Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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16.5.04

 
Uma terceira fundamental pergunta


Faz uns dois ou três dias editei um “post” a respeito de duas perguntas que considero fundamentais na vida de um cristão. Não pretendo de forma alguma desdizer o que ali escrevi.Entretanto, é preciso ressaltar um detalhe, aquelas duas perguntas, segundo penso, são ou devem ser feitas por nós ao Cristo. Ora, existe uma pergunta que o Cristo fez a seus discípulos e, para quem se considera de fato discípulo do Senhor Jesus, a mesma pergunta Ele a faz a cada um de nós, independente da época, do século em que estejamos vivendo.Essa pergunta aparece nos evangelhos de São Lucas (cap.9,vs. 18 a 26) e São Mateus (cap. 16, vs 13 a 20), e é a seguinte :

- Quem sou eu ?

Sobre essa pergunta existe um belíssimo capítulo no livro “Na Procura de Deus”, de autoria de Dom Lourenço de Almeida Prado OSB (editora AGIR, 1992). Faço um veemente apelo a meus leitores: NÃO deixem de ler esse livro, por favor !
Não vou comentar aqui todo aquele inspirado texto de Dom Lourenço. Limito-me a transcrever apenas o trecho final do referido capítulo:

- O conhecimento da fé é mais que um conhecimento: é uma resposta a Deus que, ao revelar-se, se dá, com uma animação de compromisso e de entrega. É um conhecimento pessoal.A pergunta não é só “quem sou eu”, mas “Quem sou eu para você ?” Não se trata de conhecimento de informado, mas, de conhecimento de envolvido e engajado.Não vos chamo mais de servos...mas vos chamo de amigos...o amigo sabe das coisas do amigo.(Cf. Jo 15,15). É o conhecimento de amigo. Quem quiser ser meu amigo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.(Cf. Mt. 16, 24).Se me amais, observareis os meus mandamentos (Jo 14,15).

Bem, agora vou fazer minha digressão de hoje.Trata-se do meu pessoal ponto de vista, portanto sujeito a receber críticas.

Muitas e muitas vezes, infelizmente, algumas delas marcadas por especial gravidade, já aconteceu de ouvimos um sacerdote dirigindo-se aos fiéis, que o escutam atentos e respeitosos, como se eles todos já estivessem convencidos quanto à especial amizade que o Cristo tem por cada um de nós. Como se cada um dos que o escutam já tivesse feito a descoberta mais importante em nossa atribulada existência neste mundo, a de que DEUS nos ama Um amor pessoal e, sobretudo, ciumento .
Para que não digam que o Ruy ficou divagando em torno de generalidades, vou dar um exemplo bem específico, mesmo com o risco de, usando o tal exemplo, me fazer antipático.

Suponhamos um sepultamento, presentes no velório várias pessoas parentes, amigas, colegas ou conhecidas daquela outra pessoa cujo corpo sem vida está para ser enterrado. Ora, a morte biológica é, por assim dizer, um incômodo e rotineiro lugar-comum no romance da existência. Falar sobre essa desagradável realidade naquela circunstância pouco acrescenta.
O desejável seria que fosse exposto, ensinado mesmo, a quem nunca o ouviu, que o Céu é um estado de plenitude na alegria. O desejável seria provocar naquele instante, entre os que escutam o pregador, uma saudade do Céu, já que, conforme, há muitos séculos, sabiamente disse Santo Agostinho, fomos criados para aquele estado. Seria desejável, muito mais que enumerar estas ou aquelas qualidades humanas da pessoa falecida, falar sobre a amizade infinita do Cristo, do próprio DEUS encarnado, que há vinte e um séculos viveu visivelmente entre nós.E, nesse instante, convinha frisar esse advérbio, visivelmente porquanto, invisível Ele mesmo está ali, naquele minuto, junto dos que observam aquele corpo sem vida. Todas as palavras ali pronunciadas deveriam fazer-nos ficar atentos àquela invisível presença.

