Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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20.6.04

 
O transcendente papel da nossa inteligência


Faz uns dois dias o mundo inteiro tomou conhecimento da morte de um cidadão americano decapitado na Arábia Saudita por terroristas muçulmanos.

Esta palavra, “muçulmano”, segundo leio em A Cruz e o Crescente , de Richard Fletcher (editora Nova Fronteira, 2004), significa: aquele que se submeteu. Essa submissão deveria ocorrer nas pessoas a quem fosse pregada a palavra de Maomé constantes do Corão, em que lemos:

Dizem os que descrêem : “A Hora nunca chegará”. Dize: “Sim, por meu Senhor, chegará” Ele conhece o invisível. Nada lhe escapa, nem mesmo o tamanho de uma formiga, nos céus ou na terra... (este trecho do livro sagrado dos muçulmanos está transcrito na página 27 do livro acima referido )

O senhor Fletcher é um professor inglês recém aposentado da universidade de York.Na orelha da capa posterior do livro acima citado consta que esse “scholar” publicou os livros Em busca de El Cid e A conversão da Europa: do paganismo à Cristandade, 371-1386 A.D. (best-seller em 1999), de onde deduzo que se trata de um historiador interessado pela Idade Média. Bem, interessar-se pela Idade Média é sempre bom. Resta saber se o pesquisador é realmente isento de preconceitos e está disposto a enfrentar o desafio que é o de analisar com precisão, sem cometer erros grosseiros, a época talvez mais complexa da longa jornada humana até nossos dias.

Ora, no prefácio que o próprio Fletcher escreveu para o livro recém publicado em português pela Nova Fronteira lemos: Este trabalho pretende ser uma introdução imparcial à história de um grande, complicado, intrincado e controvertido conjunto de relacionamentos que ajudou a dar forma ao mundo para muitos milhões de pessoas que vivem hoje em diferentes contextos culturais.

Bem, o prefácio é dele mesmo e ele tem o direito de escrevê-lo como quiser. Porém, não vejo qual seja a necessidade de um professor de história universitário declarar que seu livro pretende ser imparcial. A própria condição profissional do autor sugere essa imparcialidade como um pressuposto.Ou não? A impressão que tive nesse começo não foi, pois, muito agradável.

Logo na página 21, por exemplo, Fletcher nos diz que, mais freqüentemente do que se possa imaginar, mulheres santas podem ser veneradas nas terras onde a fé islâmica é observada. Pois bem, nesse instante duas referências gostaríamos de ler no livro ora citado: os nomes de algumas dessas santas muçulmanas e alguma obra, mesmo escrita por muçulmano, em que elas estejam mencionadas. Entretanto, o autor vai em frente sem preocupar-se com esse detalhe.

O primeiro capítulo do livro intitula-se “Filhos de Ismael”. A explicação desse título vai aparecer na página 25 onde é citado um pequeno trecho de Santo Isidoro de Sevilha referindo-se à passagem da Bíblia que nos fala sobre o filho de Abraão com Agar, a escrava. Ao citar o famoso enciclopedista da Antiguidade, que foi sem dúvida Santo Isidoro, Fletcher passa para o leitor a idéia – para mim não muito imparcial – de que o escritor cristão citado seria de visão estreita, incapaz de compreender a complexidade cultural dos povos árabes.

Pois é, falei em visão estreita. Vejamos algo sobre isso. O livro A Cruz e o Crescente pretendeu abordar a civilização árabe estabelecendo uma comparação com a civilização cristã. Logo nas primeiras linhas da página inicial do capítulo primeiro (página 17 do livro) Fletcher fala no Corão, fala no Islã (frisa, segundo pensa, imparcialmente que o Islã é a fé de um livro único) e fala em Maomé, citando, logo em seguida, esta data: 632 d.C., ano em que morreu o Profeta do Islamismo.Ora, num livro que se apresenta com aquela pretensão parece-me que seria bem justo e razoável dar pelo menos uma pequena notícia sobre o modo como viviam os muitos povos árabes antes que a eles fossem propostos os ensinamentos do “livro único” .Como que para ressaltar essa “unicidade” do Corão, Fletcher na mesma página 17 vai citando imparcialmente os muitos e diversos livros do Novo Testamento. E não satisfeito com isso, logo em seguida escreve:
De um certo ponto de vista, a história cristã tem sido a história do florescimento de diferentes tendências ou seitas, de fragmentações em pequenas células e de reformas encenadas tendo como pano de fundo o tumulto da polêmica , da denúncia e da trapaça (grifos meus).
Muito imparcial...

