Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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12.6.04

 
O falso humanismo


Meu amigo A...., não o amigo poeta paulista mas o cronista serrano, o vizinho do Dedo de Deus, enviou-me pela Internet seu mais recente artigo, intitulado: “Em honra de Leonardo Boff”. Já fiz uma boa divulgação do referido texto entre os vários leitores deste “blog”. Agora pretendo fazer alguns comentários em torno desse atilado e oportuno excurso de A...

Começo pelo título que A... deu ao seu artigo.Uma pessoa desatenta poderia logo de início fazer uma razoável restrição: por que em honra de alguém que tantos males fez – e está fazendo – a muitas pessoas de fé ingênua e desprotegida, neste país onde há umas quatro décadas a cultura religiosa despencou para um vale de mediocridades?
Ora, quem conhece o irreverente estilo de A... percebe logo que aquele “em honra de” constitui de fato uma sutil ironia.É como se A... estivesse dizendo nas entrelinhas: “sei que vou gastar vela com mau defunto, mas não tem jeito, tenho que escrever isso”.

O autor do artigo de certo modo dá aos leitores uma pequena aula de catecismo, abordando o tema da teologia, um assunto de que muita gente deve ter ouvido falar, porém sem saber onde de fato o galo cantou. Vou escrever algo que provavelmente vai desagradar uma eventual leitora. Paciência.Em nossos dias vimos notando um fenômeno raro em outras épocas, a presença de várias teólogas, mulheres que resolveram dedicar-se a essa atividade intelectual antes quase exclusiva dos homens.Não se trata de um preconceito machista. O ponto que desejo ressaltar é este: um sério trabalho que durante séculos foi feito discretamente no silêncio das abadias e dos conventos e na quietude das universidades, no tempo em que essa instituição ainda não tinha sido perturbada pelo pragmatismo, de repente esse trabalho toma ares de um elegante e sorridente modismo, sempre pronto a aparecer na imprensa escrita e/ou na televisão, seja para dar opiniões, seja para conceder entrevistas.No fundo, muitas vezes, o que existe mesmo é um vaidoso desejo de ser protagonista.

Porém, voltando ao título do artigo, pergunto, o que teria gerado boa parte do prestígio de Leonardo Boff no mundo intelectual e em muitos ambientes católicos? Segundo penso, esse ex-frade desde o início agradou a muitos, incluindo católicos, porque propôs uma forma de humanismo Não se tratava de uma criação de Boff. Ele apenas deu roupagem nova, usando uma retórica aparentemente religiosa, com alguns toques poéticos (no sentido superficial deste adjetivo).

O humanismo proposto por esse homem, que já foi um religioso franciscano, é análogo ao que há muitos anos foi idealizado pelo jesuíta Teillard de Chardin, o infeliz padre que ofereceu as mãos aos comunistas para um trabalho em comum na construção de um “mundo melhor”. Temos tido centenas de exemplos das obras feitas pelos devotos desse tal “mundo melhor”.Vamos dar apenas um bem trivial.Quando agora à noite o leitor abrir sua geladeira ou “freezer” para apanhar algum alimento bem conservado, e servir-se desse alimento sem medo de envenenar-se porque confia naquela utilidade doméstica, lembre-se daquela patética pergunta que Gorbachev fez ao entrar numa fábrica soviética: por que a geladeira russa é de tão má qualidade?

O humanismo proposto por Chardin, Boff, Betto, Betinho e “tutti quanti” é aquele que sempre transfere para um distante futuro telúrico a esperança humana. Um humanismo que, em nome do sonho (ou pesadelo) perdoa todas as perseguições, os fuzilamentos, as torturas, as denúncias, as lavagens cerebrais, os filmes medíocres, as peças bombásticas, as novelas tendenciosas, as aberrações contra a natureza (vejam o exemplo gritante da prefeita de São Paulo...), as geladeiras e carros de má qualidade, e vai por aí.É o que se pode chamar, sem o menor medo de erro, um humanismo DESUMANO.

Uma coisa que dói – e como dói, meus amigos - é o fato de que nós, cariocas ou moradores há muitos e muitos anos do Rio de Janeiro, nós que, durante dezenas de anos temos visto serem maltratados, agredidos, humilhados, mortos muitos de nossos parentes (anos atrás, o Ruy perdeu um sobrinho, vítima de um assalto), amigos, colegas e conhecidos, nós bem sabemos de tudo o que vem acontecendo desde que aqui chegou um fogoso político oriundo do Sul, um político que sempre manifestou abertamente sua crença no tal “mundo melhor” e, por causa disso mesmo, teve o ativo apoio de muitos católicos adeptos das teorias de Chardin, vários deles com os cabelos encanecidos, católicos que sorriam ingenuamente diante da sensata preocupação que eles percebiam na face dos demais católicos.Reflitam sobre isso, amigos leitores!.