Em resumo, nunca é inoportuno falar sobre Aquele que é de fato o nosso maior amigo. Ao voltarmos para nossas casas, os que tivéssemos ido ao cemitério, talvez ficássemos mais atentos a esse mais fiel Amigo.


posted by ruy at 6:50 da manhã

15.5.04

 
A desesperança organizada


Em seu famoso livro “Arquipélago GULAG”, Alexandre Soljenitsin faz um longo e minucioso relato do que se passava na Rússia Soviética no tempo do ditador Stalin. Naquelas páginas sombrias podemos encontrar todos os tipos de maldades cometidas em nome de uma ideologia, cometidas pela fanática e perversa coerência com uma trágica teoria criada, no século XIX, por um pensador de quem alguns autores afirmam teve relações com o satanismo.

Ora, descrições bem semelhantes, incluindo fatos ocorridos em vários países da Ásia nos quais o comunismo foi implantado, são apresentadas de modo mais sintético por Paul Johnson em seu conhecido ensaio histórico “Tempos Modernos”.De modo pormenorizado, com um texto em que estão inseridas inúmeras fotografias deprimentes, existe a volumosa obra cujo título é justamente “O Livro Negro do Comunismo”, escrito por seis esquerdistas franceses. Aqui no Brasil também chegou a ser editada uma tradução do pungente depoimento “Contra toda a esperança”, redigido pelo poeta cubano Armando Valladares, que, graças a intercessão de François Miterrand, conseguiu ser libertado, tendo saído de Havana em cadeira de rodas, conseqüência de vinte e dois anos de prisão e maus-tratos.(o livro de Valladares hoje dificilmente poderá ser encontrado em nosso país; foi escamoteado logo depois de sua publicação, em 1985).

Esses livros acima citados falam-nos sobre muitos fatos de um passado não muito remoto.Muito do que ali está registrado felizmente não está mais ocorrendo em nossos dias.Entretanto, apesar dessa aparente melhoria de condições humanas, em alguns países permanecem antigas ditaduras de inspiração comunista, algumas com a legislação de caráter stalinista. De fato, é sempre possível acabar com certas estruturas políticas; porém, não é possível acabar com uma idéia errada. O erro é sempre recorrente.

O erro nuclear subjacente a todos esses regimes de esquerda que, ao longo de quase um século, vêm colocando populações inteiras num obrigatório sistema de vida análogo ao de um tenebroso “colégio interno”, em cenários não imaginados, por exemplo, por um Charles Dickens ao descrever sombrios internatos para órfãos pobres e desamparados, esse erro, digo, é o do teimoso sonho do “futuro melhor”. O esquerdista típico é alguém que sente uma estranha nostalgia, a nostalgia do... futuro, ao contrário de todas as pessoas psicologicamente normais que a sentem em relação ao passado.Todas as medidas de cerceamento político tomadas pelos dirigentes das ditaduras comunistas eles as justificam pela crença no tal “mundo melhor”, um mundo do futuro.

Faz poucos dias, meu leitor e amigo R.P. , o corajoso defensor dos nascituros, informou-me que o primeiro país latino-americano a legalizar o aborto foi Cuba, já no governo de Fidel Castro. Neste instante é provável que alguém tome a defesa dessa medida tomada pela ditadura cubana bem como da idêntica medida adotada pela ditadura chinesa, alegando a favor dessa posição o problema populacional, tanto na ilha do Caribe quanto no extenso país asiático.E agora chegamos ao busilis da questão.

Não pretendo discutir estatísticas de crescimento demográfico; posso mesmo aceitar que os dados numéricos disponíveis sejam verdadeiros. O que desejo ressaltar é o cartesianismo, é a simplificação brutal do problema, numa solução em que o ser humano é visto pura e simplesmente como um animal aperfeiçoado, que existe apenas para comer, crescer, procriar, trabalhar e morrer quando já for inútil. Nessa perspectiva telúrica, é facilmente compreendida a facilidade, a rapidez com que são feitas leis a favor do aborto e da eutanásia, uma facilidade e uma rapidez que são típicas dos regimes totalitários.

