ou sem intenção dos governantes, acaba sufocando o pleno desabrochar da fé no âmbito familiar. Torna muitíssimo difícil a existência de modernas Mônicas para eventuais modernos Agostinhos.

Aqui no Brasil, por exemplo, recém tivemos uma eleição suposta democrática. O partido que está na Presidência não mais esconde seu estilo totalitário e, entre outras medidas, pretende cercear as mal denominadas “escolas particulares” (um nome burro, já que TODAS as escolas são “públicas”). Tal cerceamento sem dúvida alguma prejudicará o ensino religioso, já precário por culpa de nós mesmos, católicos que, esquecidos da forte recomendação Paulina, nos deixamos acomodar com o mundo.

Santa Mônica, rogai por nós. Ensinai-nos a rezar também pelo bem espiritual das pessoas a quem amamos ! Amén !


posted by ruy at 5:22 da tarde

25.8.04

 
Esclarecendo alguns temas já abordados neste “blog”


[O “post” de hoje é dedicado ao meu prezado amigo A..., o serrano, cuja generosa amizade para comigo merece minha mais calorosa gratidão].

Para começar, peço vênia ao leitor para dar um rápido balanço da pletora de recursos de que dispomos neste nosso mundo moderno para conservar nossa saúde, manter nosso equilíbrio físico e, em conseqüência, dilatar nossa longevidade.

Desde Pasteur, temos certeza de que muitas doenças são causadas por micro-organismos; sabemos a origem da maior parte das infecções mortíferas.Dispomos de vacinas contra a gripe, a pneumonia, o tifo, a difteria, a febre amarela e a paralisia infantil. Temos soros contra mordida de cobra e picadas de insetos venenosos. Podemos nos antecipar à progressão de doenças silenciosas e ocultas graças aos raios-X, aos eletroencefalogramas, aos eletrocardiogramas e às tomografias computadorizadas.

Nossos médicos conseguem fazer maravilhosas cirurgias, delicadas e precisas, em partes nobres do corpo humano, tais como os olhos, o cérebro e o coração. Conhecemos sobejamente o papel das vitaminas no metabolismo do nosso corpo.
Dispomos de técnicas psicológicas para corrigir certos desvios do comportamento normal.Sabemos que muitos suicídios têm sido causados por involuntários problemas mentais.
Não vou aumentar a lista de modo a aborrecer o leitor, que certamente a conhece muito mais do que eu.

Bem, e agora façamos uma imaginária visita à Idade Média para comparar nossos recursos sanitários, nossos conhecimentos de medicina com os de que dispunham os povos da Europa, por exemplo, no século XIII, o século em que viveu São Luís, Rei de França, cuja festa estamos hoje (25 de agosto) celebrando.
Há quem afirme que a famosa Peste Negra teria sido, se não causada, pelo menos ampliada em seus trágicos efeitos pelas precárias condições de higiene nas cidades do Medievo.
Não precisamos ir aos exemplos bem específicos; um pouco de imaginação será suficiente para avaliar como hoje somos ricos, incrivelmente ricos, em relação aos antigos no que toca à possibilidade de manter nossa vida biológica (se o leitor for dos que acreditam que só existe esta vida, a biológica, não perca tempo; pode parar a leitura deste “post” e tratar pragmaticamente de assunto de seu interesse).

Pois bem, neste momento volto a falar em Egon Friedell – um escritor judeu austríaco – que, em seu clássico livro A Cultural History of Modern Ages faz tranqüilamente uma apologia da Idade Média, dizendo, em tom de elogio, que eles, os medievais, comportavam-se como crianças diante da vida.Tinham diante da existência uma atitude poética, naïve , apesar de todas as inúmeras dificuldades que a existência diária, na época, colocava diante do homem comum. Aliás, Friedell diz exatamente isto: cada dia era para o homem medieval uma nova e completa aventura.

Desconhecendo aquilo que hoje sabemos, graças à nossa moderna medicina psiquiátrica, sobre a causa de muitos infelizes suicídios, eles consideravam essa trágica decisão como o mais negro dos pecados. É verdade, eles, sem saber disso, sem intenção, cometiam um lamentável erro de julgamento das pessoas, ainda que estivessem absolutamente certos quanto à gravidade do ato cometido. Bem, e quanto a nós modernos, qual será a nossa cômoda justificativa para o nosso moderno e generalizado consumo de drogas, para a nossa moderna aceitação do homossexualismo, para a nossa moderna e impávida legalização do homicídio intrauterino, mais conhecido como aborto ?

