Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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23.5.04

 
Tentando trocar em miúdos


[Meu leitor e amigo C.R., faz poucos dias, em mensagem cordialmente cristã, dizia-me, com enorme felicidade, que o que há de paradoxalmente mais belo na comunicação humana talvez seja o próprio fato de ser ela difícil. É rica em sutilezas que, longe de diminuí-la, a enriquecem. Sendo assim, não é muito aconselhável ficarmos excessivamente preocupados em explicar nossas idéias tintim por tintim quando fazemos alguma digressão.Entretanto, mesmo concordando com meu amigo C., vou tentar um certo “detalhamento” do que escrevi faz dois dias.]

Hoje é Domingo. Levanto-me um pouco sonolento e vou ao banheiro.Preciso fazer a barba para me arrumar e ir à missa. Abro a torneira da pia e deixo escorrer a água fria entre meus dedos. De repente, como, graças a DEUS, já me aconteceu tantas e tantas vezes nestes quase setenta e dois anos de vida biológica, olho a água e penso:

- água:líquido incolor. O que é líquido? O que é dedo ? Parte de minha mão? E o que é mão ? Parte de meu corpo. E o que é corpo? . E o que é vida? O que é um ser vivo? O que é SER?

- a pia é sólida e sua borda é elíptica. O que é sólido? O que é borda? O que é elíptica? O que é curva? O que é linha? O que é ponto?O que é espaço?

- saio do banheiro e vou à cozinha. Ando um pouco. O que é andar? O que é movimento? Por que andamos? O que é lugar? O que é distância? O que é quantidade?

- acendo o gás. A chama aparece nítida e quente. O que é fogo? O que é quente? Por que existe frio e quente? Por que existe escuro e luminoso ? ; E o pequenino fósforo, como ele gera a chama? O que é atrito ? O que é química? O que é substância? O que é propriedade?

- faço a barba e vejo-me no espelho.Quem sou eu? Sou a identidade que está num pedaço de cartão? Sou minhas tarefas de professor? Sou minha memória? O que de fato sou eu? Quem sou eu? Por que estou pensando nisso tudo? O que é pensar?

- passa na rua vizinha à minha, ruidosamente, o carro dos bombeiros.O que é ruído? O que é solidariedade? O que é próximo? O que é amor? Por que um homem e uma mulher que se amam beijam um ao outro? O que é um beijo?

- a mulher que amo dá uma risada. O que é o riso? Por que rimos ? E a lágrima? Por que choramos? A lágrima sai dos olhos. O que é o olho? O que é ver? O que é imagem? O que é claridade? Por que existem as cores?

Pois é, amigo C.R., contrariando seu prudente conselho, tentei aí em cima, dizer o indizível.
Pode ser que um eventual leitor, de repente, depois de ler esta minha teimosa tentativa, acorde e, muito admirado, passe a escutar, como quem descobriu um tesouro, o som misterioso das coisas. Pode ser...


Festa da Ascensão do Senhor


Hoje a Igreja festeja a gloriosa subida do Cristo ao Céu. Não sou teólogo, por isso o que vou dizer agora é apenas minha opinião.
Vejo na Ascensão de Nosso Senhor, como num quadro bem descritivo, uma forma plástica de mostrar, de “provar” a todos nós o fato de que não fomos criados para este mundo.Por melhor que façamos - e vários papas escreveram documentos orientando-nos para essa tarefa - esforços generosos a fim de “melhorar” este lugar de exílio, nosso lugar NÃO é aqui.
Santo Agostinho, a quem hoje, em sua serena e sábia homilia, Dom Ireneu chamou de teólogo-poeta, faz muitos séculos escreveu isto:

Feciste nos ad Te, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te .
[“Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto estará nosso coração até que descanse em Ti”]

É certamente por isso que, de vez em quando, com os olhos bem abertos, olhamos admirados as coisas mais simples, mais “banais e repetitivas”, que costumam estar bem à nossa frente e nelas não prestamos atenção. Não nos lembramos da forte recomendação do Cristo, HOJE eternamente no Céu, para que nos tornemos semelhantes às crianças e aí, então, subirmos lá também.


posted by ruy at 11:39 da manhã

21.5.04

 


O essencial problema da alegria


Começo explicando o porquê do título deste “post”.
Em geral, nenhum de nós quer problemas para resolver.Uma exceção típica é a do aluno que está se preparando para enfrentar um vestibular e pretende matricular-se, por exemplo, num curso de engenharia.Quantos mais problemas resolver, mais treinado estará para o exame específico. Mas, no comum das vezes os problemas aparecem diante do nosso cotidiano contrariando nossos desejos (neste instante, o Conselheiro Acácio deve estar batendo palmas, sorrindo descontraidamente).Doenças repentinas, eventuais dificuldades financeiras, desencontros nos relacionamentos familiares, obras imprevistas em nosso apartamento, o roubo de nosso carro, “filho único de mãe viúva”, e vai por aí .Sempre que possível fazemos tudo para fugir a esses problemas acidentais .Por que acidentais? Porque não constituem parte essencial da natureza humana.