Todos os que me lêem estão cansados de ler e ouvir piadas sobre o nosso Presidente; estão cansados de ouvir críticas a várias atitudes desse pobre homem. Ele virou o foco das notícias nacionais.Ora, para mim pelo menos, essa contínua concentração de holofotes sobre o ex-operário que, ajudado pelo democratismo do voto obrigatório, hoje está sentado na cadeira presidencial, toda essa ênfase noticiosa está mantendo na sombra, oculto da maioria desprevenida, o poderoso assessor que, talvez mais que nenhum outro neste país, tem aquela crença empedernida no tal “mundo melhor”. E por acreditar nessa quimera, com certeza vai fazer tudo para colocar nossa Pátria no bem comportado regime de “internato”, com os bens de consumo metodicamente distribuídos sob controle do Estado, com as escolas transformadas em postos de adestramento para o exercício da cidadania submissa e sem grandeza. Aliás, em regimes desse tipo a palavra grandeza tem sonoridade pornográfica.Do mesmo modo que os fanáticos do Regime do Terror disseram que a República não precisava de químicos, os novos exaltados acham que os poetas são desnecessários, a menos que se disponham a cantar loas à sociedade, ao coletivo e ao distante e desconhecido futuro.
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É bem compreensível, e mesmo razoável, que muitos de nós, contrários à morte da liberdade civil, estejamos criticando os desmandos e os desacertos dos que hoje nos governam. Entretanto, urge refletir sobre o seguinte fato: tudo isso que hoje está ocorrendo tem uma origem histórica. Começa no instante em que a civilização ocidental deixou de ser Cristocêntrica e passou a ser antropocêntrica. Deixou de construir catedrais de pedra e passou a construir gigantescas torres comerciais. Deixou de ter a Esperança para ficar esperando um futuro neste mundo que pouco a pouco caminha para a inevitável e completa entropia.

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, protegei nosso país!


posted by ruy at 11:37 da manhã

14.5.04

 
Santidade


Existe um fato que sempre me incomoda. Nós católicos temos a doutrina correta, temos a melhor tradição e possuímos uma imensa galeria de homens e mulheres que podem nos inspirar em nossos fazeres e em nossos agires, aquelas pessoas a quem chamamos santos.Ora, apesar disso, ou talvez por causa disso mesmo, deixamos de prestar atenção em certas sutilezas da vida cristã. Para melhor entender o que estou dizendo, convido o leitor a prestar mais atenção, por exemplo, na presença de Nossa Senhora nas bodas de Caná.

Nosso irmãos separados passam ao largo, ficam distraídos diante deste fato: Maria intercedeu pelo dono da casa, Maria fez com que seu filho, Jesus, antecipasse Seu primeiro milagre.Mas, de outro lado, nós, católicos, não damos a necessária atenção à circunstância de ter aquele primeiro milagre ocorrido numa festa, por causa da falta de vinho , e numa festa de casamento.

Outro aspecto que não recebe de nós, católicos, o necessário olhar atento é o que se refere à vida cotidiana de Maria. Ela, a cheia de graça, ela a que tivera o infinito privilégio da maternidade virginal, ela que acompanhava passo a passo o desenvolvimento humano de seu misterioso filho - como seria o cotidiano daquela mulher única no mundo? Como seria seu convívio com os parentes, com os amigos? Como seria o seu diálogo com os vizinhos? Como seria para a mãe de Jesus ter que carregar o peso da solidão daquela arquimisteriosa escolha feita por DEUS ? Há muitas pessoas que não gostam de São Bernardo; que detestam, com certa razão, a dureza com que ele tratou Abelardo.Mas, foi aquele santo abade medieval que contemplou melhor o infinito mistério do “ fiat” que iniciou a história da nossa Salvação. Como também foi ele quem compôs a bela e confiante oração do Memorare

