Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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8.8.04

 

Os dois “eus”


Faz mais ou menos uns cinqüenta anos li pela primeira vez uma referência ao respeitado filósofo espanhol Ortega y Gasset. Ele fora o tema de dois artigos de Gustavo Corção, publicados no Globo e, se não me engano, também no Estadão , dos quais um tinha este honroso título: UM GRANDE DE ESPANHA. Mais recentemente li textos de Julian Marías, que foi discípulo de Ortega, elogiando-o e explicando o significado real da obra do seu mestre.Ora, uma das muitas frases que várias vezes tenho visto citadas em minhas esparsas leituras é justamente esta: Eu sou eu e minha circunstância , ou, parafraseando, “eu não sou apenas eu, sou eu e minha circunstância”, frase esta atribuída àquele grande de Espanha .

Ora, se pensarmos dois ou três minutos, daremos razão a Ortega y Gasset. Sem dúvida alguma, cada um de nós tem sua personalidade condicionada por um imenso entrelaçamento de circunstâncias, entre as quais estão os grande fatos, históricos ou atuais, que alteram o cenário em que vivemos neste mundo, e também os pequenos fatos, aqueles que não estão registrados nas crônicas e demais documentos que fazem a alegria do pesquisador da história. Cada um de nós tem sua família e a história de sua família, tem sua cidade natal, o bairro e a rua onde mora; tem suas lembranças, suas saudades.Tem suas limitações psicológicas e suas naturais tendências artísticas , dando a esta palavra um sentido bem amplo, aquele ligado à esfera do fazer , complementar da esfera moral do agir humano.

Porém, Ortega y Gasset, ao ressaltar, com razão, essa intrincada rede de circunstâncias que condicionam nossa personalidade única e intransferível, não registra a verdade completa, que me perdoem a ousadia os doutos nas matérias filosóficas. Por quê? Porque, ainda que ele tenha acertado ao dizer aquela famosa frase, não formulou (pelo menos que eu saiba), esta essencial pergunta: e por que estas são as minhas circunstâncias ? .

Dou logo um exemplo pessoal.Nasci em plena Revolução Paulista, em 1932. Meu pai estava lá nas trincheiras. Veio rápido em casa, viu meu nascimento, comoveu-se com o primeiro filho e, logo em seguida voltou à luta. Tudo isso faz parte de minha vida e deve com certeza ter influído no meu modo de ser. E daí? Permanecem estas perguntas: por que tudo isso teve que acontecer com meus pais e comigo? Por que eu tive que nascer neste mês de agosto? Por que tive que ser filho de um soldado carioca? Por quê? Por quê?

Além disso, todo esse imenso conjunto de circunstâncias de indiscutível importância na constituição de minha pessoa , conforme já escrevi, única e intransferível, contribui para a existência do que posso chamar meu eu exterior , aquele que posso conhecer, com relativa facilidade, refletindo sobre mim mesmo. Porém, existe um outro “eu”, o meu eu interior , um “eu” que pode passar anos e mais anos sem ser descoberto por mim.

Cada um de nós tem uma alma própria.É ela que constitui de fato esse “eu” cujo nome verdadeiro só iremos conhecer depois de “adormecermos profundamente”, como Manuel Bandeira referiu-se tão bem aos seus parentes e amigos falecidos:

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa.
Onde estão todos eles ?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Por tudo isso, amigo leitor afirmo que Ortega y Gasset, sem dúvida alguma um grande pensador, viu apenas uma parte da nossa misteriosa realidade pessoal. Enxergou apenas um dos dois “eus”.





posted by ruy at 5:55 da tarde

6.8.04

 
Esclarecendo um ponto fundamental


Se o leitor deste “blog” leu meus dois últimos “posts” ( o de domingo passado e o de ontem) provavelmente terá notado que a tônica dos dois textos está colocada na situação política, do Brasil e do mundo.E essa característica dos “posts” possivelmente agradou à maioria dos meus poucos leitores.

Ora, essa reação do leitor é compreensível, e é normal. É compreensível porquanto - em razão da cultura moderna, densamente impregnada de informações difundidas por todos os canais que a tecnologia atual mantém neste planeta - o assunto política , gostemos ou não gostemos dele, faz parte da nossa vida,.