Não passa um dia sequer em que não recebamos - através dos jornais, da televisão, da Internet, das conversas com os amigos e com os colegas de trabalho, às vezes de uma homilia em que o padre nos conta um acontecimento relevante, através de vários canais informativos - notícias de fatos que nos trazem preocupações, e às vezes angústias. O caso típico que me vem à memória neste minuto é o da razoável e justa preocupação de muitos leitores católicos deste “blog” com sérios, seríssimos problemas morais que estão ocorrendo no mundo moderno, e não apenas em nosso país, como por exemplo as infames legalizações do aborto e do “casamento” entre homossexuais. Eu seria injusto, ou no mínimo leviano, se tentasse minimizar o motivo da preocupação desses leitores.Eles estão certos. Além disso, eu estaria mentindo se também dissesse que não me preocupo com os tais problemas.

Ora, ainda que todos esses fatos sejam mesmo preocupantes, talvez o pior efeito dessa preocupação seja o de provocar um entorpecimento de nossa inteligência. Acuados pela arrogância dos que se voltam abertamente conta a Lei Natural, provocados pela petulância da mídia, decepcionados com os políticos que, em sua maioria, nem sabem o que seja o Bem comum, fazemos nossa vida cotidiana girar em torno da moral. Somos inconscientemente, uns mais outros menos, moralistas , dando a esta palavra um sentido lato. Esquecemo-nos de contemplar a realidade do mundo, bem à nossa cara, bem diante de nossos olhos, para ficar constantemente à procura de qualquer coisa que esteja ocorrendo de modo moralmente errado. Sem querer, assumimos uma posição de “fiscais da moralidade”. Com isso, o tempo vai passando e nós deixamos de ver o assombroso, o às vezes ATERRORIZADOR mistério das coisas, o aterrorizador mistério da existência.

Já faz muitos anos tive um professor de inglês que era um chestertoniano no modo de ver a vida. e até mesmo na forma física ( lembrando aqui o Chesterton da velhice). Com aquele sábio mestre da minha adolescência, no tempo em que eu ainda nem sabia da existência do grande ensaísta inglês, certa vez aprendi esta frase:

Silence is the perfect herald of joy

De fato, é necessário um silêncio, muito silêncio, exterior e, sobretudo, interior, para que possamos ouvir o ruído discreto das coisas fluindo ao nosso redor, para que possamos enxergar as outras pessoas com seu mistério próprio , antes de nos fixarmos pesadamente na posição de meros adjetivadores do nosso próximo, do nosso companheiro nessa infinita aventura da Criação, e da Criação renovada a partir do “fiat” de uma pobre mulher, dito em um longínquo dia, na distante Palestina, no mesmo lugar onde hoje judeus e árabes (todos semitas ...) se digladiam gerando muitas das notícias que nos tornam distraídos para as coisas essenciais.

Espero que o leitor neste momento não pense que eu esteja propondo uma absurda atitude de indiferença ou, pior, de sadismo. A alegria a que me refiro, é a alegria que está naquela frase ensinada pelo meu saudoso professor de inglês; é a alegria de quem de repente se vê só, inteiramente só, diante do Ser, diante d‘Aquele que É, diante do “Amor que move o sol e as outras estrelas”, como jubilosamente escreveu Dante no final do seu Paraíso. É aquela alegria que podemos achar meio escondida em certas músicas de Debussy. Mas, como explicar isso a quem – infelizmente – não teve em sua formação básica nenhum treinamento musical ?
Achar e conservar essa alegria deveria ser nosso essencial problema neste mundo. Resolver os outros problemas, sim, mas sem jamais esquecer este.


