Despoina Damale

Um pequeno oásis para os amigos





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2.5.04

 
Considerações avulsas


“Blogs”.”Blogs” não deveriam ser editados como um puro exercício de diletantismo. O magnífico recurso das telecomunicações que é a Internet deveria servir, sim, para um aprofundamento do necessário encontro entre os homens.Para realizar aquilo que Saint-Exupéry escreveu em sua belíssima “ Carta ao General ‘X’ ”: Restituir aos homens uma significação espiritual, inquietações espirituais. Fazer chover sobre eles algo que se assemelhe a um canto gregoriano .


Terrível simetria Pare e pense, amigo leitor.Diariamente, em todo o mundo, dezenas, centenas de homens e mulheres de repente passam a viver livremente em um constante estado de vida religiosa, procurando em todos os minutos, em todas as horas, um maior encontro pessoal com DEUS.Ora, pense bastante nisso leitor, a liberdade humana é uma só. Logo, o homem pode realizar- e infelizmente isso ocorre - uma procura no sentido inverso...


Ler O ato de ler muitas vezes pode ser realizado como uma vital, uma salvadora tomada de fôlego existencial.Por exemplo, ler textos de Mortimer Jerome Adler, de Chesterton, de André Frossard, de Julian Marías e alguns outros autores muitas vezes restaura-nos a energia para a grande, a longa caminhada que iniciamos no batismo.


Paixões perigosas A paixão de um homem por uma mulher pode induzi-lo a cometer loucuras. Porém, talvez pior que essa paixão carnal pode ser a paixão por uma idéia , como a que faz um homem colocar uma nação inteira, durante mais de quarenta anos, em um sombrio regime de “colégio interno”.


Memória Dizem que os elefantes têm uma fantástica memória. Pode ser.Mas, por melhor que seja, será sempre uma memória sensível.Nós possuímos esta e também a intelectual.Infelizmente usamos bem pouco a segunda, limitando-a às nossas recordações telúricas, folclóricas, sentimentais. Enquanto isso, o nosso passado civilizacional tem andado bastante esquecido...


Futilidades Para mim é intrigante ver como certas pessoas dotadas de um alto grau de escolaridade, e mesmo possuindo um razoável nível de conhecimentos científicos, conseguem deleitar-se com a leitura sistemática de informações fúteis. Talvez seja o que se poderia chamar “um caso típico de descompasso educacional”.


Um pouco de poesia dominical


O barco

O homem que possui um barco,
um barco de passeio,
sente muito mais a liberdade;
pode fugir do barulho,
das preocupações rotineiras.
Pode conviver, muito mais à vontade,
com seculares visões e primitivos odores,
com a imensidão do mundo.
E assim, nessa silenciosa solidão voluntária,
pode re-encontrar-se melhor consigo mesmo.


posted by ruy at 6:58 da manhã

1.5.04

 
O significado da Igreja


[Não sendo eu teólogo, é claro que o que vai ser lido neste “post” é o pessoal modo de ver do Ruy Maia Freitas. Se a Igreja me corrigir, dizendo que minha opinião é errada, aceitarei fielmente a correção]

Os protestantes e os inimigos da Igreja há muitos séculos dizem e escrevem coisas horríveis sobre ela, espalham sobre a Igreja erros e equívocos de vários tipos. Ora, bem a propósito, lembro-me do saudoso tempo em que, como adolescente, voltei aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, retornei, guiado pela mão dos jesuítas, a uma vida “católica”. Naquela época li dois ótimos livros escritos por um padre paulista, se não me engano professor em Campinas, intitulados, um deles : “Apologia do Cristianismo”, e o outro “Apologia da Igreja” (ou do Catolicismo, não me lembro bem).

Hoje, infelizmente, ficou fora de moda a literatura apologética.Mas, de vez em quando vejo como ela anda fazendo falta.Ainda anteontem, um amigo conversando comigo, falava sobre certo artigo em que ele vira, por acaso, um bizarro comentário escrito por Leonardo Boff em que aparecia o nome de Krishnamurti. O meu amigo, ainda que tivesse percebido a tolice do citado comentário, ignorava a nebulosa “história” de Krisnamurti, da qual fazem parte a figura da tristemente famosa Madame Blavatsky e seu sombrio clube teosófico. Ora, tudo isso e muito mais nós católicos já conhecíamos naqueles distantes anos cinqüenta.

