Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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17.7.04

 
Algo sutil e que anda fazendo muita falta


Faz poucos dias, um jovem e inteligente professor, meu colega de trabalho, enviou-me pela Internet cópia de um artigo publicado faz pouco tempo na revista VEJA (9 de junho de 2004, página 116). Como não tenho o hábito de ler jornais e revistas, o artigo me trouxe grata surpresa.Creio que muito do que o autor ali escreveu pode ser criticado pelas pessoas mais pragmáticas, as quais com certeza vão demonstrar-nos facilmente a impossibilidade da realização de todas as sugestões propostas no artigo. Isso não importa. A vida não é feita somente de demonstrações cartesianas.
Bem, antes de fazer neste “post” meus comentários sobre o referido artigo, vou transcrevê-lo, porquanto é possível que outros leitores deste “blog” também não sejam leitores habituais da VEJA e, por isso mesmo, talvez não conheçam o texto ora transcrito.

Sem lenço nem documento.
( Diogo Mainardi )

Que tal abolir o salário mínimo? O Brasil funcionaria melhor sem ele. Que tal abolir também a carteira profissional, as férias remuneradas, o imposto sindical, o décimo terceiro, a Justiça do Trabalho, a aposentadoria pública? Quem criou tudo isso foi a ditadura getulista. O autoritarismo do Estado Novo foi eliminado da política, mas sobrevive até hoje na economia.


O emprego com carteira assinada é o maior entrave para o crescimento do país. Custa caro demais para o emprega­dor e confisca boa parte do salário do trabalhador. O modelo a seguir é outro: o do emprego informal. A informalidade é o que há de mais salutar na economia brasileira. Deve ser incentivada. Deve ser estendida a todos os setores produtivos. A informalidade no mercado de trabalho barateia a mão-de-obra, aumentando a oferta de emprego e melhorando a competitividade das empresas. Em­presas mais competitivas seguram a inflação e sustentam a balança de pagamentos. Quer melhor do que isso?


Claro que nenhum trabalhador aceitaria abrir mão de seus direi­tos sem ganhar algo em troca. O poder público precisaria oferecer-lhe uma contrapartida. A única contrapartida cabível seria aumentar sua renda. Isso só poderia ser feito tirando dos ricos e dando aos pobres. Realmente rico, no Brasil, é o Estado. Então é dele que de­veríamos tirar. O Estado teria de cortar os impostos. Quanto mais cortasse, mais dinheiro sobraria no bolso do trabalhador, que poderia escolher livre­mente em que gastar. Se quisesse férias, pouparia. Se quisesse uma pensão, faria um plano previdenciário particular.


A classe política alega que não dá pa­ra cortar os impostos porque isso prejudicaria sua capacidade de investimento. Qual o problema? De uma coisa todos os brasileiros sabem: os políticos investem mal. Destinam muito mais re­cursos à manutenção de seu próprio poder do que aos investimentos úteis. Com menos impostos a pagar e com menos gastos em mão-de-obra, a iniciativa privada poderia substituir o Estado nas obras de infra-estrutura. Quando uma empresa precisasse de um porto, construiria um porto. Quando precisasse de uma estrada, construiria uma estrada. O interesse das empresas nem sempre coincide com as necessidades da população. Uma coisa é certa, porém: pior do que esta agora, não ficaria.


Os políticos reclamam também que a redução dos impostos acarretaria a anulação dos programas sociais. O país não perderia muito. O poder público oferece má educação, má saúde, má habitação, má segurança. O Brasil nunca terá dinheiro para montar uma rede de proteção social. Os políticos insistem em afirmar o contrário apenas porque usam as despesas assistenciais para a barganha eleitoral. Eles se elegem distribuindo cesta básica, restaurante popular, salário-família, carro-pipa, vale-transporte. A democracia brasileira se baseia na compra de votos. Como não temos tradição democrática, vendemos nosso voto por uma ninharia.


Com menos direitos para os trabalhadores, menos impostos, menos investimentos públicos e menos programas sociais, o Brasil finalmente conseguiria chegar ao século XVIII. Uns trinta anos de capitalismo selvagem poderiam bastar. Uns trinta anos de Adam Smith.




E agora, meus comentários.

Todos os que já lemos o famoso trecho de “A Democracia na América” em que Tocqueville nos apresenta uma sombria antevisão do seria um futuro Estado totalitário podemos, com um pouco de imaginação, aplicar ao mundo moderno o que ali está escrito, sem esquecer, nesse  mundo moderno, o nosso próprio país. Mesmo que não cheguemos ao caso extremo descrito pelo genial viajante francês, poderemos vislumbrar uma tendência que, infelizmente, passa despercebida pela maioria das pessoas, entre elas muitas de alto nível de escolaridade. O fato é que, para perceber isso, é necessário algo bem sutil, algo que anda  fazendo muita falta hoje em dia. Refiro-me ao autêntico espírito poético, aquele mesmo espírito que transbordava dos escritos de Gilbert Keith Chesterton.