posted by ruy at 6:08 da manhã

20.5.04

 
Pequena reflexão sobre o trabalho


Faz mais ou menos uns quinze anos, em um certo dia deixei-me a pensar no seguinte: por que teria - e ainda tenho - eu tanta antipatia pelo PT, o Partido dos Trabalhadores ? Seria porque nesse partido só existem comunistas ? Não. Deve haver muita gente naquela entidade que não lê pela cartilha de Marx. Seria porque no PT só existem baderneiros ? Não. No PT provavelmente existem muitas pessoas de comportamento civilizado .
E por aí fui dando tratos à bola para descobrir a razão da minha visceral aversão ao PT.
De repente, acendeu uma pequena luz na inteligência.Havia descoberto o motivo daquela antipatia.Era – e ainda é – justamente o nome do partido: Partido dos Trabalhadores.Para que o leitor entenda rapidamente o meu ponto de vista, imagine se fôssemos fundar um novo partido neste país com o nome, por exemplo, de Partido dos Bons Cidadãos, ou Partido dos Homens Honestos, ou Partido dos Patriotas ou outros nomes análogos. É fácil agora perceber que todos esses nomes são essencialmente farisaicos , são excludentes, contêm um ranço de soberba.Quem não pertencesse à tal agremiação não seria, ipso facto , possuidor daquela qualidade, daquela virtude que deu nome ao partido.

De fato, a inimizade crônica entre os patrões e os operários de certo modo foi um dos piores frutos colhidos no chão pantanoso do antropocentrismo, um fruto cuja árvore foi adubada com a doutrina de Marx. Muita gente passa distraída pelo dia Primeiro de Maio sem dar-se conta de que esse dia comemora de fato o lançamento do Manifesto Comunista. Contrapondo-se a esse generalizado – e mau - costume, os Estados Unidos comemoram o seu Dia do Trabalho, Labour Day , tradicionalmente no primeiro domingo de setembro.

Ora, nem sempre houve essa inamistosa predisposição organizada. Conforme nos conta Jean Gimpel, um dos vários historiadores que se especializaram no Medievo, quando o bispo local atrasava o pagamento dos artesãos, ele cruzavam os braços e paravam a construção da catedral.Não eram, portanto, mansos cordeirinhos, à mercê dos seus patrões.Entretanto, aqueles mesmos operários estavam sempre prontos a participar com alegria, com entusiasmo, das famosas celebrações dos mistérios da nossa Redenção. Não eram somente trabalhadores preocupados apenas com sua sobrevivência.

Em 14 setembro de 1981, João Paulo II publicava sua encíclica Laborem Exercens . Pretendia publicá-la no dia 15 de maio daquele ano, comemorando o centenário da Rerum Novarum , mas o atentado ao papa, no dia 13 daquele mês, colocando o pontífice no hospital retardou o importante documento pontifício que nos fala justamente sobre o tema deste “post”.Assim, como uma pequena homenagem a João Paulo II, que recém completou 84 anos, vou transcrever a seguir um trecho da Laborem Exercens . Nesse trecho, há uma referência do papa que muito me comove, professor que sou há mais de 30 anos.É quando ele fala sobre o trabalho intelectual.Mas, ouçamos João Paulo II:

A intenção fundamental e primordial de Deus quanto ao homem, que Ele « criou ... à Sua semelhança, à Sua imagem », não foi retratada nem cancelada, mesmo quando o homem, depois de ter infringido a aliança original com Deus, ouviu estas palavras: « Comerás o pão com o suor da tua fronte ».Tais palavras referem-se àquela fadiga, por vezes pesada, que a partir de então passou a acompanhar o trabalho humano; no entanto, elas não mudam o fato de o mesmo trabalho ser a via pela qual o homem chegará a realizar o « domínio » que lhe é próprio no mundo visível, « submetendo » a terra. Esta fadiga é um fato universalmente conhecido, porque universalmente experimentado. Sabem-no os homens que fazem um trabalho braçal, executado por vezes em condições excepcionalmente difíceis; sabem-no os que labutam na agricultura, os quais empregam longas jornadas no cultivar a terra, que por vezes apenas « produz espinhos e abrolhos »; como o sabem também aqueles que trabalham nas minas e nas pedreiras, e igualmente os operários siderúrgicos junto dos seus altos-fornos, e os homens que exercem a atividade no sector da construção civil e em obras de construção em geral, freqüentemente em perigo de vida ou de invalidez. Sabem-no bem, ainda, os homens que trabalham agarrados ao « banco » do trabalho intelectual, sabem-no os cientistas, sabem-no os homens sobre cujos ombros pesa a grave responsabilidade de decisões destinadas a ter vasta ressonância no plano social. Sabem-no os médicos e os enfermeiros que velam de dia e de noite junto dos doentes. Sabem-no as mulheres que, por vezes sem um devido reconhecimento por parte da sociedade e até mesmo nalguns casos dos próprios familiares, suportam dia-a-dia as canseiras e a responsabilidade do arranjo da casa e da educação dos filhos. Sim, sabem-no bem todos os homens do trabalho e, uma vez que o trabalho é verdadeiramente uma vocação universal, sabem-no todos os homens sem exceção.