Mas, hoje talvez preocupem-me mais não os erros e/ou tolices escritos ou ditos pelos que não gostam da Igreja, porém, sim, certos conceitos expostos por muitos católicos que, sem nenhuma maldade no que dizem ou escrevem, acabam contribuindo para um conhecimento errado ou, no mínimo, incompleto da Igreja. É o caso precisamente do que se refere à própria essência da Igreja..

Segundo eu entendo - vamos falar pão-pão queijo-queijo - a Igreja é intrinsecamente santa, ainda que constituída por uma imensa quantidade de pessoas que estão, infelizmente, bem longe da santidade. Edificada pelo Cristo, tem a Igreja a missão precípua da santificação das pessoas. Mesmo quando ela se dedica a certas atividades, digamos assim, sociais , isso tem, ou deve ter, como principal motivação a transcendente importância de uma alma humana.

Note o leitor que escrevi ali em cima: “tem. ou deve ter” . Por quê? Porque muitos dos que pertencem à Igreja, muitos dos que Maritain chama “o pessoal da Igreja”, deixam-se de tal modo envolver pelo chamado “tudo pelo social “ que, de repente, ficam perdidos e fazem asneiras, como foi o caso típico de um famoso líder católico que, anos atrás, trabalhou dedicadamente pela eleição do político ao qual devemos muito do nível da criminalidade que hoje atormenta os cariocas. O caso mais grave é o do chamado”frei” Betto (sempre ponho o “frei” entre aspas).

No que toca àquela missão precípua da Igreja, um equívoco de muitos católicos é o que se refere à identificação plena que fazem entre santidade e comportamento moral irrepreensível. Ora, não é bem, bem assim. Lembro a propósito um comentário do saudoso professor Gladstone Chaves de Melo, quando ele falava sobre a que considerava a canonização mais rápida da história, a de São Dimas, o Bom Ladrão. Lembro ainda um dito de Santo Agostinho muitas vezes lembrado por Dom Lourenço de Almeida Prado em suas homilias. Dizia o grande Doutor da Igreja que a santidade neste mundo não consiste tanto em ser santo mas estar sempre na procura da santidade.Trocando em miúdos: se eu for simplesmente honesto, competente, trabalhador, dedicado à família, fiel a minha mulher, anti-comunista, assíduo à missa Dominical, se eu fizer tudo isso porém não tiver o Cristo como o centro, o núcleo da minha vida neste mundo, ainda estarei a quilômetros afastado do que é mais necessário.

É um erro, para mim muito sério, armar o problema da santidade da Igreja em termos “sociológicos”, “estatísticos”. Imaginem, por instantes, que Nosso Senhor tivesse pensado assim: “vou fundar uma Igreja que seja formada por 90% de santos e 10 % de imperfeitos.” Isso é um gigantesco absurdo. A matemática de Deus é diferente da nossa; André Frossard, em seu pequeno grande livro (editora Quadrante) “Deus em questões” diz com muita perspicácia : “Deus só sabe contar até um”.Aplicar, pois, à análise da Igreja certos critérios quantitativos, certo modo de ver que mais se assemelha ao de um empresário interessado em lucros maiores, é minimizar o mistério da Igreja. E aqui chego à palavra-chave: o mistério.

Venho teimosamente insistindo neste “blog” sobre isso que considero uma falha enorme de muitos católicos: o esquecimento do mistério, dessa coisa pela qual Gilbert Keith Chesterton teve a abençoada graça de ter, até morrer, uma enorme sensibilidade. Muitas vezes, infelizmente, ficamos, com a melhor das intenções, ligados a temas morais, seriamente preocupados com problemas morais, importantes e necessários sem dúvida alguma, porém nos esquecemos do que deveria ser vital em nossa existência: o mistério.Não entendemos bem o que seja “tornarmo-nos semelhantes às crianças”, para as quais tudo é maravilhoso.