E ao mesmo tempo é uma reação normal. Por quê? Antes de responder convém lembrar o verdadeiro sentido da palavra normal , que não é sinônimo do termo média , tão usado pelos estatísticos e pelos sociólogos. Normal define-se corretamente como aquilo que é conforme a natureza das coisas . Ora, o sábio Aristóteles, se a memória não me engana, define o homem como o “animal político”, isto é, o animal que existe para viver na pólis , viver na cidade, entendida esta não como o centro urbano, mas, sim, como o convívio com os outros habitantes. A história do Robinson Crusoe só ganha seu pleno sentido romântico quando ele, no final, embarca no navio que vai levá-lo de volta à civilização, de volta ao encontro com os outros homens, de volta à pólis .

Já faz muito tempo aprendi com bons autores, em sua maioria católicos formados na boa tradição Tomista, que a Política com P maiúsculo é a atividade humana dirigida ao Bem Comum . Aprendi mais, que esse Bem Comum não é um somatório de bens individuais, porém, sim, uma atmosfera , um conjunto de condições materiais e culturais que propiciam uma vida boa e reta para todas as pessoas

.Não basta, pois, simplesmente prover alimentação, instrução básica e atendimento médico essencial para uma população. Sem esquecer-se de propiciar aos cidadãos essas facilidades, o bom governante deve ser capaz de inspirar aos seus governados a prática das virtudes cardeais da Prudência, da Justiça, da Força (também chamada Coragem) e da Temperança (como pode fazer isso um presidente que apóia grotescas passeatas de homossexuais arrogantes e exibicionistas ?).Deve ser capaz de inspirar aos seus governados o desejo de crescerem no bom uso da inteligência e da sensibilidade mais nobre (como pode fazer isso alguém que exibe uma tola vaidade quando se afirma possuidor de precária escolaridade?).

Em que pese a indiscutível gravidade dos problemas políticos que vimos enfrentando, urge que não percamos de vista o magno problema da cultura laicizada de nossa época.Seria injusto, por exemplo, atribuir aos governantes e demais homens públicos a culpa pelos desastrados erros e equívocos de muitos católicos, incluindo bispos e padres, que há muitos anos infelizmente vem olhando a religião basicamente como um piedoso processo de reformar a sociedade, de corrigir injustiças e promover a solidariedade entre as pessoas.Esquecemo-nos do essencial, o dever da procura da santidade: Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito

Demos um exemplo bem prático. Pergunto: como pai de família, o que eu desejo, antes de mais nada, para meus filhos? que eles sejam vitoriosos, bem sucedidos em suas profissões, que vivam em plena segurança financeira? Preocupa-me o fato de serem eles, os meus filhos, pessoas acomodadas (antigamente se dizia: “aburguesadas”) e que não sabem ou nunca se lembram da finalidade para a qual foram criadas?

Como pai e avô o Ruy Maia Freitas tem “muitas antigas dívidas no cartório”. Que vale editar “posts” corretos e elegantes se não me angustio com as grandes carências espirituais do meu próximo, a começar pelo meu primeiro próximo que, na esfera da Caridade, sou eu mesmo?


posted by ruy at 4:50 da tarde

5.8.04

 
Um pequeno problema de causa e efeito


Vem fluindo pela Internet uma pletora (o termo é este mesmo: pletora) de piadas, anedotas dos mais diversos tipos, envolvendo a suposta maior autoridade deste nosso pobre país. Escrevi “suposta” porque há mais de cinqüenta anos graças a DEUS aprendi, no clássico livro FILOSOFIA DO GOVERNO DEMOCRÁTICO, de Yves Simon, qual é a diferença entre poder e autoridade .

Paralelamente às piadas – que sempre é bom ler e depois contar aos amigos – passam através da “web” relatos sobre graves mancadas dos homens que estão no poder, e aí já não há motivo para risos. Em um dos textos que me enviaram há uns dois dias, o articulista refere-se ao nosso Presidente chamando-o de apedeuta .Se o leitor deste “blog” por acaso não conhecer esta palavra (apedeuta) poderá ver seu significado no dicionário do Aurélio e, ao ler a definição, perceberá que o autor do texto de fato procurou usar um bondoso eufemismo.