Um parêntese. Quem conhece um pouco de apologética sabe que a multiplicidade dos livros da Bíblia longe de ser um demérito é um importante ponto a seu favor desse que é o livro por excelência. É lamentável que um professor universitário não saiba disso.Fechemos o parêntese.

Voltando ao livro de Fletcher.O mais importante foi escamoteado, a saber, a resposta a esta pergunta:
- por que milhares e milhares de tribos árabes na antiguidade acabaram convertendo-se à crença muçulmana? Mesmo que não levemos em conta os muitos casos em que a nova fé tenha sido imposta ao “submisso” crente, ainda assim aquela pergunta, para mim fundamental, deveria ser respondida. Mas, o senhor Fletcher passou ao largo desse assunto. Preferiu imparcialmente mostrar que as complicadas afirmativas da fé cristã, incluindo o dogma da Santíssima Trindade, com suas três Pessoas que não são três deuses, serviam mais para causar discussões e gerar perplexidades (página 20, op.cit).

Bem, agora estamos chegando ao ponto que deu o título a este “post”.
Um livro modesto, porém escrito de modo sério, é a “HISTÓRIA GERAL DO OCIDENTE”, de autoria do Comandante Antonio Luiz Porto e Albuquerque, editada pelo Serviço de Documentação da Marinha. Ali podemos ler, explicados de modo claro, dois fatos relativos aos antigos povos árabes. Levavam vida simples, dedicados à agricultura, ao pastoreio ou ao comércio. Quanto à religião, eram politeístas.A nova crença, proposta por Maomé, monoteísta e Islâmica, oferecia àqueles homens de vida rude, atribulada pelo clima áspero do deserto e pelo nomadismo inquieto - em troca do cumprimento de certos deveres morais e da oração diária, metódica e reverente - oferecia a promessa de um “Paraíso repleto de delícias”. Sub-entendidas entre essas delícias estavam as ligadas ao sexo.

Agora o leitor pode fazer o contraste com aquela palavra do Cristo que nos diz claramente isto: no Céu não haverá homem nem mulher; seremos como os Anjos. Essa verdade sobre o nosso destino após a morte, supondo, é claro, estarmos em paz com DEUS, obviamente é admitida pela fé cristã.Ora, a Igreja há muitos e muitos séculos define a fé religiosa deste modo:
A fé é uma adesão livre e racional a uma verdade revelada. (grifo meu).
Essa presença da razão no ato de fé deveria lembrar a todos nós católicos o transcendente papel da inteligência. Deveria deixar-nos prevenidos contra os excessos que nossa sensibilidade possa cometer. De fato, como imaginar a vida perdurável, a chamada “Vida Eterna” sem fazer uso de nossa inteligência? Como imaginar uma semelhança com os Anjos sem aplicar, nesse esforço imaginativo, a nossa faculdade mais nobre?


Ora, um dos problemas culturais de nossos dias é que a palavra “nobre” causa repulsa até mesmo em nós católicos, nós que deveríamos ser mais atentos a certas hierarquias da Criação.


Um fato bem interessante

Foi observando a metódica e reverente oração dos muçulmanos que Charles de Foucauld certo dia começou a refletir seriamente sobre sua própria vida, até então cínica e superficial, a refletir sobre DEUS e a realidade da fé, e com isso começou seu processo de conversão, o retorno à fé de seu batismo.


posted by ruy at 3:31 da tarde

18.6.04

 
Trágica simetria.


Faz algum tempo uma de minhas filhas, em conversa comigo, disse-me estas palavras:
“pai, o senhor está naquela idade em que pode dizer muitas coisas sem ter que se preocupar com o que os outros vão pensar a respeito”.
Embora supondo que minha filha tenha razão, creio que não devo abusar do tal “direito”, mesmo porque vou estar sempre sujeito àquele comentário malicioso de um eventual leitor : “pois é, ele está naquela idade em que, já não podendo dar bons exemplos, dá bons conselhos”. O fato é que o “post” de hoje é particularmente dirigido aos leitores mais jovens deste “blog”, aqueles que ainda não ficaram angustiados com os problemas que a dura e competitiva rotina moderna traz para as pessoas comuns, aqueles leitores que ainda não perceberam de modo bem claro uma realidade que vai ser o nosso tema de hoje.

Hoje em dia, dada a facilidade dos meios de comunicação, rapidamente ficamos a par da pletora dos crimes mais violentos, mais sórdidos, mais repulsivos, mais infames que vêm acontecendo no país ou no estrangeiro, nas grandes ou nas pequenas cidades; sejam esses crimes cometidos por gente de baixo nível de escolaridade, sejam praticados por outras pessoas, portadoras de brilhantes títulos acadêmicos.Crimes conexos ao sombrio mundo das drogas ou perpetrados em outros contextos.