Meus amigos – principalmente vocês mais moços - por favor, não se deixem levar pelo canto da sereia do diletantismo. A fé cristã é assunto muito sério. Por causa dessa crença milhares de homens e mulheres perderam o conforto e a segurança, perderam a liberdade, perderam a vida. Lembrem-se, por exemplo, de um Santo Tomás Morus: pai de família exemplar, homem bem humorado, jurista sábio, amigo do rei, prestigiado nas rodas intelectuais. da Europa.Foi decapitado por manter-se fiel à Igreja, fiel ao Cristo Jesus. Ele, sim, foi um verdadeiro, um autêntico humanista.

Santo Tomás Morus, rogai por nós!


posted by ruy at 1:54 da tarde

11.6.04

 
Charles Peguy


Hoje de manhã, entrando no “site” católico americano EWTN, vi que nesta data, 11 de junho, o calendário da Igreja nos lembra São Barnabé, um dos cristãos convertidos que aparecem citados muitas vezes nos Atos dos Apóstolos. “Era homem bom e cheio do Espírito Santo e de fé”.(cf. Atos, cap.11, vs. 24).

Ora, São Barnabé fez-me lembrar Jacques e Rahíssa Maritain. Mais precisamente , fez-me lembrar a conversão do casal que, pouco antes desse encontro com a fé cristã, estava à beira do completo desespero, já não mais enxergando razão alguma para viver. A Providência Divina levou aqueles dois jovens angustiados professores universitários à casa humilde de Leon Bloy e ali foram recebidos pelo homem que acabaria sendo seu padrinho de batismo.Bloy registra o encontro em seu Diário e, como era dia 11 de junho, o Peregrino do Absoluto escreve: “Sois vós, meu São Barnabé, que me enviais esses dois moços ?”

Tudo isso, e muito mais, o leitor poderá encontrar no livro de memórias de Rahíssa, traduzido para o português e editado pela AGIR, intitulado: “As grandes amizades”. É uma narrativa que flui de modo agradável, deixando perceptível a encantadora sensibilidade bem feminina.da autora, a par de sua carinhosa fidelidade aos amigos. Entre as muitas pessoas que ali são lembradas está o combativo jornalista, o ardente poeta Charles Peguy, que morreu heroicamente à frente do pelotão de infantaria que ele comandava na Guerra de 14. O mesmo Charles Peguy que mereceu um entusiasmado capítulo inteiro no excelente livro de ensaios de George Steiner: “Nenhuma paixão desperdiçada”(editora Record, 2001).

Vou a seguir registrar várias citações de Peguy.Tomara que elas estimulem o leitor a procurar os dois livros acima referidos.

A amizade é uma obra de fé.

Um juiz acomodado é um juiz morto para a justiça.

Um grande filósofo não é aquele que instala uma verdade definitiva, é o que introduz uma inquietude.

Uma alma morta é uma alma completamente acomodada.

Na política, não se entenderá jamais coisa alguma. Mas, talvez seja isso mesmo o que desejam os partidos.Talvez seja esse o jogo deles.

Todo pai contra quem seu filho levanta a mão é culpado: de ter feito um filho que levanta a mão contra ele.

Há ordens injustas que ocultam as piores desordens. [penso logo em duas longevas ditaduras, uma no Caribe, outra na Ásia]

A política zomba da mística, mas é de mística que se nutre a política. [entenda-se: nutre-se da pior mística]

O envelhecimento é essencialmente uma operação da memória. Ora, é a memória que faz toda a profundeza do homem. [Com mais de setenta anos já vividos, peço a DEUS que me ajude nesse mergulho...]

A mística é a força invencível dos fracos

Um verdadeiro sábio, aquele que trabalha em seu laboratório, jamais escreve a palavra ciência com C maiúsculo.

Os que se calam, os únicos cuja palavra conta.

Os carolas. Como eles não se preocupam com o homem, acreditam que sejam de DEUS.Como não amam ninguém, acham que amam a DEUS.

“Tal é o mistério da liberdade do homem”, comenta DEUS:
“se eu o ajudo demais, ele não é mais livre. Se não o ajudo bastante, ele cai”.



