Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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8.7.04

 
Lições de gatos


Cavalos, cães e gatos de vez em quando assumem posturas, digamos, “esculturais”, como se estivessem fazendo pose para um pintor ou um fotógrafo.Bem, se isso ocorre com esses três animais creio que a situação seja mais sugestiva no caso dos gatos. Por quê? Talvez por causa do silêncio maior que cerca os passos do felino.E mais, gato anda em ritmo nobre; em geral só corre quando vai atrás do rato, ou quando enxotado por alguém supersticioso ou irritado com miados na madrugada.Mas, no “post” de hoje, mais que sobre a pose dos bichanos, quero falar sobre algumas “lições de gatos”.

Faz uns dois dias estive descansando em um hotel serrano. Uma noite, minha mulher e eu vimos, em um pátio próximo do restaurante, uma caixa de papelão com a tampa aberta.Logo alguém nos explicou de que se tratava. Aquela caixa era uma armadilha para apanhar um certo gato que andava aprontando a seguinte gracinha : pular pela janela de um dos apartamentos situados no andar térreo e fazer outras gracinhas menos elegantes no quarto do hóspede.

Irritado com essas “façanhas” do animal, o novo gerente do hotel dera ordem ao seu auxiliar mais próximo para que desse um sumiço no gato, porém sem usar o recurso extremo de matar o atrevido. Ora, a pessoa que nos estava contando o caso disse que mais de uma vez o gato fora capturado e, em seguida, confortavelmente levado, em um jipe utilitário, para um terreno distante do hotel, sendo ali abandonado. Entretanto, para surpresa de todos, sempre o gato voltava!

Ao ouvir esse caso do teimoso retorno fiquei pensando nessa misteriosa orientação que trazia o gato de volta a sua “casa”.E pensei também num outro retorno, que deveria ser feito com teimosia não menor que a do gato, o nosso retorno à Casa do nosso Pai Celeste.Lá onde poderemos fazer, com nosso corpo celeste, um infinito número de “gracinhas”.

No livro de Gustavo Corção em que ele conta o emocionante retorno à Igreja de seu batismo (“A Descoberta do Outro”) há um capítulo cujo título é este: “Onde um gato é um gato”.O que o autor nos mostra no referido capítulo é a maravilhosa descoberta da objetividade , descoberta essa logo acompanhada pelo necessário abandono de uma praga que atrapalha nossas vidas, e que é justamente o nosso tolo apego à opinião própria. Entenda-se: opinião.Não posso obrigar ninguém a gostar de ouvir Debussy ou de ler Chesterton; gosto de fato não se discute. Mas, juízos de valor devem ser feitos com a inteligência, e não com a mera sensibilidade, desprovida do apoio de nossa faculdade mais nobre.


Cena bonita (e verdadeira )


Na hora em que minha mulher e eu já estávamos com toda a bagagem dentro do carro, prontos para voltar aos atropelos da cidade grande, assistimos a uma cena que nos comoveu.
Alguns metros à frente, um grupo de uns dez moços, humildes funcionários do hotel, estavam em círculo, mãos dadas uns com os outros, rezando. Sim, rezando antes de começar mais um dia de trabalho prosaico e cansativo. Rezando a céu aberto, em pé, em público, sem nenhum respeito humano; dando um testemunho de fé em nosso Pai Comum.
Minha mulher pediu que eu desligasse a ignição e ficássemos em silêncio esperando o término da prece daqueles moços. Só então ligamos de novo o carro para começar nossa viagem de volta.


Na serra


Na serra, quando entardece,
O azul do céu é mais lindo,
Meu coração se enternece,
E acabo sempre sorrindo.




posted by ruy at 9:07 da manhã

7.7.04

 
Três livros e um autor

Os povos de língua inglesa na Europa têm dado ao mundo muitos escritores, vários deles famosos.O perfil desses artífices da pena é de variado matiz; entre eles encontramos o virtuoso Tomás Morus, grande santo da Igreja, e o moralmente condenado Oscar Wilde; o paladino da fé cristã que foi Chesterton e o materialista Bertrand Russel; a romancista de estilo claro e linear chamada Jane Austen e o enigmático Joyce, que meu neto afirma ser capaz de compreender nas entrelinhas.Entre eles vemos o clássico Robert Louis Stevenson, com seus piratas “bem comportados”, e o menos otimista Aldous Huxley, um dos profetas dos sombrios tempos que já estamos vivendo.

Ora, um dos autores modernos que usam o idioma de Shakespeare e cujos livros têm sido traduzidos aqui no Brasil é o brilhante jornalista inglês Paul Johnson. De vez em quando, também artigos seus saem publicados em nossos jornais. Lembro-me de dois deles, um dos quais faz severa crítica à imprensa e saiu aqui publicado com o próprio título original: All the lies it’s safe to print” (sic); o outro dá um claro apoio público ao Primeiro Ministro Blair no episódio da guerra do Kwait (não sei se hoje Johnson teria dado o mesmo apoio no caso do Iraque).