Um outro texto recebido pela Internet nos dá notícia sobre o super-acelerado crescimento dos gastos do Gabinete da Presidência da República, deixando transparecer que esses gastos estariam sendo feitos com um estilo incompatível com a ferocidade com que, durante décadas, o partido hoje no poder combateu a corrupção na administração pública.Isso, para mim pelo menos, caracterizaria uma forma de prepotência, arrogante e farisaica.

Para escurecer ainda um pouco mais o sombrio cenário político, consta que um bem conhecido senador desta república, com fama de literato, há poucos dias teria feito uma palestra em certo país da Europa e, em sua fala, apresentou ao auditório, como se fosse uma grande glória do Brasil, o fato de termos como presidente um antigo operário.Obviamente o ilustre senador não se referiu ao seu prezado compatriota chamando-o de apedeuta e, em conseqüência, os ouvintes da palestra ficaram sem saber da história completa...

Bem, até aqui não escrevi nada que não fosse já conhecido pelos poucos leitores do Despoina Damale.Agora preciso registrar esta opinião do Ruy :
- esta melancólica e preocupante situação política pela qual o Brasil está passando tem como causa próxima aquilo que podemos chamar de democratismo do voto obrigatório .
(Neste momento é bom lembrar que, no país mais democrático do mundo, o voto NÃO é obrigatório. ).
Esse democratismo brasileiro não é fenômeno recente.Décadas de decadência cultural generalizada, aí incluídos a distorção da finalidade do ensino secundário e a maléfica influência da TV, como que quase apagaram na maioria das pessoas o sentido ético aplicado à política.Anos atrás, um notório e respeitado assessor do governo federal, diante da sugestão do nome de um provável candidato à Presidência da República teria feito o seguinte comentário restritivo:
- esse não serve, ele é ético demais .
Preste atenção, leitor: ético demais . Quando uma pessoa suposta possuidora de bons critérios políticos faz um comentário desse tipo, está – indiretamente – contribuindo para a entropia da opinião pública, está erodindo os critérios de julgamento das pessoas comuns, privando essa pessoas comuns da presença de elites que são justamente o cerne de uma democracia autêntica. Pobre Brasil...

Entretanto, esse mesmo democratismo que hoje inferniza nossa pátria tem causa remota, distante no espaço e no tempo.Podemos localizá-la no momento em que se cristaliza a auto-suficiência do homem ocidental moderno, iludido pela fantasiosa teoria da Vontade Geral , mito esse proposto por Jean Jacques Rousseau (o pensador meio desequilibrado que, entre outras façanhas, colocou o próprio filho na roda ), ofuscado pelo enganoso brilho do Iluminismo. Podemos marcar seu início no instante em que os povos europeus passaram a acreditar numa desumana Fraternidade sem pai e, em conseqüência, começaram a valorizar apenas a lei escrita, a Lei Positiva, sem procurar referenciá-la à Lei Divina, à vontade do Pai.

Neste instante, amigo leitor, pare e reflita na oração do Pai Nosso.Ali fazemos sete pedidos.O terceiro deles é : seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu . .
Acontece que a quase totalidade dos poderosos do mundo jamais reza essa oração ou, se a reza, nunca pára para refletir sobre essa essencial subordinação da nossa vontade a um DEUS pessoal Quem é de fato Jesus Cristo para mim?
.
Só como ilustração. Um dos grandes líderes da época Iluminista foi sem dúvida alguma Benjamin Franklin, um dos fundadores dos “Estados Unidos”, homem que era recebido festivamente pelos parisienses na época da Revolução Francesa. Ora, já tivemos o desprazer de ler trechos dos escritos de Franklin. É lamentável a mediocridade desse pensador de quem seus admiradores diziam que havia “tirado o raio dos céus e arrancado a coroa dos tiranos”( !).

Diante disso tudo, penso que não devamos ficar excessivamente ligados a um certo superficial moralismo político, isto é, sem irmos às causas remotas dos problemas que hoje enfrentamos.


posted by ruy at 4:33 da manhã

 

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