Despoina Damale

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13.8.04

 
O logos bem compreendido e bem “aplicado”


No “post” anterior (11/ago) falei sobre o binômio do logos e do ethos, uma idéia que, já faz muitos anos, vi apresentada numa ótima crônica de Alceu Amoroso Lima. Como, ao discorrer sobre aqueles dois termos, fui um tanto ou quanto sucinto, posso ter deixado algum eventual leitor equivocado sobre o assunto.Vale, pois, a pena voltar ao tema e tentar explicar melhor a distinção entre os dois conceitos para melhor uni-los, conforme diz sabiamente Jacques Maritain..

Conforme escreveu Amoroso Lima, na boa tradição católica o logos prevalece sobre o ethos .Comecemos por aqui. Hierarquia não significa exclusão.No exército que participa de uma batalha, existe uma extensa cadeia hierárquica, que vai desde o general mais antigo e mais experiente, a quem os demais generais obedecem, até o distante e quase desconhecido soldado que, num posto avançado, vigia, durante uma escura noite de inverno, a aproximação do inimigo.Nessa longa cadeia funcional, todos os combatentes são importantes e necessários.

Em vez de ficar falando de modo genérico, cuidando para não faltar com a precisão, vou dar ao amigo leitor um bom exemplo de como se pode manter a correta hierarquia, dando a primazia ao logos sem, entretanto, olvidar a importância e a necessidade do ethos .

Por várias vezes neste “blog” referi-me à pessoa de Dom Lourenço de Almeida Prado OSB, monge beneditino, que há quase sessenta anos vive no mosteiro dessa ordem situado aqui no Rio de Janeiro.Com seus 93 anos bem vividos, ainda lúcido – graças a DEUS – Dom Lourenço representa neste país o modelo vivo de um autêntico educador. Foi reitor do tradicional Colégio de São Bento, anexo ao mosteiro, durante mais de quarenta e cinco anos, tendo angariado, durante essa longa trajetória pedagógica, o profundo respeito de milhares de ex-alunos.Já participou de vários conselhos educacionais, neles incluídos os de níveis estadual e federal. Já publicou dezenas de livros e centenas de artigos nos principais jornais brasileiros, abordando, nesses livros e artigos, temas diversos, uns ligados ao ensino, outros referidos a vários problemas éticos e de valores, e por último, mas não menos importante, temas de espiritualidade cristã, é claro.

Em 1999 Dom Lourenço editou pelas Edições Lumen Christi o livro ENTRE POLÍTICA E EDUCAÇÃO, uma coleção de ensaios e artigos, em mais de quatrocentas páginas impregnadas de sabedoria; uma sabedoria feita de muitos estudos e não poucas experiências, sabedoria cujos conhecimentos não se mostram vestidos com a roupagem da erudição sofisticada e antipática. Vejamos um sumário dessa obra.

O livro tem dez partes, assim denominadas:
- Lei e Sociedade
- Cidadania
- Liberdade de Ensino
- Lei de Diretrizes e Bases
- Vivência na Escola
- Conteúdo – Currículo – Vestibular
- A Arte de Educar
- Educação para a Esperteza
- Televisão e Tranqüilidade Pública
- A Palavra.

Citemos alguns dos capítulos de várias dessas partes. Por exemplo, na primeira parte temos o capítulo De Iure Vitae Nescisque ( Do direito sobre a vida e a morte ), em que podemos ler estas pungentes palavras:
O aborto, o divórcio, o controle da natalidade já estão aí, com lei ou sem lei. E a que conduziram ? À felicidade ? À alegria ? Olhe cada um ao redor de si e veja se a nossa sociedade é mais feliz. será que vale a pena insistir ? Não é amargura, não é tédio, não é droga, não são programas inebriantes que andam por aí? Não é sem uma razão freudiana que Freud nunca usou a palavra alegria e multiplicava a palavra prazer . Prazer pode ser legítimo, mas não é um meio de abafar o tédio.

Na segunda parte, no capítulo O Menor sem Casa e a Escola , em certo instante Dom Lourenço escreve isto:
O fim da educação é a conquista da liberdade interior. Vale, para a vida natural, a afirmação do Cristo: “ conhecereis a verdade e a verdade vos libertará “ ( cognoscetis veritatem et veritas liberabit vos (Jo, 8, 32). É pelo conhecimento, isto é, pela inteligência que se vê a verdade, e com ela, a lucidez para discernir.O homem sem sua inteligência cultivada e clarificada é como o cego que cai no buraco porque, não o tendo visto, não gozou da liberdade de desviar-se dele.
A liberdade é, de certo modo, o triunfo da lucidez sobre os apelos instintivos e irracionais.


Na terceira parte, no capítulo Sobre o direito de viver do ensino , lemos esta reflexão:
O princípio básico da liberdade de ensino, que afirma caber à família a escolha da educação a ser dada a seus filhos, seria um princípio estéril e inoperante se só se admitisse um colégio particular como obra de beneficência.O direito da família seria um estranho direito, firmado apenas na caridade e não na justiça.

Na sétima parte, Dom Lourenço começa o capítulo: A utilidade do inútil com estas sensatas palavras:
Costuma-se dizer que a cultura é aquilo que fica em nossa mente depois que esquecemos o que havíamos aprendido na escola. A afirmação é feita, quase sempre, em desapreço para o aprendizado escolar, querendo significar que as coisas aprendidas, nessa ocasião são mecanismos ou informações, sem alcance prático e, assim, inteiramente inúteis. Sobrecarga que deve ser esquecida o mais cedo possível.
Na verdade, entendida com um pouco mais de lucidez, com um olhar mais atilado, ela exprime, em contraste meio esquemático, a admirável função cultural da escola de crianças e adolescentes: cultura é realmente o que fica do aprendizado escolar.Mas o que fica, não como algo lateral e concomitante, sim como produto ou frutificação amadurecida da matéria tratada nas salas de aula.