Fiz estas considerações preliminares porque de vez em quando aparece diante de nós o relato da vida de um homem ou de uma mulher que estariam sendo propostos para um processo de canonização, e nesse relato, ou pelo menos no modo como ele nos foi apresentado, fica transparente a vida humana daquele ou daquela que poderá ingressar na imensa galeria a que me referi no início deste “post”.Impressionando-nos de modo exagerado com tais relatos, corremos o lamentável risco de deixarmos de prestar atenção em dezenas, talvez em centenas de pessoas comuns – algumas bem próximas de nós - que receberam certas graças, dadas pela misteriosa misericórdia do Pai - e que, apesar de serem pessoas simples, ou mesmo simplórias , apesar de não possuírem virtudes sublimes como as que nos são contadas nos tais relatos, têm, essas pessoas, a virtude essencial, que é a da Caridade, a “cáritas non ficta” que todos deveríamos viver.

Tais sutilezas, salvo melhor juízo, deveriam fazer parte de nossas habituais reflexões sobre o como deve ser uma vida autenticamente cristã.


Os dois recrutas


Dois rapazes vindos do interior apresentam-se em um quartel para o serviço militar. Um severo sargento recebe-os logo na entrada e pergunta logo ao primeiro:
- Como é o seu nome ?
- Tonho.
- Tonho, não! Agora você vai ser António !E o que você veio fazer aqui ?
- Vim ser soldado. .
- Não ! Você veio servir à Pátria ! E o que é aquilo ali em cima? , pergunta o sargento apontando a bandeira.
- É a bandeira.
- Não! É a sua mãe!
Aí o sargento vira-se para o segundo rapaz e pergunta:
- Como é o seu nome?
- Pedro.
- O que você veio fazer aqui?
- Vim servir à Pátria.
- E o que é aquilo ali em cima ?
- É minha tia, irmã do Tonho.


Como é bom escutar...

... Bing Crosby cantando “True Love”, ou Plácido Domingo e John Denver, cantando em dueto, “Perhaps Love” .
[lembrete aos distraídos: o “love” que está aí em cima é mesmo que acaba levando os casais às bodas de Caná e a outras bodas mais próximas de nós]


posted by ruy at 4:48 da manhã

12.5.04

 

Duas perguntas fundamentais para um cristão


Faz um certo tempo, meses atrás, eu já tinha me referido ao tema deste “post”. Entretanto, creio que não fui muito feliz ao expor o assunto, haja vista o fato de que um leitor muito inteligente e bem informado sobre a doutrina católica, ao”visitar o oásis”, não percebeu o ponto que eu desejara enfatizar.

Uma pessoa torna-se cristã ao receber o sacramento do batismo.Bem, comecemos lembrando o que o catecismo mais elementar nos ensina. Sacramento é um sinal eficaz que nos confere a graça santificante.
O que é um sinal EFICAZ ? É aquele que realiza aquilo que significa. Vejamos o exemplo de um sinal que não é eficaz. Todos sabemos que a bandeira é o símbolo da pátria. Suponhamos que alguém, militar ou civil, homem ou mulher, moço ou velho, esteja hasteando a nossa bandeira, e suponhamos ainda que essa pessoa esteja realizando esse ato com a maior seriedade, com o maior respeito. Pois bem, mesmo supondo essas desejáveis atitudes, aquele simples ato de hastear a bandeira não torna a pessoa que o faz automaticamente mais patriota, não confere àquela pessoa um grau maior de patriotismo.

Pois bem, o batismo aceito livremente nos torna imediatamente cristãos. Objetivamente cristãos. Ontologicamente cristãos.
Ora, essa radical transformação “interna”, digamos assim, não destrói nossa essencial liberdade, não elimina a possibilidade de cometermos um pecado. Este ponto é de capital importância, merece ser enfatizado, porque muitas pessoas existem que identificam o ser cristão autêntico com o ser alguém que jamais comete o menor escorregão moral.

