Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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25.6.04

 
Algumas lições tiradas de um livro


O livro a que vou me referir no “post” de hoje não é um romance, não é um estudo sobre a história, não é uma coleção de ensaios literários, nem é um didático manual de filosofia para principiantes. É um livro que vi sobre a mesa de trabalho do meu colega e grande amigo B..., um competente engenheiro eletrônico, um dedicado professor e um habilidoso artesão que, se fosse levado por algum milagre à Idade Média, lá com certeza não daria nenhum vexame, tamanha é sua habilidade manual.
Pedi a B... que me deixasse passar os olhos no tal livro e, depois de ficar com a obra durante algum tempo, registro agora várias informações sobre ela.

Autor do livro: Robert Cannon Jr. (depois de pesquisar na Internet confirmei minha suposição; esse nome “Cannon” é mesmo de origem irlandesa).
Título do livro: “DYNAMICS OF PHYSICAL SYSTEMS”.
Editora : Mc-Graw Hill, “copy wrigth” de 1967.
Função exercida pelo autor na época da edição do livro: “Assistente Secretary of Transportation” do Departamento de Transporte do governo americano.

Sossegue, amigo leitor, não vou comentar aqui assuntos tratados nas quase mil páginas (isso mesmo: quase 1000 páginas) do livro, tais como: teoria de equações diferenciais de várias ordens, transformadas de Laplace e Fourier, análise vetorial, equivalências eletromecânicas, análise espectral, teoria dos sistemas lineares, estabilidade de sistemas físicos e outras coisas desse gênero.

Logo no verso da primeira página da obra está uma dedicatória do autor :
To
Philip,
Douglas,
Beverly,
Frederick,
David,
Joseph,
James
and
Dorothea

que logo desconfiei serem os filhos e a esposa de Mr. Cannon. Suposição essa confirmada pelas palavras finais do prefácio::
“Ninguém que não tenha escrito um livro técnico poderá entender a profundidade da gratidão com que agradeço o apoio de minha esposa e de meus filhos. Têm sido anos de encorajamento e sacrifício, irrestritos e inspiradores.Este livro é deles. A eles é dedicado.

Bem, nas páginas 480, 481 e 482 desse livro de engenharia o seu autor escreve uma elegante nota sobre a escala musical, inserindo no texto uma minuciosa figura explicativa sobre as típicas relações entre freqüências usadas na música. Dá para o leitor uma clara explicação sobre a chamada escala bem temperadade Bach, esclarecendo suas características básicas.

Essa nota sobre escalas musicais termina, na página 482, com as seguintes palavras (atenção, Alfredo Votta!):

Os tons musicais são meramente as partes elementares (“building blocks”) da música. A genialidade do compositor, ao ordenar a seqüência da entonação (melodia), a seqüência da duração e da intensidade (ritmo e dinâmica) , a combinação simultânea (harmonia) e os meios para gerar isso (orquestração) , em primorosos padrões de infinita variedade, para evocar imagens e idéias – essa genialidade, embora baseada fundamentalmente na física, estende-se além da ciência para chegar ao reino da arte nobre.

Bem, oxalá que o leitor deste “blog”, ao observar com atenção os vários detalhes que registrei a respeito desse livro sobre “Dinâmica dos Sistemas Físicos” - incluindo: a prosaica função burocrática exercida pelo seu autor em Washington, a paciência durante os anos de redação da obra, o seu carinho e sua gratidão para com a família e a sensibilidade do escritor de um livro técnico para a precisão e a beleza existentes na música - que o leitor deste "blog" consiga vislumbrar um ideal de cultura. Algo que, se copiado por nós brasileiros, poderia fazer deste nosso país um grande país, não tanto em termos de PIB e de exportação de soja ou produtos industriais, mas, sobretudo, grande em civilização.

Um último detalhe. O livro de Robert Cannon Jr. foi editado em 1967. Nesse mesmo ano, as pessoas que governavam o Brasil estavam tendo um enorme trabalho para impedir que os teimosos, os eternos sonhadores com o tal “mundo melhor” tentassem implantar neste país um permanente regime do tipo “colégio interno”, semelhante àquele que há muitos anos infelizmente existe em uma certa ilha do Caribe e em um certo notório país da Ásia.


posted by ruy at 3:51 da manhã

23.6.04

 
Um esclarecimento


Faz poucos dias (18/jun) publiquei o “post” intitulado “ Trágica simetria”. O motivo do referido texto foi a minha preocupação (habitual) em alertar os moços que me lêem sobre um problema cultural de nossos dias, problema cuja origem remota é mesmo o antropocentrismo. Refiro-me ao culto do poder e do sucesso na vida. Trata-se de um “post” meio longo, com nove parágrafos. Foi escrito com alguma pressa, essa atitude que, conforme diz o milenar e sensato adágio, é a inimiga da perfeição.