Na missa de hoje, dia de São José Operário, lê-se um trecho da epístola de São Paulo aos colossenses. Vou transcrevê-lo em inglês (me desculpem...) transcrito do “site” católico americano www.ewtn.com :


Colossians 3: 14 - 15, 17, 23 - 24
14 And above all these put on love, which binds everything together in perfect harmony.
15 And let the peace of Christ rule in your hearts, to which indeed you were called in the one body. And be thankful.
17 And whatever you do, in word or deed, do everything in the name of the Lord Jesus, giving thanks to God the Father through him.
23 Whatever your task, work heartily, as serving the Lord and not men,
24 knowing that from the Lord you will receive the inheritance as your reward; you are serving the Lord Christ.

Vale a pena o esforço de traduzir !



posted by ruy at 7:10 da manhã

29.4.04

 
Algumas reflexões sobre fatos políticos

Um jovem leitor e amigo deste “blog” já declarou várias vezes que detesta a política.Obviamente ele se refere à política concreta, aquela que aparece nos noticiários.Não creio que esse meu amigo tenha aversão à Política como tal, isto é, a atividade humana cuja finalidade é a procura permanente do Bem Comum , conforme foi corretamente definida pela tradição aristotélico-tomista. Entendo essa atitude de repúdio, mesmo porque deve haver milhares e milhares de pessoas que têm a mesma reação diante dos fatos políticos. Porém, no “post” de hoje, pretendo registrar alguns comentários sobre o desagradável assunto.


Corrupção Está aí uma palavra que anda na moda.Difícil é, no dia a dia, encontrar um jornal, uma revista noticiosa, um programa de TV, ou uma conversa de amigos no intervalo do cafezinho em que esse termo não apareça com sua conotação deprimente. Bem, ocorre que a imensa maioria das pessoas quando lê ou escuta a palavra corrupção pensa de imediato em irregularidades ligadas à obtenção irregular de recursos financeiros.

Ora, podem ocorrer certas formas de corrupção que muitas vezes passam despercebidas pela maior parte das pessoas, talvez porque a mídia não costume dar a desejável ênfase a essas formas supostamente desconexas com o ganho imoral e ilegal de dinheiro.Entretanto, ainda que não haja, pelo menos diretamente, essas imoralidade e ilegalidade, nem por isso tais corrupções deveriam ser menos preocupantes.

Um bom exemplo disso é o que está acontecendo neste país no que toca ao absurdo número de Ministérios mantidos pelo atual governo (?): TRINTA E CINCO.Por gentileza, leitor amigo, pare e reflita demoradamente. Veja o que significou – e ainda significa – para o Brasil esse inchaço burocrático, mesmo na melhor hipótese de que os funcionários agregados aos ministérios recém criados pelo novo governo (?) sejam todos honestos e competentes.


O “de direito” e o “de fato” .Segundo penso, o Brasil tem, no mundo de hoje, uma curiosa peculiaridade, a de ser um país com dois presidentes, um “de direito”, eleito pelo democratismo do voto obrigatório, e um outro “de fato”, aquele que durante anos pacientemente preparou o primeiro, isto é, o “de direito”, para o papel que hoje este faz. E qual é esse papel ? Viajar bastante e dizer, quase todo dia, frases curiosas, engraçadas, que têm servido de motivo para o riso de pessoas razoavelmente bem instruídas. E, enquanto essas pessoas riem e contam piadas, quem sabe se o presidente “de fato” não vai, silenciosamente, tomando providências administrativas para realizar aquilo que talvez seja seu velho sonho dourado, o de transformar este país, que já teve o nome de Terra de Santa Cruz, em uma grande nação socialista ao sul do Equador?.
Logo que o presidente eleito tomou posse, realizou a famosa viagem a uma certa ilha, uma tournée que foi criticada até pelos comunistas franceses, que são comunistas mas não são burros. Lá chegando, aquele a quem eu chamo o presidente “de fato” abraçou-se chorando com o ditador mais longevo deste planeta: QUARENTA anos redondinhos como “diretor” daquele infeliz “colégio interno” do Caribe .


