Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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23.7.04

 

Duas perguntas teimosas


Este é mais um “post” que provavelmente vai desagradar a vários dos poucos leitores deste “blog”. Paciência. Creio que seja melhor escrever tentando dar um testemunho da verdade que publicar escritos simpáticos, ornados com frases muito elegantes e adjetivos espirituosos , tão do agrado dos amigos do diletantismo.

Acho que já escrevi várias vezes sobre duas perguntas, segundo penso, fundamentais na vida de um católico, supondo que ele seja de fato um crente convicto nas verdades que há mais de vinte séculos vêm sendo ensinadas pela Igreja. Note o leitor que de propósito grifei a expressão “crente convicto”. Ao fazer isso estou mesmo pensando em um modo de crer que dá sentido à nossa existência, à minha existência. Um jeito de crer que me ampara quando sinto sobre os ombros o peso da lembrança de omissões passadas. Omissões que teriam criado circunstâncias favoráveis ao sofrimento de muitas outras pessoas que, ao longo dos anos, foram ficando ligadas de um modo ou de outro à minha própria existência.

Crer – e quando digo crer estou mesmo pensando na fé cristã – não deveria ser apenas assumir uma permanente atitude crítica, uma continuada posição moralista (usando esta palavra em seu sentido lato) diante dos inúmeros fatos que se sucedem diariamente em volta de nós, seja dentro de nossas casas, seja na sociedade, seja em nosso país, seja no mundo.Para assumir tal atitude crítica, tal posição moralista, não é necessário acreditar que o Cristo ressuscitou e reina eternamente no Céu. Qualquer pessoa normal, cuja consciência não tenha sido deformada pela permissiva cultura moderna, mesmo que não seja cristã pode – e mesmo deve – apontar os gritantes erros morais dos dias em que estamos vivendo. Passeatas “gays”, leis (...) a favor do aborto e do “casamento” de homossexuais, regimes políticos ditatoriais, terrorismos, consumo de drogas - tudo isso pode ser condenado aplicando-se a Lei Natural, inscrita por DEUS no coração do homem. Para condenar tais desvios da normalidade não é necessário pertencer à Igreja.

Crer para um cristão deveria ser basicamente ter os olhos abertos para o mistério da existência e, mais que da existência, da presença de DEUS entre nós, dentro de nós. Um cristão deveria estar permanentemente admirado diante do mistério do Verbo que se fez carne. A tradicional liturgia da missa no rito latino termina com a leitura do início do evangelho de São João, cujo fecho são justamente as palavras: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós . Durante séculos estas palavras foram lidas para o povo, como que para nos lembrar, antes de sairmos do recinto da igreja, o infinito significado daquela verdade nuclear do Cristianismo. Modernamente a missa vem sendo vista muito mais como uma reunião de pessoas desejosas de sentir-se bem na comunidade dos crentes. O mistério tem ficado esquecido em meio ao ruído e à agitação do estilo com que o magno sacrifício hoje é comumente celebrado.

Ora, supondo que um católico seja, antes de mais nada, um cristão plenamente acordado , com os olhos bem abertos para o mistério de sua fé, duas perguntas essenciais volta e meia retornam à sua mente, aquela que foi feita por São Judas Tadeu (e que ficou praticamente sem resposta) e a que foi feita por São Paulo na estrada de Damasco ( e teve resposta cabal do Cristo).

Por que a nós, Senhor?
Por que a mim, Senhor ? Por que, dentre todos os membros da minha família, dentre tantos colegas e amigos meus, acabei sendo eu a descobrir essa espantosa, essa maravilhosa realidade de Vossa invisível e silenciosa presença? Não sou moralmente melhor que muita gente que conheço; estou bem a par de certas limitações crônicas que me acompanham há dezenas e dezenas de anos. Por que a mim? Essa escolha feita por Vós deixa-me numa solidão incômoda. Este “blog”, propiciado por uma engenhosa tecnologia moderna, me dá,. antes do conforto de uma rara e eventual visita ao “oásis”, a possibilidade de conversar com meus botões, de conversar Convosco, Senhor. Uma conversa sem resposta, como também não a teve Judas, o apóstolo curioso.

Senhor, que quereis que eu faça?
São Paulo era um homem de vontade firme, era um fariseu sincero. Estava errado na posição religiosa que adotara; porém, era, com certeza, um homem religioso .E quando fez aquela pergunta, antes de ter a resposta já estava disposto a cumprir o que lhe seria ordenado.
Semelhante pergunta deveria eu fazer em muitas ocasiões de minha vida, em vez de agir pelo impulso, como tantas vezes fiz. E, infelizmente, ainda faço...