Pois é, justamente devido a essa lamentável pressa, lá no meio do “post” deixei escapar esta frase : “O Mal existe”. Apenas três palavrinhas.Entretanto, essa pequena frase pode, infelizmente, se for precipitadamente separada do contexto do “post”, passar a muitas pessoas que não me conhecem uma falsa idéia sobre o que penso a respeito da realidade do mundo, sobre o que eu entendo sobre a realidade da vida.

De fato, segundo nos ensinam as boas e sérias Introduções à Filosofia (em português há pelo menos umas três ou quatro), particularmente no capítulo dedicado à metafísica, o mal como tal (com perdão da inevitável rima...) “não existe”.Amigo leitor, preste atenção, por favor, nas aspas que coloquei na frase anterior. Por que coloquei as aspas? Porque, usando uma tradicional expressão latina, a frase “não existe” , referindo-se ao mal, deve ser entendida cum grano salis .Em vernáculo e mais explicado: aquela frase deve ser entendida no devido contexto, deve ser compreendida mediante certas considerações abstratas, mais acessíveis a uma pessoa que tenha o habitus (não confundir com a palavra “hábito”, mera repetição mecânica) da reflexão filosófica, no sentido estrito do termo.

Quando afirmamos de alguma coisa que ela “existe” ipso facto estamos dizendo que essa alguma coisa é um “ser”. Pode ser o que se chama “um ente de razão” , como por exemplo os modelos físicos que usamos para realizar o estudo científico da engenharia moderna.Um canal teórico, ideal, de comunicações, com faixa de passagem infinita e totalmente sem ruído, é com toda a certeza um “ente de razão”.Entretanto, esse ente de razão está presente, “tem existência” nas aulas que dou aos meus alunos. Eu preciso dele como ponto de partida para estudar e ensinar o comportamento dos canais “reais”, os canais da prática, fim de que, fazendo a comparação entre os dois tipos, possamos melhor identificar as duras limitações da vida como ela é.

Deixando a engenharia e voltando ao “post” do dia 18, creio que não assustarei o leitor se disser agora que “o mal não existe”. Esse “não existir” não significa que não ocorram males no mundo, males físicos e morais. Basta meia hora diante do noticiário da televisão para constatar sua ocorrência. Significa, sim, que não podemos atribuir a nenhum ser, visível ou invisível, o que seria o absurdo de “uma essencial malignidade”. O que seria, como nas histórias em quadrinhos, um misterioso “Gênio do Mal”. Isso não existe.

Se por acaso algum leitor tenha ficado com uma idéia errada por causa daquela frase de três palavrinhas que, num impulso gauche , eu inseri em certo trecho do “post” do dia 18, por favor, apague de sua memória a frase infeliz. Ou melhor dizendo: NÃO a entenda de maneira incorreta, por favor!


posted by ruy at 6:50 da manhã

22.6.04

 

A leitura de um livro


Como introdução a este “post”, digo que ele foi-me sugerido por um fato, muitas vezes infelizmente observado por mim, o que podemos chamar de: “uma leitura simplesmente analítica”.

A engenharia moderna é ensinada nas universidades tradicionais e mais sérias de acordo com um método científico. Procura-se fazer com que o futuro engenheiro adquira a capacidade de realizar, com a desejável precisão, a análise dos diferentes fenômenos físicos presentes nos sistemas que provêm a sociedade dos materiais, da energia e da informação de que ela precisa. Depois de um certo tempo, supondo que o aluno já tenha aprendido a fazer com desembaraço a referida análise, o curso prossegue tentando fazer com que o discente aprenda a sintetizar , isto é, a calcular e especificar corretamente o melhor projeto na especialidade de engenharia por ele escolhida. Portanto, análise e síntese acompanham o referido curso e, tal como sói acontecer em qualquer atividade intelectual, a segunda, isto é, a síntese é sempre mais difícil de ser realizada. E por que acontece desse modo? Porque a análise é sempre mais espontânea; a síntese exige um maior trabalho de criatividade.

Ora, quando lemos um livro qualquer, seja ele um texto de engenharia, seja uma coleção de ensaios literários, seja um romance, naturalmente fazemos sempre uma análise. Ao longo da leitura vamos, com maior ou menor atenção, percorrendo capítulos, parágrafos, frases e colocando na memória os trechos que julgamos mais importantes ou mais interessantes. Vamos emitindo para nossos próprios botões nossos juízos de valor, nosso gosto ou desgosto pelo que estamos lendo.De repente, chegamos ao fim da leitura.