Sentimento e sentimentalismo O ser humano, “ipso facto”, não é anjo. Os anjos não têm saudades e nem choram.Mas, se é verdade que temos sensibilidade e com ela temos que conviver até o dia de nossa morte biológica, por outro lado a longa experiência humana ensina-nos que existe uma colossal diferença entre o sentimento normal e o sentimentalismo. A boa política exige que se conheça essa diferença. Vejamos um bom exemplo para tornar mais claro o meu comentário.
Na manhã do dia 25 de agosto de 1954, uma enorme parcela do povo brasileiro, dominada pelo sentimentalismo esqueceu-se do sentimento de justa revolta que, dias atrás, ainda predominava em nossa pátria diante do covarde assassinato do major Rubem Vaz, cuja morte brutal deixou uma mulher viúva com quatro filhos pequenos. Esqueceu-se de que aquele crime ocorrera quando alguém tentou realizar o premeditado assassinato de Carlos Lacerda.Esqueceu-se da corrupção que grassava dentro do palácio do Catete, corrupção essa comandada por um homem de confiança do presidente.Levada pelo sentimentalismo, grande parte do nosso pobre povo de repente passou a considerar como se bandido fosse justamente o bravo jornalista que há alguns anos vinha denunciando aquela e outras corrupções. Ou seja, o atentado de Getúlio contra sua própria vida, ato insano cometido no dia 24 daquele infeliz agosto, subverteu a correta hierarquia que deve existir em nossos sentimentos.



29 de abril - Dia de Santa Catarina de Siena


O’ gloriosa Doutora da Igreja, ensinai-nos a ficarmos sempre fiéis e reverentes diante do nosso Papa, mesmo quando formos surpreendidos por algum eventual humano deslize do sucessor de Pedro. Amém.





posted by ruy at 3:06 da tarde

27.4.04

 


Para quem gosta de refletir


Não tenho nenhuma ilusão, há leitores que preferem temas mais práticos. Esses certamente não vão se agradar do que segue abaixo. Paciência...

O filósofo espanhol Julian Marías - um autor cujos textos podem ser lidos com fácil agrado, mercê de seus estilo, cordial mas sem prejuízo da exatidão dos conceitos apresentados – em certo trecho de seu excelente livro “A Felicidade Humana” sugere que os pregadores católicos deveriam apresentar aos fiéis uma imagem de como deverá ser nossa vida perdurável, após a inevitável morte biológica.E o porquê dessa sugestão é bem pragmático , digamos assim: não se pode desejar aquilo que não sabemos imaginar como seja.

Ora, digo eu, embora o alvo da homilia sugerida por Marías seja a imaginação, creio que o pregador deva usar com muita habilidade sua própria inteligência, de modo que a transmissão das idéias referidas atinja a inteligência dos ouvintes, já que esses forçosamente terão que desligar-se das nossas rotineiras imagens sensíveis. Terão que fazer uma abstração , algo assim como o imaginar um miriágono, o polígono de dez mil lados.

Curiosamente, se a memória não me engana, há uma única passagem nos evangelhos em que aparece clara e precisa referência do Cristo a certa característica dessa vida perdurável.É o que ocorre no encontro de Jesus com os saduceus.
Como o leitor deve estar lembrado, os saduceus não admitiam a ressurreição da carne.Foram, pois, ao Mestre e lhe propuseram aquela charada da mulher que,em vida, foi casada, sucessivamente, com cada um de sete irmãos e, tendo ela mesma morrido após o sétimo casamento, de qual deles seria esposa na Eternidade? Nosso Senhor responde claramente dizendo que de nenhum deles porquanto, no Céu, não haverá marido nem mulher, já que todos seremos como os anjos.(São Lucas, cap. 20, vs 27 a 36). Acho que esse episódio deveria fazer parte essencial da pregação sugerida por Julian Marías.

Neste instante faço questão de lembrar o saudoso educador americano, tantas vezes citado por mim neste “blog”, MORTIMER JEROME ADLER. Da imensa bibliografia desse insigne pensador infelizmente apenas três livros foram traduzidos para o português, aqui no Brasil. Ora, justamente uma dessas três obras é a intitulada “Nós e os Anjos”, um estudo claro, como é comum nos textos de Adler, sobre a realidade – tantas vezes esquecida – dos seres que, na hierarquia da Criação, estão logo acima de nós. Nesse estudo Adler apóia-se, como era razoável que o fizesse, na obra de Santo Tomás, além de mostrar ao leitor a longa tradição da presença dos anjos na cultura universal. Ali aprendemos, por exemplo, como nosso Anjo da Guarda atua sobre nosso comportamento sem que nossa liberdade seja sequer interrompida.