Creio que já contei aos leitores deste “blog”, mas torno a contar. Faz uns dois anos tive em minhas mãos um livro de lombada espessa, uns oito centímetros, escrito pelo moderno historiador francês Jacques Le Goff, versando sobre a vida de São Luís, Rei. Folheei a obra e a coloquei de volta na estante da livraria. Saí sem comprar. Por quê? Explico a seguir

Entre os muitos livros que tive a boa fortuna (dando e esta palavra, “fortuna”, seu sentido medieval) de ler está o de H-I Marrou :Sobre o Conhecimento Histórico , tradução publicada pela editora ZAHAR em 1975 (guarde esta informação, leitor amigo). Ali pude aprender que o autêntico conhecimento histórico, muito mais que uma imensa coleção de informações eruditas , dessas que impressionam o leitor desprevenido, é realizado pelo que Maritain chama de “co-naturalidade” do autor com o assunto. Le Goff impressionou-me pela sua erudição; mas não vislumbrei em seu volumoso livro aquilo que Olavo Bilac disse ser necessário para ouvirmos as estrelas.

E é isso, meu amigo leitor, que mais nos está fazendo falta hoje em dia: amar. Amar a beleza e a verdade, como as amaram os homens que construíram as catedrais de pedra. Hoje, nós, ocidentais modernos, construímos as torres dos WTC’s...


posted by ruy at 12:16 da tarde

23.8.04

 
Um antigo equívoco


[O presente “post” foi-me inspirado por uma mensagem a mim enviada por meu amigo M.., o engenheiro eletricista. Não que ele que tenha diretamente feito alguma sugestão para o tema de hoje, mas, ao enviar-me cópia de um artigo de outro internauta - por sinal um texto muito bem escrito - M... obrigou-me a refletir, durante estes três últimos dias em que estive fora do Rio, sobre o que vai em seguida exposto]

Faz três semanas, assistindo como de costume à tranqüila missa celebrada por Dom Ireneu Penna, mais uma vez tive a alegria de ouvir o inteligente e sábio monge comentar os textos daquele domingo, entre eles o trecho do evangelho de São Lucas em que Nosso Senhor, depois de ouvir o apelo de um certo homem que estava em disputa com um irmão a respeito de herança, dá aquela fundamental resposta.
- Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» (Cf. Lc. cap.12, vs.12, 21)

Entre outros comentários, Dom Ireneu, naquele dia, lembrou-nos um antigo equívoco infelizmente cometido, muitas e muitas vezes, por muitos de nós católicos, qual seja, o de achar que a mensagem cristã estaria destinada, em sua essência, à busca de um mundo melhor neste que o salmista chamou de “vale de lágrimas”.A esses católicos (incluindo o moço Ruy, nos seus verdes e inexperientes anos da mocidade) , talvez o Cristo poderia dizer: Quem me fez mentor para resolver vossos problemas sociais ?

Faço meio contristado um parêntese que julgo bem necessário.
Acho que sou bem mais velho que a quase totalidade dos meus dez ou doze leitores. Acabei de falar nos meus “verdes e inexperientes anos da mocidade”, isto é, da época em que conheci pessoalmente certas pessoas que, hoje, meus leitores só conhecem por meio da leitura de livros e artigos escritos por aquelas pessoas ou escritos por outras que talvez as tenham conhecido pessoalmente como eu. Sou, portanto, testemunha de certos dolorosos desencontros que hoje, percebo, entristecido, servem de assunto para alguns escribas indiscretos. Fecho o parêntese.

Não vou citar nomes; porém, aquele equívoco do homem citado no evangelho de São Lucas separou em campos contrários dois bons católicos brasileiros, dois homens sinceros, cada um deles com suas qualidades e seus defeitos. Um desses dois cristãos a que estou me referindo, levado por uma excessiva paixão pela justiça social – que, se o leitor não sabia, é uma das quatro formas com que a virtude Cardeal da Justiça deve ser praticada – levado por essa paixão, digo, sem usar a paralela e necessária virtude da Prudência, chegou a criticar com amargura aquilo que ele chamava “a dureza de São Pio X”.

Quem foi São Pio X? Acho que os leitores realmente católicos deste “blog” deveriam interessar-se por saber quem foi esse grande santo da Igreja. Coincidentemente, na missa de ontem líamos um trecho do capítulo 12 da epístola aos Hebreus onde nos é lembrada esta verdade: a correção é prova de amor; DEUS ama a quem corrige.
Ora, Pio X , movido por seu amoroso zelo pastoral, por assim dizer, castigou os bispos e padres que, levados pelos pruridos da novidade, queriam “modernizar” a Igreja, desejavam que ela fosse mais compreensiva diante dos erros do mundo moderno.
Alguém dirá: mas Pio X era um homem como cada um de nós, não era DEUS> Com que direito ele usava aquela “dureza “ ?
Respondo: ele a usava com o dever de sucessor de Pedro. Apascentar ovelhas é espinhoso, é difícil, tão espinhoso que os antigos sempre consideravam os pastores como homens rudes, e não como pessoas boazinhas.Se uma ovelha teima em ir sozinha pela trilha que leva ao abismo, uma boa pancadinha do cajado coloca-a junto do rebanho, no caminho certo, aquele que conduz às águas refrescantes .
De fato, a realidade pouco simpática de uma necessária disciplina sempre incomoda as almas mais sensíveis.