E agora chegamos ao ponto-chave deste “post”. De repente, passamos a refletir seriamente sobre essa realidade ontológica do nosso batismo, começamos a amadurecer nossa consciência de cristãos .
Admitindo essa mudança de atitude, supondo esse despertar, essa “descoberta do mundo” – que muitas pessoas, mesmo simpáticas, mesmo agradáveis, vão aos 80, ao 90 anos sem realizá-la - qual deveria ser a conseqüente habitual atitude do cristão que, espantado, assustado, descobriu que é cristão ?

Note bem por favor, amigo leitor, NÃO sou teólogo, não sou modelo de comportamento ético.Sou apenas um setuagenário que já viveu muitas experiências, algumas bem desagradáveis como a de escapar de morrer numa guerra ou em grave acidente. O que vou dizer em seguida é, pois, um depoimento bem pessoal. Fica, pois, sujeito a críticas dos mais sábios e mais sensatos.

Quando nos damos conta de nosso chamado, um silencioso chamado que foi feito no batismo, creio que duas perguntas deveriam estar muitas vezes em nossa boca. Veja bem leitor: perguntas nossas ao Cristo ; não perguntas feitas por Ele a nós. E friso bem este ponto: se alguém ainda não pensou nessas perguntas é porque talvez ainda NÃO refletiu bastante no mistério do seu batismo.
A primeira pergunta é a que foi feita por São Judas Tadeu e que praticamente ficou sem resposta: Por que a nós, Senhor ? . Por que EU fui batizado? Por que EU tive que nascer numa família católica? Por que EU recebi essa graça do batismo e tantas outras em minha vida ?
A segunda pergunta é a que foi feita por São Paulo, na ensolarada estrada de Damasco, e teve cabal resposta : Senhor, que quereis que eu faça? Senhor, o que EU devo fazer neste caso concreto que está me preocupando? Qual é a atitude que EU devo tomar naquela festa repleta de convidados poderosos e elegantes, ou naquela complicada reunião acadêmica, cheia de tantas opiniões e tantos desencontros?

Se essas duas perguntas fundamentais nunca nos angustiaram, conforme escrevi acima, é porque talvez o nosso modo de ser cristão esteja muito mais ligado à preocupação com a correção moral, desejável sem dúvida alguma, porém menos atento a um nosso encontro pessoal , mais profundo, com Nosso Senhor.


posted by ruy at 4:58 da manhã

11.5.04

 
Aos leitores mais moços deste “blog”


Faz mais ou menos uns sessenta anos, de repente algumas dezenas de jovens advogados, médicos e engenheiros brasileiros deixaram seus escritórios, seus consultórios suas empresas, abriram mão de promissoras carreiras e prestígios profissionais, renunciaram ao direito de constituírem suas próprias famílias, para ingressarem em ordens religiosas, notadamente em mosteiros beneditinos, a fim de dedicarem-se unicamente ao serviço do Senhor.

Na época em que aconteceu esse fato a que acabamos de nos referir, o mundo enfrentava o sofrimento trágico da segunda Guerra Mundial. O papa reinante era o angustiado Pio XII, que hoje alguns mal informados tentam denegrir, cometendo com esse nefasto julgamento uma tremenda injustiça. A presença daquele pontífice, mesmo sem os recursos modernos da televisão e dos velozes aviões a jato, deve ter sido um das condições que favoreceram aquela radiante primavera vocacional.Não devemos esquecer a existência da Ação Católica criada por Pio XI, aquele movimento leigo que certamente inspirou muitos universitários a viverem sua fé cristã de modo autêntico, de tal modo que, ainda que não fizessem opção pela vida religiosa no sentido estrito, acabavam levando para o seu casamento, suas famílias e suas profissões uma vivência à luz do Evangelho.

Ora, nestes nossos dias estamos enfrentando uma situação mundial talvez bem pior que aquela em que ocorreram as corajosas opções acima citadas. A par de guerras localizadas e travadas muitas vezes com brutalidades antes não imaginadas, estamos convivendo com absurdas ofensas à Lei Natural (aborto legalizado, “casamento” entre homossexuais legalizado), disseminado uso de drogas, criminalidade organizada, deprimentes e desmoralizadores programas de televisão transmitidos diariamente em todo o país.Poderíamos aumentar esse esboço de lista, mas só iríamos aborrecer o leitor, que está cansado de saber dessas coisas.