Nesse momento damos nosso veredicto: “gostei” ou “não gostei” do livro. Bem, neste ponto acabou nossa tarefa mais fácil, a de ler “analiticamente” a obra. Resta fazer o mais importante e mais difícil: sintetizar tudo aquilo que acabamos de ler. E, mais que isso, realizar essa síntese da maneira mais precisa e mais fiel ao que o autor tinha em vista quando planejou escrever todas aquelas páginas.Se a precisão já é difícil, muito mais será a fidelidade Por quê? Pela razão que isso requer uma atitude raramente encontrada no leitor convencional, aquele que lê apenas por mera curiosidade, ou para que não digam que ele é mal informado sobre o assunto do livro. Refiro-me à co-naturalidade com o tema e/ou com o pensamento do escritor. Um protestante convicto dificilmente fará uma síntese mais precisa de um livro que tenha sido escrito sob inspiração da doutrina católica. Não se trata de simples honestidade. Ela pode existir no leitor. O problema é mais complexo; é cultural, no sentido mais sutil desta palavra (que não é o de um mero somatório maior ou menor de conhecimentos).

Para não fugir ao vezo de professor, vou dar um exemplo bem prático.
Existe um livro que para mim tem um imenso valor. Trata-se desta obra cuja leitura foi várias e várias vezes recomendada aos amigos deste “blog”: DOIS AMORES, DUAS CIDADES. Vejo nesse livro um magnífico ensaio histórico, belamente escrito, sobre a civilização Ocidental moderna, um ensaio tanto mais importante em nossos dias quando sentimos perto de nós a perigosa ameaça terrorista de inspiração muçulmana, uma ameaça que deveria fazer-nos refletir seriamente sobre nossas raízes culturais..
Ora, é possível que um eventual leitor desse valioso ensaio simplesmente goste do que tenha lido, mas não chegue a perceber o mesmo que eu percebi ao terminar minha leitura dos dois volumes, ou seja, o vital entusiasmo do autor com as inúmeras verdades por ele registradas.


Santo Tomás Morus
No dia de hoje a Igreja celebra a memória de dois santos: o bispo São João Fisher e Santo Tomás Morus, ambos decapitados pelo rei Henrique VIII por terem ficado fiéis à fé de seu batismo, fiéis à boa doutrina.

Tenho um enorme xodó por Santo Tomás Morus. Vou dizer o porquê disso.
Morus viveu entre poderosos, porém, jamais deixou-se entusiasmar com o poder, nem guardou em seu coração o menor resquício de inveja dos que possuíam o poder.
Morus foi um autêntico intelectual, respeitado por seus pares na Inglaterra e na Europa, porém sua enorme cultura humanística nunca o deixou envaidecido nem fez com que ele perdesse de vista valores mais altos que o da beleza estética.
Morus foi um chefe de família exemplar, bom marido, bom pai, bom sogro, bom avô, mas esse amor aos seus não o impediu de dizer à mulher- que em prantos pedia a ele fizesse um acordo com o tirano - que infinitamente melhor que sua confortável casa em Chelsea seria a morada que Nosso Senhor havia prometido a todos os que Lhe fossem fiéis neste mundo.
Morus, no mesmo estilo que séculos depois seria o de seu compatriota Chesterton, tinha um sadio senso de humor, que o acompanhou até mesmo no instante em que tombou sobre seu pescoço o machado do carrasco.

São João Fisher e Santo Tomás Morus, rogai por nós!


posted by ruy at 9:00 da manhã

21.6.04

 

Finitude e esperança


O tempo irá acabar,
junto com suas medidas mecânicas,
eletrônicas,
e seus referenciais astronômicos.
Não haverá mais os dias e as noites,
nem fases da lua,
renitentes reguladoras de repetitivas marés.

O espaço vai acabar,
junto com suas distâncias siderais,
e outras muitíssimo menores,
como a que vai da minha janela aberta,
retangular vazio vespertino,
até quatro pequenas crianças,
passeando ombro a ombro,
do outro lado da rua.

O som vai acabar,
nas harmoniosas sinfonias,
altissonantes,
que fazem vibrar centenários teatros;
no murmúrio discreto das cascatas,
escoando escondidas no seio da mata.

As palavras vão acabar,
na discreta poesia,
na retórica vibrante,
na dialética elegante,
na lógica precisa.

Os corações que se dilatam e se contraem,
silenciosamente,
um dia cessarão seu binário compasso.

Então, depois desse definitivo fechar das cortinas,
diante do Verbo Eterno,
seremos para sempre o que somos.






posted by ruy at 10:48 da manhã

 

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