Não sou, conforme disse no início do “post”, leitor habitual de jornais e revistas. Creio que li uns dois ou três artigos do Sr. Mainardi, textos esses que me foram trazidos por amigos meus. Assim sendo, não posso afirmar que conheço esse jornalista. Entretanto, do pouco que já li escrito por ele, posso afirmar que se trata de alguém um pouco ou bastante irreverente, e não dotado do brilho literário visível em alguns outros autores que costumam aparecer na imprensa.Porém, nem sempre esse luminoso brilho implica uma inteligente perspicácia, aquela que é, quem sabe, prima do espírito poético.


Lendo as propostas radicais feitas por Diogo Mainardi qualquer pessoa comum vai sorrir com certa complacência; vai dizer que ele está de brincadeira. Talvez esteja mesmo. Entretanto, é possível que esse modo irreverente de abordar o tema da onipresença do Estado na sociedade moderna desperte os adormecidos, fazendo-os refletirem com maior seriedade sobre a desejável boa vida  de uma existência realmente humana.Uma boa vida que os medievais conheceram.


posted by ruy at 6:30 da tarde

16.7.04

 
  
  
               
  Amicus  Plato, magis   veritas


                Este “post” talvez seja o que mais antipatia vai provocar nos bem poucos leitores deste “blog” . Paciência. Como diziam os antigos: “ Platão é meu amigo, mas a verdade é mais minha amiga”. Por isso, peço aos amigos que tenham um pouco mais de paciência e tentem chegar ao final do texto ora editado no DD .

Faz poucos dias uma pessoa a quem muito estimo deu-me de presente uma coleção de ensaios literários de Jorge Luis Borges ( “Otras inquisicioenes” -  1952).
Desnecessário é apresentar aos leitores esse escritor argentino que, mercê de seus indiscutíveis méritos literários, tornou-se respeitado no mundo inteiro, tão respeitado que em 1970 houve enorme polêmica em razão do fato de não lhe ter sido dado o merecido prêmio Nobel de literatura. Vou, pois, logo ao ponto que motivou os seguintes comentários.

Quando lemos os ensaios de Borges há dois aspectos deles que ficam imediatamente percebidos: o estilo elegante e a assombrosa erudição do escritor.Esta segunda marcante característica talvez tenha sido conseqüência de uma certa pressa, que o brilhante artista da palavra escrita teria tido, de ler tudo o que fosse possível antes que a cegueira madrasta  o impedisse de adquirir conhecimentos necessários para o exercício eficiente da nobre arte. Neste ponto – e agora já começo a desagradar a muitos – convém lembrar que a erudição não significa necessariamente conhecimento substancial de um assunto.
Note o leitor que grifei a palavra substancial. Por quê? Porque usualmente muitos a usam como sinônimo de abundante e, portanto, ligando-a à categoria da quantidade .No contexto deste “post”, substancial significa de fato: essencial .Assim, ter um conhecimento erudito sobre certo escritor não implica conhecer o núcleo de seu pensamento, não significa conhecer o principal, e que é a pessoa do escritor.

Pois bem, um dos ensaios de Borges que estão no livro acima referido intitula-se: “El espejo de los enigmas” e versa, curiosamente, sobre Leon Bloy.Digo curiosamente porque, em que pese o fato de Bloy ter sido um escritor católico, e católico de convicção plena, é um autor hoje quase desconhecido até mesmo pelos leitores  fiéis à Igreja, desconhecimento esse tanto mais fácil de comprovar quanto mais verificamos a enorme dificuldade de encontrar obras do Peregrino do Absoluto.

Borges usa como referência para desenvolver seu ensaio um trecho da primeira epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13, versículo 12:
Nós agora vemos [a DEUS ] como por um espelho, em enigmas, mas então o veremos face a face. Agora conheço-o em parte. Mas então hei de conhecê-lo como eu mesmo sou também [ dele ] conhecido.

Nesse desenvolvimento, Borges vai registrando várias citações, colhidas em alguns livros de Bloy, nas quais aquele trecho Paulino tem presença clara e ostensiva ou está subjacente e , depois de vários comentários próprios, o mesmo Borges termina o ensaio qualificando Leon Bloy como um heresiarca .Para o meu próprio desgosto vou transcrever o fecho do referido ensaio: 
  “Nenhum  homem sabe quem é”, afirmou Leon Bloy . Ninguém como ele para ilustrar essa ignorância íntima. Acredita-se como católico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas, um irmão secreto de Swedenborg  e de Blake: um heresiarca. (sic).

Ora, mesmo descontando um certo  exagero literário do termo “heresiarca” (algo que Bloy não foi de jeito algum) , tal adjetivo aplicado ao sofrido escritor francês é sumamente injusto. Bastaria lembrar a história (verídica) do jovem casal Jacques e Rahíssa Maritain. Quando estavam ambos à beira do mais profundo desespero, admitindo inclusive a hipótese do suicídio, aqueles moços, então angustiados universitários, foram convertidos à fé católica depois de terem conhecido pessoalmente o escritor comentado pelo brilhante ensaísta argentino. Um jovem protestante e uma jovem judia penetraram na Igreja levando como padrinho de seu batismo o católico de obediência integral, o cristão autêntico chamado Leon Bloy.