Colocados neste cenário sombrio, muitos moços inteligentes têm tomado a corajosa atitude de apontar os muitos erros a que nos referimos.Falam, escrevem, discutem, são ameaçados, mas não desistem.Isso é bom. Significa que os moços estão vivos.
E no meio desses jovens e corajosos “combatentes “ da palavra, de vez em quando surge um idoso metido que se esqueceu daquela frase cínica (“está na idade em que, já não podendo dar bons exemplos, dá bons conselhos”) e teima em escrever também o seu “blog”, teima em assinar também os seus “posts”. Pois bem, o Ruy é um desses teimosos de cabelos brancos.

Bem, mesmo admitindo que o exercício da crítica seja justo e necessário, a questão que este idoso metido propõe aos leitores moços é a seguinte:

- não seria muito melhor que houvesse agora várias iniciativas, obviamente tomadas pelos que enxergam a correta hierarquia de valores, entre os que estão de fato convencidos da verdade de sua crença religiosa, não seria melhor, digo, que houvesse iniciativas capazes de favorecer aquela mesma opção corajosa que nos anos quarenta foi feita por muitos moços tão inteligentes e corajosos como os de agora ? Não seria desejável que ocorressem agora novas vocações para a vida religiosa no sentido estrito ou, no mínimo, que se organizassem novos grupos dispostos à prática da oração desinteressada, antes de fazerem um engajamento meramente intelectual na chamada – com perdão da palavra meio gauche – “causa” cristã ?
Reflitam sobre isso, jovens leitores.


Tentando corrigir os efeitos sem olhar as causas


O título deste item me veio à cabeça depois que li uma notícia enviada em mensagem do meu amigo R. P. , o bravo defensor dos nascituros.
Na citada mensagem, consta uma sinopse do que foi tratado na 42a. Assembléia do episcopado brasileiro, realizada entre 21 e 30 de abril último, em Indaiatuba, SP.
Parece que a ênfase da reunião teria sido a santificação dos presbíteros (os padres).Transcrevo a seguir o final da sinopse:

Elementos fundamentais e constitutivos do cultivo dessa mística são a celebração diária da Eucaristia, quando, em nome de Cristo, oferecemos a humanidade ao Pai, e a recitação da Liturgia das Horas quando, unidos à Igreja, rezamos ao Pai. Entre outros meios eficazes, destacamos a oração pessoal, sobretudo na presença do Cristo Eucarístico, Confissão sacramental freqüente, a leitura orante da Palavra de Deus, pessoal e comunitária, a correção fraterna, os retiros anuais do presbitério, a recitação do Rosário e leituras sobre o testemunho de vidas inteiramente voltadas à vivência do Evangelho, característica dos santos e mártires.

Ora, sem dúvida alguma é reconfortante perceber que os senhores bispos parecem estar preocupados com a santidade que todos desejamos enxergar em nossos padres. Entretanto,:
- considerando que nossas igrejas são os lugares onde vive o padre, considerando que em nossas igrejas está sacramentalmente presente o Corpo do Senhor, fruto da celebração Eucarística, considerando que tudo isso está ligado ao mistério da Salvação, pergunto: quando nossos bispos vão ter a necessária coragem para fazer voltar a nossas igrejas o reverente silêncio que existiu em outras épocas ? Quando veremos de novo os fieis, se tiverem de fato necessidade de falar um como o outro, falarem bem baixinho, sussurrando, em respeito profundo à casa de DEUS ?
Quando deixaremos de ouvir dentro de nossas igrejas músicas ruidosas, em ritmos que são mais adequados a reuniões mundanas?

Porque uma coisa é verdade pura: não são apenas os nossos padres que devem ser santos. E a nossa – dos padres e dos leigos - procura de santidade deve começar por uma firme atitude de reverente temor diante do mistério.