De fato, é bem mais fácil ficar criticando os bem criticáveis erros da cultura moderna que refletir nessas duas perguntas essenciais da vida cristã.


posted by ruy at 5:24 da tarde

20.7.04

 

Pro Domo Nostra


Contam que na Rússia soviética, tão logo ali se implantou o infeliz regime, os governantes adotaram uma estranha pedagogia socialista. Os recém nascidos, depois de um curto período de aleitamento materno, eram separados de seus pais e levados a certas creches estatais, a fim de serem submetidos desde cedo a um metódico processo de educação científica , de modo a eliminar a mínima probabilidade de serem as crianças contaminadas por um eventual e deletério espírito burguês.

Ora, não demorou muito para que o tal. esquema educacional fosse abandonado e as famílias voltassem a cuidar de seus próprios filhos, conforme a velha e boa rotina doméstica. Os fanáticos burocratas descobriram que as crianças criadas longe de seus lares tinham um crescimento físico e mental inferior ao normal.Isto é, descobriram, ao fazerem sua diabólica experiência, aquilo que modestas lavadeiras e humildes camponesas há milênios sempre intuitivamente souberam.

De fato, ao contrário dos animais irracionais – que pouco depois de nascidos já estão equipados com todas as ferramentas necessárias para uma vida individual e autônoma – o ser humano vem ao mundo trazendo carências que precisam ser supridas por um atencioso e demorado processo afetivo , processo esse que necessita de um ambiente restrito, até certo ponto fechado , capaz de proteger o crescimento integral de uma pessoa

.Há, infelizmente, famílias em que esse desejável fechamento se deturpa pelo egoísmo, pela generalizada ambição de poder dos que as chefiam. Entretanto, conforme sabiamente diziam os antigos, “abusus non tollit usum”; o fato de existirem famílias egoístas não deve ser motivo para que neguemos à família como tal o direito de existir.

Bem, admitida a hipótese razoável de que o leitor deste excurso seja uma pessoa normal e não um “snob” defensor de teorias bizarras e anti-naturais, sigamos com nossa análise.Sabemos como é difícil manter esse bom ambiente familiar.Não se trata apenas de propiciar aos filhos uma alimentação saudável e os adequados remédios quando ocorrem as doenças. Uma casa de família, mesmo pobre, deve ser aconchegante; precisa ter toalhas e lençóis limpos, precisa ter seus muitos objetos guardados com certa ordem e carinho; precisa de, pelo menos, uma pessoa adulta que supervisione as modestas finanças desse restrito grupo humano, e que faça isso com um cuidado não menor do que o do mais competente Ministro da Fazenda. Deve ter alguém que aja com uma especial diplomacia para aplainar as arestas, para atenuar os inevitáveis pequenos conflitos internos, surgidos da diuturna convivência.

O leitor não precisa ser muito sagaz para perceber logo que todos esses cuidados acima referidos costumam ficar sob a responsabilidade maior de uma das filhas de Eva. Cabe, sim, à mulher esse trabalho prosaico, muitas vezes penoso, feito algumas vezes na solidão de quem trabalha sozinho, sem o apoio daquele que deveria compartilhar não só as doçuras como os sacrifícios.da vida em família.

Pois bem, faz poucos dias um dos homens que participam do atual governo (...) do Brasil, aborrecido com certas insistentes reivindicações salariais feitas por uma classe especial de funcionários públicos, teria saído com essa frase, no mínimo deselegante: “em vez de reclamar, suas mulheres deveriam procurar um trabalho pra fazer”.

Disse eu que a frase é no mínimo deselegante, por que, para mim pelo menos, é uma frase atrás da qual está a espessa incapacidade de entender o significado e a conexa importância de uma família, de perceber o magno papel representado pela mãe de família. Uma incapacidade que, provavelmente, é fruto dos bem conhecidos, velhos e teimosos, preconceitos socialistas.

E foi por ter-me aborrecido enormemente com essa espessura da tal autoridade (...) que escrevi o que está aí em cima. Escrito “pro domo nostra”, isto é, em favor de nossas casas de família, nós que – graças a DEUS - crescemos numa delas.


posted by ruy at 11:15 da manhã

19.7.04

 


Os pobres


Vestidos,
aquecidos,
alimentados,
eles estão bem perto de nós.
Com absoluta certeza,
não estão registrados,
computados,
no Plano da Fome Zero.
Seus olhos, bem abertos,
vêem, nitidamente,
objetos próximos ou distantes.
Seus ouvidos, desimpedidos,
podem ouvir os sons mais diversos,
ruídos prosaicos ou melodias feitas com arte.

São esses mesmos olhos e ouvidos
que nós, tantas vezes distraídos,
ficamos sem contemplar.
São eles que nos pedem, sem falar,
uma discreta esmola ,
que sempre podemos dar;
um pouco da imensa riqueza
guardada dentro de nós.

Um sorriso,
uma palavra amiga,
ou, quem sabe, alguns silenciosos instantes,
rezando interiormente,
ouvindo atentamente,
pacientemente,
a grande pobreza do outro.

Senhor, tende piedade,
perdoai-me por eu haver, tantas vezes,
faltado à Caridade.





posted by ruy at 10:50 da manhã

 

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