Toda erudição nos impressiona, mormente se for apresentada com brilhantismo, com elegância. Entretanto, conforme escrevi acima, ela jamais deveria ser confundida com o conhecimento verdadeiro. Sinto muito.


posted by ruy at 10:02 da manhã

12.7.04

 


Reflexões de uma segunda-feira de inverno


Ontem, domingo, fui mais uma vez à missa das oito horas no mosteiro de São Bento, que vem sendo habitualmente celebrada por Dom Ireneu Penna.
A manhã chuvosa e bastante fria não impediu que a igreja ficasse repleta de fiéis. Afinal, ontem foi mesmo comemorado o dia de São Bento, o autor da Santa Regra, o Patrono da Europa.Quase que o Ruy assistia à missa em pé; salvou-me do desconforto uma senhora, também de seus setenta anos, que me mostrou um lugar ainda disponível.Muitas pessoas não tiveram igual sorte.

Apesar de toda essa grande quantidade de pessoas, a missa transcorreu em respeitoso silêncio, só interrompido pelas leituras da rubrica e pelas respostas normais, em voz alta, dos assistentes.

A homilia de Dom Ireneu foi-nos apresentada, como de costume, em tom discreto, sem nenhuma retórica, como se estivesse conversando conosco. De vez em quando fazia um comentário sutil, provocando sorrisos também discretos. Inicialmente o monge celebrante comentou os textos da missa, comentários simples, acessíveis a pessoas comuns. Depois falou sobre o fundador da Ordem Beneditina.Foi admirável o entusiasmo contido com que Dom Ireneu nos mostrou os admiráveis feitos do homem que aos quinze ou dezesseis anos fez a definitiva opção que não só mudaria sua própria vida individual, sua existência de pessoa, de batizado, como também – sem que ele tivesse isso planejado – mudaria a face de um continente, gerando as próprias raízes da cultura medieval e, por vias das conseqüências, da própria cultura Ocidental moderna.

Se o leitor deste “post”, ao ler meus adjetivos aplicados ao estilo da homilia de Dom Ireneu, imaginar que ele esteja desatento às realidades, aos fatos que nos preocupam ou, no mínimo, nos aborrecem quando folhamos os jornais, quando lemos certos informes na Internet ou quando vemos o noticiário da TV, está enganado. Dom Ireneu, sendo um homem muito bem informado, não deixou de referir-se a um magno problema da Europa de hoje, qual seja, a crescente presença da comunidade muçulmana em países que, em distante passado, foram realmente cristãos. Uma presença que pode acobertar agressivos e fanáticos terrorismos.

Neste momento é oportuno lembrar uma verdade essencial.O fato de alguém ser cristão não significa que essa pessoa seja necessariamente um santo. O batismo não destrói nossa liberdade. O imprescindível – do ponto de vista da moral – é que saibamos sempre dar nome aos bois. Ora, o que já atingiu as raias do absurdo é a arrogância de homens poderosos, em vários países, com regime democráticos ou não, homens que vêm criando leis (leis ...) a favor do aborto (infanticídio) e do chamado “casamento” homossexual. Conforme muito bem disse Dom Ireneu, estamos “cortando as raízes da nossa civilização”. E isso, meus amigos - digo agora eu, Ruy Maia Freitas - é algo muitíssimo mais grave que as mancadas estratégicas de George Bush Jr.
[A Internet é mesmo uma tentação para ficarmos brincando, dizendo coisas engraçadas, fazendo comentários espirituosos, elegantes uns, grosseiros outros. Porém, já não estou mais em idade de praticar tais diletantismos. Tenho que editar neste “blog” textos que eventualmente vão desagradar alguns dos que me lêem.]

Ontem à noite, minha mulher e eu tivemos a feliz oportunidade de rever na TV um antigo filme preto e branco : “A Canção de Bernadete” . Um filme que, produzido com uma dignidade que hoje é bem rara, focaliza a vida admirável de uma humilde camponesa, inculta até mesmo em certas verdades da fé, e que, em pleno orgulhoso século XIX, foi chamada pela mais santa das mulheres para ouvir, no próprio dialeto daquela pobre região da França, esta afirmação misteriosa :

- Eu sou a Imaculada Conceição

Pois é, curiosamente comecei meu domingo de ontem ouvindo um padre, um bom padre, falando sobre certas realidades históricas e a conexão delas com a fé cristã.Terminei o mesmo domingo vendo e ouvindo da boca de uma santa uma verdade nuclear, parte essencial do mistério de nossa existência, não apenas no que toca à nossa curta existência neste transitório mundo, mas, sobretudo, na existência considerada integralmente, contemplada no mistério do amor efusivo do próprio Deus. Escreveu Leon Bloy: “ A Imaculada Conceição é o Mistério dos Mistérios”(pensemos agora na super-infeliz atitude do padre (...) Teillard de Chardin ao recusar-se a aceitar o Dogma do Pecado Original).

Tudo isso, leitor amigo, deveria ser assunto para nossa permanente reflexão, mormente diante dos sombrios fatos que estamos presenciando.



posted by ruy at 10:07 da manhã

 

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