Bem, se o leitor prestou atenção em tudo o que leu neste “post” até agora, deve ter percebido que na fé cristã, e muito especialmente na fé católica, nossa inteligência é sempre convidada a participar do ato de crer e, muito mais que isso, quando já não houver motivo para crer, já que estaremos – ajude-nos, Virgem Santíssima ! _- na visão direta, nossa inteligência, tal como a dos anjos, vai deleitar-se eternamente na contemplação do “Amor que move o Sol e as outras estrelas” , de que nos falou o florentino Dante.

O que dói – e como dói, meus amigos ...- nas comuns celebrações da missa feitas hoje em dia, é ver isto :a pobre da inteligência, coitadinha, escorraçada, ela que é destinada à eterna contemplação d’Aquele que É.
Muitos bispos, padres e leigos não percebem que uma silenciosa reverência diante do mistério, além de ser um ato de suprema justiça, é uma atitude que dignifica nossa inteligência.
E é por isso mesmo que me incomodam certas atitudes de pouco ou nenhum caso pela elevação cultural, de pouco ou nenhum apreço por tudo o que possa puxar-nos para cima, por tudo que pode tratar a inteligência com o carinho que ela merece, com o carinho respeitoso com que sempre a tratou, por exemplo, o bom Chesterton, o ensaísta católico que escreveu a melhor biografia de Santo Tomás de Aquino.


Existem no Brasil duas traduções do citado livro de G.KC. Sugiro que o leitor tente achar a de Carlos Ancêde Nougué, editada pela CO-REDENTORA.


posted by ruy at 3:32 da manhã

26.4.04

 
Um risco permanente


É curioso, muitas vezes ao ler os evangelhos, parece que o que nos entra por um olho sai pelo outro.É exatamente o que se refere aos fariseus. Eles eram realmente honestos, conheciam perfeitamente a doutrina judaica, eram fiéis cumpridores da Lei, zelosos pelos ritos litúrgicos.Entretanto, faltava-lhes o principal.Ora, nós católicos, há mais de dois mil anos afastados daqueles modelares religiosos de Israel, estamos sempre correndo o risco de nos assemelharmos a eles.Um risco tanto mais provável quanto mais somos obrigados a conviver, dentro de nossas igrejas, com rotinas sem nenhuma dúvida criticáveis, algumas condenáveis. Infelizmente, esse risco passa despercebido...
De fato, uma vida católica, que se pretenda autêntica, nestes dias em que vivemos implica um permanente desconforto, mantermo-nos bem longe tanto da atmosfera do festivo oba-oba quanto da rigidez desprovida de senso de humor.

Confiteor


Na crítica constante,
diuturna e firme,
vou triturando os fatos:
ditadores já existentes,
ditadores em potencial,
atores, bispos, jornalistas;
protestantes,
comunistas -
nenhum deles escapa, ileso,
à minha mastigação voraz.
Não cometo engano.
Tenho a melhor doutrina,
anima-me a mais honesta intenção.
Guardião intrépido da pátria,
não me intimidam ameaças,
nem eventuais represálias.
O que importa mesmo é falar,
é mostrar, aos desprevenidos,
o grande perigo escondido:
- a perda da liberdade.

Quem poderá afirmar,
de modo leviano, insensato,
que este meu esbravejar,
barulhento, incomodativo,
seja desnecessário?

De fato, tenho razão.
Porém, neste exato ponto,
por mim não percebido,
reside o maior problema:
- ter eu apenas razão.
Usando linguagem brilhante,
eu sei analisar,
classificar,
explicar,
demonstrar.
Mas, quase sempre esquecido –
cartesiano inconsciente –
do mistério presente no mundo,
nos objetos banais,
e nas pessoas em meu redor,
tenho apenas : razão.

Perdoai-me, Senhor,
por eu ter sido,
tantas e tantas vezes,
tão pouco generoso...



posted by ruy at 4:07 da manhã

 

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