Que Nossa Senhora proteja João Paulo II, nosso papa !





posted by ruy at 9:57 da manhã

19.5.04

 


Dois desabafos do Ruy


Fazer apostolado ou lutar por uma causa ? Uma das melhores alegrias da vida é a de estarmos convencidos de ter achado a verdade, seja a que está ligada a um difícil problema de geometria ou de física, seja a verdade de um tipo de conhecimento muitíssimo superior como é o proporcionado pela nossa fé religiosa.E como é próprio da alegria autêntica ser efusiva, quando descobrimos uma verdade gostamos de repassar seu conhecimento a uma outra pessoa.

O apostolado, e neste “blog” obviamente estou pensando no apostolado cristão, é justamente esse processo de fazer nossa fé ser compartilhada por alguém que ainda não a possui, ou a possui de modo “elementar”.Ora, nesse trabalho de apóstolo, que de fato precisa ser feito com entusiasmo (palavra esta que significa : estar fixado em Deus), podemos correr o risco de confundi-lo com um outro que é o de lutar por uma causa justa.

Quando se luta por uma causa justa, o motivo do nosso empenho é mesmo um fato objetivo, que pode ser, com maior ou menor dificuldade, ser observado pela pessoa a quem estivermos tentando convencer, conseguir sua adesão ao nosso ideal de luta.Porém, quando se faz um apostolado autêntico, o motivo é profundamente pessoal, é precisamente a Pessoa do Cristo.E esta pessoa nós a encontramos não por meio de brilhantes raciocínios nossos ou de outrem, mas ela nos foi apresentada por meio de uma série de circunstâncias, discretas e silenciosas, misteriosas, muitas vezes durante um longo tempo, e sendo tudo isso fruto da Graça divina, que tem um estilo de operar bem diferente do nosso. Esquecendo esse fato, podemos nos tornar um tremendo “bore” , podemos comprometer nosso objetivo que deve ser ajudar a conversão do próximo. Ajudar, sim, porque quem converte é DEUS.


Nacionalismo, internacionalismo e patriotismo Creio que já falei sobre este assunto em algum ou alguns ‘posts” passados.Mas, lendo um livro, traduzido para nosso idioma, que um colega professor deu-me ontem de presente, vejo que nunca é demais refletir sobre o tema.

Nessa leitura, percebi o drama pungente de um homem sincero, valente, pai de família exemplar, honesto, cheio das melhores intenções, porém distante da origem nuclear dos problemas atuais na política internacional.Um homem que certamente se julga um bom patriota, porém de fato, devido às circunstâncias em que chegou à sua maturidade, é uma pessoa impregnada de nacionalismo.Ele ama sua pátria, sem dúvida alguma, mas o seu amor infelizmente não chega a perceber certas realidades históricas essenciais.

Lembro-me agora do livro “Deus e o mistério do tempo”, do padre Henri Boulad (edições Loyola).O padre Boulad é egípcio; teve sua infância, sua adolescência e parte de sua mocidade vividas no Egito.Em certo trecho do livro o autor nos conta que só pôde conhecer de fato o seu país no dia em que, por força de sua preparação para o sacerdócio, teve que viver fora, longe do Egito. Ora, é justamente essa visão “do lado de fora” que me parece estar faltando ao autor do livro que recebi de presente na tarde de ontem.

Por esse e outros fatos semelhantes, creio que é importante fazermos a distinção precisa entre as três atitudes que se podem tomar diante da política internacional: a do nacionalismo, a do internacionalismo e a do patriotismo, sendo esta terceira a correta, a que está ligada à Lei Natural. E ao ler o livro cuja leitura motivou este “post”, lembrei-me angustiado, mais uma vez, do ensaio histórico talvez mais importante já escrito neste país, que é o livro de Gustavo Corção “DOIS AMORES, DUAS CIDADES” .Angustiado, sim, porque lamentavelmente o ensaio anda esquecido.