Não vou fazer mais citações do livro de Dom Lourenço.As que foram feitas são suficientes para o propósito deste “post”

Tendo, conforme dissemos acima, ingressado na vida monástica há quase sessenta anos, ao fazer livremente aquela opção Dom Lourenço deixou seu consultório médico, abriu mão do direito de constituir uma família para dedicar-se primordialmente ao Opus Dei , ou seja, ao Ofício Divino, à tarefa de rezar e cantar louvores ao Senhor de todos nós, ao DEUS que dá sentido à existência humana.Colocou, assim, o logos em primeiro lugar.

Ora, ao ler, por exemplo, o livro acima referido, uma obra que trata de problemas bem práticos da sociedade dos homens, Dom Lourenço deixa bem claro que o fato de estar recolhido ao silêncio do claustro não o impede de analisar os temas conexos ao ethos , e não só analisá-los, à luz do logos , como dar sua sensata opinião sobre como tais problemas deveriam ser resolvidos.

Creio que aí esteja um excelente exemplo de como uma autêntica visão católica do mundo pode, sem esquecer nenhuma dsa duas, manter a correta hierarquia que deve existir em nossas atitudes básicas diante da vida.

Sugiro ao leitor que leia o livro citado. Ele pode ser obtido na livraria Lumen Christi do mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro.


posted by ruy at 3:40 da tarde

11.8.04

 
O essencial problema da alegria


É bem fácil verificar que a palavra problema pode ter conotações diversas. Por exemplo, quando dizemos: “coitado do Fulano, está passando por um sério problema financeiro”, o vocábulo referido não desperta em nossa imaginação a mesma reação afetiva que experimentamos quando fazemos entre amigos este comentário: “meu neto Vicente sabe mexer no computador sem nenhum problema”. Em ambos os casos está implícita uma dificuldade; no primeiro, ela é um incômodo desafio, no segundo, o desafio é do tipo esportivo , aquele que coloca dentro de um campo de futebol vinte e dois homens adultos correndo e chutando uma bola, sob o olhar atento de uma pequena multidão que aplaude ou xinga.No primeiro, o desafio é não desejado, no segundo é livremente procurado.

Ora, ainda que este fato costume passar despercebido pela imensa maioria das pessoas, a alegria humana é um problema permanente e, mais que isso, fundamental em nossa vida. De propósito coloquei ali o adjetivo humana; qualquer pessoa que já tenha possuído em sua casa um cachorro de estimação sabe muito bem que um animal pode, em diversas situações, manifestar um tipo de alegria sensível.

Esse modo de alegrar-se, ou seja, com a clara e ostensiva participação da sensibilidade não é estranho a nós humanos.Nós não somos anjos.Pois bem, se nos dispusermos a ficar constantemente procurando esse tipo de alegria, a sensível, acabamos criando para nós mesmos uma interminável seqüência de pequenos problemas, desafios uns mais outros menos esportivos. E isso é ruim? Em princípio, não.Uma psicologia normal sempre saberá aceitar eventuais derrotas.Entretanto, essa sistemática, e às vezes obsessiva, busca do riso fácil, da gargalhada zombeteira, da irreverência descontraída, do puro prazer em suas diversas formas, ainda que legítimas, tudo isso pode, e freqüentemente acontece, afastar nossa inteligência do fundamental problema da alegria.

Para dificultar ainda mais as coisas, a cultura atual está impregnada de agitação e ruído, podendo nós observarmos essa agitação e esse ruído nos dois mundos em que vivemos, o nosso mundo exterior e o nosso mundo interior.Por isso serão bem poucos os que se dispõem a refletirem no assunto deste “post”. E digo isso com pesar, porquanto vejo, todos os dias, nesse rol dos distraídos , várias pessoas, inteligentes e boas, a quem estou ligado por laços afetivos.

Já faz muitos anos, no saudoso tempo em que ele ainda não tinha sido influenciado pela onda Teillardista, o falecido pensador católico Alceu Amoroso Lima publicou num pequeno livro uma ótima coleção de crônicas intitulado: A VIDA SOBRENATURAL E O MUNDO MODERNO (é uma pena que em minhas andanças eu tenha perdido esse livro...).Em um dos capítulos dessa obra o Dr. Alceu (assim o chamávamos) diz o seguinte: a tradição católica sempre valorizou o logos , sem, é claro, esquecer-se do ethos , ao contrário da tradição protestante, que sempre fez o contrário, valorizando o ethos em primeiro lugar. Não sei se hoje poderíamos dizer o mesmo quanto à atitude que, lamentavelmente, se observa nos ambientes católicos...

Pois bem, a correta hierarquia, aquela que dá ao logos a desejável prioridade, poderia contribuir para que nossa inteligência - ultrapassando a pressão dos fatos que nos atordoam diariamente, e que nos induzem a ficar presos ao exercício penoso, nervoso, irritado do ethos - pudesse, de repente, descobrir a fundamental alegria de viver.Não simplesmente o alegrar-se por estar vivo, biologicamente vivo, mas por acreditar, profundamente , numa vida que não acaba, e para a qual fomos criados.

Note bem, amigo leitor: profundamente .


posted by ruy at 11:42 da manhã

 

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