Diante dessa cruel realidade moderna, os eternos sonhadores do “mundo melhor”, isto é, os socialistas de vários matizes, notadamente os adeptos dos regimes políticos de Cuba e da China, esses teimosos “idealistas” pensam logo nisto: o crime é basicamente um problema social; por isso, no dia em que eliminarmos as injustiças sociais reduziremos a criminalidade a um nível bem próximo do zero .

Ora, admitamos por um instante, apenas para melhor fazer nossa reflexão, que essa “teoria” social do crime proposta pelos esquerdistas seja verdadeira. E daí ? Quem de nós teria coragem para chegar diante de uma pobre mãe pobre cujo filho tenha acabado de ser assassinado por alguns covardes bandidos, do tipo daqueles que foram glamourizados pelo filme “Cidade de Deus”, teria coragem, digo, para dizer àquela infeliz mulher que chora estas odiosas palavras: “não chore muito, minha senhora! Daqui a uns vinte anos este nosso país vai ser outro!”

Porém, não se trata apenas disso, isto é, de procurar uma causa social para o crime.Essa causalidade cartesiana, ainda que fosse verdadeira, jamais, repito, jamais vai esgotar o mistério da vida e o mistério da morte, o mistério da liberdade humana e o mistério do Mal.

Moços que me lêem neste “blog”, por favor, repito: por favor, não se deixem hipnotizar pelo diletantismo! O Mal existe meus amigos! O Diabo existe! O Diabo é um ser pessoal .Já refletiram sobre isso? E, do mesmo modo que é possível um homem ou uma mulher fazerem uma definitiva opção pelo serviço de DEUS, pelo servir a um DEUS pessoal, optarem por entregar inteiramente suas vidas Àquele que as criou e de Quem elas dependem , desse mesmo modo, isto é, com essa idêntica liberdade, um homem ou uma mulher podem optar pela decisão inversa, em uma trágica simetria.Ou seja, em troca de um sucesso na profissão, na carreira, nos negócios, na política, em troca do prestígio, da segurança, e do conforto, próprio e/ou de sua família, é possível que alguém conscientemente escolha as trevas em lugar da luz Somente essa possibilidade pode explicar tanta e tão silenciosa e fria maldade espalhada em volta de nós. A simplificadora explicação cartesiana dos socialistas para o mal existente no mundo, meus jovens amigos, chega a ser pueril..

Por alguns instantes olhemos em silêncio, em torno de nós, às vezes bem perto de nós, os poderosos, de vários níveis de poder, que estão em importantes posições de chefia na política, na indústria, no comércio, na direção da mídia e dos esportes populares, na produção cinematográfica.Esses homens poderosos que estão em destaque no Brasil e no mundo, ou eventualmente em nossas cidades menores, que já perderam sua antiga e boa ingenuidade. Olhemos em silêncio as brilhantes fotos coloridas e sorridentes que aparecem nas revistas de futilidades, tais como a Caras ou a Point de Vue.Olhemos em silêncio esse disseminado culto do poder e do sucesso.E, por trás desse culto maligno, o próprio Mal, sorrindo satanicamente. Pergunto: que é o sombrio consumo de drogas se não o tédio de uma sociedade que se esqueceu do endereço da Casa Paterna? Será que isso deve ser menos preocupante que a situação do Iraque ou da Palestina?

Cuidem-se, pois, meus jovens leitores. Cuidem-se porque, ainda que esse fato não esteja claramente visível para vocês, os cristãos convictos e bem alertados não têm mais nenhuma ilusão.Sabem que estão hoje vivendo realmente em modernas catacumbas. Catacumbas repletas de luz elétrica e de muitos outros recursos confortáveis, mas nem por isso menos catacumbas.


Bem, e agora podem dizer aquela frase maliciosa: “o Ruy está mesmo naquela idade em que, já não podendo mais dar bons exemplos, dá bons conselhos”.


posted by ruy at 1:04 da tarde

17.6.04

 
Três pontos para reflexão


Agradar os outros ou dar testemunho? O convívio humano não é mesmo fácil.Cada um de nós é único no mundo e essa condição faz com que, de certo modo contrariando o poeta John Donne, cada um de nós seja mesmo uma ilha, com seu mistério próprio, com sua solidão irrepetível no imenso oceano da existência humana. Entretanto, o poeta disse, e disse-o bem, que o dobrar dos sinos ecoa por todos nós, irmanados em nossa comum humanidade. Ora, o cristianismo, pregando a fé em DEUS Pai, no Filho e no Espírito Santo que de ambos procede, confere a essa fraternidade, digamos, natural , uma dimensão infinitamente mais profunda, e impele-nos ao apostolado, isso é, tentar propor aos nossos irmãos naturais, os outros homens, essa possibilidade de tornarem-se filhos convictos do Pai Celeste.