Vou me referir a três dos livros desse autor que foram editados em português em nosso país.
O primeiro é o “Tempos Modernos – (dos anos 20 aos anos 80) “ (um aluno da escola onde ensino, ao participar de um concurso de leitura usou uma edição original em inglês atualizada, que vai dos anos 20 aos anos 90).Essa obra é repleta de fatos históricos que se inserem na pseudo calmaria dos anos 20, fatos que ocorreram no entreato dos anos 30, anos que assistiram ao crescimento do nazismo na Alemanha, fatos que se sucederam nos turbulentos anos 40, numa época que viu a segunda Grande Guerra mundial, o pesadelo da Guerra Fria e a expansão mundial do comunismo. Johnson cita, por exemplo, entre centenas de acontecimentos por ele catalogados, as lágrimas que Adolfo Hitler teria chorado em um leito de hospital ao saber da abdicação do Kaiser Guilherme II e a bárbara agressão feita a professores de escola secundária em um país da Ásia, que tiveram os tímpanos perfurados por varetas manejadas por estudantes comunistas, logo após a revolução que implantou ali a infeliz Utopia.Quem quiser de fato conhecer um excelente resumo da história mundial daquelas seis décadas deve ler o “Tempos Modernos”.Li esse livro de ponta a ponta e fiquei certamente bem informado sobre o tema.

Ora, um belo dia vejo na estante de uma livraria um outro livro do mesmo autor inglês, desta vez um estudo sobre Santo Agostinho. Curioso, e influenciado pela boa impressão que me causara o “Tempos Modernos”, peguei o volume e comecei a folhear, lendo vários trechos que me pareciam mais interessantes. De repente, uma enorme surpresa: aquele jornalista, que se revelara um meticuloso colecionados de fatos da história moderna, volta-se para uma tarefa que somente pensadores muito amadurecidos se arriscam a fazer, qual seja, a de interpretar a vida e a obra do grande Doutor da fé católica.E, não satisfeito com o lançar-se nessa trabalhosa e acidentada aventura, o jornalista passa a criticar o santo cuja obra serviu de apoio a Santo Tomás de Aquino quando este escreveu a Suma Teológica, e vem servindo há séculos de inspiração à piedade cristã na Igreja.

Todos os que conhecem o “affaire” Lutero sabem que o irrequieto frade alemão era agostiniano, isso é, pertencia à ordem religiosa que há séculos se inspirava no estilo do filho de Mônica. Ora, todos os católicos bem informados sabem que certas passagens da epístola de São Paulo aos Romanos, se não forem lidas “cum grano salis” , podem induzir a interpretações perigosas. Os mistérios da Graça, da misericórdia divina e da condenação eterna de fato não são fáceis de contemplar. Esse é um dos bons motivos para a existência de um Magistério eclesial e de uma disciplina que nos proteja contra o erro doutrinário. Tais dificuldades sempre existiram. É sumamente injusto, para mim pelo menos, querer culpar Santo Agostinho pelo mal uso que muitos têm feito de seus escritos. Para encurtar este “post”, coloquei o tal livro de volta na estante da livraria e nunca mais pensei nele.

Há poucos dias estive na serra, tirando algumas rápidas horas de férias. Bem, ali encontro, em um de meus passeios, uma pequena porém muito simpática livraria em cuja vitrine, bem à mostra, o que de repente vejo ? Um outro livro de Paul Johnson traduzido para o português: “O Livro de Ouro dos Papas”. Olho curioso através do vidro e lá está, bem visível sob o titulo do livro, esta informação: Prefácio de frei Betto .
Faz uns dez anos, mais ou menos, o saudoso professor Gladstone Chaves de Melo, insígne filólogo brasileiro, homem de vasta cultura, católico de vida sacramental, escreveu um opúsculo intitulado: “Cuba, Fidel, o frade e o cardeal”. Nessa obra Gladstone conta-nos como o comunismo foi implantado naquela ilha do Caribe, relata as bárbaras torturas dos presos políticos, entre eles o poeta Armando Valadares, que só foi libertado graças a intercessão de Mitterrand e saiu da ilha em cadeira de rodas, tal era seu deplorável estado físico. O mesmo Gladstone transcreve no livro uma longa e afetuosa (é isso mesmo leitor: afetuosa ) carta do cardeal Arns, na época arcebispo de São Paulo, dirigida ao ditador cubano, deixando entender que ele, Arns, via aquele regime político como uma forma de Paraíso terrestre. Sabe o leitor quem levou pessoalmente a carta a seu destinatário? Foi justamente aquela mesma pessoa que prefaciou a tradução que se exibia na vitrine. Dessa vez eu não quis nem pegar o livro de Paul Johnson ...

Meu amigo leitor, se você está bem a par da história antiga sabe muito bem quantas injustiças existiam na época em que o Verbo viveu entre nós. Ora, se há um papel que Nosso Senhor decididamente não desempenhou foi o de um reformador social.
Num desses dias que passei na serra sofri um pequeno acidente, graças a DEUS sem maiores conseqüências. Entretanto creio que foi providencial meu desajeitado tombo. Os olhos roxos com o sangue que, logo em em seguida, se espalhou pela face lembram-me a intrínseca fragilidade humana, sempre tão próxima da morte.
Esse pessoalzinho que teimosamente vem insistindo em colocar nações inteiras em regime de “colégio interno” talvez não tenha percebido que pior, muito pior que as torturas e os fuzilamentos é a sombria “desesperança organizada”. O homem que prefaciou o “Livro de Ouro dos Papas” há muito tempo vem cooperando com essa infeliz desesperança.


posted by ruy at 5:20 da tarde

 

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