Quando vejo católicos supostamente bem informados fazerem certos comentários sobre assuntos políticos , penso em lhes recomendar isto: “saiam do Brasil” fazendo uma leitura de “Dois Amores, Duas Cidades”. Aprendam a ver a realidade completa, “do lado de fora”.


posted by ruy at 5:48 da manhã

17.5.04

 
Um amor diferente


Até há poucas horas o Ruy estava sem motivação para editar um “post”.Mas, chegando em casa ontem à tarde, depois da missa vespertina, tomei conhecimento de um pedido de informação que me foi feito por uma pessoa a quem muito estimo.Devido a essa circunstância, pela n-ésima vez me dou conta de que as mais respeitáveis relações afetivas não devem impedir que um cristão assuma certas atitudes firmes, coerentes com sua fé, ainda que, ao assumi-las, isso o torne antipático, o faça ser considerado um desmancha-prazeres.

Infelizmente, existem certos generalizados erros ou equívocos sobre o Cristianismo.Por exemplo, considerá-lo como uma filosofia ou como simplesmente uma religião entre as muitas que existem no mundo.Outro modo míope de ver a crença cristã é considerá-la como um conjunto de regras de bom conviver, um receituário semelhante ao que deu fama e dinheiro ao americano Dale Carnegie quando divulgou, no mundo inteiro, seu famoso livro: “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.

Ora, o Cristianismo é infinitamente mais que uma sublime moral de convivência humana. Arrisco-me a dizer agora isto: no centro dos muitos desvios litúrgicos que, infelizmente, hoje ocorrem em nossas igrejas, ou na maioria desses desvios, está justamente uma deformada visão do amor ao próximo.Em vez de contemplarmos esse próximo com um autêntico olhar de caridade , muitos de nós estamos olhando para ele de modo bonachão, como se ele fosse apenas um companheiro pertencente a esse risonho e descontraído conjunto de pessoas que, semanalmente, se reúnem em uma igreja para cantarem músicas animadas e trocarem apertos de mão e/ou abraços efusivos na hora do “Saudai-vos uns aos outros”

O nosso amor ao próximo vem acontecendo sem profundidade, sem referência ao modelo essencial. Nosso Senhor nos mandou que amássemos nosso próximo como Ele mesmo nos amou.Ora, se prestarmos bastante atenção nos relatos do Evangelho, vamos notar que o relacionamento de Jesus com as pessoas NÃO era feito no estilo de um companheirão , de um amigão, de alguém que deseja tornar-se simpático. Vamos escutar o severo pito que Ele passou em Marta, uma das duas irmãs de Lázaro, quando ela implicou com Maria, porque esta, em vez de ir para a cozinha, ficou sentada, ouvindo atenta às palavras de Jesus.Vamos ouvir a conversa franca do Cristo com Nicodemos, uma conversa em que o Mestre ensina sem fazer concessões demagógicas; chega mesmo a usar uma sutil ironia com respeito à fama de sabedoria de seu anfitrião.Vamos assistir ao respeitoso diálogo com a samaritana, aquela mulher que, de repente vê seus segredos femininos misteriosamente desvendados por um desconhecido, um homem que não está a fim de impressioná-la, nem tão pouco desculpar em tom permissivo a vida pouco edificante que ela levava.Quer, sim, convertê-la ao Deus vivo..O amor de Jesus pelas pessoas quer, para cada uma delas, o bem maior de todos os bens possíveis.Se nós NÃO desejarmos isso ao nosso próximo não o estaremos amando como Jesus nos amou.

Já comentei isso antes, mas vale a pena lembrar.Jesus teve diante de si vários problemas sociais, a saber, a injusta condição de inferioridade das mulheres, a injusta existência da escravidão e o injusto domínio do império romano sobre o povo de Israel .Entretanto, Nosso Senhor nunca faz o menor incitamento à mudança dessas injustiças.Ele sabe que elas existem. Mas não deixa que isso perturbe a finalidade primeira de sua Boa Nova, que é a Salvação do homem, algo que hoje em dia, até mesmo nos meios católicos, muita gente não sabe definir bem o que seja..E talvez por ignorar o que representa esse essencial mistério, deixamo-nos levar pelo canto da sereia dos reformadores sociais. Contamos piadinhas sobre o Presidente e não prestamos atenção no perigoso “primeiro ministro”, o homem que se abraçou chorando com o mais antigo ditador ainda vivo neste planeta. Aceitamos passivamente a existência do nome Ministério da Educação sem perceber que esse nome é um atentado, uma ofensa à nossa liberdade de pessoas, sem notar que o nome correto deveria ser “da Escolaridade”, ou “do Ensino”.Confundimos vida honesta e bem comportada com vida cristã.

Por tudo isso repito: se não desejarmos ao nosso próximo o maior dos bens possíveis, não o estaremos amando como Jesus nos amou.


posted by ruy at 3:47 da manhã

 

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