Infelizmente não consegui encontrar na Internet o belo trecho de Peguy em que ele escreve sobre o medo, esse medo espontâneo com que convivemos desde a infância. O grande poeta diz que o medo é um “irmão nosso, conosco resgatado pelo Cristo em sua santíssima Paixão”.(estou citando de memória; afinal lá se vão mais de cinqüenta anos quando li o texto...).


posted by ruy at 11:13 da manhã

9.6.04

 

Ainda sobre Ele No último “post” falei sobre Ele, o Senhor, o Cristo Nosso Senhor. Citei vários problemas atuais, que estão ocorrendo no grande cenário do mundo e no pequeno espaço dos nossos lares e locais de trabalho.Ora, na raiz mais profunda desses problemas – e isso é explicado de modo magistral em DOIS AMORES, DUAS CIDADES - está justamente o fato de não mais existir um consenso sobre aquele senhorio e sobre a nossa conseqüente submissão ( a palavra é esta mesma, leitor: SUBMISSÃO ) ao Cristo. Será que os atuais presidentes, príncipes, Primeiros Ministros e ditadores consideram Jesus Cristo o Senhor? Será que nossos chefes de família consideram Jesus Cristo o Senhor? Não pensar seriamente sobre isso pode nos levar ao puro diletantismo.


Os dois medos Meu inteligente e poético amigo C. M., em um “post” recente editado em seu “blog”, faz uma oportuna digressão sobre o medo.Deixa para nós uma mensagem contra o medo e, ao mesmo tempo, nos lembra a essencial importância da alegria, a qual C. M. , não sem motivo, associa com o senso de humor. Faz referência à perspicaz observação de Chesterton, escrita no final de “Ortodoxia”, sobre a oculta alegria de Jesus quando o Cristo esteve visível neste mundo.
Ora, peço vênia a C. M. para fazer uma ressalva. De fato, há dois medos, um instintivo, aquele que nos protege, por exemplo, contra um estúpido atropelamento ou um perigoso choque elétrico; e um outro medo, digamos, “racionalizado”, aquele que convive com nossas preocupações diárias. Este segundo, para mim pelo menos, é o que merece bem as críticas do meu amigo C.M. Lembrar que Jesus em sua santa Paixão deixou-se experimentar o medo instintivo, a tal ponto que suou sangue.


Puxar para cima . A super-antipática atitude farisaica deve ser sempre evitada. Até aqui morreu Neves. Entretanto, a pretexto de não magoar nosso próximo, seria conveniente evitarmos dar um testemunho em favor da beleza e da inteligência ? Por exemplo; alguém nos fala sobre um filme, digamos, o “Tróia” ou o “Harry Potter” , e fala em tom elogioso. Que fazer ? Deixar de dizer que o primeiro desses filmes, apesar dos excelentes truques cinematográficos, é uma péssima adaptação da dramática lenda grega? Deixar de dizer que Cassandra, a angustiada adivinha da corte de Príamo, foi transformada numa jovem boboca que se apaixona por um Aquiles não muito convincente? Deixar de dizer que o filme também nos apresenta Enéas como um jovem imaturo e bobo? Deixar de dizer que um grande entusiasmo com filmes sobre bruxaria pode acabar dificultando, até mesmo para adultos, uma visão poética das coisas mais simples, “normais”, que estão perto de nós ?
Resumindo: seria bom deixarmos de puxar para cima ? Sei que o equilíbrio é difícil, mas a pergunta permanece.


Uma historieta antiga . Faz muitos anos, li na Seleções a anedota que passo a contar.
Um rapaz do interior dos Estados Unidos resolveu ir para Nova York a cata de trabalho. A duras penas conseguiu um “job” como ponta em certa peça de teatro.Levou para seu apartamento, no hotelzinho pobre em que morava, a fantasia vermelho berrante e um tridente com os quais ele iria representar o Diabo. Eis que, no dia da peça, o moço dorme demais e, vendo que estava atrasado, levanta-se nervoso, veste a tal fantasia e sai correndo por uma das ruas da Broadway na direção do teatro.Não conhecendo bem a cidade, de repente entra apressado em um outro teatro. Ali estava sendo representada uma dramática cena em que a pobre menina Elisa está morrendo, deitada em sua cama, cercada pela família que chora.
O rapaz fantasiado, ignorando o que se passava, corre pelo corredor da platéia e, agitando o tridente, grita:
- Estou aqui! Estou aqui!


posted by ruy at 6:28 da manhã

 

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