Entretanto, para que não fiquemos apenas atentos a esse aspecto, digamos, “jurídico “ do problema, é claro que precisamos nos lembrar do papel de sal do mundo que cabe a nós cristãos representar. Ora, neste momento lembro não um escritor católico , isto é, alguém que tenha sido batizado na Igreja e tenha sempre vivido em conformidade com os ensinamentos de nossa Mãe, porém, sim, vou me referir a um homem que provavelmente não era um santo, um homem que teve vida aventureira, viu de perto muitos perigos e morreu cumprindo missão em defesa de sua pátria. Vou citar dois trechos dos escritos de Antoine de Saint-Exupéry.

O primeiro trecho está em sua famosa “carta ao General X”, escrita em plena segunda Guerra Mundial:
Ah! General, só existe um problema, um único em todo o mundo. Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Fazer chover sobre eles algo que se assemelhe a um canto gregoriano. Se eu tivesse fé, é mais do que certo, passada esta época de “ job necessário e ingrato”, eu não conseguiria suportar senão Solesmes (*).
[ (*) – famoso mosteiro beneditino, centro do renascimento monástico na França no século XIX ]

O segundo trecho é o final do livro “Terra dos Homens” (traduzido aqui no Brasil pelo saudoso cronista Rubem Braga):
O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro.O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio.Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.
O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas, nem suas feiúras. É Mozart assassinado em cada um desses homens.
Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode fecundar o Homem.


(por favor, leitor amigo, não vá pensar que Saint-Exupéry fosse indiferente ao problema social . Releia com atenção o trecho acima transcrito!).

Outra curiosidade ligada a textos de escritores não católicos é a que se refere à Idade Média. Sabemos que os judeus não tiveram vida mansa no Medievo, afinal havia sido aquele povo que crucificara Jesus Pois bem, há pelo menos dois livros escritos por judeus que louvam a Idade Média: “La Grande Clarté du Moyen-Âge”, do judeu francês Gustave Cohen, e “A Cultural History of Modern Ages”, do judeu austríaco Egon Friedell (coagido a matar-se pelos nazistas).

Um dos aspectos fascinantes que Egon Friedell aborda é justamente um certo espírito infantil dos medievais. Grifei a palavra infantil para que o leitor não fique pensando que os homens daquela época fossem deficientes mentais. Os homens que ergueram as catedrais de pedra e escreveram a Suma Teológica não eram pessoas imaturas, incapazes de criar beleza e de procurar a verdade.

Ora, quando fazemos elogios à Idade Média não estamos propondo um retorno tout-court àquele distante período histórico. Dom Lourenço, com muita sensatez, comentando o assunto escreve: um tal retorno seria um mau negócio

Entretanto, caro leitor deste “blog”, nós católicos deveríamos ter nossos ouvidos afinados para ouvir certas vozes, certos sussurros amigos que vêm dos séculos X, XI e, especialmente, do XIII, o maior dos séculos , na opinião do escritor americano James J. Walsh , MD, PhD, LLD . Vozes e sussurros que nos avisam para que não embarquemos na canoa furada do tal “mundo melhor” proposto pelos socialistas de todos os matizes.Foi nessa canoa que, infelizmente, muitos católicos brasileiros embarcaram.Deixaram, por exemplo, de ouvir a voz, esta bem moderna, de Maritain, o qual classificou os escritos de Teillard de Chardin como “moeda falsa” e, por isso mesmo, desagradou a um daqueles dois brilhantes escritores deste país que conhecemos pessoalmente em nossa mocidade e que hoje são conhecidos apenas por alguns de seus livros.O mesmo escritor que não foi capaz de entender o zelo pastoral de São Pio X.

Santo Agostinho, por assim dizer, baliza o começo da Idade Média.Vou citá-lo para terminar este “post” quase um desabafo:

- Domine, feciste nos ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te , “Senhor, fizeste nós para Ti, e inquieto estará nosso coração até que descanse em Ti “.

Nós católicos não devemos ficar indiferentes aos sofrimentos de todos os tipos (note bem leitor: de todos os tipos) que existem no mundo moderno.Porém, que essa justa preocupação com eles não nos faça esquecer, a cada minuto – repito: a cada minuto – Aquele para quem fomos criados.




posted by ruy at 4:49 da tarde

 

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