Ora, no afã de realizar essa aproximação muitas vezes esquecemo-nos do nosso real motivo e, por causa desse esquecimento, corremos o risco de cometer equívocos aparentemente inofensivos. Estou pensando neste instante na foto que alguém me mostrou no jornal faz uns dois dias. Ali estava, sorridente, um homem bom, um católico convicto, um cidadão exemplar, um professor de grande cultura, entregando de presente a um alto funcionário da ONU uma bizarra bandeira que trazia de uma lado o símbolo daquela importante organização internacional e no verso ... a bandeira da escola de samba da Mangueira Lamentável...


O que significa: “perder a nossa condição humana ?” No meu último “post” (dia 15/jun/04), em certo trecho escrevi isto: “uma falsa felicidade obtida ao preço de perdermos a nossa condição humana”.
Ora, obviamente ao escrever aquela frase eu não estava pensando em alguma fabulosa transformação de príncipe em sapo, como ocorre nas histórias de fadas, ou de um pacato lavrador em lobisomem, como nos contos de terror.Ao escrever aquele “post eu imaginava a situação infeliz de todos os habitantes dos países submetidos a regimes ditatoriais, sejam estes de que ideologia forem. Aos desatentos – e nesse conjunto o leitor pode tranqüilamente incluir muitos professores universitários de grande competência em suas áreas de conhecimento – aos desatentos, repito, não lhes causa nenhum incômodo, não lhe provoca nenhuma angústia, como a que levou Tocqueville a ter sua sombria antevisão, o fato de que os homens e mulheres submetidos àqueles frios regimes têm direito apenas ao essencial para sua sobrevivência, acrescido de algum circo para atenuar eventuais tensões ou melancolias..

A condição humana autêntica implica a garantida possibilidade de educar-se plenamente, do jeito como nos explica Mortimer Jerome Adler em seus claros e sensatos ensaios sobre educação. E neste momento me vem à cabeça a idéia de que aquele grande pensador americano só pôde elaborar, durante dezenas de anos, a sua luminosa proposta educacional porque morava em um país em que, apesar de todos os graves problemas lá existentes, mantém um clima de liberdade para todos que lá vivem, sejam ou não americanos. Logo em seguida ao atentado no trágico 11 de setembro, um meu colega de trabalho comentou comigo num nos corredores da escola: “Ruy, aquele atentado só pôde acontecer porque os terroristas gozavam de inteira liberdade nos Estados Unidos”.

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O solerte moralismo Diz o dicionário: Solerte: Que ou pessoa que é sagaz, maliciosa ou velhaca.. É isso. O moralismo está sempre à espreita, mesmo dos católicos – ai de nós...- que tenham sido favorecidos com a graça de possuírem a melhor doutrina, de terem lido os melhores autores inspirados pela fé cristã.

Acordo insone na madrugada fria. Vou ao banheiro. No curto espaço desse trajeto acompanham-me um silêncio e uma solidão que, de repente me fazem refletir sobre o mistério das coisas, a começar pelas que estão mais próximas de mim.Um silêncio e uma solidão que me fazem lembrar das perguntas essenciais: o que é o mundo? O que é a vida? Que sou eu? Quem sou eu? Por que e para que tudo isso?

Pois é, mas quando chega a manhã e, bem cedo, na própria condução em grupo que me leva para o trabalho, fico ouvindo uma pessoa discorrer com entusiasmo sobre problemas, não problemas propriamente científicos, mas problemas humanos cuja essência está no agir e não no fazer (lembro-me agora do bom ensinamento que faz muitos anos aprendi de Corção no livro “As Fronteiras da Técnica”, aprendendo a fazer a distinção entre os dois tipos de atividade humana).E, enquanto vou ouvindo a tal pessoa falar sobre aquele assunto, que é de fato sério e merece atenção, percebo, mais uma vez entre muitas, como vivemos desligados de orientações fundamentais, ou melhor dizendo, desligados da orientação primeira, aquela que fez o santo bispo de Hipona dizer :
- Domine, feciste nos ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te

Enleados com miríades de probleminhas morais do quotidiano, quase sempre nos esquecemos daquela sábia afirmativa de Santo Agostinho. Refletir bastante sobre ela poderia ajudar-nos, e muito, a resolver esses diuturnos desafios.