Se algum de vocês tiver um amigo bispo, pode contar a ele o que o Ruy escreveu aqui.


posted by ruy at 10:36 da manhã

10.5.04

 
Intuição e razão


Faz muitos anos, mais de meio século, quando eu era adolescente, certa vez escutei uma palestra bem interessante apresentada por um padre que era muito inteligente e culto.
Em certo ponto sua exposição, o palestrante falou sobre uma curiosa característica das mulheres que seria o fato de serem elas geralmente pré-lógicas, agindo mais pela intuição que pela razão. Lembro-me até do exemplo dado pelo padre, o jeito típico como uma mulher age na hora em que vai pagar a passagem ao trocador do ônibus, a seqüência meio complicada de pequenos atos que se desencadeiam até chegar ao recebimento do troco, enquanto outros passageiros ficam impacientes esperando.

Lembro-me ainda da alegria brejeira que nós, os adolescentes que assistíamos à palestra, sentimos ao ouvir aqueles comentários que, para nós pelo menos, soavam como uma crítica às deficiências do chamado “sexo frágil”.

Um parêntese. A adolescência em si mesma não deve ser olhada como se fosse algo inconveniente.De fato, ela é uma fase de nossa vida biológica que apresenta certas incômodas implicações psicológicas cuja superação precisa o apoio de pessoas mais velhas e mais amadurecidas.O problema real acontece quando – talvez por falta desse apoio - no passar dos anos, o moço teima em permanecer fixado, por exemplo, numa imatura irreverência em relação ao sexo.Fecho o parêntese.

Não me lembro, infelizmente, se o padre que nos falou, meio risonho, sobre essa tendência feminina para um uso maior da intuição que da razão teria lembrado, a nós que o escutávamos, o fato de que a própria estrutura interna do corpo feminino, naturalmente predisposto ao mistério dos atos de gerar e de conservar uma vida humana, incluindo aí muitíssimo mais do que simples ações mecânicas e rotineiras, tudo isso confere à a mulher um psiquismo próprio, em que a inteligência está, sim, presente, mas com ênfase em um outro modo de conhecer diferente do unicamente racional.Diferente não é sinônimo de inferior. Haja vista o fato de que os anjos, superiores a nós na hierarquia da Criação, têm o conhecimento meramente intuitivo.

Há um belo verso no “Poema do Cristão”, de Jorge de Lima, em que o saudoso poeta escreve isto: Sou espontâneo como a intuição e a fé .


Uma homilia modelo


Domingo, missa das 8 no secular mosteiro de São Bento. Celebrante Dom I...., já sem aquela agilidade e vigor físicos que , mesmo quando ele tinha seus setenta anos, permitia-lhe realizar a maravilhosa atividade do alpinismo. Entretanto, a agilidade mental, graças a DEUS, continua a mesma, a lucidez continua a mesma.

A missa, como ali é costume, transcorre serena, reverente ao mistério da Eucaristia, como todas as missas deveriam ser.Alguns fiéis fazem leituras do dia. Chegamos ao evangelho e, em seguida, a homilia de Dom I...

Um homem de enorme inteligência e não menor cultura fala-nos sobre os textos que foram lidos (Atos dos Apóstolos, Apocalipse e Evangelho de São João ) usando uma linguagem em que não existe retórica, ou melhor, em que a ÚNICA retórica é a de quem conversa conosco de modo descontraído, sem usar adjetivos rebuscados, sem dar ênfase exagerada nos pontos mais importantes do que vai dizendo. Fala sobre o uso deturpado da palavra amor, fala sobre a caridade verdadeira, dá um ou outro exemplo arguto que provoca sorrisos discretos nos que ouvem aquele monge magrinho e de cabelos prateados que, já faz muitos e muitos anos, trocou uma promissora carreira de engenheiro competente por uma outra “engenharia” muito mais necessária nesta nossa civilização ocidental moderna, tão agitada e tão esquecida do endereço Paterno.

Que DEUS continue abençoando Dom I.... , esse bom filho de São Bento.


posted by ruy at 5:22 da manhã

 

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