posted by ruy at 4:59 da manhã

15.6.04

 
O verdadeiro humanismo


Faz alguns dias publiquei neste “blog” um comentário sobre o filme “Tróia”, recentemente levado às telas dos nossos cinemas. Conforme escrevi no “post”, infelizmente os produtores da referida película, ao pretenderem apresentar uma versão moderna para a famosa lenda grega, puseram a perder a beleza poética original da obra prima de Homero.Aproveitando oportuna observação feita por meu neto mais velho, acrescento ao que eu já havia escrito o seguinte: ao retirarem do enredo a presença e a ação dos deuses do Olimpo, os responsáveis pelo filme prejudicaram irremediavelmente a dramaticidade da narrativa.Essa falha é tanto mais lamentável quando nos lembramos dos fantásticos recursos técnicos de que a arte cinematográfica dispõe em nossos dias.Ora, um leitor desatento neste instante poderá perguntar: que importância tem essa ausência dos deuses mitológicos no citado filme?

Pois é, amigo leitor, essa ausência vem aprofundar a depressão cultural em que estamos vivendo.Vem dificultar ainda mais a correta percepção que as novas gerações deveriam ter do passado. Porque o fato é que os antigos gregos acreditavam e cultuavam vários deuses.Eram, pelo menos no sentido lato do termo, “homens religiosos”(lembrar a propósito as palavras de São Paulo aos atenienses reunidos no Areópago).
Seus deuses possuíam as mesmas paixões e os mesmos vícios humanos: inveja, ira, luxúria, melancolia, ambição, vaidade, orgulho e tudo o mais que conhecemos de nossas misérias..Porém, eram, conforme os gregos acreditavam, dotados de maravilhosos poderes e - agora o ponto mais importante no que toca ao tema deste “post” – mostravam interesse pelos problemas humanos.Haja vista a divisão em duas facções olímpicas entre os deuses que apoiavam os combatentes de Tróia e os que tomaram partido dos guerreiros liderados por Agamenon, Aquiles, Odisseus e os demais heróis Helenos.

Note bem leitor.Podemos sorrir com certo ar de superioridade das crendices antropomórficas daquele povo que, apesar de ser considerado o criador da filosofia, portanto da ciência da sabedoria como tal, conservava essas quimeras. Porém, talvez não tenha sido mero acaso o fato de haverem tido, paralelamente com a intuição dos primeiros princípios da sabedoria natural, a intuição nuclear de uma Providência, algo que dá sentido à atribulada existência do homem neste mundo.
Numa época em que eram paupérrimos os recursos da medicina, era mais espontânea a percepção da fragilidade, da precariedade da vida humana e, em conseqüência, mais espontânea a pergunta angustiada e humilde: por quê?

O cristianismo veio dar a resposta a essa pergunta. E veio dar a resposta apresentando, aos que se mostrassem nela interessados em ouvir, a pessoa de um DEUS único que, movido pelo amor ao homem a quem Ele mesmo havia criado, fez-se igual a ele, em tudo menos no pecado.Um homem com sentimentos de ternura e desprovido de paixões perversas; capaz de misericórdia para com os mais pobres e mais desamparados.Um homem que podia entender o amor humano, comparecendo a uma festa de casamento e ali fazer surgir da simples água o vinho que alegra o coração dos homens. Capaz de desarmar com uma única frase os furiosos guardiões da lei que estavam prestes a castigar violentamente uma pobre mulher surpreendida em adultério.Capaz, também, de expulsar de uma igreja os que fossem irreverentes diante do mistério ali existente.

O fato é, meus amigos, que ocorreu no passado uma fantástica transição, uma transformação cultural que mudou o mundo.Entenda-se: mudou para sempre a visão do mundo que os antigos possuíam.

Se prestarmos atenção em tudo isso e, mais ainda, se lembrarmos da frase que aquele mesmo homem, em um momento de infinita dramaticidade, disse a um poderoso do mundo, afirmando claramente diante dele a existência de um Reino que não é daqui, talvez possamos perceber melhor a marca do verdadeiro humanismo. Aquele que se interessa pelo homem, por suas alegrias e seus sofrimentos, porém NÃO faz ao homem enganosas promessas de felicidade, uma falsa felicidade obtida ao preço de perdermos a nossa condição humana..

Talvez existisse muito menos malícia naqueles gregos que cultuavam deuses fabulosos do que nesses modernos pregadores que se dizem cristãos, porém vêm, há muitos anos, fazendo tudo o que podem e o que não podem para implantar neste mundo um reino sem a Esperança.


posted by ruy at 11:55 da manhã

 

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